domingo, 19 de junho de 2016

Reler é urgente !




Reler é urgente !
Leonardo Tonus

Tenho uma relação bastante peculiar com meus livros. Relação evocada já em outros textos. Fala-se na obsessão dos autores. Esquece-se a obsessão dos leitores. Ou melhor. A da leitura. Meus livros são obsessivos. Exigem de mim atitudes. Aqui, um olhar descuidado. Por vezes um maneira blasé de os folhear. Acolá, o corpo jogado no sofá. Leitura ensonada. Leitura extremada. Leitura incomodada. Meus livros são obsessivos. E exigem  de mim posturas. E sobretudo, compostura. Um livro a cada espaço de meu apartamento. Meus livros-sapateiras. Livros-cozinha. Romances-sala. Poemas-ducha. Entre bocejos e zonas do incorforto. Entre lágrimas e dores nas costas. Entre o arrepio do desejo e o soco no estômago. Livros claros. Textos sonoros. Romances sujos. Desesterro de Sheyla Smanioto. O livro me arrasta pelas lamas da Vila Marta. E seca minha goela em Villaboinha. Que de boinha, essa vila não tem nada ! Uma cachorra roendo os ossos de suas próprias patas. Mulheres em dor. Pois ser mulher é morar de favor nesse mundo, diz a autora. E Tonho. O monstro inonimável. No estupro inoniável. Sheyla Smanioto. Autora com nome complicado. Desesterro. Título complicado de livro. Complicando o nomear. Do desespero. Que se desenterra. Do desterro. Que nos desespera. Do desenterro. Que me desterra. Para fora dos espaços. Dos tempos. Das vozes narrativas. Do exílio geográfico à linguagem em exílio. Do monólogo ao discurso narrrativizado. De Maria a Penha. A Fatima. A Cida. A todas que são Marias. Pobres. Carcomidas. Fodidas. Nem Scarlett se safa com seu nomezinho de atriz.  Também ela é Maria pelo anátema da avó. E entre o ir e vir das histórias. E entre o ir o vir de minhas leituras. Desesterro. Um livro que se lê. E se relê. E que se volta a ler. A reler para não ler por todos os lugares a mesma história de sempre, como dizia Roland Barthes. Reler para aventurar-se por outros territórios. Releituras desterritorializando-nos. Desesterro. Desesterritorializou-me. Tragicamente. No sentido comum do termo, chamamos  de trágico uma situação marcada pela presença da morte. Designa-se por trágico o momento em que o homem se vê na obrigação de enfrentar uma crise incomensurável onde o impossível e o necessário se unem. O trágico manifesta-se na tragédia. Mas não só.  E nem só na morte do herói que já não há. Enfrentar um crise. Dizer uma crise. Berrar a crise. Eis o que desencadeia o trágico. O nosso momento trágico. O sentimento trágico. A minha leitura trágica. E também esta trágica crônica que não é. Desculpe Sheyla, não tenho tempo. Preciso voltar a Desesterro. Discutir a condição das mulheres é urgente, diz a autora. (Re) ler Desesterro também é urgente.



Sheyla Smanioto nasceu em Diadema (SP). É formada em Estudos Literários, com mestrado em Teoria Literária, ambos pela Unicamp. É autora do livro de poemas Dentro e folha (Dulcineia Catadora, 2012), do curta Osso da fala (premiado pelo Rumos Itaú Cultural, 2013) e da peça No ponto cego (vencedora do IV Concurso Jovens Dramaturgos, 2014). Desesterro é seu romance de estreia, vencedor do prêmio Sesc de Literatura 2015.



Sheyla Smanioto participará da 1° edição do Outono Literário Brasileiro que acontece em São Paulo nos dias 24, 25 e 26  de Junho. 

Um comentário:

  1. Esse texto acima dignifica a crítica literária, suaviza-nos enquanto leitores. Não conheço a autora nem o seu livro. Entretanto, procuro divulgá-la no Facebook.
    Porém esse texto do Sr. Leonardo Tonus faz-nos felizes, escreve por nós, lava a nossa alma. Algo assim.
    Falei demais, não? Porque senti demais.

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