segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Promessa



Promessa
Yuri Al’Hanati

Antes de tudo, foi o cheiro dela que separou aquele momento dos incontáveis sonhos que já tivera antes. Sonhos nos quais o cérebro emula sensoriamente um pastiche de experiências oculares anteriores. Era isso o que eu sabia sobre beijar e ser beijado, afinal. Os filmes, os casais na rua, os programas de namoro na TV, as festas em que eu ia apenas para fazer figuração, meu repertório era puramente teórico. Mas era o bastante para o cérebro deduzir a sensação. Conhecendo apenas o toque de lábios, língua e membranas da minha própria boca, replicava a ação para uma criação do subconsciente que se manifestava na forma da menina que estava exatamente ali do meu lado agora, de verdade, mais perto de mim do que qualquer outra jamais esteve, e emulava um beijo solitário nos recônditos sombrios da minha mente.

Parecia real o bastante até então, mas não havia o cheiro. O cheiro do corpo dela tornava real. Era basicamente o xampu em seu cabelo e um pouco de suor. Nós não tínhamos a vaidade que os adolescentes têm hoje. Ela usava o uniforme de educação física da escola, da outra escola, tinha os cabelos aloirados presos num rabo de cavalo exatamente no centro da parte de trás da cabeça, e sua testa brilhava com o suor formado pelo calor e pelo jogo. Os únicos ornamentos que usava eram pulseiras coloridas feitas de crochê, amontoadas uma sobre as outras, e presilhas de cabelo, que todas as meninas do time de vôlei usavam, em temas bem infantis, como joaninhas, flores e borboletas, ou em muitas cores diferentes. A pele de suas coxas parecia arrepiada, talvez pelo que estava prestes a acontecer, talvez pelo vento frio que batia nas arquibancadas desertas do ginásio, feito de tijolo e coberto em amianto. Sentada do meu lado no fundo, na parte mais alta do galpão, ela curvou-se um pouco para baixo, puxou levemente meu maxilar para cima com um toque delicado de mãos e guiou minha boca de encontro à sua. Eu estava com a boca entreaberta, e ela também, como se estivesse soprando as sementes de um dente-de-leão. Já havia visto ela fazer isso muitas vezes. Seus lábios eram indecentes de tão carnudos, e o espaço que deixava entrevisto de sua boca era apenas um ponto negro entre bordas de lábios rosados e brilhantes. Acho que ela devia ter passado algo para fazer os lábios brilharem assim, mas se passou, passou escondida, sem que eu visse. Podia ter sido enquanto eu me distraía vendo o ginásio se esvaziar ou o zelador guardar a rede e os mastros. Lembro que ele deu uma rápida e discreta olhada em nossa direção e fez uma cara que talvez me parecesse zombaria, mas hoje sei que era de cumplicidade. Sei porque também olho saudoso assim para os casais mais jovens do que eu.


No momento em que nossos lábios se tocaram, não sei porque quebrei a promessa que havia feito a mim mesmo, de que manteria os olhos abertos no meu primeiro beijo, para não perder nada. Foi algo instintivo, talvez os olhos e a boca não sejam feitos para ficarem abertos ao mesmo tempo. Mas logo descobri que fiz bem em prescindir da visão para apurar os outros sentidos. Senti como a mão dela, que ainda segurava meu maxilar, uniu-se, atrás da minha cabeça, a seu outro braço, que esboçava me enlaçar pelo lado esquerdo do peito. Os dois braços compridos repousaram-se folgadamente em meus ombros, cruzando-se na altura dos antebraços, e ali ficaram um tempo, antes de suas mãos me agarrarem pelos lados e me trazerem para mais perto dela. Perderia isso se estivesse de olhos abertos.

