domingo, 31 de julho de 2016

Da vida das formigas

Da vida das formigas


Eu também sempre me interessei por formigas e por sua organização social. Foi Marujo quem me iniciou ao mundo dessas trabalhadoras subterrâneas. Sentados nos degraus da padaria. Ou da mercearia da Dona Tereza.  Observávamos juntos.  O árduo caminhar das saúvas. Estivadoras terrestres, dizia Marujo. Que nos relatava suas aventuras. E a vida das saúvas. Eu sentia dó delas. Imaginando o peso das folhas sob suas frágeis costas. Diariamente. Incansavelmente. Em fila indiana. Sem qualquer possibilidade de deviância.  Saúvas não se rebelam. Não transgridem. Atuam em função da comunidade. Claro que isto não impedia o meu sádico espírito infantil de atuar.  Atormentando-as. Obstruindo suas passagens. Roubando-lhes as folhas. Esmagando-as, até. Iniciando-me assim à minha triste e inútil condição humana  Mas Marujo alertava. Silêncio. Ouçam o que elas têm a nos dizer. Naquela época havia um imenso formigueiro no zoológico de São Paulo. Onde podíamos contemplar a vida doméstica das formigas. Não a de Marujo. Que não tinha casa. Nem nome. Marujo era Marujo. Simplesmente. Morava num barraco colado ao muro de nossa casa. Minha mãe ofertava-lhe diariamente um prato de comida. Por cima do muro. E Marujo agradecia. Silencioso. Em seu terno escuro. Marujo era negro. E tinha o olhos mareados de álcool. O companheiro da criançada do bairro. Ninguém o menospreza. Diziam que fora rico. Que tinha estudo. E que se jogora na bebida por desgosto amoroso. Marujo amara. E amava suas saúvas. E nos amava. Um dia Marujo sumiu. Abandonou o bairro. O seu barraco. E o meu cotidiano. Hoje já não quase saúvas em São Paulo. Nem Marujos. Talvez tenham fugido juntos. Singrando os mares. Em busca de novos formigueiros. Como os de Ovídio Poli Junior no conto « La Abuela ou Da vida das formigas » que transcrevemos abaixo

Leonardo Tonus


La Abuela ou Da vida das formigas

Ovídio Poli Junior

Este espelho de três faces é, até agora, o único em que podemos buscar uma imagem de nosso destino. Por pequenos que sejam, os atores destes dramas têm seu peso e importância, pois sabemos perfeitamente que no infinito, que a todos nós contém, o tamanho carece de importância e o que se desenvolve no céu obedece às mesmas leis que ocorrem numa gota d’água.
(Maurice Maeterlinck)

As formigas possuem uma organização social bastante complexa. Dedicadas ao trabalho e à edificação da própria espécie, não passam o dia tecendo conjecturas. Nisso eu pensava enquanto o carro em que estávamos deixava para trás um após outro, nos trechos mais íngremes da estrada, os caminhões mais pesados e menos potentes. A caravana cuspia atrás de si uma densa nuvem de fuligem e os motoristas deixavam a porta entreaberta para engolir o vento, tal o calor que o esforço dos motores devia produzir no interior das cabines. Estávamos confortáveis dentro do carro devido à brisa que entrava pelo quebra-vento. Nos outros automóveis, que andavam sempre à esquerda e pareciam deslizar sobre a pista, o tempo e as imagens deviam ser diferentes.

Meu interesse pelas formigas era antigo. Eu as via desde pequeno habitando o chão do quintal em longas fileiras e às vezes entrando pela casa em pequenas trilhas. Eu passava os dias a vasculhar nos livros algo que pudesse estabelecer uma comparação entre os homens e aqueles minúsculos seres e me perguntando se os movimentos coordenados das antenas e das patas não seriam reveladores de uma intenção ou de algo muito diferente daquilo que na escola os professores chamavam de instinto. E dizer isso era tudo e ao mesmo tempo nada — pois as formigas continuavam a povoar o meu pensamento fosse quando eu me distraía nas aulas ou quando me debruçava sobre os livros. De onde vinha aquela agitação febril que as fazia carregar plantas e folhas para armazenar no formigueiro? De onde aquela determinação cega em percorrer longas distâncias e depois voltar em romaria para dentro das colônias?

