segunda-feira, 6 de junho de 2016

Francisco não se dá conta

Philippe Ramette, Balcon 2, Hong Kong (2001)
Francisco não se dá conta

Andréa del Fuego

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A tal síndrome em que a pessoa só vê a metade dela no espelho, a outra vai para a rua sem o cuidado que um reflexo ordena. De um lado o cabelo atrás da orelha, do outro um chamuscado. O Francisco é assim, ainda não entendo como ele abotoa a camisa já que os botões se alinham bem no meio, quer dizer, hoje não existe mais simetria nas máquinas de costura. Ele abotoa porque o meio invade o lado que ele vê. Não é derrame, já me perguntaram se era derrame, dizem que é síndrome. De repente, derrame é uma síndrome, ou a síndrome pode vir de um derrame, não sei. Parece que o sangue circula pelos dois lados, tudo funciona, Francisco anda com os braços fazendo movimentos contrários e sincronizados, normal.

Quando encontro Francisco temo que ele se divida ao meio na minha frente, que um zíper se abra da cabeça aos pés e a parte que ele vê no espelho saia andando e a que não vê fique parada me olhando. Um Golem esperando que eu escreva em sua testa o verbo infinitivo, deve faltar ao Francisco um abracadabra que acorde um lado, ou faça ele todo abobado de vez. Conheci Francisco no banco, eu estava no caixa e ele na fila com uma pasta cheia de faturas. A mão que segurava a pasta se alinhava ao pé que dava batidas no chão. Havia uma mancha de xixi na calça do lado de que ele não se dá conta. O lado de que ele não se dá conta abre e fecha as pestanas, ouve, enxerga, é um lado-mãe que observa o lado-filho soltando o primeiro grito. A mãe observa, mas não grita. Para não dizer que é muda, soube que Francisco teve pedra no rim do lado-mãe, era ela se manifestando. Francisco sentiu dor, mas para ele era um sinal pelo corpo, em algum lugar daquela metade que ele tinha pelo todo.

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Antes de ser bancário, fui seminarista. Aprendi a me colocar em silêncio por dias e a comer o que me davam pela portinhola em horas marcadas. Não é diferente no banco, vira e mexe acho que o correntista vai se confessar no meu caixa. Dizer o que está errado, o que está apertando o sapato, contraindo a glote, fechando a mão, desabar o erro e então darei a sentença numérica de doze pai-nossos.

Francisco parecia se confessar ao dizer, assim que chegou sua vez, que devia seis meses de telefone, se distraía a ponto de não ver as contas sendo empurradas por debaixo da porta. De fato, havia marcas de sapato nas costas das faturas, pisou em tantos ângulos que a sola desenhou um círculo maciço. Perguntei se era correntista, ele confirmou com a cabeça. Efetuava o pagamento, enquanto ele tirava um chiclete do bolso da calça, desembrulhou com ansiedade e jogou o tablete pink para dentro da boca. Com a goma sendo mascada pelo lado percebido, tudo corria bem. Quando o maxilar levou o chiclete para o carrilhão de dentes opostos, um recheio líquido escapou pelo canto da boca e manchou a camisa clara com uma gosma azul-piscina. Um homem daquela idade mascando um chiclete de adolescente.

Ele não percebeu o acidente, na maior caridade, avisei que ele havia sujado a roupa. Francisco olhou só para um lado do corpo e disse que estava numa boa, não havia sujeira alguma. Tirei da gaveta um lenço de papel e o estiquei na direção da gosma azul, agora com sua circunferência alargada, absorvida pelo algodão. Ele agradeceu e disse que não precisava. Insisti, Francisco ficou nervoso, apontou as duas mãos para o único lado do peito e disse, meu senhor, eu agradeço, mas estou mais limpo que esse balcão.

No dia seguinte, Francisco pegou a fila dos idosos, encostou no balcão e me deu uma caixa de lenços, viu que eu tinha razão quando foi colocar a roupa na lavanderia. Faltavam cinco minutos para o almoço, Francisco foi embora, atendi mais duas senhoras e fechei o caixa. Peguei o casaco no armário, deixei o crachá e quando a porta giratória me cuspiu para a rua, dei outra vez com ele, acendendo um cigarro, olhando para dentro da agência.

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Philippe Ramette, Contemplation irrationnelle (2003
Pensei, Francisco é um xadrez com um único jogador, movimenta as peças em intervalos longos para que esqueça a anterior e se coloque diante de um jogo sempre inédito e só dele. Mas quem vê não diz, ele é comum, fardado para alguma tarefa coletiva que se confunde com o mobiliário urbano. Convidei-o para almoçar. Quando atravessávamos a rua em direção à cantina é que me dei conta de minha ação. Convido nem parente, ainda mais estranha foi a pronta aceitação do velho.