Perderia também o caminho cego de minhas mãos inexperientes, que percorreram seu corpo para também entrelaçarem os dedos na altura de sua lombar. Ela era muito alta, bem mais alta do que eu, embora eu fosse de estatura mediana e fôssemos quase da mesma idade. Acho que a família dela era holandesa, ou tinha alguma parte holandesa em sua ascendência. Seu pai era alto como ela, parecia um gigante, mas não era ossudo como os alemães que eu conhecia. Tinha carnes nas faces, nos maxilares, nos braços fortes em que nenhuma veia saltava. Uma pele sólida e grossa. Mas ela parecia mais magra. Talvez seja a prática do vôlei que a tenha deixado assim. Minhas mãos passearam por toda a altura de suas costas, sentido cada osso de sua coluna, suas omoplatas, as alças de seu sutiã esportivo, suas costelas, e depois passaram por suas coxas, mas ela delicadamente tirou a minha mão com sua mão e a recolocou em suas costas, talvez porque gostasse do nosso abraço, talvez porque isso já fosse um limite intransponível num primeiro contato. Diferentemente de mim, ela já havia beijado outros garotos antes, e sabia que a liberação sexual sobe a rápidos galopes sua escalada libertina. Primeiro, era o primeiro beijo que, tão logo alcançado, dava lugar na fila dos desejos à busca incessante pela primeira transa, ou pela primeira felação, dependendo da cultura de cada lugar. Depois, o tão cobiçado sexo anal, a transa a três, e por aí vai, por um caminho de intensidade ascendente cujo final nunca foi alcançado por ninguém. E se foi, essa pessoa não voltou para contar. Ou voltou e contou, mas ninguém lhe deu fé.


Da minha parte, eu já estava realizado o bastante por beijar Maria Helena do alto dos meus catorze anos. Sua língua, quando entrava em minha boca e se enroscava vagarosamente na minha, parecia transubstanciar-se em algo entre o estado sólido e o líquido, e sua boca molhava os arredores da minha. E eu soube logo no primeiro instante que aquilo não era nada como meu cérebro havia deduzido nos sonhos que tive com ela. Melhor do que eu poderia imaginar, estar beijando a garota mais linda que eu já vi na vida. E o melhor é que só eu via sua beleza rústica, eximida de vaidade, o charme de suas longas pernas, seus olhos levemente puxados e claros, seu nariz arrebitado, suas orelhas de abano que despontavam em meio a seu cabelo quando ele estava solto, sua boca que se projetava para a frente em contraposição a seu queixo retraído, mas bem definido. Enquanto todos os meus amigos perdiam o juízo e passavam pelos piores constrangimentos para conquistar Natália, a linda e desdenhosa musa da escola, detentora dos maiores e melhores seios que todo mundo já havia visto em uma garota de quinze anos, eu descobria minha própria musa, de outra escola, que havia acabado de dar uma surra no nosso time de vôlei feminino. Nada como beijar uma vencedora.

— E aí, o que achou? — Ela me perguntou depois de lentamente afastar seu rosto do meu, com um sorriso de satisfação nos lábios que eu acabara de tocar.

— É bom... — Respondi meio sem graça. Não esperava uma pergunta como essa. Tão logo terminara meu primeiro beijo e eu já precisava avaliá-lo. Não sei o que poderia ter respondido de diferente. Ruim não era. Na verdade, minha cabeça estava nas nuvens, e naquele exato momento eu não sabia nem o nome do meu cachorro. Mas Maria Helena tinha razão para ser curiosa, afinal, ela sabia que aquele era o meu primeiro beijo, e se eu não houvesse já trocado esse tipo de confidências com ela, que começara a ser uma amiga muito próxima nos últimos meses, minha falta de jeito com todo o processo teria me denunciado e, quem sabe, ela teria até recuado ante a surpresa. Dissera-me na noite anterior, quando saíamos da nossa aula de inglês, que se o time dela ganhasse o time da minha escola, ela me daria o meu primeiro beijo. Eu mesmo não encarei a coisa muito seriamente. As meninas viviam fazendo esse tipo de jogo. Apostas, chantagens, barganhas, usavam o que havia de mais imediato em nossos anseios para conseguir presentes, deixar-nos nervosos, ou simplesmente medir seus poderes sobre nós. Um menino da minha sala até chegou a cortar o cabelo longuíssimo de metaleiro, seu maior orgulho estético, porque a Natália falou que daria um beijo nele se assim o fizesse. Obviamente, só a primeira parte do trato se concretizou. É difícil abrir mão de um poder quando apenas a ética advoga contra seu uso.