Mais tarde vim a saber que alguns pensadores formularam a tese de que a desigualdade entre os homens teria origem natural e inata — sendo portanto semelhante à hierarquia que há entre as formigas e as abelhas. Na época não cheguei a nenhuma conclusão, mas nunca pude admitir que coisa parecida pudesse ocorrer entre os homens.

Mas isso foi noutro tempo e agora os caminhões seguiam guinchando os motores sobre a pista enquanto meu tio ia ao volante — a essa altura um pouco zonzo da cerveja que tomávamos a cada parada. A mulher que ia ao lado quase nada dizia, apenas se ocupava em contemplar o vazio através da janela e em fazer um comentário breve sobre uma coisa ou outra.

— É bonito aqui... — dizia ao passarmos diante de uma fileira de pinheiros ou por uma paisagem bovina.
Minha tia aprendera a ficar em silêncio até mesmo durante as tempestuosas crises do marido. Espreitando os seus hábitos, desenvolvera a técnica das observações vagas, que consistia em dizer rapidamente alguma coisa entre as pausas de sua respiração. Houve um tempo em que não podia abrir a boca. Se desandasse a falar, a situação piorava. Com o passar dos anos, no entanto, o marido foi ficando cada vez mais furioso com aquele mutismo, até que passou a interpretá-lo como uma espécie de escárnio e ela teve então que retomar a sua loquacidade moribunda.

O silêncio era uma virtude cultivada em segredo pelas mulheres da família. Era pelo silêncio que elas sustentavam a nostalgia romanesca daquele seu matriarcado impotente. Minha avó, que eu me lembre, nunca chegou a dizer palavra: apenas dirigia os olhos azuis de criança em nossa direção. Nos dias de Natal, deixava para cada um dos netos uma nota dobrada dentro de um envelope branco. Talvez o poder abstrato das cédulas substituísse o das palavras ou quem sabe a imagem fugidia daquilo que poderiam comprar se impusesse em nossa fantasia com mais força do que os presentes deixados em torno da árvore e que uma vez abertos exerciam somente a atração do que é idêntico a si mesmo. O fato é que toda aquela fauna de brinquedos desapareceu rapidamente da nossa memória, ao passo que os pequenos envelopes brancos permaneceram com seu fascínio misterioso.

Os homens da família falavam muito e sempre alto — com exceção do tio Bermiro, que quase nunca aparecia e vez ou outra era encontrado na sarjeta consumido pela tristeza e entorpecido pelo álcool. Havia também o tio paralítico, na verdade com parte do corpo adormecido por um derrame. Passava os dias em uma cadeira de balanço e nela estava preso há anos, lutando contra as amarras que lhe embaraçavam a língua. Por vezes, era possível vê-lo esboçar um movimento quase imperceptível com o tronco e balbuciar as suas palavras no ar.

— Olhem, que lindo...
Era minha tia quem falara, aproveitando a hora em que o marido trocava de marcha para ultrapassar um caminhão que se arrastava intrépido e sôfrego sobre a pista. O caminhão transportava uma carga descomunal de galinhas e pela exaustão das aves dentro dos caixotes e também pela poeira que se havia acumulado na traseira era de se ver que estavam bem longe de casa. Eu olhava a silhueta baça e dourada dos meus tios contra a luz que atravessava o para-brisa e voltei a pensar nas formigas. Algumas espécies, segundo os livros de entomologia, chegavam a caminhar distâncias imensas e podiam carregar um peso muitas vezes maior do que o do próprio corpo.

