quarta-feira, 6 de julho de 2016

O princípio da correspondência


Niki de Saint Phalle, Saint Sébastien 
O princípio da correspondência

Marcelo Maluf

“O que está em cima é como o que está embaixo.
E o que está embaixo é como o que está em cima”
(Hermes Trismegisto)

Eu nasci para ser santo. Assim me disse a senhora que leu cartas de tarô para mim quando eu tinha doze anos de idade. Mas eu me perdi nas coisas ordinárias e deixei que o futebol e depois a música me acomodassem em meu desejo de popularidade. Passei algumas noites em oração, pedindo a Deus que se lembrasse de me enviar um mensageiro que explicasse, no quadro negro, qual exatamente seria a minha missão. Mas nunca recebi visita. Nem de querubim, nem de belzebu. Entendi que os poetas eram parentes dos santos e me pus a escrever grandiosidades para me eternizar.

Até que me deu na ideia de sair por aí feito cobra e ir trocando de pele. Há dias em que sou santo: jejuo, medito, oro. Às vezes sou piedade: canso-me, desisto, entrego-me. Em outros, sou poeta: silencio, devaneio, escrevo. Divido-me entre o Nobel e a canonização. Hoje, por exemplo, abrirei mão dos meus destinos para ser nada. De que vale uma crônica no panteão dos poetas, santos e romancistas? Mas se for destino mesmo, talvez seja em vão.

Ontem pela manhã reacendi minha fé num Buda de borracha boiando na banheira. Ao me vestir, calcei as meias e me lembrei de São João da Cruz: “Bem sei eu da fonte que mana e corre mesmo de noite”. Enfiei-me numa calça jeans enquanto Rumi sussurrava: “Faltam-te pés para viajar? Viaja dentro de ti mesmo”. A camisa de algodão me fez entoar: “Om mani padme hum”. No café, bebi o olho mastigado de Deus numa caneca de plástico. Mas só quando coloquei o relógio de ouro no pulso foi que o vulto glorioso de Deus me lembrou que já era hora de escovar os dentes. Descobri que o sagrado se esconde no mistério da nossa mediocridade. E ouvi uma voz:

“Brincar com as máscaras de Deus talvez seja o melhor a se fazer, para não correr o risco de cravar na pele máscara única”. Qual é a máscara que me cabe? Com o tempo a gente se esquece no espelho: O que é máscara e o que não é? O rosto se conforma com a fôrma do traiçoeiro.

Passei a procurar Deus nas coisas mínimas. Nos pedacinhos. Nos corroídos. Na semana passada o encontrei metamorfoseado em traça, devorando as páginas do livro de Jó. Procuro Deus nas coisas sereníssimas, mas sei que ele prefere a sujeira grudada nos sapatos ao encontro com um iluminado. Se eu pudesse - quer dizer - se eu quisesse eu faria como Francisco de Assis e me criaria vermezinho de Deus, mas o rabo do meu gato entre as minhas pernas me lembra que a minha alma é sonolenta, é lerda, e morrer demora um tempão, só às vezes acontece num segundo, e eu tenho preguiça de acontecer.

A cada passo que dou assisto um dente  que salta da boca  de um miserável, um sonho que desaba na calçada,  sem cobertor,desabrigado da alma. A cada passo meu, sonâmbulo entre os sonâmbulos; homens e mulheres bem alimentados, experimento no esfomeado, no esquecido, no refugiado, no excluído, o gosto terrível do amor de Deus.

Por isso reverencio este copo que acolhe a água que bebo e sua disposição em servir e repetir todo dia a sua função. Reverencio esta vassoura que me auxilia a recolher as folhas secas no chão e a poeira da casa. Reverencio os meus chinelos que suportam o peso do meu corpo e o odor dos meus pés. Reverencio esta lâmpada que agora ilumina as minhas palavras, inundadas por uma mística ordinária.



Marcelo Maluf é escritor e professor de criação literária. Mestre em Artes pela Unesp. Escreveu o livro de contos Esquece tudo agora (Terracota, 2012) e o infantil As mil e uma histórias de Manuela (Autêntica, 2013), entre outros. Em 2015, publicou o romance A imensidão íntima dos carneiros (Editora Reformatório),  livro finalista do Prêmio da Associação Paulista de críticos de Arte (APCA).

25 comentários:

  1. Maravilhoso. Primeira vez que o leio. Sempre recebi boas referências de seu textos e livros.Eles tinham razão.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, Ivan Leite. Fico honrado com sua leitura. Forte abraço.

      Excluir
  2. Lindo texto e que força em cada imagem. Parabéns! Leandro Silva.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pela leitura e comentário, Leandro. Gracias!!!

      Excluir
  3. Amei, Marcelo Maluf! Muito você! Obrigada por compartilhar! Parabéns!

    ResponderExcluir
  4. Que delícia de texto, Marcelo! Ele flui e nos cutuca do primeiro parágrafo ao ponto final.

    ResponderExcluir
  5. Imagens fortes! Sagradas e profanas, gostei. Parabéns. Que venham novos textos! :D

    ResponderExcluir
  6. Gracias, Eduardo. Uma honra ter a sua leitura e comentários. Abraço

    ResponderExcluir
  7. É santo, afinal. Sim!

    ResponderExcluir
  8. Como sempre, um texto que nos revigora e nos faz pensar. Gratidão por dar voz às verdades que existem e resvalam em tantas outras verdades presentes neste vasto mundo.

    ResponderExcluir
  9. Salve! Maria Valéria!. Honrado com sua leitura. Gracias! bj

    ResponderExcluir
  10. Respostas
    1. Obrigado, Maria Sandra. Abraço grande.

      Excluir
    2. Obrigado, Maria Sandra. Abraço grande.

      Excluir
  11. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  12. como sempre, Malufón, fuderal!
    há sempre lugar para uma crônica ordinária como esta no panteão dos deuses da palavra.

    ResponderExcluir
  13. Texto maravilhoso, Marcelo. Primeiro texto seu que leio. Em breve você estará conosco aqui em são Bernardo e será um prazer receber o autor de tão belas palavras. Um grande abraço

    ResponderExcluir