Mas Maria Helena não parecia consciente de sua própria beleza. Talvez tenha sido uma dessas garotas que crescem sem muita autoestima, e para quem os traços grosseiros do rosto demoram até compor uma beleza coerente. Acredito que a verdadeira beleza, aquela não óbvia, só existe no verdadeiro limite com a completa feiura. Basta um observador num referencial desprivilegiado para tudo perder o sentido. O olhar mal posicionado a tudo deforma, um ensinamento básico que qualquer fotógrafo de moda sabe. De maneira que fazer esse tipo de proposta para medir seu feitiço sobre mim não parecia coisa dela. Como disse, não dei muita bola, até porque a expectativa mata o plano ainda no útero. Mas ainda assim fui assistir ao jogo no dia seguinte, numa tarde de um sábado muito quente. Bom, talvez tivesse dado alguma bola, afinal de contas, saí de casa com o estomago meio embrulhado pelo almoço mal digerido. Mas queria mesmo ver o jogo. O Matias tinha ido visitar os avós de novo, e quando ele viajava, minha única companhia era Maria Helena, a quem eu não via com muita frequência. Admirava vê-la jogando, aquela menina alta e saudável pulando sobre uma rede para dar um tapa na bola, com olhos que subitamente ficavam enormes, os esparadrapos nos dedos ossudos, as presilhas no cabelo, o suporte de joelho preto que interrompia a alvura de uma de suas longas e torneadas pernas. Vê-la saindo do chão, abandonando-se ao movimento de seu corpo no ar, era a única coisa que podia evocar minha capacidade de concentração afora os filmes de terror que gostava de ver na casa do Matias, que ele garimpava nos balaios de VHS quando ia para São Paulo. E ela era uma excelente jogadora, jogava como oposto — era o que me dizia pelo menos, até hoje não tenho interesse em aprender nada teórico sobre voleibol — e parecia ser admirada também entre suas colegas de equipe, que sempre a abraçavam a cada ponto conquistado.

O técnico, um senhor forte com um cabelo loiro já meio branco, que fumava bastante, também parecia gostar dela, mas quando reunia o time para passar instruções, sempre parecia gritar mais com ela do que com as outras, como se a estratégia de jogo fosse algo de difícil assimilação para Maria Helena. Ela o olhava com olhos enormes, às vezes com a boca entreaberta, como se tivesse mesmo dificuldade em entender, ainda que não fosse mesmo uma menina burra. Pelo contrário, aprendia muitas coisas com ela desde que começamos a andar mais juntos. Estávamos na mesma série, mas ela tinha todo um conhecimento sobre biologia que buscava por fora, em livros técnicos que pegava a partir da indicação bibliográfica que suas apostilas dispunham. Isso, é claro, também me encantava. Aprendi com ela, por exemplo, como todas as flores têm números de pétalas em múltiplos de três ou cinco, e sobre os peixes-palhaço, que desenvolveram, ao longo de anos de evolução, uma relação simbiótica com as anêmonas, cujos tentáculos urticantes se tornaram inofensivos, criando-lhes uma espécie de morada venenosa, hostil a qualquer visita. Ela era muito esperta e curiosa, por isso não compreendia porque a estratégia do técnico lhe refletia nos olhos como algo quase místico, que exigia uma abstração além da mais complexa metafísica. Talvez o vôlei fosse mesmo um esporte difícil, talvez seja complicado colocar em prática, no calor do momento, quando frações de segundo são todo o tempo de que se dispõe para se tomar todas as decisões, toda uma teoria aprendida e desenvolvida na prancheta. Nada que a impedisse de ganhar o jogo com suas amigas. Quando marcaram o match point, fora ela quem ganhara a maior parte dos cumprimentos, e a quem o técnico abraçou por primeiro. Ela era uma estrela em um jogo coletivo, mas não se deixava destacar entre suas colegas de equipe. Qualquer um que olhasse para ela, porém, saberia que ela era uma líder.


