quarta-feira, 13 de julho de 2016

Suíte de silêncios


Suíte de silêncios

Marilia Arnaud


Custava-me retornar para casa depois das aulas, dedos indicador e médio cruzados, olhos bem cerrados, sob buzinas estridentes e xingamentos de motoristas, esbarrando em postes, paredes e pessoas, sufocada de calor e esperança, na fantasia de que encontraria minha mãe no terraço, balançando-se na cadeira de palhinha, Pedrinho no colo e Leila deitada aos seus pés, aguardando por mim, desde que eu conseguisse chegar lá sem abrir os olhos uma única vez, se não fosse atropelada por nenhum automóvel, e, chegando, mais uma vez constatar que não, ela não voltara, não ainda, e me sentar à mesa e comer sem nenhuma fome debaixo de um silêncio difícil, partido apenas pela fala estridente de Pedrinho ou por um ganido de Leila, e novamente estar de frente à cadeira vazia e inútil, triste como sabem ser as coisas que um dia foram usadas por quem amamos.         
         Às vezes, contavam a Vó Quela sobre essa minha extravagância, e ela estrilava, sacudindo-me pelo braço, para com isso, menina mal-ouvida, qualquer dia desses acontece uma desgraça contigo e teu pai acaba de morrer de tanto desgosto. Jurava, choramingando, que não, que nunca mais tornaria a andar cega de fé, trombando nas pessoas pelas ruas e calçadas, mas logo tornava a fechar os olhos com força, atravessada de um querer que era um fogo me queimando por dentro, e de novo lá ia eu, a filha desorientada do Maestro Gaspar, dedos cruzados dentro dos bolsos da farda escolar, cabeça abaixada para ocultar os olhos fechados, certa de que, algum dia, em breve, muito breve, minha mãe estaria de volta para pôr fim à nossa dor e a de todas as coisas que teimavam em continuar existindo sem ela.
         À minha maneira, procurava me salvar. Não sei em que momento desisti. Creio que foi alguns meses depois que meu pai decidiu que eu deveria deixar de frequentar Madame Lapège e ter aulas de violino com o Professor Ramon. Foi quando passei a usar camisetas por baixo das blusas e vestidos, para disfarçar os seios de pitomba. Justamente nessa época começaram os constantes suores nas mãos, as espinhas purulentas no rosto, o odor repugnante nas axilas, a incômoda umidade no sexo, a mórbida mania de me lavar dezenas de vezes por dia.
Ah! E a sensação violenta de estar apagando, como se um monstro houvesse cravado suas presas em algum lugar do meu corpo e por ali me sorvesse todo o sangue.  
Foi assim, quase de repente, que passei a me sentir meio idiota ao andar pelas ruas daquela maneira, à mercê da incredulidade e zombaria das pessoas. Além disso, minha mãe tardava demais, uma demora que àquela altura me punha mais frustrada do que triste.
Ao mesmo tempo em que comecei a suspeitar de que seu retorno estava fora do alcance do meu desejo, por maior que fosse esse desejo, um pensamento, de início breve e sem consistência, foi tomando forma e ganhando espaço em minha mente, até que, constante e inequívoco como um objeto sólido, espedaçou minha confiança íntima, impondo-me a desconcertante certeza de que minha mãe nunca mais voltaria para nós, porque simplesmente não queria voltar, porque assim escolhera.
Então, arregalei os olhos, e tal uma borboleta noturna, espaventada com o alumbramento do mundo à minha volta, dei de cara com um tanto de gente e de coisas para serem vistas.
Nesse momento, descobri o prazer secreto de seguir pessoas e acabei tomando gosto pela coisa. Pessoas desconhecidas. Sempre preferi as brincadeiras solitárias, e aquela, de “detetive”, passou a ser a minha preferida.
Embora o meu “investigado do dia” fosse escolhido acidentalmente, sempre se tratava de alguém que, por algum motivo aparentemente desimportante, chamava-me a atenção. Uma maneira de andar, arrumar o cabelo, soprar a fumaça de um cigarro, segurar uma bolsa, postar-se diante de uma banca de revistas, enfim, qualquer gesto ou comportamento espontâneo que mantivessem meu interesse por mais de um minuto.
Espreitava-lhes os movimentos como se se tratassem de suspeitos de alguma ação abominável e secreta, e eu estivesse a ponto de testemunhar mais uma. E ainda que os seguisse a uma distância mínima, tão próxima que, às vezes, era possível sentir-lhes o cheiro de suor, de álcool, de perfume, nunca fui apanhada. Quem poderia suspeitar de que uma criança pudesse ter um hábito tão extravagante?
Algumas pessoas, pressentindo uma obstinada presença às suas costas, chegavam a virar-se e, ao deparar-se com uma garota de expressão frágil, nem um pouco ameaçadora na sua farda escolar, de imediato torciam-se para frente e continuavam no mesmo ritmo, seguros e indiferentes ao meu atento olhar. 
O que esperava com isso? Não sei dizer o quê. Provavelmente, nada. Creio que aquela forma de poder me excitava. Orgulhava-me da minha astúcia, da capacidade de ludibriar homens e mulheres, adultos, todos absolutamente reféns do meu olhar e da minha fantasia. E embora vez por outra me sobressaltasse com a possibilidade de ser descoberta por algum “seguido”, encantava-me agir por conta própria, transgredir, ser senhora do meu pequeno destino. 
Seguia-os durante horas, tentando adivinhar aonde estariam indo, imaginando como seriam suas vidas, e vê-los, por fim, desaparecer por trás de uma porta era como ser impedida de continuar assistindo ao filme em sua melhor parte.
Acontecia, às vezes, de ter de abandoná-los por conta do adiantado da hora ou porque pareciam ir a lugar nenhum, o que me deixava igualmente decepcionada.
Numa dessas tardes de “investigação”, enxerguei meu pai saindo de uma casa de muro baixo. Estávamos bem distantes do nosso bairro, sendo aquela uma zona de poucas residências e estabelecimentos comerciais. Recordo-me que havia muitas oficinas de carro, terrenos baldios cheios de lixo, cansanções e pés de araçá, botecos, galpões, ah!, e ipês floridos que, encandeados de sol, deitavam reflexos fulvos sobre todas as coisas. 


