segunda-feira, 16 de maio de 2016

Literatura moçambicana

Entrevista com o professor e pesquisador Francisco Noa

Amosse Mucavele


Tenho sido um defensor irredutível da ideia de que não existe escrita sem leitura.


Francisco Noa tem doutorado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, e é docente nas universidades Eduardo Mondlane, de Moçambique, e Agostinho Neto, de Angola. Ensaísta e crítico literário foi empossado Reitor da Universidade Lúrio ( Moçambique) em 2015.  Ocupou entre outros cargos o de Vice-Reitor do Instituto Superior de Ciências e Tecnologias de Moçambique (ISCTEM), Director Executivo e Investigador do Centro de Estudos Sociais Aquino de Bragança e de Director da Escola Superior de Ciências Jurídicas e Sociais da Universidade Politécnica.

Como ensaísta, tem inúmeros artigos em publicações nacionais e estrangeiras e é autor de vários livros dentre eles Literatura Moçambicana: Memória e Conflito, 1997; A Escrita Infinita, 1998; Império, Mito e Miopia, 2002; A Letra, a Sombra e Água, 2008; “Perto do fragmento, a totalidade. Olhares sobre a literatura e o mundo”, Prémio BCI de Literatura de 2014.

Nesta entrevista realizada por Amosse Mucavele, o pesquisador fala de sua trajetória profissional, dos estudos das Literaturas Africanas, da produção literária e jornalística em Moçambique, das suas prespectivas, interrogações e possíveis soluções para questões ligadas a Educação, a cultura e comunicação social. Francisco Noa considera que “a literatura é um sistema vasto que não se reduz apenas à poesia, ao conto e ao romance. É uma enorme cadeia da qual participam diferentes possibilidades de realização textual, onde devem estar presentes a criatividade, a imaginação, a sensibilidade e, sobretudo, uma relação estruturante, edificante e criativa com a palavra.”


Como começou o seu contacto com a leitura?
Uma verdadeira iniciação, num misto de revelação e emoção. Algo que me acompanha até hoje. Aprendi a ler antes de entrar na escola oficial. E, a partir daí, tudo o que estava escrito prendia a minha atenção. Lembro-me, por exemplo, que, andando de machimbombo, gostava de ficar à janela de modo a ler, em voz alta, os letreiros das lojas e dos edifícios públicos.

No início, o que buscava enquanto leitor?
O que busco ainda hoje: o poder, o sortilégio e o significado das palavras. Com esses significados aprendi a viver novas experiências, deslocando-me do mundo em que me encontrava, ou fazendo com que esse mesmo mundo adquirisse um outro significado, um outro sentido, ao qual não chegaria de outro modo.

Como chegou a ser crítico literário? Foi um sonho, uma aventura, ou foi a única forma que encontrou para se tornar independente?
As primeiras leituras foram leituras sobretudo de prazer. Diria mesmo sensoriais. Confesso que é algo que também procuro que se mantenha. Eram livros de aventuras, que apelavam à imaginação, à fruição e  preencheram a minha infância e juventude. A leitura só faz sentido para mim se me dá, antes de tudo, prazer, fruição. O sentido crítico nasceu na sala de aulas, sobretudo no ensino secundário, com a interpretação dos textos, alguns deles obrigatórios, outros nem por isso. Eram textos, ao mesmo tempo sedutores e profundos, de autores como Luís Bernardo Honwana, Luandino Vieira, José Craveirinha, Pepetela, Mutimati Barnabé João, que faziam com que nos descobríssemos a nós próprios.



Foi a primeira vez que o Prémio BCI foi atribuído a “um género pouco explorado pelos escritores nacionais”, o ensaio. Este prémio tem um significado especial?
Em primeiro lugar, é um prémio à leitura. O ensaio é um mecanismo que estabelece um continuum com a literatura, ampliando-a, aprofundando-a, recriando-a ad infinitum. Tenho sido um defensor irredutível da ideia de que não existe escrita sem leitura. Paradoxalmente, o que muitas vezes está a ser promovido são obras de autores onde o défice de leitura é manifesto.
Em segundo lugar, este prémio é a celebração de uma ideia alargada e moderna da literatura. A literatura é um sistema vasto que não se reduz apenas à poesia, ao conto e ao romance. É uma enorme cadeia da qual participam diferentes possibilidades de realização textual, onde devem estar presentes a criatividade, a imaginação, a sensibilidade e, sobretudo, uma relação estruturante, edificante e criativa com a palavra. Só uma visão estreita e conservadora pode subtrair o ensaio desse sistema. E, finalmente, considero que houve muita ousadia do júri em quebrar um ciclo de premiação que não saía dos géneros do costume - a ficção e a poesia.

