domingo, 24 de julho de 2016

Sidney Sheldon, churros e outros bichinhos

Sidney Sheldon, churros e outros bichinhos

Leonardo Tonus

Eu não tenho medo de fantasmas. Nem desses outros bichinhos maldosos. Com seus olhos esbugalhados.  Seu dentões. E babas cheias de sangue. Hoje eu não tenho medo.  Mas antes eu tinha. E muito. A Sessão Coruja e seus Freddys.  As Sextas-feiras 13 na sessão da madrugada.  As unhas do Zé do Caixão me davam arrepios na espinha. Sem falar da queda de Alice pelo buraco da televisão. Assistia a tudo. E à noite, enrolado debaixo das cobertas, sabia que as Suzy da minha irmã (prenúncio das botoxadas Barbies) viriam, uma hora ou outra, perfurar meus olhos. Em algum lugar debaixo do guarda-roupa havia sempre um vampiro sedento. Ou um zumbi esfomeado querendo se deleitar de minhas parcas carnes. Sim, eu tinha muito medo desses bichinhos maldosos. Que me davam muitos arrepios. Mas hoje não. Homem feito. Barbado. Cinquentão. Nem pensar ! Arrepiar-se ? Só com o rombo de minha conta bancária no final do mês. Com a minha calvície. Com os xenofóbos. Com os racistas. Com os sexistas. E com todos esses outros bichinhos maldosos. Que, hoje, por aí, pululam. Deles, eu tenho medo. E muito. Mas de fantasma, não ! Por isso encaro com tranquilidade o livro Fome de Márcio Benjamin.
O rostinho na capa todo ensangüentado já dá o tom certeiro. Um netinho do Freddy das sessões coruja.  Já conheço o universo de Márcio. E o seu terror sertanejo. Maldito Sertão. Bons contos. Escrita enxuta. Excelente trabalho de aclimatação de um gênero literário em voga. Gostei deles. Ouso confessar. Gostei. E muito ! Professores de literatura não gostam de livros de terrror. Eu, sim. De terror. De gibi. De bula de remédio. Curto a descorberta de um mapa rodoviário. E a leitura de uma Barsa. Mas doutos professores, não !  Só buscam coisas complicadas. Escrevem difícil. Falam enrolado ! 
Eu sou enrolado. Complicado. E difícil. E gosto de Rawet, de Clarice, da norueguesa Wassmo, de Adrinha Lisboa, de Elvira Vigna, de Paula Fabrio, de Marcelo Maluf, do Marcos Peres, da Claudia Nina, de Lucia Hiratsuka.  E de tantos outros. E do Papillon. E do sex drugs and rock and roll de um Sidney Sheldon. Pronto ! Declaro publicamente pelos telhados de Paris. E sem vergonha. Com 13 anos de idade li Um Estranho no Espelho. Gostei. E tive muitos arrepios com ele. Acho que li todos os Sheldon. Emprestados na biblioteca. Foi assim que tudo começou. Lá em São Bernardo do Campo. Onde tinha Dona Delmina.


Dona Delmina gostava das subordinadas. E eu, de suas concessivas. Os emboras de minha professora de português eram estupendos. Com Dona Delmina aprendi o poder das atenuações.  O valor das refutações. E a liberdade da escolha. Dona Delmina nunca foi revolucionária. Mas era de São Bernardo do Campo. O que já a tornava um pouco rebelde. Como nós. Que gostávamos daquela cidade feia. Cinzenta. Garoenta. Poluída.  São Bernardo da borda do Campo.  E sua Rodolândia. O frango com polenta. A Via Anchieta. As sessões pipoca na discoteca.  E a molecada pulando corda na rua. São Bernardo com seus teatros. Que hoje já não existem. Lá ouvi Tetê Espíndola. Ouvi Tarancón em minha fase bicho grilo. Lá vi uma azaleia. Passarinhos nos fios caídos. A Vila Euclides. Lá tinha operários. E greves.  E tinha livros. Lá também tinha muitos churros. Naquela época as pessoas se sentavam na pracinha do centro para comê-los. Meus churros em São Bernardo tinham recheio de operário e gosto de revolta. Tudo por causa de Dona Delmina.
Dona Delmina era esperta. Proclamou um dia.  Leiam 500 páginas e terão um A. 200, um B. Com 100 garantem um C. E eu naquele corpo macilento em que só espinhas teimavam crescer  descobri a biblioteca municipal. Sidney Sheldon. Stephen King. E muitos outros. Hoje sei o quão frágil é a liberade. Por isso assumo. E declaro. A todos. E à Dona Delmina. Li Fome de Márcio Benjamin. E gostei.


Na verdade, eu o devorei ontem à noite. Como seus zumbis.  Devorando os habitantes daquela pequena cidade. Um por um. Esfomeados. Por conta da pobreza do sertão. Claro que não vou contar a história do livro. Sem arrepios não há livro de terror que se preze.  E só os malvados contam o final das histórias em sua resenhas. Os malvados. E os doutos professores. Que também não comem churros. Em Paris, comi um. Não tinha gosto. Nem recheio de operários. 
Acabo de pesquisar a vida do Sheldon no google. E terminei Fome de Benjamin. Terminei rapidinho pois sei que eles virão. Aliás, já chegaram. Trouxeram as Susy de minha irmã. A Alice. O Zé do Caixão. O Freddy. E o carinha da serra elétrica. Mas reitero: de fantasmas e desses outros bichinhos maléficos, eu não tenho medo!
Ouvi passos. Alguém  arranhou a porta. Tem um cheiro de enxofre no quarto. Eita, to todo arrepiado !  