Ele sentou-se à janela, deixei-o me esperando e fui ao banheiro lavar o rosto, estava suando mais que o habitual. Na saída, um garçom passou na minha frente com uma bandeja de copos, chegou à mesa antes de mim e dispôs as bebidas. Francisco queria brindar o momento. Perguntei o motivo da comemoração, Francisco respondeu que começar uma amizade era mais estimulante do que mantê-la.

Eu deveria ter deixado uma nota de vinte em cima da mesa e saído correndo, em vez disso dei um gole no destilado e notei que teria que deixar bem mais, a bebida era boa. Pedimos lasanha de linguiça, chegou fumegante, queimei o meio da língua. Francisco dividiu a massa com o garfo, a outra mão segurava a faca, servindo como aparadouro da lâmina, ainda bem, longe de mim. Francisco pediu licença para ir ao banheiro e saiu levando a faca com a mão de que ele não se dá conta. Ninguém do salão percebeu. Pedi um café e reconsiderei sair correndo, ele voltou sem o talher, dizendo que caiu uma faca no vaso sanitário, do nada. Achou estranho e queria avisar o gerente. Informei que a faca estava com ele, provavelmente havia caído quando ele precisou dar novas ordens às duas mãos. Quantas mãos você tem, Francisco? Duas, ele respondeu. Há quanto tempo você faz de conta que não tem um lado? Francisco pediu a conta, emburrou e não me deixou pagar. Na porta, ele disse que já havíamos avançado para a manutenção da amizade, coisa de importância menor para ambas as partes. Concordei.

Em casa, deixei a televisão ligada e fui tomar banho. Do chuveiro ouvi o comercial de cerveja e o começo da novela. Jantei uma lata de sardinha e fui deitar, desliguei a televisão de manhã, antes de sair de casa. Nesse dia, o gerente quis falar com os caixas, explicar o novo sistema que seria instalado em três meses. Os correntistas receberiam uma nova senha e teríamos que nos preparar para os aposentados que teriam uma boa razão para sair de casa. Batata. Francisco chegou dois dias depois de a correspondência de aviso ter sido enviada. Ele acenou da fila e a aleatoriedade o fez ser atendido pelo caixa dois, eu estava no sete. Deu vontade de falar com ele, ouvir qualquer coisa, mas Francisco foi embora fazendo o segundo aceno.

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Eu só me dei conta de que Francisco era um homem com todo o tempo livre quando ele descobriu meu endereço e tocou o interfone. Mandei-o subir pela escada, meu prédio não tem elevador, dois lances não fariam mal a um sexagenário. Caso sofresse um tombo eu chamaria uma ambulância.

Pedi fritas e dois beirutes que uma lanchonete entrega com a maionese separada. Botei toalha limpa na mesinha da cozinha, ele se ajeitou com dificuldade na banqueta, eu me espremi na outra, não sou velho, mas tenho cintura larga. Ele confessou que tinha medo de ficar sozinho quando as novelas terminam. Assim que soube que ele acompanhava a novela das sete, fomos direto para a sala, cujo sofá é minha cama, e botamos o prato sobre a coxa. A cena era a continuação do episódio anterior, com música para momentos engraçados de alguém com a desgraça superada. Tanto vai, tanto fez, Francisco deixou o prato no chão e pegou minha mão com a parte de que ele se dá conta. Eu abaixei o volume da televisão pelo controle remoto, ainda mastigava um palito de batata.

Passamos a noite juntos. A intimidade é boa porque ergue, de uma vez, o balde do poço, é só olhar com coragem e dar um gole na água suja da pessoa. Acordamos numa terça-feira, ele babava pelo lado que não se dá conta, achei aquilo mais próximo de uma paralisia, mas não quis assustar o velho. Ele deixou que eu o limpasse como se eu fizesse aquilo há vinte anos. Fervi água, botamos café solúvel nas xícaras, ele quis ver minhas contas. Não é da sua conta, Francisco. Uma frase de ambiente enquanto pegava as próprias na gaveta do criado-mudo. Ele viu que consumo pouca água, moderada luz elétrica e praticamente não falo ao telefone. Não quer morar comigo? Não respondi no ato, mas foi o que fiz.