Temendo que me indagasse o que fazia ali, escondi-me atrás de um caminhão estacionado na rua e, para minha surpresa, vi quando uma mulher jovem, de cabelos ruivos e seios enormemente brancos espremidos em um baby doll cor-de-rosa choque, acenou-lhe da porta com um sorriso de rosto inteiro, que ele simplesmente ignorou, batendo o portão e afastando-se de cabeça curvada, as mãos metidas nos bolsos da calça.
O que meu pai estivera fazendo ali?
Há muitos anos, numa época em que eu sequer havia nascido, fora professor de piano e chegara a lecionar em casas de família. Por um instante, acreditei na possibilidade de ter retomado a antiga profissão, ideia que abandonei logo em seguida, ao pensar na mulher que o acompanhara até a porta.  
Não sei precisamente o quê, de novo ou ambíguo, intrigou-me naquela mulher, se o sorriso de dentes encavalados, o baby doll de cor berrante, o avantajado busto, ou tudo isso e mais alguma coisa que não estava à vista, uma intencionalidade que apanhei no ar.
O certo é que nos dias que se seguiram não consegui pensar em outra coisa que não fosse nela, sua imagem colando-se em meu espírito e aprisionando-me num estado de penosa impaciência.
Empenhei-me em espreitar meu pai, como se o motivo que o conduzira àquela casa e àquele sorriso pudesse se revelar em algum dos seus pausados gestos, no olhar sonambúlico, ou no grave silêncio.
Não conseguia despregar os olhos daquele que, sendo meu pai, era também o homem que eu surpreendera no meio da tarde visitando uma mulher que, definitivamente, não se harmonizava com a sua natureza altiva, seus modos nobres, com o seu sóbrio mundo, um outro que, escapando dele próprio, desconcertava-me ao me negar seu rosto.
Observava-o como nunca fizera antes, com a dissimulação, o ardor e o embaraço de quem examina um estranho, sondando, na expressão desarmada, qualquer coisa que me contasse sobre sua relação com a desconhecida, um sinal que me fizesse compreender o aparente absurdo daquela cena que me excluía, e de alguma forma me ameaçava, embora não me fosse possível afirmar por quê.
Enfim, uma suficiente resposta para uma pergunta que me queimava a boca, que me estrangulava, mas, cujas palavras, vagas, vacilantes ou difíceis, nunca conseguiria verbalizar.
Um dia, flagrou-me cravando nele um desses olhares inquisitivos, e eu, perplexa com o inesperado meio sorriso que vi surgir em seu rosto, e vexada com as minhas secretas suspeitas, lancei-me sobre meu pai num abraço impetuoso, a que nunca mais me atrevi.
Que tens, Duína?
Eu o proíbo, Pai, eu o proíbo, ouviu bem?, bradava meu coração cheio de pudor e de um outro sentimento que não sei determinar.   
Sim, estava mortalmente envergonhada da minha curiosidade e desconfiança, e naquele exato momento quis dizer-lhe que tinha as pernas fracas e o coração acelerado, mas não disse nada, sequer consegui encará-lo, escapulindo com a desculpa de precisar urgentemente ir ao banheiro.  
  