Paramos novamente em um restaurante à beira da estrada para esticar as pernas e tirar a água do joelho (como meu tio fazia questão de dizer). Uma balconista bela e sonolenta veio nos atender e apoiados num balcão metálico tomamos outra cerveja. Comemos três coxinhas e falamos um pouco entre um copo e outro — coisas de ocasião, próprias de um tio e de um sobrinho que se haviam distanciado e só agora se davam conta do quanto o antigo vínculo havia apodrecido. Dizer tio seria quase obscenidade: apenas um rosto franzino escondido por detrás de uma barba anacrônica de pelos ruivos cravados fundo nos sulcos da face e cultivada ao longo dos anos de acordo com as exigências da profissão — já que eu pensava que de algum modo era necessário manter uma certa dignidade quando se passava os dias desbastando calos e tratando unhas encravadas de pessoas anônimas. Anos depois, quando minha mãe foi obrigada a exercer o mesmo ofício, examinei a questão sob outro ângulo e cheguei à estúpida conclusão de que a dignidade pode ser cultivada de várias formas — inclusive sob a capa da humilhação.

Passamos por um corredor coberto de samambaias e pequenos vasos de cerâmica, ouvimos o crepitar de uma caixa registradora e caminhamos em silêncio em direção ao carro. Um pouco abaixo da porta, rente ao pneu dianteiro, uma chusma de formigas se precipitava em torno de uma lata de refrigerante que algum motorista deixara cair sobre o chão de paralelepípedo antes de enfrentar o calor da estrada.

Gastamos um pouco mais de borracha rodando sobre o asfalto e deitamos poeira sobre a vegetação ao enveredarmos por estradas de terra e caminhos vicinais. Quando chegamos ao cemitério fui ao encontro de meu pai, que tentava inutilmente atar as duas pontas de sua existência. Ao vê-lo cambaleante e dividido entre suportar a dor da perda e não deixar desabar o filho foi que me dei conta da terrível notícia. A abelha-mestra havia morrido.

Não cheguei a ver seus olhos: parei a poucos metros do esquife, o suficiente para perceber a imobilidade impassível da morte com seu silêncio pétreo e mineral, a frieza glacial e a palidez atroz daquele rosto de cera. Um pouco abaixo do caixão, que fora colocado em uma espécie de maca suspensa sobre rodilhas, centenas de formigas caminhavam em várias direções. Os livros diziam que as abelhas se comunicavam por meio de movimentos e do olfato e eu ponderava que não devia ser muito diferente com os insetos terrestres. Por certo aquele exército que ali estava tinha vindo de muito longe, contornando os obstáculos e abrindo caminho pelo gramado da necrópole. As formigas estavam excitadas e traçavam no chão pequenos círculos que se tocavam em vários pontos e por vezes formavam cruel espiral, atraídas pelo cheiro de éter ou pelos odores da morte que o engenho humano tentava em vão dissipar.

Estavam lá os tios e tias e toda a vasta parentada mas não consigo rever os seus rostos pois tudo era turvo e o lugar estava coberto por um negrume denso e leitoso. Lembro-me apenas do tio mais velho que articulava empréstimos bancários informais entre os irmãos. Vivia sempre ocupado com as cotações e chegou suado e esbaforido ao enterro — em tempo porém de assinar o livro de condolências e de verter uma ou outra lágrima.

Não consigo determinar com exatidão em que circunstâncias os nossos encontros familiares foram se tornando mais escassos. Mas os livros estavam certos: morta a rainha, toda a colônia se extingue. Pelo menos era assim com a maioria das espécies. O fato é que nada restou daquelas cerimônias ruidosas em que todos se abraçavam e os pratos velhos eram atirados à rua ao bater da meia-noite. Como que percebendo a excitação que havia no interior da casa e escondidas sob a folhagem da velha árvore coberta de flores brancas as cigarras faziam um barulho estridente e contínuo. No dia seguinte alguns mendigos vinham espreitar o portão — do qual guardavam respeitosa distância como a querer demonstrar que a sua presença ali era apenas transitória.