Philippe Ramette, Lévitation de chaises


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Fechei minha quitinete cujo financiamento havia quitado há menos de um ano. Deixei os móveis, peguei só as roupas. Francisco tinha mesmo um jogo de xadrez em que ele jogava com ele mesmo. Nunca permitiu que tocassem nas peças, eu nunca quis, como também nunca tive vontade de tocar numa pessoa dessa. A vontade de estar ali e seguir qualquer coisa que ele dissesse era mais misteriosa que uma célula se dividindo.

Francisco morava numa casa térrea, ampla, vasto jardim aparado, biblioteca, despensa repleta de enlatados, farinhas e sabonetes. Não dormiríamos no mesmo quarto, nossa convivência se dava na sala, na cozinha, no jardim. Ele disse que eu podia deixar meu trabalho e ficar com ele também durante o dia, esclareci não ser um enfermeiro, nem competente para trocar fralda de um adulto, se era isso que ele estava planejando para o futuro próximo. Ele já sabia o que tinha, a pele estava tão fina que se romperia a qualquer momento, se a lava é a aparência que confirma o vulcão, também a pele expõe a carne estragada que segura os ossos.

O lado de que ele não se dá conta estava a ponto de acordar, mas não pelas células certas, sua ansiedade era a de um estudante de medicina, injetando adrenalina num cadáver só para vê-lo se mexer. A parte de que ele se dá conta soube da outra no dia em que fizemos xixi juntos, dentro da banheira. O sangue alaranjado era a parte que se dá conta percebendo a outra e resolvendo fazer o pior, se defender. Perguntei para quem poderia pedir ajuda, além do médico. Francisco disse que tinha uma filha advogada. Ela atendeu e perguntou se era mesmo grave, pois teria que sair às pressas e a vida dela estava de pernas para o ar. Eu disse que o pai dela tinha urinado sangue. Ficou combinado que, se acontecesse outra vez, fôssemos ao médico, e se fôssemos ao médico mais de duas vezes ela entraria em cena, e que já ia se preparando para isso.

Coragem de deixar Francisco eu não tive, disse à filha que o pai não sentiria a falta dela, pois estava bem-acompanhado, antes que perguntasse o que eu tinha com ele, desliguei o telefone. Ela não retornou. Francisco não fez mais xixi, nem laranja, vermelho, aguado, nada. No caminho do pronto-socorro, sugeri tomarmos uma cerveja, que é diurética, ia resolver o problema. Sentamos numa mesa da calçada, pedimos uma porção de azeitona. No segundo copo, Francisco foi ao banheiro e voltou transtornado. Conseguiu esvaziar a bexiga, mas o preço foi um ferimento que ele não conseguiu precisar onde, não foi de percurso, já que sentiu cada gota atravessar o canal até a ponta do pênis.

Do bar voltamos para nossa casa, ele piscou num capricho de revista feminina, não devolvi o charme porque não consigo piscar, sorri. Ajudei-o a colocar o pijama curto de verão, tirei minha cueca e fomos para debaixo da manta, Francisco dormiu. Em dois dias ele emagreceu o suficiente para precisar de um cinto numa calça de elástico.
Perguntei se aquela casa ficaria para a filha, ele disse que não. Deixei claro que me interessava nunca mais deixar aquele lar de azulejo bom, taco sem cupim, telha com beira. Ele fingiu que não ouviu.



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Namoramos por pouco tempo. Terminamos no hospital, antes de o Francisco morrer. Ele foi definhando assim que soube do diagnóstico terminal. Nada tinha a ver com sua síndrome do homem de um só lado, os médicos asseguraram. No enterro, apresentei-me como amigo do banco, a filha advogada veio de Florianópolis avisada por mim. A moça era feia, não só para o meu gosto como para o gosto comum de qualquer sexo oposto dos neandertais. Ela tinha uma barba raspada, um problema com hormônios que, além do pelo, engrossava a voz e a deixaria diabética antes dos quarenta. Pensei, filho é tão misterioso e tão óbvio, é você com as sequelas de ter duas carnes, a sua e a do seu pai.

Fiquei com a casa, continuo trabalhando no banco, aposentadoria vai demorar, mais treze anos de balcão ou talvez uma gerência em saletinha. Joguei as roupas dele no lixo, um armário repleto de camisas de uma só cor, da mesma loja. Brancas, manchadas com recheio de chiclete. Quando fui morar com ele, deixei na quitinete as cartas que recebia no balcão, escritas por seis mulheres diferentes. Correntistas, de meia-idade, sapato recatado, saias lisas, cabelos presos, atraio sempre o mesmo tipo.