      
Relutei algum tempo antes de voltar à casa daquela mulher.
Ainda que à época eu não soubesse que só há uma maneira de se pôr fim a uma obsessão, que é se atirando sobre ela e descobrindo-lhe o rosto, no preciso instante em que decidi ir até lá, experimentei uma espécie de abandono, como se finalmente alguém me pusesse nos braços depois de eu ter atravessado a pé quilômetros a fio de dunas escaldantes e amolados penhascos.  
Depois de haver me assegurado de que meu pai estava bem longe dali, e de esquadrinhar os arredores da casa sem enxergar nada que pudesse me fazer recuar, num impulso, puxei o ferrolho e empurrei o portão.
Permaneci imóvel por alguns instantes, tomada de uma sensação de pânico misturada a um sentimento de humilhação, e bastava pensar em meu pai para me dar conta de que não estava apenas cometendo uma grave travessura, mas, uma ação para lá de condenável.
No retângulo de terra crestada, que algum dia fora um pequeno jardim, uma vegetação rasteira engolira um resto de grama e antigos canteiros que poderiam, quem sabe, ter sido de papoulas. Já de frente para a porta do alpendre, onde a mulher se despedira do meu pai, ainda não sabia o que iria fazer ou falar se alguém surgisse e me perguntasse o que queria.
Na verdade, eu não sabia o que queria.
Fazia um calor úmido, pegajoso e sufocante. Lá dentro, uma voz feminina anasalada cantarolava, tentando acompanhar uma canção alegre que tocava em disco ou rádio. Com passos cautelosos, desviei-me da porta de entrada, onde uma espécie de chocalho tilintava vez em quando, e tomei um caminho lateral que desembocava diretamente nos fundos da casa.
Detive-me um pouco antes da janela escancarada, o coração desabalado, e fui me aproximando devagar, enquanto a voz feminina ia crescendo num timbre de falsete.
Pela fresta entre a parede e um dos lados da janela aberta em par, divisei a sala, pequena para as três mulheres. Uma delas, a gorducha que estava deitada em um sofá, de costas para a janela, parecia bem concentrada na leitura de uma revista. A outra, que se encontrava mais distante, sentada sobre uma imensa almofada e recostada à parede, pintava as unhas das mãos e mascava algo, acho que um chiclete, com ar entediado.
E ela, a ruiva, no meio da sala, cantava, improvisando ritmadamente uns passos de dança, enquanto ia arrastando uma vassoura pelo chão. 
Era miúda como uma menina, o que contrastava com o volume dos seios e com as curvas pronunciadas da cintura e dos quadris. Descalça e mal-amanhada, aquilo que talvez pudesse ser chamado de camisola lhe deixava à mostra umas coxas roliças e pálidas, que ela movia com graça e agilidade, como as moças que dançavam em programas de televisão. Quando o ritmo da canção acelerava, erguia os braços e rodopiava de olhos fechados, segurando a vassoura com as duas mãos sobre a cabeça, a voz elevando-se desafinada, sobrepondo-se à do rádio.
Depois, como se estivesse em um palco, exibindo-se para uma encantada plateia, voltava a bambolear-se e a contorcer-se, atirando a cabeça para trás, franzindo e revirando os olhos de um jeito que por certo faria sorrir qualquer pessoa que estivesse em meu lugar, mas não a mim, assaltada por um aturdimento que se confundia com um inexplicável desgosto.
Entrincheirada ali, eu a espiava num misto de fascínio e repulsa, enquanto as duas mulheres, entretidas em suas ocupações, sequer erguiam os olhos para a dançarina, como se ela não existisse, como se fosse uma alucinação minha.
Lamentavelmente, não era. A lembrança do meu pai deixando o interior daquela casa, a mulher lhe sorrindo à porta, a roupa que mal lhe cobria o corpo, os seios que não cabiam em minha imaginação e, por fim, o que se passava naquela sala e que eu vigiava com avidez, tudo aquilo era de uma singularidade como a que só experimentamos em sonho, ainda que se tratasse da coisa mais real que se revelava diante dos meus olhos, desde a noite em que vi meu pai chorando a partida da minha mãe.   
Em certo momento, a mulher que estava sentada na almofada desviou a vista das unhas para a janela, precisamente para a direção onde eu me encontrava, e como se houvesse escutado um chamado súbito, fez um gesto imperioso com a mão, mandando parar o que quer que fosse, a música ou a dança, ou as duas coisas.
A ruiva imobilizou-se e, virando-se, olhou também, a boca aberta, sem uma palavra. Em seguida, moveu a cabeça para frente, franzindo a testa e os olhos, hesitando. A gorda parou a leitura e disse algo num tom de voz abafado, que não pude compreender.
Não esperei que viessem até a janela e me descobrissem, ou que corressem para fora e me deitassem a mão. Esgueirei-me dali numa ligeireza de muitas pernas, o coração batendo na boca, sem olhar para trás nem uma vez. Só parei quando já estava bem longe e, mesmo assim, porque precisei vomitar. Nunca mais consegui comer panquecas de carne no molho de tomate.
Quando botei os pés em casa e dei com Leila espichada no jardim, sem latir nem mexer, sequer o rabo, o olhar enfiado em um lugar onde eu não chegava, deduzi logo que adoecera.