Será este prémio um contributo para se romper o silêncio acerca desta disciplina literária - o ensaio - tão pouco cultivada em Moçambique?
Não tenho quaisquer dúvidas. Não só de quebra do silêncio, terrivelmente ensurdecedor, mas também de valorização e legitimação de um género fundamental para a existência da literatura. O ensaio situa-se numa fronteira móvel e resvaladiça, mas extremamente fascinante e apelativa, entre a criação e a análise, ou entre a experimentação e a teoria.

A poesia, em especial a de Rui Knopfil, José Craveirinha, Luís Carlos Patraquim e Armando Artur parece ter sido fundamental na sua trajectória de leitor e ensaísta. Qual é o lugar da poesia na sua vida quotidiana?
Num texto, já  bastante antigo, dos anos 40 ou 50, o escritor anglo-americano, T.S. Elliot, fala da perda da poesia na vida moderna. Estou globalmente de acordo com ele. O nosso quotidiano é demasiado duro, diria mesmo agressivo, exigente e desencantado, reduzindo drasticamente a nossa capacidade de contemplação e de abstracção. Mas, mesmo assim, penso que temos que ter arte suficiente para podermos, nas pequenas coisas de que é feito o nosso quotidiano, encontrar a poesia. A poesia, afinal, tem a ver com a nossa capacidade de nos deslumbrarmos. E é possível, tal como os poetas profissionais, encontrarmos fascínio na natureza que ainda nos rodeia, nas pessoas com que nos cruzamos, nas falas que ouvimos, no olhar de uma criança, no corpo e no sorriso das mulheres, nos sons da noite, enfim…



Em Moçambique o número de ensaístas e de críticos literários contam-se pelos dedos., denotando uma falta de tradição do ensaio e muita tradição de “poesia” e “prosa”?
Na verdade, o ensaio também é prosa. E nada obsta a que ele nos apareça em forma de verso. Mas o que temos é essa visão redutora e castradora da literatura. Por outro lado, confrontamo-nos com essa ausência de leitura sistemática e viciosa, mas sobretudo questionadora, aquela leitura que procura devassar o texto lido, na ânsia de continuá-lo, de conceder-lhe e ampliar-lhe sentidos, de explorar-lhe os limites, através da crítica e do ensaio. E, julgo ser a crítica jornalística aquela que mais falta faz, quer para questionar, com competência, a qualidade de algumas obras, quer para educar a sensibilidade estética dos leitores, sobretudo aqueles que estão em processo de formação, de aprendizagem. Infelizmente há muitos que se consideram escritores, mas mal fizeram a aprendizagem da leitura, o que é grave! Por isso, a  crítica jornalística tem que ser feita por profissionais, por pessoas que tenham um profundo conhecimento da literatura, dos livros, que amam os livros e que procuram preservar o que eles têm de melhor.

O professor é um homem rico de ideias, diversificado. Para si, em que reside essa interdisciplinaridade, esse olhar clínico, essa vontade de ver e depois reflectir?
Tenho que reconhecer que tudo isso, ou quase, provém da leitura. Muita leitura! Viciosa, obsessiva, às vezes. É certo que cada vez mais o espaço da leitura, devido a múltiplas obrigações, não ocorre na quantidade e na qualidade que gostaria. No entanto, uma curiosidade quase infantil e uma inquietação intelectual permanente levam-me a diversificar bastante as minhas leituras o que, naturalmente, alarga e tonifica a minha visão do mundo. Penso que o facto de também  ter, acredito eu, uma imaginação fértil, distende assinalavelmente as minhas possibilidades de interpretar os textos e o mundo que me rodeia.

