domingo, 12 de junho de 2016

Rebentar





Dizem que ler é situar-se no âmbito da halucinação. Percepção patológica de fatos. De sensações e sentimentos na ausência de qualquer estímulo. De seres que não existem. De objetos que também não existem.  Livros são objetos que não existem.  Eu sou um objeto que não existe. Ou que só existe através dos livros. A evanescência de um revelando a concretude  do outro. Daquilo que em sua forma material existe. Daquilo que é considerado no objeto que existe. E de que se faz parte. Não abstraído.  Nele ou por ele passando a existir. Existir pelos livros. Eu existo em meus livros. Eu só existo em meus livros. Meus livros-poltronas. Que me acolhem no desespero das madrugadas. Meus livros-carambolas. Levemente acidulados. Que saciam minha sede. Meus livros-dor. Que me cortam. E me ferem. E que a cada palavra. Me atiram. Contra uma muralha. Ou pelo  precipício da angústia. Rebentar de Rafael Gallo. Um livro-dor. Terebrante. Que perfura os ouvidos em sua palavra-dor.  A palavra-dor do filho desaparecido.  Da morte cotidiana do filho desaparecido.  E de seus pais. « Habitando esse vão: morrendo vida afora, vivendo adentro de uma morte que não se consuma ».
Leonardo Tonus



Rebentar

Conforme Ângela dá meia-volta, seus passos ressoam o ruído dos grãos de areia espalhados pelo concreto contra seus sapatos. Ela deixa a plataforma do píer, dando as costas para o mar. Atravessa a faixa da orla, em direção à trilha que leva ao descampado onde deixara o carro estacionado. Com o rosto inclinado para o chão, observa suas pegadas anteriores marcadas na areia, cada uma delas se desmanchando sob o peso de seus passos seguindo agora no sentido oposto.
Ainda restam sombras de dúvidas quanto à sua decisão de encerramento. Embora tivesse refletido muito a respeito de sua renúncia e soubesse o peso de sua escolha, Ângela pressente também que esse novo caminho diante de si pode se revelar, ao fim, como apenas mais um entre tantos outros rumos iniciados, interrompidos, desfeitos e refeitos sem nenhuma mudança efetiva em sua trajetória como mãe de um filho desaparecido. Dali a não muito tempo poderia estar, por exemplo, novamente sentada em um avião, voando em direção a qualquer canto do país de onde se anunciasse a hipótese de alguém, ou um cadáver, ser passível de identificação com Felipe. Por essa e tantas outras razões, sabia que não poderia tomar sua decisão pela renúncia de forma leviana; não se permitiria fazer algo assim pela metade, com a perspectiva de voltar atrás a qualquer momento. Se quisesse de fato se desprender da esperança de reencontrar seu menino, teria de ser resoluta a ponto de não restar nada que a colocasse novamente nessa trilha de uma maternidade à espera de restauração.
Um filho desaparecido é um filho que morre todos os dias. Nem mesmo nas mitologias mais cruéis há tragédia equivalente; essa dor nenhum deus teve de suportar. Cada noite que cai desaba sobre os pais com o peso renovado da notícia: você perdeu sua criança e ela está em algum lugar nessa escuridão afora, desprotegida de seu lar. Essa mensagem silenciosa se impregna nas paredes da casa, nos vãos entre os azulejos, nos ponteiros dos relógios e nas páginas dos calendários, nos retratos da família, no chão que se pisa. É um luto com uma diferença fundamental: alguém que não é reencontrado nunca se perde em definitivo. Há sempre uma nova possibilidade, uma nova tecnologia de rastreamento, uma nova pista sobre seu paradeiro, uma nova esperança. Se o filho morre todos os dias, sua ressurreição também é constante e dolorosamente insubstancial. Tantos renascimentos possíveis, iminentes, abortados em uma série sem fim de fracassos nas buscas.
Na verdade, não há infinitas mortes nem infinitas vidas, nunca houve: o que resta, no lugar da criança desaparecida, é uma anulação constante entre vida e morte — polos opostos de um mesmo vazio sem contornos. Os pais e o filho para sempre habitando esse vão: morrendo vida afora, vivendo adentro de uma morte que não se consuma.



Rafael Gallo é paulista, autor de Réveillon e outros dias (Record, 2012), livro vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti, ambos na categoria Contos. Em 2015 lançou Rebentar, seu primeiro romance, também pela Editora Record. Tem ainda contos publicados em diversas revistas e antologias, como a Machado de Assis Magazine, que publicou tradução do conto « Réveillon » para o espanhol.




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