sábado, 7 de maio de 2016

Luzes trocadas

Brigida Mendes, Sem titulo, 2005
Luzes trocadas
Claudia Nina (*)


         Recentemente participei de um evento de divulgação da literatura brasileira na França, o Printemps Littéraire (Primavera Literária), realizado na Sorbonne. Em uma das apresentações, para os estudantes do primeiro ano de Letras, uma das alunas, recuada ao lado, mas muito atenta ao que eu dizia acerca da criação do meu romance Paisagem de porcelana, fazia anotações no laptop. Timidamente, fez a pergunta, aquela básica que parece ser universal, curiosidade de dez entre dez leitores, não importa de que nível escolar ou social.
         - O seu livro reflete o tempo que a senhora viveu fora do país?
         Ou seja: quanto de vida (a minha) existe na ficção que eu criei. Respondi dizendo que havia muita coisa, mas que o tempo (15 anos de distância entre o vivido e o narrado) foi essencial para que a emoção fosse bem trabalhada – muita emoção estraga um projeto literário, eu dizia.
            Pensei depois se talvez não existisse uma pergunta inversa. Poderíamos perguntar: quanto de ficção existe em nossas vidas? Sim, porque é comum ouvir que nossas histórias dariam um livro. Só que não. É preciso que o literário esteja ali, escondido nos detalhes imbricados. Acredito que parte da boa ficção seja feita de relances. A capacidade de observar nuances, misturando técnica e sensibilidade, é um dos ingredientes mais importantes para se transformar qualquer vivência em ficção. Mas é preciso que os detalhes não apenas existam, como sejam percebidos.


         A ideia me veio para fazer a ligação com um romance de formação chamado O próximo da fila, baseado na vivência do próprio autor, que, assim como o personagem, se vê obrigado a trabalhar em uma cadeia de fast-food para ajudar à mãe a sustentar a casa. O romance percorre o amadurecimento do garoto, passando pelos percalços vários que precisa enfrentar, incluindo aí os primeiros amores.
         A vida de Henrique, não fossem os detalhes iluminados pela sensibilidade (depois editados por uma estratégia literária) seriam apenas isso: a vida de Henrique. O quanto de ficção existe na vida? Depende da capacidade do autor em jogar luz sobre os próprios caminhos, a ponto de transfigurar os detalhes e transformá-los em literatura. Um trecho esclarecedor: “Após o trabalho, à noite, penso que todas as luzes das ruas parecem ter sido recentemente trocadas, ou então que foram realizadas obras que tornaram mais simples e claro o caminho de volta para a casa”.
         O parágrafo serve de metáfora. As circunstâncias da memória nos escapam com facilidade – alguns episódios simplesmente caem na escuridão, outros ficam sem foco, outros tantos perdem os detalhes (os mais importantes) e por isso a vida se desficcionaliza. Perceber que as “luzes foram trocadas” é refazer os caminhos da vida com um outro olhar – aquele que irá entornar a realidade como a colher de um mágico. Sem isso, não há literatura.


         Volto à pergunta da estudante na Sorbonne e vejo que talvez essa questão seja mais complexa do que a resposta que dei a ela naquele momento. E me vejo debruçada sobre os detalhes da minha vida e imersa na tentativa de iluminar novos detalhes para que a próxima ficção nasça deste caminho de “luzes trocadas”. Aquela gélida primavera parisiense foi, sem dúvida, uma experiência e tanto.

(*)Texto originalmente publicado na Revista Seleções em Maio de 2016.


Claudia Nina e Henrique Rodrigues participaram da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien.

Consulte o link abaixo sobre o romance Paisagem de Porcelana de Claudia Nina




Claudia Nina é Jornalista e doutora em Letras pela Universidade de Utrecht, na Holanda, com tese sobre Clarice Lispector, publicada pela Editora da PUC-RS (A palavra usurpada, de 2003). Trabalhou como professora-visitante na Uerj, em Teoria Literária. Desta experiência, nasceu a base da pesquisa para seu segundo livro: A literatura nos jornais: crítica literária dos rodapés às resenhas (Summus, 2007). O livro A barca dos feiosos, com ilustrações de Zeca Cintra, foi sua primeira obra de literatura infantil, lançada em 2011. O texto, que fala de diversidade, foi apresentado como trabalho final de curso do Publishing Management – O negócio do Livro, pela Fundação Getúlio Vargas. Pela Editora DSOP, publicou seu segundo livro infantil, Nina e a Lamparina, com ilustrações de Cecília Murgel. Também publicou o perfil biográfico ABC de José Cândido de Carvalho (Editora José Olympio), e os romances Esquecer-te de mim (Editora Babel, 2011) e Paisagem de porcelana (Rocco, 2014). Os lançamentos mais recentes são os infantis A misteriosa mansão do misterioso Senhor Lam (Vieira & Lent, 2015) e A Repolheira (Aletria, 2015). Participou em 2014 da antologia Vou te contar (Rocco), com o conto “Na solidão da noite”. É colunista da Revista Seleções (Reader´s Digest).



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