Jacques Derrida, Deleuze, Heidegger, Rosseau, Kierkegaard, Ortega y Gassey, Shopenhaeur, W.Benjamin, são filosófos, escritores e poetas que dedicaram parte da sua obra a pensar a literatura e a arte. Em que medida uma obra filosófica produz efeitos na literatura?
Bom, na verdade, as primeiras reflexões sobre a literatura foram feitas por filósofos. Refiro-me, neste caso, a Platão e Aristóteles longo dos séculos foram os filósofos que deram um contributo decisivo para o alargamento e adensamento interpretativo e teórico da literatura. Há, obviamente, uma dimensão filosófica intrínseca da literatura, enquanto arte de linguagem, da palavra e exercício do pensamento, que atrai, inevitavelmente, os filósofos. Como sabemos, a filosofia é um espaço permanente de questionamento, de crítica e de escavação da existência, do mundo e do homem, tal como a própria literatura.



O jornalismo de hoje detesta e aniquila o exercício da crítica cultural. Estou a lembrar-me das páginas do jornal Domingo (Dialogo), Revista Tempo (Gazeta de Artes e Letras), nas décadas 80 e 90, onde desfilaram nomes sonantes do nosso jornalismo cultural, como Calane da Silva, Luís Carlos Patraquim e Nelson Saúte. O jornalismo cultural morreu?  Faz sentido falarmos de jornalismo cultural nos diários e semanários de hoje?
Penso que faz e fará sempre sentido. Temos claramente problemas sérios e gravíssimos de falta de qualidade, falta de profissionalismo e de comprometimento, mas isso deve constituir um desafio, quer pela tradição já existente, quer pelas exigências da própria arte e da cultura em geral. O americano Alan Bloom fala-nos da predominância crescente de uma cultura inculta, cada vez mais global e ostensiva. Portanto, todos quantos estão à frente desses meios de comunicação devem tomar consciência da importância do jornalismo cultural e apostar em pessoas, sobretudo jovens, que possam realmente fazer a diferença. Mesmo assim, não posso deixar de assinalar o esforço que tem sido feito, aqui no país, para manter viva essa actividade, em alguns casos com qualidade aceitável.

A crítica especializada não tem mais espaço no jornalismo actual, a internet surge como espaço predilecto para esta actividade criativa, será que a internet criou um novo paradigma?
Não tenho dúvidas de que a internet, longe de ser um problema para a criação e para a crítica, abre possibilidades e apresenta desafios gigantescos, que só com o tempo vamos sabendo explorar. Umberto Eco faz referência a isso, num artigo relativamente recente, explicando justamente que a internet não ameaça a existência dos livros e da literatura. O importante é que saibamos explorar esse filão imenso, essa ferramenta extraordinária, com inteligência, criatividade e decência.

A internet tornou-se a ponte de afectos do século, estimula a produção, cria possibilidades de troca, reorganiza as relações entre o escritor, o leitor, o crítico e o criticado. O maior desafio que, nos nossos dias, se apresenta ao escritor, ao intelectual contemporâneo é entender que a leitura deixou de ser um acto silencioso e individual e passou a ser um acto social?
A leitura foi sempre um acto social. Sempre. Mesmo quando, paradoxalmente, ela se realiza como exercício solitário e silencioso. E a socialização manifesta-se na troca de livros, nas tertúlias, nas discussões públicas, na reescrita dos livros através da crítica e do ensaio, nos comentários, enfim… O que a internet propicia é precisamente a globalização dessa socialização.

Na internet multiplicam-se as revistas, sítios e blogs independentes, como são os casos da Literatas, Soletras (Moçambique), Musarara, Cronópios (Brasil), Jornal Cultura (Angola), Triplov (Portugal), só para citar alguns. Podemos afirmar que estas iniciativas se configuram como catalisadores de um novo jornalismo cultural?
Sem dúvida. Já me tinha referido a isso antes. Julgo serem a tradução de uma enorme e generalizada curiosidade e irreverência intelectual entre os jovens, o que é de saudar. Claro que é necessária uma orientação, um acompanhamento no sentido de assegurar a qualidade e a sustentabilidade dessas iniciativas.  