— Você beija muito bem pra quem nunca beijou antes... — ela falou com um ar debochado, virando a cabeça para a frente e me olhando de lado, como se não acreditasse ser verdade. Era um elogio mascarado em uma provocação, na verdade, Maria Helena não tinha as dúvidas que aparentava. Por essa razão corei, pego de surpresa mais uma vez com a naturalidade com que tratava o assunto. Por que não podíamos falar de outra coisa? Ela trivializava sobre um ponto decisivo na minha vida, com o qual sonhei repetidas vezes. Ela sabia, ou deveria saber, que seu nome seria indelével da minha memória, da minha história pessoal, que qualquer rumo que a minha vida amorosa tomasse, seria a partir dali. O beijo de Maria Helena seria o começo do desvio, o começo da perversão, ou o começo de uma virtuosa carreira de amante, ou de uma pacata e monótona vida conjugal com a minha futura esposa, fosse ela quem fosse. Seria o único beijo sobre o qual se faria registro, se algum dia precisasse falar sobre um beijo que já dei em toda a minha vida para um psicólogo, o único beijo não-protocolar da minha vida, aquele que se dá sem a menor ideia do que guarda em seus significados, sem a definição de nossos interesses, sem a promessa de qualquer coisa, o beijo que me separa de um distinto e bem conhecido grupo de manés que nunca beijara antes, o beijo que me formaliza, me oficializa como uma pessoa como outra qualquer. Pensei em tudo isso naquela mesma noite, mas naquele exato momento impressionava-me a ousadia monótona com que falava do que acabava de acontecer. Então é assim que as pessoas tratam na hora essas relações fantásticas pelas quais choram, brigam, escrevem poesia, matam e morrem depois? Ou me beijar não era, de fato, nada demais para ela? Não gostava de pensar em nada daquilo, por isso tentei agir com naturalidade também:
— Talvez eu tenha um talento nato para a coisa. Quer dizer que você gostou então?
— Isn’t that obvious, my dear? — Eu sabia que ela falava em inglês toda vez que se sentia constrangida de algum modo, como forma de alívio cômico à tensão do momento. Gostava de brincar com a palavra dear, que soava como deer, que é veado em inglês, como se tratasse com carinho ao mesmo tempo em que zombava. Uma piada boba que aprendera com o nosso professor de inglês, tratar a todos como “meu veadinho”.
— As a matter of fact, it isn’t.
— Você quer que eu diga, né? Tá bom, foi muito bom sim. — Disse ela de súbito, como se interrompesse seu transe anglófono, emendando um sorriso cúmplice no final. Ela não estava errada, eu queria mesmo ouvir aquilo. Não apenas porque atestava a normalidade do meu beijo, como também porque eu precisava de uma aprovação feminina apenas uma vez na vida. Não era apenas o beijo, afinal, era todo um pacote de indultos que o gesto trazia. A aprovação prévia, ao Maria Helena escolher me beijar, e a aprovação posterior, a cumplicidade do momento compartilhado apenas entre nós, a temperança forçada de nossos futuros encontros, o pequeno marco que colocamos um na linha do tempo do outro, e, claro, a possibilidade disso se repetir em uma próxima vez com significativa facilidade. Eu estava adorando aquilo. Dessa vez, fui eu quem tomou a iniciativa. Passei a ponta dos dedos em seus cabelos esticados pelo rabo de cavalo e aproximei sua boca da minha. Vi como ela veio já de olhos fechados, esperando o toque dos meus lábios, esperando que eu colocasse a minha língua em sua boca, e foi só quando ela enlaçou meu tronco uma segunda vez e esbarrou de leve a mão no volume da minha calça foi que percebi que estava com uma insistente e dolorida ereção. Maria Helena percebeu também, e seus lábios, por um breve instante, descolaram-se dos meus para formar um sorriso torto, com sua língua ainda na minha boca. Senti o ar frio entrando entre nosso beijo e se misturando à lufada de ar quente que saía de dentro de seus pulmões. Era o ar de uma meia risada contida que se encaminhava direto para a minha boca. Percebi então pela primeira vez como sua respiração estava próxima do meu nariz, como meu nariz, aliás, roçava no seu a cada vez que nossas cabeças se inclinavam para lados opostos, como nossos joelhos encostavam-se lado a lado, como ela parecia dotada de um halo radiante da segunda vez em que nos afastamos, enfim, toda uma miríade de detalhes que deixei escapar pela excitação do momento. Enquanto me beijava, segurou minha cabeça com a mão cheia em meus cabelos, apoiando o cotovelo nas minhas costas, paralelamente à minha coluna, e passava a mão na minha perna descoberta que joguei entre nós no degrau da arquibancada em que estávamos, sentindo os pelos da minha canela. “Que sábado!”, eu lembro que cheguei a exclamar mentalmente. Eu mal podia acreditar no que estava acontecendo, e várias vezes naquela noite falei comigo mesmo, deitado na cama sem esconder o sorriso no rosto: “Que dia! Que dia!”. Maria Helena era uma menina como poucas, e naquele dia havia sido minha, e eu, que nunca fora de ninguém, havia sido só dela. Pertenci a alguém durante uma tarde pela primeira vez.


