sexta-feira, 8 de julho de 2016

Two-Lane Blacktop

Two-Lane Blacktop
Luiz Biajoni

O jovem James Taylor tinha duas paixões: carros e música. Em sua família, não era o único apaixonado por música: a mãe era cantora lírica e tanto ele como os quatro irmãos, três homens e uma mulher, haviam crescido em um ambiente musical intenso. Já os carros interessavam, é claro, à maioria dos garotos naqueles anos 1960, quando circulavam pelas ruas e estradas verdadeiras joias de desempenho e design, como o Ford Thunderbird, o Chevrolet Corvette e, especialmente, o Pontiac GTO, sonho dos adolescentes. James lia revistas especializadas e sonhava com os carros enquanto estudava música em Martha´s Vineyard. Foi lá que conheceu Kootch Kortchmar, um guitarrista dois anos mais velho que ele que o convenceu a acompanha-lo em uma mudança para New York, deixando a High School para tentar a vida como músico profissional. Corria o ano de 1966 e James ainda não tinha completado dezoito anos.

Em Greenwich Village, os dois amigos conheceram o baterista Joel O´Brien e formaram o trio The Flying Machine. Em uma das apresentações do grupo, James conheceu Dennis Wilson, que estava na plateia.

Dennis estava fazendo grande sucesso com a banda que fundara com os irmãos, os Beach Boys, e a canção que ele cantava, “Do You Wanna Dance?”, era o grande sucesso nacional daquele ano. O que uniu Dennis e James, na verdade, não foi a música – ou não apenas a música -, mas a paixão pelos carros. O hit anterior de Dennis com os Beach Boys tinha sido “This Car is Mine” e ele era conhecido por circular com seus carrões: um Jaguar XKE, um AC Cobra ou um Vet Stingray, carro que apareceu na capa de um dos discos de sua banda. Pouco tempo antes de conhecer James, Dennis tinha se envolvido em um grave acidente com um Chevy Corvair azul. Ele estava embriagado quando bateu e foi sorte não ter morrido. Quando conheceu James, Dennis tinha comprado uma Ferrari de Sam Cooke e apostava corridas com Steve McQueen, que também tinha uma. Diziam que Dennis e Steve tinham os mesmos gostos para carros, mulheres e drogas. Mas Steve não era de cultivar amizades.

Beach Boys, Banksy 2005
Já entre James e Dennis a amizade estava ficando cada vez mais profunda. Foi quando os Beatles apareceram na vida de James. Um contrato oferecido pela gravadora dos Fab Four, a Apple, o levou para Londres naquele 1968, afastando-o de Dennis. No ano seguinte, de volta aos EUA, James já tinha três sucessos nas listas americanas e a Warner WEA queria aquele americano sob seu contrato, custasse quanto custasse.

O disco de 1970, “Sweet Baby James” foi um grande hit, levando o jovem de vinte e um anos para a capa da revista Time como representante da nova onda de cantores-compositores. Foi quando se abateu sobre James uma crise criativa e ele reencontrou Dennis Wilson, que também não andava bem. Foi numa festa no Waldorf Astoria onde ambos conheceram o produtor e diretor de cinema Monte Hellman.

Monte era da trupe de Roger Corman e tinha dirigido cinco filmes com a estrela-sensação do momento, Jack Nicholson, que acabara de ser indicado ao Oscar de ator coadjuvante por “Easy Rider”. Monte não gostava do filme de Dennis Hopper. Não gostava de motos. Sua paixão eram os carros. E ele queria fazer um filme com a estatura de “Easy Rider”, mas com carros envenenados. Jack estava fora de seu alcance agora, sequer atendia às suas chamadas para falar sobre seu projeto. Sua segunda opção para estrelar seu road movie era Kris Kristoferson – até conhecer James Taylor e Dennis Wilson.

James e Dennis animaram-se. Nunca haviam tido experiências cinematográficas, mas uma das especialidades de Monte era, justamente, trabalhar com novatos. Decidiram tirar alguns meses para fazer aquele filme, entre Agosto e Outubro de 1970.

O roteiro era confuso: falava de dois amigos que cruzavam o país num Chevy 1955 150 primer grey, queimado e modificado, apostando e ganhando corridas, até que encontram um mitômano esquisito num Pontiac GTO The Judge 1970 e apostam, com ele, uma corrida de longo percurso do Tennessee a Washington, DC. Todos estavam prestes a iniciar as filmagens quando Monte recebeu um catálogo de modelos para figuração no filme e descobriu Laurie Bird, uma loirinha de dezessete anos.

Encaixaram um papel para ela: os dois amigos dariam carona para Laurie, the Girl, no início do filme e ela faria uma figuração-de-enfeite, embelezando as cenas com seu jeito blasé, distante, de quem tinha acabado de fumar um baseado do bom. Seria quase uma antítese do personagem de Jack em “Easy Rider”.

