quarta-feira, 1 de junho de 2016

Um retrato de vidas miúdas



Um retrato de vidas miúdas
 
   Edmar Monteiro Filho (*)

Se em meados do século XIX a biografia do escritor era caminho seguro para interpretar sua criação, já no início do século XX o chamado “biografismo” foi sendo posto de lado em nome de uma interpretação da obra de arte por si mesma. A história pessoal do artista, sua personalidade, o momento e o local de nascimento da obra deveriam ser postos de lado em nome de um olhar que extraísse da própria obra tudo aquilo que pudesse significar, afirmar, provocar. A teoria literária combateu ferozmente o biografismo nas últimas décadas, mas é preciso dizer que negar a entrada de toda informação externa à obra no momento de sua análise significa deixar de lado aspectos importantes e necessários para sua compreensão.
É o que demonstra João Paulo Lima e Silva Filho, pesquisador da UNICAMP, que realiza profundas reflexões sobre a obra do alagoano Graciliano Ramos sob o ponto de vista literário, sem abandonar aspectos da vida do autor, essenciais para entender de forma ampla a dimensão de seu legado. Com relação a Graciliano, é preciso evitar correlações fáceis, como a que ainda hoje enxerga na secura temática e verbal presentes em seus escritos um reflexo de uma infância difícil. Inegável, entretanto, que o episódio de sua prisão arbitrária durante a repressão que se seguiu à “intentona” comunista de 1935, foi determinante para criar uma mudança de foco em seus escritos.
Antes da prisão, em 1936, Graciliano faz com que os protagonistas de seus romances sejam duramente castigados pelos seus erros. Após ter reconquistado a liberdade, entretanto, o tema predominante passa a ser outro. Dos retirantes de Vidas secas, até o próprio autor, no autobiográfico Memórias do cárcere, todos são seres esmagados pela injustiça das instituições, da natureza, da história. Mas interessa assinalar que Graciliano não se limita a narrar suas impressões acerca de um mundo injusto. A despeito do alardeado pessimismo, o escritor não esconde seu profundo sentimento de compaixão pelo gênero humano, que se traduz num mal disfarçado carinho por seus sofridos personagens.
Ronaldo Cagiano reza pela cartilha do velho Graciliano: mostra ceticismo com relação ao futuro de nossas instituições, da política, da fraternidade entre as pessoas. Tais convicções aparecem com frequência durante uma conversa com o escritor, pessoa afável, mas de afiadas palavras. Aparecem também nos relatos reunidos em Eles Não Moram Mais Aqui .Desencanto: talvez essa a palavra adequada para definir o sentimento que perpassa o livro, da primeira à última página. Aqui também aparece em todas as suas nuances o peso inexorável da injustiça que, ao lado da fatalidade, da violência ou da indiferença da sociedade, reduzem as criaturas à solidão e à tristeza, ao desamparo e à desilusão. Tais personagens são sombras que surgem num instante para desaparecer em seguida, envoltas na névoa de um sofrimento que as iguala, exibindo suas dores entre o conformismo ou a revolta sem remédio.
O retrato de vidas miúdas, destruídas por um destino implacável ou por um sistema de vida que forja seres egoístas, surge na forma de um jorro contínuo que, muitas vezes, surpreende pela virulência. Por vezes ainda, o autor mal se oculta por detrás de suas criaturas e atira seu discurso duro ao leitor que recebe em seu rosto os respingos de uma mal contida fúria. As pequenas e grandes cidades em sua frieza de hospitais lotados, trânsito desumano, ausência de oportunidades, desigualdade, isolamento, são os cenários de escolha de Cagiano para compor seus enredos, desabafos. A mediocridade que floresce num mundo em que o dinheiro é o único bem a ser buscado é o fundo musical que os embala.
Mas todo leitor crítico saberá perceber que não se trata aqui de mera transposição de humores. Ronaldo Cagiano é pessoa extremamente generosa. Preocupado com a divulgação dos textos de companheiros de escrita, proporciona preciosos contatos. Suas indicações de leitura são sempre importantes. Assim, o texto brilhantemente construído de Eles Não Moram Mais Aqui (Ed. Patuá, SP, 2015, 120p.)  não é simples reflexo dos desencantos de seu autor. Sua força como denúncia das condições atuais do homem no mundo demonstra haver fé no poder da literatura como instrumento de conscientização e mudança. Por isso, Cagiano incomoda, mas nos arranca da letargia e nos instiga a uma necessária tomada de posição.

Ronaldo Cagiano, mineiro de Cataguases, viveu 28 anos em Brasilia e desde 2007 em Brasilia. Autor, dentre outros, de Dicionário de Pequenas Solidões (Contos, ed. Lingua  Geral, Rio, 2006), O sol nas feridas (Poesia, Ed. Dobra, SP, 2012) e Eles nao moram mais aqui (Contos, Ed. Patua, Sp, 2015).

Assistam à entrevista que Ronaldo Cagiano concedeu ao blog Etudes Lusophones. Cliquem no link : Ronaldo Cagiano.

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(*) Escritor premiado nos concursos ‘Cruz e Souza” (SC), “Guimarães Rosa”, da Rádio França Internacional e “Cidade de Belo Horizonte” (MG), reside em Amparo, é doutorando em Teoria e História Literária pela Unicamp e autor, dentre outros, de Fita Azul (Romance, Babel, 2012) e Um rei condenado à morte (Contos, Penalux, 2016).






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