XXX

Um pouco de leitura

Fome

Andou pela cozinha meio sem vontade e se escorou na meia-porta bem pintada, olhando praquele nada sem fim, mesmo em frente.
E então.
Bem de longe.
Apertou a vista, machucada de sol.
Lá de longe.
Fez uma sombra com a mão e procurou entender.
Era gente?
De onde?
Cansados, se arrastando, tal e qual fosse a sua vaca véia, pouco antes de morrer.
Mas era gente sim, tanta gente.
Mas.
Não tão longe mais.
Descompassado, foi o coração que avisou.
Viram.
Se arrastavam mais não.
E Zefa quase riu ao se lembrar das histórias dos cangaceiros.
Cangaceiros. Ainda tinha?
Era mulher sertaneja sim, de fibra, de força, mas enfrentar tantos com facão de torar galinha? E vinham levar o quê, pela caridade?
Correu pra fechar a porta.
Mas quando deu fé, já tavam em cima.
Deu tempo não, foi colocar a tábua e o primeiro se jogar pra cima da madeira.
Batendo, gritando, gemendo.
Era gente?
Zefa correu pro canto da cozinha.
E já ouvia os gritos de bicho pela casa toda, por todo o descampado, vazio de tudo.
Quem ia ouvir?
Tantos, tantos.
Homem, mulher. Menino até.
Tantos que a porta pintada, mas velha, ainda tentou cumprir a obrigação até se partir em um creco doído.
No canto, Zefa não acreditou.
Era gente?
Loucos, loucos, minha Nossa Senhora, roupas rasgadas, fedendo como a peste.
Partiram foi pra cima.
Ingênua, ainda tentou oferecer a galinha.
Mas o primeiro logo lhe segurou pelas orelhas, e numa dentada mais que certeira, rasgou-lhe a garganta, partindo com os dentes o escapulário no meio do caminho.
Era gente aquilo?
Foi tão combinado, que quase se pode dizer que era uma procissão.
Mas foi nada. Blasfêmia até.
Garganta, braços, peitos.
O sangue lavando o chão.
Restos de galinha e de mulher espalhados pela cozinha.
Na mesa da pia, o rádio fazia coro praqueles dentes mastigando juntos.
Todos.
No cantinho, o coração de Jesus, mesmo aceso, não pôde fazer muito não.
Era fome.

Marcio Benjamin na Sorbonne

Márcio Benjamin Costa Ribeiro, um natalense, do Estado do Rio Grande do Norte, tem 36 anos, trabalha como advogado, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e costuma apresentar-se como um escravo das letras. Desde os treze anos é metido com lápis e papéis, tentando mostrar aos outros um pouco do que se passa em sua cabeça. Participante usual de antologias de terror (Noctâmbulos, Caminhos do Medo, pela Editora Andross), também já fez muita gente rir com suas peças de teatro (Hippie-Drive, Flores de Plástico, Ultraje). Tenta tornar público seus contos exibidos com uma certa freqüência no site www.umanjopornografico.blogspot.com. Maldito Sertão é o seu primeiro livro, de contos que acaba de ser quadrinizado pelo coletivo K-Ótica. Lançado em 2012 pela Editora Jovens Escribas, foi considerado um dos melhores livros de 2012 e 2013 pelo Troféu Cultura Potiguar.  de ser quadrinizado pelo coletivo K-Ótica. Em 2016 lança o seu primeiro romance Fome, o qual narra as agruras de um grupo de pessoas as quais tentam sobreviver a um apocalipse zumbi em uma pequena cidade do sertão, sem qualquer contato externo. O autor participou da 3° edição do Printemps Littéraire onde apresentou no Salon du Livre de Paris e na Universidade da Sorbonne sua antologia de contos. Marcio Benjamin é também convidado da Flipipa de 2016. 




4 comentários:

  1. Maravilha de texto, Leo! Fiquei interessado no FOME, do Marcio Benjamin. E honrado com a citação do meu nome. Forte abraçpo

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    1. Marcelo tudo bem? bom me apresentando sou Sidinei e sou noivo e também organizo as vendas dos livros de Marcio Benjamin, e caso se interesse pelo livro você pode entrar em contato conosco via watsapp nossos números são 084 996535232 ( Sidinei) e 84 996817779 ( Marcio Benjamin. Enviamos os livros para todo Brasil com dedicatória e postagem por conta do autor. Os valores dos livros são Maldito Sertão- 40,00 e Fome 45,00, e na compra dos dois fica 75,00. Muito obrigado

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  2. Está na minha lista! Até porque temos interesses afins (fome e terror), estou bem curiosa. E que beleza essas resenhas afetivas! Amando

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    1. Ola Sheila tudo bem? bom me apresentando sou Sidinei e sou noivo e também organizo as vendas dos livros de Marcio Benjamin, e caso se interesse pelo livro você pode entrar em contato conosco via watsapp nossos números são 084 996535232 ( Sidinei) e 84 996817779 ( Marcio Benjamin. Enviamos os livros para todo Brasil com dedicatória e postagem por conta do autor. Os valores dos livros são Maldito Sertão- 40,00 e Fome 45,00, e na compra dos dois fica 75,00. Muito obrigado

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