sexta-feira, 17 de junho de 2016

Nossa Teresa

Nossa Teresa
vida e morte de uma santa suicida
Micheliny Verunschk

 Nunca, em outros tempos, se alardeara com tanta veemência a existência de santos suicidas, pois pela tradição daqueles que costumam ou julgam saber das ordens e mandos de Deus, ou como quer que ele seja nomeado pelas várias religiões que infestam o mundo como uma praga do próprio Criador, o jardim celestial fecha terminantemente seus portões com travas, ferrolhos, cadeados, grossas correntes a todo homem ou mulher que, em gesto de insana profanação, atenta contra o que é de menos seu, contra o que lhes é dado apenas por empréstimo, o bem mais precioso, a vida. Nenhuma misericórdia! Gritam os pregoeiros da palavra e vontade divinas. E quando isto proclamam, saiba-se que nenhuma piedade concederão aos que injuriam a carne com a morte escolhida, prerrogativa do mesmo Deus, senhor que a uns acolhe e a outros não e que, cioso de suas tarefas, quer sempre definir a hora, o local e os meios, desconsiderando, é claro, essa tolice com que tantos se enganam, essa bobagem de livre-arbítrio que só tem a serventia de enganar a humanidade a propósito da falta de pulso sobre seu próprio destino. Pensam os arautos do Senhor que num mundo em que reinasse o livre-arbítrio de fato, Deus não teria mais qualquer utilidade. Num mundo em que homens e mulheres pudessem, sem culpas ou danações, se apoderar de suas vidas e mortes, Deus seria condenado ao vazio, como um velho que esclerosa e vai sendo despido, graciosamente, e aos poucos, do respeito grave com que era considerado quando em uso da razão.

Se amortece, ou mesmo se oculta, o fato de que o lendário Sansão optou pelo suicídio quando arrastou as colunas do templo precipitando para a morte milhares de filisteus, gente como eu, como você, que se reunia em Dagon para louvar e festejar e fazer compras ou passear com as crianças como qualquer pessoa que nesse mesmo instante caminha pelas ruas ou se deixe estar nos templos de Ashdod. Se esconde, sob o patronato da Odontologia, o suicídio sagrado da egípcia Santa Apolônia, que ardeu numa pira por vontade própria a ter que abjurar. Deixa-se em segredo a real exigência feita à Santa Margarida Alacoque quando a ela foi dito Hoje procuro uma vítima para o meu Coração, que cumpra minhas vontades e se sacrifique como hóstia, ordem à qual ela prontamente acatou gravando à lâmina quente de faca virgem o nome do Crucificado no peito para, em seguida, sangrar até morrer. Tenta se esconder até mesmo o que é mais óbvio, o suicídio de Jesus, em Jerusalém, durante aquela longínqua Páscoa de que até hoje se tem notícia. Glorifica-se a morte coletiva dos guerreiros de Massada, dos quarenta mártires de Sebástia, dos 2200 kamikazes do 25 de outubro de 1944, dos bassidijis do Irã, ao mesmo tempo em que os suicidas individuais, aqueles que morrem de frustração, solidão, falta de fé e de objetivos, aqueles que morrem por desesperança ou simplesmente por desejarem dignidade no último suspiro, são relegados a alas discriminantes ainda em tantos cemitérios. Exalta-se o suicídio pelo amor de Deus ou pelo amor da guerra, que são os dois quase a mesma coisa, e colocam-se armas, dentes e línguas em riste contra a morte escolhida ou assistida. Prega-se a vida enquanto sutilmente cultua-se a morte. Mas esses são volteios que nem sempre interessam ao leitor, sempre ávido pelo fato, sempre curioso e apressado pelo entendimento do fim, pelo termo da cena.

Ora, se nunca se anunciara com tal fervor a existência de santos suicidas é que nunca antes se oferecera o patronato de um desses santos aos próprios suicidas. Nunca existira um alguém a quem se interceder por essas almas. Alguém que soubesse na carne e no espírito os caminhos e descaminhos que levam ao ato extremo. E é a história desse santo, sua vida e morte, seu polêmico percurso, que aqui se vai relatar. Melhor dizendo, dessa santa, porque cabe às mulheres desde sempre, de Pandora à Eva, a faísca da subversão, a quebra de valores, a assumida falta de pudores e um extremo gosto pela transgressão. Advirto, porém, que não me venha tomar o leitor como um panfletário, um vulgar levantador de bandeiras. Tão somente conto histórias das quais apenas ouvi falar ou que, quando muito, tive discreta, quase despercebida participação. Sou um velho que muito já viu e viveu e que nem sempre consegue escolher ou esconder simpatias e antipatias. Mas garanto que apenas dou conta do que todos dizem ou sabem, embora às vezes finjam que não disseram ou soubessem. E é esse o meu ofício de narrar. Poderia ser outro, mas é esse e dele me agrado.



Micheliny Verunschk é autora de Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003), A Cartografia da Noite (Lumme Editor, 2010) e b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014). Foi finalista, em 2004, ao prêmio Portugal Telecom com o livro Geografia Íntima do Deserto. Publica em 2014 seu primeiro romance Nossa Teresa -vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, com patrocínio do Programa Petrobras Cultural), vencedor do Prêmio São Paulo de 2015. É doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Micheliny Verunschk participará da 1° edição do Outono Literário Brasileiro que acontece em São Paulos nos dias 24, 25 e 26 de Junho.





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