Nosso sábado só havia começado a ser interrompido com o toque de seu telefone celular. Era seu pai, avisando que passaria na escola dali a pouco para buscá-la. O pai de Maria Helena, o holandês gigante, se chamava Felipe, e era um homem fechado e potencialmente hostil a todos, mas me tratava surpreendentemente bem. Bem até demais, como se também fosse seu filho. Levando-se em consideração o pouco tempo da minha amizade com sua filha, nos dávamos bem. Por isso assisti ao jogo ao lado dele, meu pai postiço, de Beatriz, minha mãe postiça, e de Maria Lúcia, minha irmãzinha postiça de oito anos. Todos me adoravam por alguma razão. Talvez por eu não ser o adolescente cheio de tesão ameaçador que uma menina como Maria Helena seria capaz de atrair. Minha maior ameaça ao decoro da família era saber tocar violão, mas como só sabia tocar músicas muito tristes, acho que relevavam. Comentei a boa atuação dela enquanto oposto, como se entendesse de voleibol, e Felipe me perguntou por que eu não estava torcendo pelas meninas da minha escola. Respondi enigmaticamente que a lealdade à minha escola era-me uma virtude ausente, razão pela qual não defendia as cores da instituição em nenhum esporte. A verdade, claro, era que tinha uma ponta de esperança na promessa de Maria Helena, e que esporte nenhum me empolgava, muito menos essa estúpida competição intercolegial promovida pela emissora de TV local. Qualquer esporte me parecia uma extensão da brutalidade infantil, uma transposição civilizada do Estado de Natureza para nosso mundo de regras cavalheirescas que selecionavam o mais forte em cada categoria, ironicamente distribuindo margens de compensação genética. Entretanto, ver Maria Helena jogando era diferente, e acho que Felipe sabia tudo isso e tomava minha resposta como um gérmen de inadequação do qual todos podemos nos beneficiar para o desenvolvimento de um pensamento crítico, mínimo que seja. Agradava-lhe meu apartidarismo, meu amor a pessoas distintas sobre cores, grupos e instituições. Anos depois, quando virei fã da poesia de Wislawa Szymborska, admirei e tomei como mantra um de seus versos, do poema Possibilidades:

Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade

Quando o jogo terminou, Maria Helena foi abraçar os pais. Perguntaram-lhe se gostaria de jantar para comemorar, e ela disse que algumas meninas de sua equipe estavam indo com as famílias e o técnico jantar em uma pizzaria à noitinha, mas que por hora, ficaria comigo, pois eu tinha lhe prometido mostrar os arredores do colégio. “Vou mostrar pra ela onde as meninas vão vir chorar a derrota na segunda-feira”, pisquei atrevidamente para Beatriz, que riu da minha piada e aliviou um pouco a tensão da expectativa gerada pela súbita realização de Felipe ao saber que eu ficaria teoricamente sozinho com sua filha em uma escola vazia. Mas, como eu disse, o gigante me via com bons olhos — ou como pretendente desejável, ou como mancebo inofensivo, e disse apenas que passaria mais tarde para buscá-la para tomar banho e jantar. Abraçou beatriz com um braço e segurou Maria Lúcia com outro, talvez numa última demonstração de sua descomunal e intimidadora força física para me causar a mais forte das impressões e exclamou: “Juízo vocês dois, hein?”, com uma falsa tensão em sua voz. Estava relaxado, e relaxado foi.



