terça-feira, 21 de junho de 2016

Um copo meio cheio



A litetura brasileira contemporânea:

um copo meio cheio

Como você vê a situação da literatura brasileira no mercado internacional ? Vivemos realmente uma fase execpcional  do processo de internacionalização ?

Como todo objeto de estudo a situação da literatura brasileira no mercado internacional submete-se a uma dupla interpretação. Utilizemos para sua análise uma metáfora bastante usual : a imagem do copo d’água sobre a mesa. Ao enchê-lo de água até a sua metade, estará o copo meio cheio ou meio vazio ? Evidentemente, tudo dependerá do ponto de vista empregado. A literatura brasileira no exterior, e mais particularmente na França, é este copo com a água até a sua metade. Se levarmos em conta o processo de fomento à exportação da cultura e da literatura no seu conjunto, quer seja através de políticas públicas ou privadas, não há de se negar o seu avanço. A participação do país nas grandes feiras e grandes eventos literários internacionais permitiu um aumento exponencial do livro no mercado internacional. Mas não escondamos o sol com a peneira. Qual a contribuição deste processo na formação de leitores ? Retomo aqui a afirmação da escritora e professora de literatura Suzana Vargas segundo a qual « eventos literários ajudam a popularizar livros, mas não formam leitores ». Hoje podemos encontrar nas gôndolas das principais livrarias francesas uma grande variedade de autores brasileiros traduzidos. Esta presença física faz com que livreiros, editores, agentes literários e escritores possam sobreviver (sim escritores também necessitam pagar suas contas de luz !). Mas, e o leitor ? Quem são os leitores da literatura brasileira na França ? Qual é a sua importância? Quantos novos leitores da nossa literatura o processo de internacionalização empreendido pelo governo brasileiro ou por instituições privadas foi capaz de criar ? A quem cabe esta função? Aos editores? Aos escritores? Aos organismos de promoção?  Sim e não. E aqui entra a atuação de uma das peças fundamentais  do campo literário muitas vezes esquecida: a figura do professor. Lembro-me de um encontro  que tive com a escritora brasileira Maria Valéria Rezende em Paris (ou em João Pessoa) durante o qual livrava-me a um dos esportes mais praticados pelo corpo docente: reclamar do nível dos estudantes  e do seu pouco interesse pela literatura. A resposta da amiga e escritora às minhas queixas foi lapidar: « Vanitas vanitatum omnia vanitas  (Vaidade das vaidade e tudo é vaidade). Esqueça sua vaidade e pense no dom de seus alunos e na sua responsabilidade enquanto pedagogo, de o fazer emergir! » Pois bem, alguns meses depois deste encontro, eu precisava realizar para o Salão do Livro de Paris de 2013 traduções de trechos das obras dos autores brasileiros participantes e que seriam lidas durante suas apresentações. Propus o trabalho à minha classe do 2° ano de letras cujo desafio foi aceito justamente pela estudante de que há poucos meses me queixava e que pensava em abandonar o curso. O resultado do trabalho foi excepcional. A estudante passou a se interessar por literatura, a lê-la e hoje está concluindo  o seu mestrado de tradução.  Do mesmo modo, na última edição do “Printemps Littéraire” em Paris, qual não foi minha surpresa ao deparar-me com estudantes do 1° ano de letras pedindo-me os livros de Jessé Andarilho, de Henrique Rodrigues ou do Felipe Munhoz. Gostaram dos autores, tomaram um café com eles, realizaram selfies, conversaram  e agora queriam descobri-los literariamente. Não sei quantos novos leitores o conjunto do processo de internacionalização da literatura brasileira foi capaz de criar. O que sei é que e minha prática de sala de aula durante os eventos organizados em Paris, fez surgir um, cinco  ou trinta novos leitores. E isto é-me suficiente. O copo d’água da literatura brasileira no exterior ainda me parece um pouco vazio. Os caminhos a serem trilhados ainda são enormes. No entanto, sinto-me grato por poder participar ativa e cotidianamente deste processo.

