terça-feira, 26 de julho de 2016

Vamos jogar chutebol ?



Vamos jogar chutebol ?

Leonardo Tonus

Quando pensamos em alfabetização não podemos esquecer dos pressupostos apresentados por Emília Ferreiro e seus colaboradores na década de 80. Foi ela quem produziu uma verdadeira revolução conceitual na alfabetização, desmontando explicações que havíamos construído ao longo de décadas para justificar o fracasso escolar de crianças brasileiras na fase inicial da alfabetização.

Se antes o foco de atenção estava centrado na figura do professor que ensina, desde o trabalhos desenvolvidos pela educadora este passou a ser no aluno que aprende. Suas idéias mudaram radicalmente as perguntas que orientavam os estudos sobre a aquisição da leitura e da escrita na alfabetização. Emília Ferreiro coloca a criança como ser capaz, mesmo muito pequena, de criar hipóteses, de testá-las e de criar sistemas interpretativos na busca de compreender o universo que a cerca : este mundo feito de coisas grandes e pequenas que nos revela o mais recente livro de Henrique Rodrigues, Palavras pequenas.



O livro conta a historia de Léo, que, como este que vos escreve, adorava ver os detalhes do mundo : sua casa, seu bairro, os objetos que o cercavam, os adultos e os amiguinhos com os quais convivia.  Mais do que observar, o Léo de Henrique Rodrigues gostava mesmo era de aprender o nome de tudo e de criar palavras.  O desenho animado ficava, é claro, mais divertido na tevelisão, assim como o chutebol que ele jogava com seus amiguinhos desmagrecidos. O Léo de Palavras pequenas ( e este vosso redator já bem mais grandinho) achava estranho o fato de palavras pequenas designarem coisas grandes, e vice-versa. A jabuticaba miudinha ter um nomão desse tamanho, era um absurdo ! Tava tudo errado ! Por isso ele (e eu) reinventa tudinho de acordo com o que considerava correto.

Ao abordar essa poética natural das crianças, especialmente durante a fase de alfabetização, Palavras pequenas  trata da fascinação das crianças pelas descobertas e do sentido das coisas do mundo. Um livro pequeno que  dissimula grandes coisas. E que mostra como foi errando que Léo um dia cresceu e virou Leonardo. E que foi sempre errando que este Leonardo ( o Tonus, como alguns costumam me chamar ) descresceu e virou para sempre Léo. O erro não é fonte para castigo, mas suporte para (des)crescimentos.

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Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro. Formado em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), cursou especialização em Jornalismo Cultural (Uerj), mestrado e doutorado em Literatura na PUC-Rio. Trabalha no Sesc Nacional, como assessor técnico em literatura, coordenando projetos de incentivo à leitura e circulação de manifestações literárias. É autor de vários livros infantis e juvenis, além do livro de poemas A musa diluída e do romance O próximo da fila.



Anabella Lopez nasceu em Buenos Aires. É formada em design gráfico na Universidade de Buenos Aires, onde também lecionou por vários anos. Foi professora da Sótano Blanco, primeira escola de ilustração de Buenos Aires. Desde 2009 trabalha exclusivamente como ilustradora e autora de livros, publicados na Argentina, Brasil, México, Estados Unidos, Canadá, França e nos Emirados Árabes. Suas ilustrações já foram expostas na Argentina, Brasil e Itália. Foi vencedora do Jabuti de 2015 com o livro A força da palmeira, na categoria de Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil. É autora de mais de vinte títulos e alguns dos seus trabalhos já foram animados para a TV pública argentina.


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