No fim, o sangue sabe para onde corre, os ossos sabem por que são curvos no tórax e tem gente como o Francisco que não se dá conta de que uma das pernas estendidas no sofá é dele. Com o tempo, eu só via a metade de Francisco de que ele se dava conta. A filha tinha uma cicatriz no braço que deixou visível numa blusa de manga curta. De tanto eu olhar, ela explicou que aquilo foi uma bobagem, Francisco também não via a metade dos outros, a menina segurava uma lenha e o pai só não aleijou a filha porque ela soltou a tora a tempo, mas se rasgou ao cair no cimento do quintal.

Qual metade de mim Francisco não viu? Quem sofre amputação sente o membro fantasma, a perna não está lá, mas o cérebro insiste que sim. Sinto falta do Francisco, não é todo dia que o cotidiano é atravessado por um malabarista manco, um barbeiro com catarata, uma garçonete com labirintite ou uma criança sem quadril engatinhando com rodinhas de bicicleta, se Francisco é possível, esses também são.

Philippe Ramette, La traversée du miroir

                                      7

Na casa térrea não preciso subir escadas, nem descer. Rego o jardim uma vez ao mês, não corto, desconheço o nome desses fiapos com flor mínima na extremidade, sei que é bonito. Semana passada, deixei que uma faxineira viesse limpar, encontrei rastro de rato no quarto, achei melhor resolver. Deixei a moça em casa e fui para o banco. Na volta, ela estava sentada no sofá, assistindo televisão, comendo um pacote de biscoito de polvilho. A vassoura e o balde estavam na porta da cozinha, o balde com água perfumada com pinho, verde, sem indício de sujeira diluída, a vassoura não tinha um fio de cabelo entre as cerdas. Dei o dinheiro do trabalho que ela não fez, ela pediu que eu saísse da frente, o filme ainda não tinha acabado. Esbofeteei aquela indecente, ela deu um grito. Perto da saída, empurrei suas costas e tranquei a porta. Na cozinha, três ratos mortos estavam dentro de uma sacola, ela havia feito o serviço principal e se deu ao luxo do sofá.


Liguei o chuveiro, precisava de um banho, peguei um pente para escrever contas no vapor do boxe. Do nada, alguém gesticulava ao meu lado. Saí pelado e corri para a sala onde estava o telefone, liguei para a polícia. O cara me seguia, eu não conseguia ver o resto do seu corpo, só o braço. Disse ao atendente que a casa estava invadida e suspeitava ser um sequestro, nessa hora estranhei não ter levado uma coronhada ou uma estatueta na cabeça.

A viatura não chegava, perguntei ao homem o que ele queria, não havia dinheiro na casa, expliquei que eu era viúvo de um homem sem joias. A polícia bateu na porta e o braço se adiantou, foi o tempo de segurá-lo e o policial arrombou a porta. Enquanto um falava comigo, outro entrou. Pedi para o primeiro que pegasse o cara antes que ele escapasse. O policial fez um sinal para o outro, este informou não haver ninguém na casa. Mostrei outra vez o braço ao xerife, ele perguntou se eu morava sozinho, se tinha algum parente que ele pudesse acionar e, por fim, onde eu trabalhava. Respondi que era sozinho, bancário e tinha uma prima no litoral. O guardinha, que nem deve ter aplicação em poupança, foi claro, meu senhor, solte o braço, ele é seu.

XXX



Andréa del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. É autora do romance Os Malaquias (vencedor do Prêmio José Saramagos) publicado na Alemanha, Itália, França, Israel, Romênia, Suécia, Portugal e Argentina. Seu último romance, As Miniaturas, foi publicado na Argentina e na França. Autora também da trilogia de contos Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu, dos juvenis Sociedade da Caveira de Cristal, Quase caio e Irmãs de pelúcia. Ganhou o prêmio Literatura Para Todos do Ministério da Educação com a novela Sofia, o cobrador e o motorista. Integra as antologias: Geração Zero Zero, Popcorn Unterm Zuckerhut (Alemanha), Other Carnivals: New Stories (Inglaterra), Brésil 25 (França) entre outras. É estudante de Filosofia na Universidade de São Paulo (USP). Andréa del Fuego participará do 1° Outono Literário Brasileiro que acontecerá em São Paulo nos dias 24, 25 e 26 de Junho. Para consultar o programa do evento, clique no link abaixo :


Leiam a entrevista que a autora concedeu ao Blog Etudes Lusophones no link :



O conto « Francisco não se dá conta » foi publicado na antologia Brésil 25,(Métailié em 2015) e em e-book no endereço : E-book


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