Não havia prometido mostrar o colégio a Maria Helena. Que graça poderia haver nessa atividade, afinal? Voltamos, na verdade, às arquibancadas do ginásio, onde me sentei ao seu lado mal conseguindo esconder o nervoso responsável pela ebulição do meu suco gástrico. Ajeitei o cabelo que me caía sobre os olhos para trás da orelha, e olhei Maria Helena, suada mais uma vez após passar a toalha na cara.
— Eu tinha feito uma promessa, né? — ela perguntou, ajeitando uma das presilhas de seu cabelo, com uma calma que por uns instantes me acalmou também. Talvez ela fosse desistir agora, não havia por que ficar nervoso.
— Fez sim... — eu disse rindo, olhando em seus olhos doces e claros.
— Mas vai querer que eu cumpra agora? Eu estou nojenta!
— Não está nada nojenta. Aliás, você jogou muito hoje. Bola nenhuma passava seu bloqueio.
— Obrigada, mas estou nojenta sim, estou toda suada e está um calor insuportável.
— Não tem problema nenhum pra mim... — não consegui dizer aquela frase olhando para ela. A última coisa que queria era insistir e implorar como um dos autoflagelantes que Natália arregimentava a seu redor, e senti um gosto amargo na boca em pensar que Maria Helena esperava uma atitude parecida de mim. Olhava para a quadra, vendo o zelador que guardava as redes e que devolvia o olhar com cumplicidade. Talvez tenha sido nessa hora. Ela deve ter passado alguma coisa para fazer a boca brilhar. Quando eu voltei a encará-la, seu cabelo estava impecavelmente arrumado, o suor de sua testa havia secado parcialmente, e seus lábios brilhavam.
— Se você diz... — ela abaixou a cabeça e me olhou do jeito mais terno que uma menina já havia me olhado. — vamos cumprir a minha promessa então.
— Tem certeza de que você quer? — eu arrisquei, pois se, por um lado, não queria me humilhar por aquele beijo, também não queria forçá-la.
— É claro que eu quero, Paco, eu gosto de você. Se não quisesse, não teria prometido nada.

Quase não consegui me conter. Ouvir da boca de Maria Helena que ela gostava de mim era mais do que eu podia querer. Claro, olhando em retrospecto, era óbvio que ela gostava de mim. Que tipo de garota bonita e inteligente, afinal, andaria com um moleque cabeludo, antissocial, sem nenhum atrativo aparente, como eu? Mas, com a minha autoimagem, a minha falta de dinheiro, músculos, interesse por esporte, com a minha timidez irremediável, tudo parecia improvável. Quando constatei que era verdade, estava olhando para um ponto fixo no chão, à minha frente, sem de fato ver nada. Foi a mão de Maria Helena em meu rosto que me tirou do transe, levantou minha cabeça e me trouxe para a sempre a possibilidade de ser uma pessoa feliz vinte e quatro horas por dia.
Ficamos ali por umas duas horas, até que seu pai gigante tirou nossa tarde com a mesma facilidade e despreocupação com que a concedera. Disse para esperá-lo na saída do colégio dali a quinze minutos. Quando desligou o telefone, Maria Helena fez uma cara decepcionada e caricaturalmente emburrada, como uma criança a quem proíbem dar mais uma volta no carrossel. Soltou um “que droga...”, mas me deu um último e longo beijo antes de sugerir que fôssemos finalmente.
O sol jogava seus últimos raios na atmosfera da cidade, numa noite quente de setembro. O vento quente, em contraposição à brisa fria de dentro do ginásio, agradou nossos corpos, quentes pelo desejo sexual recém-descoberto.



