segunda-feira, 9 de maio de 2016

Palavras, paroles.

Pool, The Alchemy of Blue, Lizzie-Buckmaster 
Palavras, paroles.
Lúcia Bettencourt (*)

Algumas palavras nos assombram.  Vez por outra me deparo com alguma cujo significado me escapa. Há alguns anos (ou décadas) foi alumbramento.  Desconhecida, na época, percebi seu sentido mas, até hoje, não o compreendo de forma racional. Não saberia, por exemplo, explicar em que se diferencia de deslumbramento ou de epifania. Por que optar por uma em vez de outra? Qual a motivação estética, qual o caminho de pensamento que levou à escolha do mais inusitado? No entanto, vejo que, ao escolhe-la, o autor me entregou um presente, uma “pedra  crisólita” contra a qual posso avaliar outras palavras em termos de mistério, beleza e  fulgor.

Pergunto-me se teria validade a preocupação de alguns professores que pretendem “traduzir” os clássicos  para a linguagem cotidiana (mas essa é quase tão impossível de padronizar como, digamos, narizes, uma vez que cada qual tem o seu: nariz ou idioleto!). Por que roubar a alguém essa topada com a pedra do alumbramento? Porque roubar dos textos seu caroço indigerível, estopim para muitas horas de reflexão?

Li muitos livros na infância e na adolescência, e de muitos tenho lembranças mais ou menos acuradas. Uns pelas histórias, outros pela linguagem. Lembro-me de um, que me abriu uma porta que depois muito cruzei e continuo atravessando: a da lingua inglesa. Minha avó tinha umas amigas peculiares que pensavam com a cabeça de um outro século. Uma delas, ao saber que eu estava estudando inglês no colégio, desencavou um livrinho infantil que  devia estar esquecido em sua casa há alguns anos. Chamava-se Candles For The Queen. No colégio estava aprendendo o básico, tipo “thank you for the book”, com que minha avó me forçou a agradecer o livrinho incompreensível já a partir do título. Candles, yelled, wax, melted… Não eram alumbramentos,  eram tropeços e, na época, me pareciam intransponíveis. Acontece que sempre adorei livros, e aquele tinha ilustrações lindas. A história tinha princesa (descobri depois que era rainha), carruagem, lindos vestidos, palácios e catedrais. Resolvi que não seria um “yell” que me faria desistir de conhecê-la. Consegui decifrar a história sobre a coroação da rainha Elizabeth II e do desejo que um casal de crianças, tinha de dar um presente à soberana. Com o avô, fizeram  um par de velas, enviaram ao palácio e depois tiveram a satisfação de reconhecê-las expostas entre os milhões de presentes enviados pelos súditos e por pessoas e governos de todo o mundo.

Ainda não sabia, mas foi o meu primeiro alumbramento.  E  meu inglês, não fosse esse presente e, mais tarde, minha mania pelos Beatles,  teria ficado tão medíocre  quanto o tal de “inglês escolar”, ensinado tão burocraticamente que poucos aprendem alguma coisa.


Mais tarde, no país das Maravilhas, aprendi que as palavras nem sempre precisam  ter um significado para serem preciosas. Sua preciosidade consiste exatamente na sua sonora  e lúdica impenetrabilidade. Mas aí elas viram, como na música, paroles, paroles, paroles.



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Lúcia Bettencourt participou da 2° e da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien em Paris e em Berlim. O seu conto “Paris,meio-dia” integra a antologia Olhar Paris publicado pela editora Nós em 2016 que reúne mais de 20 olhares sobre a Cidade Luz e sua relação com o mundo das artes.  


Consulte a entrevista de Lúcia Bettencourt para o Blog Etudes Lusophones no link : Lucia Bettencourt e Athur Rimbaud



(*)Nascida no Rio de Janeiro, Lúcia Bettencourt é doutora em Literatura Comparada pela UFF  com a tese O Banquete, uma degustação de textos e imagens, publicada em 2012 pela Vermelho Marinho e premiada pela Academia Brasileira de Letras. Ela é autora dos livros A secretária de Borges (Record, 2006), que recebeu o prêmio SESC de contos em 200 ;Linha de sombra (Record, 2008);  O amor acontece (Record, 2012) e  O regresso: a última viagem de Rimbaud (Rocco, 2015).  Colaboradora de diversas antologias de contos e de crônicas entre as quais se destacam; O meu lugar (Mórula, 2015); Vou te contar (Rocco, 2014)  Histórias para Jovens de todas as idades (Nova Fronteira, 2012) e O livro Branco (Record, 2012). Recebeu entre outros os prêmios : Prêmio Osman Lins, de contos, 2005 e Prêmio Josué Guimarães (Jornada Literária de Passo Fundo) 2009. Lúcia Bettencourt é também autora de livros infantis publicados pela Escrita Fina: A Cobra e a Corda; Botas e Bolas; O sapo e a Sopa; A Oca e a Toca. Seus contos foram traduzidos para o Inglês e Francês, tendo sido publicados em revistas nos EUA, Inglaterra e França.
Lúcia colabora com jornais e revistas brasileiros e estrangeiros, e mantém o blog: www.nadanonada.blogspot.com


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