Mea culpa, mea maxima culpa - Irmã Francisca vivia repetindo que uma má ação acabava sempre com um castigo à altura, sendo aquela a maneira que Deus encontrara de puxar a orelha do filho desobediente, de chamá-lo de volta ao caminho da retidão.
Naquele momento, cheguei a desejar, do mais fundo do meu coração, que Deus me perdesse de vista. 
Leila recuperou-se e eu nunca mais voltei à casa das três mulheres. É verdade que ainda tornei aos seus arredores, mas apenas umas poucas vezes, em rondas que só me renderam mais culpa e ansiedade. Algum tempo depois, passei até mesmo a evitar o bairro, como se pudesse ser reconhecida e desmascarada por alguém.  



Marilia Arnaud é brasileira, nascida em Campina Grande (PB). Graduada em Direito (UFPB), exerce a função de analista judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da Paraíba.
Publicou quatro livros de contos: Sentimento marginal (produção independente – 1987); A menina de Cipango (Prêmio José Vieira de Melo – Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba - 1994); Os campos noturnos do coração (Prêmio Novos Autores Paraibanos – Universidade Federal da Paraíba – 1996); O livro dos afetos (Editora 7letras, Rio de Janeiro/RJ, 2005).
Publicou um romance (Suíte de silêncios, Editora Rocco, Rio de Janeiro/RJ, 2012) e um infantil (Salomão, o elefante – Selo Off Flip, Paraty/RJ, 2013). Um novo romance será lançado em julho de 2015 (Liturgia do fim, Selo Tordesilhas, São Paulo/SP).
Participação em coletâneas: + 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Editora Record, Rio de Janeiro/RJ, 2005); Contos cruéis (as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea), Geração Editorial, São Paulo/SP, 2006); Quartas histórias (contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa), Editora Garamond, Rio de Janeiro/RJ, 2006; Capitu mandou flores (contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte), Geração Editorial, São Paulo/SP, 2008; 50 versões de amor e prazer (Geração Editorial, São Paulo/SP, 2012); Vou te contar (20 histórias ao som de Tom Jobim), Editora Rocco, 2014).
     

         

Um comentário:

  1. Maria Valéria Rezende13 de julho de 2016 09:38

    Brilhante voz literária que ainda precisa ser mais conhecida!!! Aguardem o novo romance de Marília Arnaud, saindo pela ed. Tordesilhas, esses dias! Já tive o privilégio de ler e é marcante, pungente!

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