— Você está todo vermelho, uma bagunça! — riu Maria Helena quando me percebeu andando a seu lado como alguém que também acabara de sair de uma partida exaustiva de um esporte qualquer. E eu estava mesmo suado, descabelado, desidratado pela empolgação da juventude que ainda não conhece os limites do próprio corpo. Dei uma risada tímida, mas porque estava me sentindo bem com o clima daquela noite, e tentei me recompor para parecer tão natural para Felipe quanto estava quando ele e sua belíssima família nos deixaram a sós.
Percebi também que não estava andando naturalmente. Estava mancando de uma perna, porque meu testículo direito doía como nunca. Mais tarde descobri que esse é o preço que o corpo cobra por não levar seus anseios além de beijos calorosos, razão pela qual a maioria dos adultos bem resolvidos pula essa etapa e, tendo o controle da situação, dá um jeito de esticar a noite em um motel, ou em alguma cama igualmente conveniente. Eu, porém, tentei apenas disfarçar ao máximo o meu incômodo e, quando Maria Helena perguntou se estava tudo bem, disse apenas que minha perna estava ainda um pouco dormente. Ela pareceu satisfeita com a resposta, talvez não conhecesse o universo masculino a esse ponto, pensei.
Quando chegamos à saída do colégio, o carro da família de Maria Helena já estava ali, e a acompanhei até o carro, abri a porta do carona como um gentleman e debrucei-me sobre a janela para dar boa noite a Felipe.

— Vamos comer uma pizza com a gente, Paco? — ele perguntou. Puxa, o gigante realmente tinha-me em alta conta. Mas educadamente recusei a oferta, não queria me forçar daquela maneira na vida de Maria Helena, e mantive a cabeça fria nesse momento por mais que o meu desejo me empurrasse na direção oposta. Além disso, não queria que meu passo claudicante desse margem a qualquer suspeita. Tenho certeza de que Felipe, criado em uma época um tanto mais conservadora, já teve sua boa dose de andar de banda, e um Quasimodo reconheceria o outro. Disse que precisava ir para casa, pois meu pai já deveria estar me esperando para a janta, mas não me vi livre da carona que Felipe insistentemente me oferecia, já que nossas casas ficavam em direções iguais tendo como referencial o meu colégio. Entrei então no banco de trás e comentamos algumas partidas do jogo. Felipe elogiou ainda a estrutura do ginásio e dos outros prédios que havia conseguido ver no caminho até o estacionamento, ao que Maria Helena prontamente concordou, demonstrando ter, de fato, gastado duas horas de um sábado a conhecer meu colégio. O gigante não era bobo, mas agradeceu a ilusão misericordiosa.

Deixou-me na esquina da rua de casa com um paternal e verdadeiramente preocupado “Se cuida, viu?”. Maria Helena também se despediu animada, completamente no controle da situação. Nem fria o bastante para manter aparências insustentáveis, nem calorosa demais, mas carinhosa como sempre, deu tchau pela janela, lembrando “até terça”, quando nos encontraríamos na aula de inglês de novo. Eu, embaraçado, desejei boa noite, bom jantar e falei “até terça”, mais ou menos no mesmo tempo, tipicamente embaraçado. Eu era péssimo naquilo, teria de trabalhar minha cara de pau daqui pra frente.

Caminhei relaxadamente pela rua até chegar à minha casa, mas não nego que ensaiei uma dancinha ridícula em algum momento pelo meio do caminho, e que saudei meu spaniel com a mesma felicidade com que ele me recebia todos os dias. Naquela noite, nunca tive medo da morte.



Yuri Al'Hanati nasceu em 1986 no litoral de Paraty (RJ), e reside em Curitiba desde 2004. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), atuou por quatro anos no jornal diário Gazeta do Povo nas áreas de cultura, cidades e política. Mantém desde 2010 o site de literatura Livrada! (Http://livrada.com.br) e colabora com o portal cultural A Escotilha (http://aescotilha.com.br) com crônicas semanais, além de atuar como cartunista para a Gazeta do Povo, publicando tirinhas diárias.




Nenhum comentário:

Postar um comentário