quinta-feira, 26 de maio de 2016

solidões da memória



solidões da memória


rizoma
    
           vestígios de pegadas nas areias, / restos d´ossos roídos e d´espinhas
                            António Barahona


a infância e a memória 
da infância, submersa
na líquida travessia

vez por outra
o atlântico deposita
ossos datados
nas terras do exílio

(a menina antiga
recebe os sinais
códigos esquecidos
legendas para o lembrar
- revivências)

a memória da infância
é a memória possível
(e só à poesia cabe recriar)

insubordinação
(sob o signo de beauvoir)

                      Eu cumpro os meus
                          limites,
                          não cumprindo as regras
                                              Maria Teresa Horta

campesinas
as saias longas
largas escuras
a roupa debaixo
dispensavam

bastava
(gesto imperceptível)
um leve dobrar dos
joelhos
:
mijar  em pé
sobre a terra
receptiva
subverter o mito
do eterno feminino
(o segundo sexo
em
igualdade de condições)





ilha     
             Em sal espuma e concha regressada
               à praia inicial da minha vida
                              Sophia de Mello Breyner Andresen



a ilha, nem
ilha era (o mar
nesga
ao lado e à frente)

a ilha, não
tinha fim nem
começo, rosário
de sal ao pescoço

a ilha, o espaço
do jardim, calcetado
de seixos e
ervas de permeio

a ilha, o curto
caminho de casa
à escola
visconde cacongo

a ilha, o longo
percurso da escola
à casa
(fortificada ilha)



educação eletiva

   Alguém te contempla
   Desde antes do tempo começar
                                              Murilo Mendes

a tia

(sempre haverá uma tia, na
vida de todos os seres viventes
não qualquer tia
mas aquela, para além do sangue,
                a eleita
      antes mesmo de o ser
aquela que contempla
   e enxerga o escuro
        aquela que sabe
da dor e da fome
e, garras à mostra
    afugenta intrusos
                acode
agasalha
          acalenta
afinidade eletiva
antes mesmo de
    qualquer começo)

sim, a tia
como esquecer?


marinhas

      Mas, se vamos despertando
         Cala a voz, e há só o mar
                    Fernando Pessoa


havia manhãs
em que, ao abrir da janela
era só o mar e o mar
                          o mar
                          o mar
                          o mar
aqui e além, barcos
quebravam em dois
o azul
inauguravam o branco
desenhavam a espuma

e não havia palavras
só as ondas
     as ondas
     as ondas
    
via, ouvia
            calava


tempo polido

Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
            Uma pedra de nascença, entranha a alma.
                                                 João Cabral de Melo Neto


pelas calçadas do funchal
(em pedra e arte calcetadas)
passaram meus ancestrais
pés descalços / solas gastas
corpos descuidados
a polir o (seu) tempo
sem atinar com ele
na paisagem entranhados

solas novas na pedra gasta
em cuidados, agora percorro eu
as marcas esquecidas, indícios
da pedra primeira
da pedra pedra
fundadora


bagagem
 
      de lado a lado
        a casa é uma viagem
                 Irene Lucília Andrade


haveria de ser grande e bonito
o baú encomendado ao tio
madeira coberta por folhas de flandres
tachas reluzentes e batique florido
(abrigar os pertences
resistir às intempéries atlânticas
e, por fim, servir de móvel
no destino novo)

ali, na austeridade da arca
a casa
reduzida ao essencial


chegada
  
       Para a frente era só o inavegável
        Sob o clamor de um sol inabitável
                                       Sophia de Mello Breyner Andresen


onze foram os dias
enjoo,  sarna e tédio
terceira classe
paquete santa maria

da terra prometida
primeiro, o recife
amarelos inaugurais

aos emigrantes, o
delimitado espaço
do porto, aos turistas
a cidade  (entre)vista
do cais

(aos que vinham
para o trabalho
ver o trabalho
era  o limite)

via-se
:
corpos gingantes, a estiva
torsos negros azuis suados

e o cheiro despudorado
do abacaxi a anular o resto

 (o brasil tinha cheiro
e era de ananás)

Dalila Teles Veras
Poemas do livro solidões da memória, Alpharrabio Edições/Dobra editorial, 2015


Dalila Teles Veras nasceu no Funchal, Ilha da Madeira, Portugal. Há 43 anos vive em Santo André, SP. Autora de cerca de duas dezenas de livros, nos gêneros poesia, crônica e ensaio, dos quais destacam-se À Janela dos Dias – poesia (quase) toda, 2002, Retratos falhados, 2008 e Estranhas formas de vida, 2013.
Desde 1992, dirige a Alpharrabio Livraria e Editora, em Santo André (SP), referência cultural na região do Grande ABC. Coordena, desde 2007, o Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC e integra, já no segundo mandato, como membro titular para representação da Comunidade, o Comitê de Extensão Universitária, ligado à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFABC – Universidade Federal do Grande ABC.

Conheça o Alpharrábio no site : http://blog.alpharrabio.com.br/








2 comentários:

  1. Nossa, muito profundo e lapidado os seus poemas. Dalila Teles Veras, é uma honra apreciar seus textos.

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  2. Obrigada, Abel Gonçalves, por suas palavras.

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