A cada ano, por essa época, as famílias do bairro davam início a uma nova ofensiva de filantropia. As sobras da ceia eram colocadas com cuidado em pratos de papelão zelosamente cobertos com guardanapos de papel e envoltos em folhas de alumínio. Vestidos de terno e aparentando alguma distinção, aqueles homens que vinham corvejar a casa eram em tudo diferentes dos mendigos da capital: recebiam a oferta com uma humildade solene e iam embora depois de fazer uma breve reverência — mas ainda assim submetidos à consciência do outro e ao olhar comum e inevitável que os reduzia à condição real de suas vestes.

Talvez isso não ocorresse apenas com os mendigos — pois logo após a morte da matriarca a sala que antes abrigara a nossa algaravia de criança foi cortada ao meio e deu lugar a dois aposentos, num dos quais passou a funcionar uma alfaiataria. Sob a luz escassa do velho lustre de cristal todos puderam ver pedaços de giz colorido, réguas de madeira e tesouras de vários tamanhos repousando sobre os tecidos, o papel manilha e os moldes. Pelas mãos da filha mais velha — que aos poucos se libertava dos cuidados junto ao marido moribundo — uma decadente família que prosperara com o pequeno comércio de café voltava agora ao ofício artesanal.

Estávamos em Campinas, nos estertores do regime militar. Por essa época, em vários cantos do país, imensas e ordeiras colunas tomavam as ruas e marchavam sobre o asfalto. Como formigas atacando uma colônia de cupins, apareceram de todas as direções, fizeram algum barulho e voltaram depois para os seus montinhos de terra.

O nosso pequeno formigueiro continuou a existir por algum tempo e da antiga casa preservou-se apenas a estrutura. O papel de parede foi trocado e deu lugar a estampas coloridas. As calhas e telhas foram substituídas e a sala ficou desafeiçoada com os inúmeros quefazeres que se somaram à vida econômica da família. Os mendigos não usam mais ternos rotos e já não se quebram pratos velhos como naqueles dias.

Quanto à velha árvore, foi cortada tão logo chegou o inverno. O chão de terra onde ela fincara suas raízes foi coberto por ladrilhos brancos e por falta de abrigo as cigarras foram ressoar os pulmões em outro lugar. O tio doente foi definhando aos poucos e quando um certo dia viram que ele não se movia na cadeira houve uma certa consternação na casa — que nunca mais foi a mesma sem a presença silenciosa e terna de minha avó de olhos azuis que as formigas levaram.

( Da antologia de contos, "Sobre homens e Bestas")




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Ovídio Poli Junior foi finalista do Prêmio Guimarães Rosa/Radio France Internationale (Paris) e teve destaque em concursos e prêmios literários brasileiros: Paranavaí, Paulo Leminski, Luiz Vilela, FLIPORTO, Unicamp 40 anos e Newton Sampaio. É graduado em Filosofia (USP), mestre em Educação (USP) e doutor em Literatura Brasileira (USP). Publicou O caso do cavalo probo (narrativa satírica), Sobre homens & bestas (contos) e, para crianças, A rebelião dos peixes. Participou da FLIPORTO (PE), do Fórum das Letras de Ouro Preto (MG), da FLIMAR (AL), da Feira do Livro de Jaraguá do Sul (SC), da FLAP (AP), do Festlatino (PE), da Flipinha (programação infantil da FLIP) , da FLIST (RJ) e da Ciranda Literária de Macaé (RJ). É curador da Off Flip das Letras e do Prêmio Off Flip de Literatura em Paraty e editor do Selo Off Flip. Ministra oficinas, cursos e palestras na área de literatura, é colaborador do jornal Rascunho e presta assessoria e consultoria a eventos literários, além de atuar como mediador em mesas de debate.



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