segunda-feira, 6 de junho de 2016

O dia em que (não) conheci Drummond

O dia em que (não) conheci Drummond

Flávio Carneiro

         Já tive estranhos hábitos. Pacatos todos eles, nunca fizeram mal a ninguém, mas estranhos.
Quando fui morar no Rio, aos 18 anos, sozinho e com um caminhão de sonhos na mudança, logo descobri que o carioca típico não aborda uma celebridade na rua, para pedir autógrafo ou falar alguma coisa. O carioca cruza com um famoso e, mesmo com vontade de pular no seu pescoço, lança apenas um olhar meio de lado (sei quem você é, mas vou fingir que não e vamos vivendo).
Eu me dividia. Era comum cruzar com escritores, músicos, atores de quem era fã, e meu  impulso era o de ir falar com eles. Mas não queria parecer turista e ser zoado pelos poucos amigos cariocas que eu tinha na época. O impasse acabou me levando à estranha arte de seguir celebridades pelas ruas do Rio de Janeiro. Era um jeito de ficar pertinho delas, sem pagar mico.
Uma noite, logo após o comício pelas Diretas Já, na Candelária, fui caminhando por uma ruazinha do Centro, na direção do metrô. E eis que vejo, de costas para mim, o Chico Buarque. Ia com um amigo e a Christiane Torloni. Andavam pela rua como ilustres desconhecidos. Apertei o passo, precisava contar ao Chico que estava escrevendo um conto baseado numa música dele (ele não poderia viver mais um dia sem saber disso!). Fiel, porém, ao meu recém-adquirido hábito de seguidor de ídolos, apenas os acompanhei de perto, até entrarem num pequeno restaurante.
Outra vez, depois de uma sessão de cinema no Estação Botafogo, vi Caetano e Paula Lavigne, saindo da mesma sessão. Eram namorados ainda. Andaram pela calçada em silêncio, eu atrás, bem pertinho. Depois entraram num jipe (acho que era, não entendo nada disso, para mim qualquer carro grande, quadrado e com pneu atrás é jipe), estacionado por ali. Paulinha ao volante, Caetano ao seu lado. Não podia ouvir o que ela dizia mas dava para ver que estava furiosa. Pelas caras e bocas, estava dando uma dura no Caetano. Ele não dizia nada, a cabeça encostada na janela, olhos fechados, como se estivesse dormindo.
Mas desse estranho hábito o que me marcou mesmo foi, numa tarde, ter visto o Drummond. Era, ainda é, um dos meus poetas preferidos. E lá estava o monstro sagrado, andando calmamente por uma rua do Leblon.
E agora, José?, pensei comigo. Vou atrás dele ou não?
Fui, dando corda à minha imaginação enquanto o seguia. Pensava numa cena impossível, eu me aproximando dele, tocando seu ombro e dizendo:
“Tudo bem, Carlos?”
“Ora, ora, mas se não é o meu amigo Flávio, o jovem e promissor ficcionista que acaba de chegar de Goiânia.”
Eu daria um risinho acanhado, fingindo uma timidez real.
“Vamos tomar um café?”, ele teria dito.
“Claro.”
“Queria te mostrar um poema novo. É apenas um rascunho, preciso ainda trabalhar nele, mas gostaria muito da sua opinião. É uma espécie de retomada do meu ‘Confidência do itabirano´. Uma releitura. Você conhece esse poema, não é?”
De cor e salteado, eu teria pensado, mas dito apenas:
“Gosto demais da conta, você sabe.”
Magro como o vemos nas fotos, um pouco curvado, os ralos cabelos brancos, lá ia o poeta à minha frente, virando uma rua, seguindo pela calçada, sem ninguém a abordá-lo, como se caminhasse anônimo pela Itabira da sua infância, até entrar num prédio e sumir dos meus olhos.
Ainda fiquei um tempo parado na frente do prédio, vendo a fachada e imaginando por que ele teria entrado ali.
Então, como se estivesse tirando um chapéu invisível, me curvei fazendo uma reverência – que só o porteiro viu –, me despedindo assim do meu amigo poeta. E nunca mais segui ninguém. 
XXXXXXX



Flávio Carneiro é escritor, roteirista e professor de literatura. Publicou 16 livros – entre romances, coletâneas de contos  e crônicas, ensaios – e escreveu dois roteiros para cinema. Ganhou alguns prêmios literários, como o Jabuti e o Barco a Vapor. Escreveu a Trilogia do Rio de Janeiro, composta pelos romances O Campeonato, A Confissão e A Ilha. Parte da sua obra foi publicada em outros países, como Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, Portugal, Alemanha, Colômbia e México. Mora no Rio de Janeiro. Site: www.flaviocarneiro.com.br













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