Alguém afirmou o seguinte: “ o jornalista tem de ler o mínimo de jornalismo e o máximo de literatura, é a literatura que lubrifica a língua “. Como avalia a qualidade do nosso jornalismo na sua generalidade, tendo em conta o número de jornais, televisões, rádios, escolas e universidades. Há avanços?
Não nos esqueçamos que algumas das maiores referências da nossa literatura provêm do jornalismo, como são os casos, de João Albasini, Noémia de Sousa, José Craveirinha, Rui Knopfli, Luis Carlos Patraquim, Albino Magaia, Mia Couto, entre outros. Hoje em dia, temos uma proliferação de meios de comunicação, sobretudo dos audiovisuais, onde o cuidado com a língua e com a escrita é quase inexistente. E, isso é muito preocupante, pois, esses meios são verdadeiros veículos de comunicação de massas, que atingem vastas camadas da população moçambicana. E os meios de comunicação social não servem só para informar, mas também para educar. Apesar do trabalho que desempenham, julgo que é preciso investir de forma séria e consequente na qualidade desses profissionais.


Na contracapa de Entre o Índico e o Atlântico, da Sara Jona, O professor Francisco Noa afirma “estamos, pois, perante uma obra que, apesar de traduzir intervenções em contextos diferenciados, no tempo e no espaço, mantém um fio condutor, que se traduz no olhar inconformado e interpelativo com que a autora busca sentidos em relação ao mundo que a rodeia, quer em relação aos livros que já são, em si mesmos, uma interpretação das pequenas e grandes questões do nosso tempo”. O que mais lhe chama a atenção na literatura moçambicana actual?
Uma certa avidez em registar, crítica e criativamente, as atribulações do nosso quotidiano que, como sabemos, tem uma dimensão quase épica, naquilo que contém de imprevisível e desconcertante. Mas também de muito humano ou, se quisermos, de desumano. Se isto é mais notório na ficção, a nível da poesia é-o claramente. As incertezas em relação ao tempo que vivemos estão lá muito presentes.

Por que ler?
Para existir. Existimos porque lemos. Não só livro é certo, pois é preciso saber ler a natureza, o mundo, a realidade à nossa volta, as pessoas que nos rodeiam, os inúmeros fenómenos de que é feito o nosso quotidiano. E, essa leitura é mais profunda e gratificante se formos leitores sistemáticos de livros. Sejam eles impressos ou digitais. Só a leitura nos confere competências intelectuais únicas. Além de nos tornar linguisticamente proficientes, alargando as nossas capacidades expressivas e comunicativas. Por outro lado, alarga o nosso campo de referências e os nossos horizontes cognitivos e culturais. Além de que nos ensina a questionar com profundidade. O que, consequentemente, nos torna melhores profissionais e cidadãos mais competentes.

Quais são os principais desafios para o desenvolvimento do nosso sistema nacional de educação?
Fazer com que as crianças moçambicanas, no fim de 4 ou 5 anos de escolaridade saibam ler, escrever, fazer cálculos e raciocinar correctamente. Depois disso, tudo o resto há-de acontecer por si. Sobretudo, o desenvolvimento real e sustentável do país. Obviamente, isso implica, entre outras coisas, vontade política, visão, coragem, compromisso, seriedade, honestidade, competência e determinação. Não esqueço naturalmente a imprescindibilidade de recursos humanos, financeiros, materiais, tecnológicos e infraestruturais. Estou esperançoso que as novas autoridades do sector consigam, de uma vez por todas, fazer a diferença.

Se pudesse recomendar um livro ao presidente da República e ao líder da Renamo. Qual seria?
Não só a essas duas destacadas figuras, mas a muitas outras, sobretudo do meio político, empresarial e intelectual. Trata-se de um livro de uma senhora camaronesa, Axelle Kabou, intitulado E se África recusasse o Desenvolvimento? Julgo que o título fala por si.

Qual é o autor moçambicano a que se deveria prestar mais atenção, neste momento?
Penso que há vários, sobretudo jovens com um grande potencial. Espero não estar a ser injusto para outros, mas gostaria de destacar: Lucílio Manjate, Sangare Okapi, Hélder Faife, Alex Dau, Clemente Bata, Andes Chivengue, