sexta-feira, 10 de junho de 2016

Esquema de A.

Esquema de A.

Victor Heringer


Ao final de seu décimo quinto ano de idade, Alexandr O., filho de russos, desistiu da cidade e foi viver na floresta. Coisas que Александр não conheceu: (1) as prostitutas da Vila Mimosa; (2) o tratado Da elegância como virtude intelectual (1956), de Horace Aliananga; (3) a dor das hérnias de disco.
O que Alexandr conheceu: Lena R.
Александр era analfabeto. Lena R. também. Ambos morreram virgens. Não se prometeram em casamento, ninguém sabe o porquê, já que se amavam e as famílias aprovavam. O que Alexandr foi fazer na floresta: uma fogueira. Com que propósito? Não deixar que se apagasse.
Alexandr alimentou o fogo. Subiu a floresta da Tijuca e sumiu lá dentro. Só levava um machado, que roubou do açougue do pai no Catete. Cortou árvores do parque nacional, ilegalmente, e acendeu a fogueira. Construiu um barraco de madeira. Calculou que envelheceria na mata.
Александр não fez a mínima ideia de quem foi Henry David Thoreau. Alimentava-se dos bichos da floresta e água da chuva e de coco. Assava os bichos na fogueira.
Viveu na mata até os 16 anos de idade sem ser incomodado. Quando os guardas florestais finalmente o encontraram, Alexandr foi preso. Morreu no caminho para a delegacia, 14 minutos antes do fogo.

XXX


Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988) é escritor, autor de Glória (7Letras, 2012, Prêmio Jabuti), O escritor Victor Heringer (7Letras, 2015), Lígia (e-galáxia, 2014), entre outros. É colunista da Revista Pessoa e participará da 1° edição do Outono Literário Brasileiro no mês de junho em São Paulo




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