Como você analisa o campo literário nacional contemporâneo?

Vejo-o hoje pouco apto ao risco. Os anos 90 constituiram, em minha opinião, um verdadeiro divisor de águas para a literatura brasileira e o campo literário. A cultura de massa, a multiplicação dos canais de difusão, a pluralização dos atores do campo literário, a professionalização dos autores, o impacto da internet. Eis alguns, dentre tantos outros elementos que em poucos anos minaram uma estrutra desgatada e hierarquizada. Desde então já quase 30 anos se passaram. Multiplicamo-nos. Enriquecemos. Empobrecemos. Envelhecemos. Surgiram as dores nas costas. E, naturalmente, passamos a procurar poltronas mais confortáveis. A establização do campo literário e de seus atores é natural. Em tempos de crise seu afunilamento é quantitativo. Em épocas de expansão econômica, ele é qualitativo. A participação institucional e a extensão cada vez mais ampla dos investidores econômicos no âmbito da criação e da difusão artística intensificou o processo de padronização do campo literário. O movimento de internacionalização, as grandes festas e os prêmios literários constituem uma prova tangível deste processo. Quais são hoje os espaços que o campo literário reserva ao risco? Efetuar a travessia transatlântica a nado parece-me hoje muito mais fácil do que assegurar visibilidade a romancistas nordestinos, a contistas de Roraima, a dramaturgos da periferia  ou a poetisas negras. Do mesmo modo, o que se congratula hoje nos grandes eventos ou sistemas de recompensa ? Autores confirmados, carreiras, escritores de renome. Os espaços do risco restringiram-se ou estão a desaparecer.

Henrique Rodrigues e Leonardo Tonus
 (Printemps Littéraire Brésilien et Salon du Livre de Paris - 2016) 

Por falar em risco, como você vê iniciativas como o Prêmio Sesc de Literatura, que é voltado exclusivamente para autores inéditos e fora do mainstream literário?

Há anos acompanho o prêmio SESC de literatura. Leio com frequência seus laureados. Observo a  inserção de seus autores no campo literário nacional. Podemos não compartilhar pessoalmente certas escolhas. Todavia não podemos deixar de constatar o espaço de risco que este prêmio ainda ocupa no âmbito da cena literária nacional. E isso parece-me fundamental. Quantos são os prêmios literários que ainda hoje contemplam inéditos ? Quantos são os prêmios literários  capazes  ainda de surpreender o leitor e a crítica? Aí encontra-se, em minha opinião, o elemento diferencial deste prêmio. Luisa Geisler, Rafael Gallo, Sheyla Smanioto, Lúcia Bettencourt, e tantos outros, são autores capazes de nos surpreender. Neles observo uma profunda inquitação sobre contemporaneidade sem nunca esquecer dois elementos para mim fundamantais no processo de escrita:  a qualidade estética e o prazer da leitura. São autores que muito me surpreenderam e que sobretudo,  se me permitir a nota pessoal,  me causaram boas noites de insônia. 


Por que um “Outono Literário” no Brasil ?

Neste ano levei o Printemps Littéraire Brésilien a diversas cidades da Europa, uma experiência bastante gratificante e enriquecedora. Nada mais natural do que desdobrá-lo ao Brasil, sobretudo no contexto atual de indagações que o país atravessa.  

De  que maneira o « Outono Literário » será capaz de trazer uma  « nova maneira de pensar e fazer literatura » ?