(A cultura da carona - e da maconha - estava enraizada entre eles e, em especial, na Califórnia, naquele período. Em 1968, Dennis Wilson tinha dado carona para duas garotas bonitas que, depois, revelaram-se seguidoras de Charles Manson. Dennis conheceu e se encantou por Manson e chegou a convencer os Beach Boys a gravar uma canção do futuro serial-killer, “Cease to Exit”, que virou “Never Learn not to Love”. Em 1969 a “família Manson” foi presa depois de matar cinco pessoas, entre elas a atriz Sharon Tate, que estava grávida – e esse crime havia transtornado Dennis, fazendo-o afundar ainda mais no alcoolismo e nas drogas. Nesse sentido, as filmagens de “Two-Lane Blacktop” seriam, para ele, uma espécie de férias entre amigos para se recuperar da decepção com Manson.)


O fato é que Laurie se transformou em um elemento desagregador. Não pelo que ela era: doce, amável, amorosa, solícita – mas pelo que os homens viam nela: ela era, também, incrivelmente desejável. James ficou interessadíssimo, mas tinha acabado de conhecer uma jovem cantora por quem se encantara e que viria a ser sua primeira esposa: Carly Simon. Dennis arrastou Laurie para o consumo de drogas durante as filmagens e possivelmente tiveram um affair – mas Dennis estava sempre chapado e também tinha começado o namoro com Barbara Charren. Quem enlaçou a ninfeta foi o velho garanhão Monte Hellman. Monte prometeria sucesso para a delicada garota e acabou mesmo colocando-a em seu próximo filme, “Cockfighter” – mas o que ele fez, verdadeiramente, foi chupar o caldo daquela jovem promessa e abandoná-la, na sequência.

Laurie vinha de uma família complicada: a mãe morrera quando ela tinha três anos e ela cresceu com a informação de que a causa tinha sido um câncer de ovário. O pai era da Marinha e Laurie foi criada por parentes distantes, meio que ao Deus-dará. Ela tinha se agarrado a Monte e quando ele a deixou todos pensaram que ela fosse se matar. James ficou sensibilizado e apresentou a garota para seu amigo Art Garfunkel, que se apaixonou imediatamente, levando-a para viver com ele em Manhattan. Ela tinha perdido o gosto pelo cinema e começara a se interessar pela fotografia. Art estava fazendo alguns filmes e conseguiu um pequeno papel para a namorada em “Annie Hall”, de Woody Allen – justamente como namorada de seu parceiro de discos e palcos, Paul Simon. Art convidou Laurie para fazer a foto de capa de seu terceiro disco solo, o multiplatinado “Watermark”, lançado em 1977, e parecia que a garota ia se dar bem na fotografia. Desfrutavam de uma verdadeira paixão, até Art ser convidado, no ano seguinte, para estrelar um filme de Nicholas Roeg, que seria rodado em Londres e no Marrocos: “Bad Timing”. Os sentimentos de Laurie eram dúbios: ela não queria ir com ele e não queria que ele fosse, mas sabia que aquela era a chance do namorado despontar no cinema. Ficou sozinha em Nova Iorque e cometeu suicídio no apartamento de Art, aos vinte e cinco anos, com uma overdose de Valium.


No funeral de Laurie seu pai confessou que a mãe dela também tinha se matado.

Art ficou devastado. Seu próximo disco, “Scissors Cut”, foi dedicado a ela, com uma bela foto recortada de Laurie na contracapa. O disco trazia também uma música chamada “In Cars”, que contou com participação discreta de Paul Simon em um verso de backing vocal, inserido a pedido de Art, com uma linha da canção de Bob Dylan, “Girl from the North Country”, que diz: "Remember me to one who lives there, she once was a true love of mine".

Art só gravaria outro disco sete anos depois, “Lefty”. Num texto no encarte, ele relembra The Girl docemente em suas malhas de algodão.

***
“Two-Lane Blacktop” teve recepção fraca de público e crítica quando estreou, virando um filme cultuado depois. James e Dennis nunca mais filmaram. Dennis morreu afogado em 1983, aos trinta e nove anos, derrotado pelas drogas.

“Bad Timing” também teve péssima recepção, em especial por conta de uma cena em que o personagem de Art faz sexo com um cadáver. A estreia do filme aconteceu pouco depois do suicídio de Laurie e Art seria atormentado durante vários anos por um pesadelo no qual transava com a namorada morta. Ele praticamente abandonou o cinema, aparecendo apenas em algumas pontas em filmes de amigos.

Monte Hellman também teve a carreira truncada depois dos dois filmes que fez com Laurie Bird. Ele ficaria conhecido por ter produzido o filme de estreia de Quentin Tarantino, “Reservoir Dogs”. Nas biografias ou artigos sobre Monte, Laurie quase nunca é citada. Em uma ocasião, ele teria dito que não acredita em suicídio: Laurie teria tomado uma dose a mais de Valium esperando que Art aparecesse para salvá-la. Ela queria sempre ser salva.


        


Luiz Biajoni nasceu e vive em Americana (SP). Escreveu Virgínia Berlim - Uma Experiência (OsViraLata, 2007), Elvis & Madona - Uma Novela Lilás (Língua Geral, 2010) e teve suas três novelas policiais sacanas reunidas no volume A Comédia Mundana (Língua Geral, 2013). Seu último romance é A Viagem de James Amaro (Língua Geral, 2015), escrito sob a influência do jazz dos anos 60.

2 comentários:

  1. Texto informativo e literário daqueles que, ao final, deixam gosto de quero mais.

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  2. Texto informativo e literário daqueles que, ao final, deixam gosto de quero mais.

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