segunda-feira, 18 de julho de 2016

Sonhos do vigário

Alice por Cristina Lucas

Sonhos do vigário
Marta Barcellos

Quando a pessoa sorri exageradamente, com aquele formato de rosto, a expressão se achata, como que esmagada por um vidro. A face fica enorme. Os franceses acreditam que sorrir com exagero é indício de vulgaridade ou subserviência, li, certa vez. Mas essa menina, claro que essa jovem não vai viajar para França, apesar da expressão arregalada dizendo que é o seu sonho, e que por isso está vendendo livros com a amiga no aeroporto.

Estou na Starbucks, e do mezanino diviso quase toda a ala B do terminal 2. A jovem demora a dizer o que quer de mim, quanto custa, como exatamente os livros vão financiar o sonho. Faz algum suspense, usa o sorriso para esticar a paciência do interlocutor, uma das mãos gesticula, rodando e rodando, enquanto a outra segura a sacola amassada, Boticário escrito por fora, os livros dentro.

Não estou em Paraty (“você gosta de poesia?”); hoje estou cercada de executivos a trabalho, apressados, e não de escritores, nem de candidatos a escritores. A moça quer me vender um livro. Não, não vou comprar, não consigo ser simpática, anos e anos fechando a cara pra pedinte, que dó desses meninos, mas no sinal perto da minha casa tem um magrelo que enfia o braço pra dentro da camiseta se fingindo de aleijado. Não compro não, não dou dinheiro não, querem que eu enlouqueça pensando uma, duas vezes, no mendigo que morreu de frio na madrugada?

Fecho a cara, levanto o vidro, uma vez foi o susto de ver o outro vidro brilhando, verde, caco afiado perto do meu rosto, e eu ainda tinha espinhas apesar de ter conseguido comprar o primeiro carro. Espanto, mas virou história, todo mundo contando o seu assalto, agora eu tinha o meu. Não deveria ter buzinado, arrancado, disseram, que perigo. Mas, no aeroporto, nenhum risco de estar sentada ali, filando o Wi-Fi da Starbucks, lendo a alta literatura, enquanto a menina de boca tão grande, olhos tão grandes, vem falar de sonhos achatados, que fisgam à moda antiga, o fishing do vigário, ela que nunca estará num avião para a França.

Imagina se vou cair, se nessas alturas do jogo, segundo tempo (o sol do meio dia já passou; não há catástrofe a caminho, ela já aconteceu), vou desaprender de fechar a cara, de não pensar na calçada gelada mesmo com papelão, de não grudar nas coisas necessárias para não distrair da distração da vida.

Merda, tudo por causa da suspensão da viagem. Maldito Santos Dumont (não o aeroporto), maldita invenção que me vicia em desgrudar do chão, embicar pro céu, me ver lá do alto, tão formiga, esperando algum desastre (aéreo, tsunami, enchente, terrorismo; não um mendigo solitário, faça-me o favor) revelar que estou viva, e que tudo é tão vivo na tragédia (não na rotina). Tudo isso para, segundos depois, morrer de novo, aterrissar e querer ser a mulher de tênis brancos e óculos ray-ban que balança a bolsa na dobra do braço (e não no ombro).

Ainda não aterrissei, veja bem. Estou em suspenso, no mezanino. A moça enxotada (“gosto de ler, mas não esse tipo de livro”) foi embora, e nunca saberei os detalhes do conto do vigário, o truque contado de mesa em mesa, com cuidado para não despertar a segurança (daí a bolsa amassada do Boticário). Ao menos não sou a mulher de tênis brancos, considero. Ela agora anda lá embaixo, com passos de aeroporto, e também precisa da suspensão. Na volta, não saberá o que fazer com a solidão nos intestinos, como se tivesse tido uma caganeira a bordo, e por isso repetirá aos amigos: fiz o Vietnã de bicicleta. A moça dos livros não vai viajar, nunca, mas a mulher dos tênis novos sim, e da próxima vez fará o Atacama, porque todo mundo já fez, e a sensação de estar deserto é indescritível, falará quando voltar, para preencher os espaços ocos no corpo despressurizado.

Preciso avisar à jovem, a que jamais viajará, da ilusão da viagem dos sonhos. Como foi a festa de debutante que sua mãe pagou em 12 prestações. Ela se alegrará com meu comentário, pois é justamente sobre sonhos e ilusões o livro dela, o que está vendendo, veja que coincidência, e são assim os outros disponíveis na livraria do aeroporto. Preciso também avisar à mulher dos tênis brancos que suspensão é ficar sem celular na viagem, descalça de todos os aplicativos que pregam a gente no chão. Suspensão é ficar observando o celular andar sozinho no mapa do iPhone perdido, e não ter coragem de prosseguir, de chegar em casa, e por isso fingir que está em trânsito na Starbucks, em vez de pegar o táxi. Suspensão é imaginar a pessoa que conseguiu se apossar de sua alma em outro país, outro mapa, e não querer aterrissar de volta ao planeta Terra. Poder ficar pairando, como um pontinho no mapa. Ser um pontinho. Como quando a pessoa morre de verdade e continua no perfil do Facebook, em estado memorial; estar e não estar.

Mas a mulher de tênis tinindo de branco detesta a ideia do pontinho (não quer morrer, só quer conhecer o deserto do Atacama, sua escritora doida!). Além disso, tem endocrinologista marcado para terça-feira.

Do mezanino, vejo as duas se cruzarem. A moça dos livros sobre ilusões e a mulher de óculos ray-ban e tênis brancos. De um lado, as filas do check-in. Do outro, as portas automáticas que abrem e fecham, que abrem e fecham, que abrem e fecham.




Escritora e jornalista, Marta Barcellos foi a vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2015, com o livro de contos Antes que seque, na segunda edição, pela editora Record. É carioca, formada em jornalismo pela UFRJ, com mestrado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Tem dois contos publicados na coletânea Sábado na estação (Ed. Apicuri), organizada por Luiz Ruffato, e está escrevendo seu primeiro romance. Trabalhou 18 anos como repórter nos jornais Valor, Gazeta Mercantil e O Globo. Atualmente é colaboradora do caderno “EU&Fim de Semana”, do Valor, e colunista na Revista Capital Aberto e no site Digestivo Cultural.

Um comentário:

  1. Gostei, mesmo! A suspensão me moveu/comoveu, o texto todo também. Até os adjetivos precisos, a moça enxotada, os sonhos achatados, os espaços ocos....

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