Como diria minha colega e pesquisadora Regina Dalcastagnè da Universidade de Brasília, na pós-contemporaneidade já não há mais espaço para heróis valorosos ou gestos magnâmicos. Não tenho a pretensão de reestruturar o campo literário brasileiro. E talvez nem o queira. Pelo contrário, sempre busquei pensá-lo criticamente. Grande parte do público que hoje frequenta as feiras e festas literárias não compra livros ou sequer os lê. Sua presença responde antes às dinâmicas do processo de espetacularização e fetichização do qual escritores e leitores participam ativamente. Isto se traduz, na melhor das hipótese, pela presença física do público nos debates realizados, ou, na pior delas, pelos selfies que pululam nas redes sociais.  Mas será que ainda é possível escapar deste processo ?   A questão, em minha opinião, não se coloca em termos de uma recusa ou negação da espetacularização, mas antes de um posicionamento crítico através do reconhecimento de suas engrenagens, da reciclagem de suas ferramentas  e da inserção ativa de seus atores. Assistir a encontros com escritores dentro do âmbito de um festival literário é importante. Realizar selfies com escritores é divertido. Quem não gosta de os fazer?  Participar ativamente da realização destes encontros parece-me, no entanto, fundamental. É este espaço que busco com o Printemps Littéraire e o seu desdobramento « outonal » no Brasil. Uma atuação  colaborativa e participativa do conjunto dos atores do livro: escritores, editores, livreiros, agentes, bibliotecários e leitores.

Simone Pauline e Leonardo Tonus
( Printemps Littéraire Brésilien:Salon du Livre de Paris 2016)

Não haveria uma contradição ao afirmar  o aspecto inclusivo de ambos os eventos e o processo de seleção dos autores convidados ?

Toda e qualquer seleção implica exclusão. Desde 2005 quando comecei a realizar encontros com escritores brasileiros na Sorbonne minha preocupação sempre foi a de abrir  as portas da instituição em que trabalho à diversidade literária brasileira. Já tive a honra e o prazer de receber em minha sala de aula os acadêmicos Ana Maria Machado e  Antonio Carlos Secchin, bem como o quadrinista Marcelo D’Salete, a ilustradora Lúcia Hiratsuka, a poetisa Alice Sant’Anna, os romancistas João Almino, Rodrigo Ciríaco, Ferrez, Márcio de Souza, Luiz Ruffato, Adriana Lisboa, Claudia Nina, Ana Paula Maia, Daniel Munduruku, entre tantos outros.  Ou seja, homens e mulheres;  poetas, contistas, ilustradores, quadrinistas, dramaturgos, romancistas ; paulistas, cariocas, capixabas, amazonenses e tantos outros; jovens autores e autores confirmados; autores e autoras das mais diversas editoras brasileiras e  das mais diversas origens etnoculturais. Isso é diversidade.  Essa é a multiplicidade da literatura brasileira contemporânea. Para os eventos que organizo não há seleção. Há  pelo contrário inclusão através de convites que respondam a uma preocupação pedagógica, realizados coletivamente e do qual participo enquanto (e desculpem-me aqui pelo anglicismo) « conductor ». A metáfora musical parece-me  adequada.Aos maestros cabem a coordenação  e a direção de atividades musicais realizadas em grupo de maneira coesa e coerente.  O Printemps Littéraire e o Outono Literário constituem para mim esta orquestra ou coro composto de naipes e músicos diversos atuando coletivamente.  O toque dos tímpanos no final de uma sinfonia é tão importante quanto o solo de um violinista spalla. Sem o monótono bordão dos baixos, as piruetas das sopronos numa peça coral são impossíveis. Sem regente não há osquestra, como também há coro sem cantores. O meu « ensemble musical » é múltiplo e variado e dele quero que todos participem para que juntos possamos repensar o campo literário, romper as barreiras que o caracterizam, criar novos leitores em Paris, em Berlim, em Bruxelas ou na favela do Areião em São Bernardo do Campo, e finalmente trazer a literatura brasileira para espaços onde tradicionamente ela não chega.  Para que juntos possamos simplesmente atuar como cidadãos côncios e  intervinientes. Utópico? Sim. Mas  utopia também é postura crítica. Ela nos permite nos situarmos no mundo e melhor o compreender


Entrevista realizada por Henriques Rodrigues com o professor Leonardo Tonus.
Rio de Janeiro-Paris, 10 de Junho de 2016.

Leonardo Tonus faz parte da programação oficial do SESC na FLIP 2016.

Publicada (parcialmente) no site do SESC : Literatura Brasileira Contemporânea



Nenhum comentário:

Postar um comentário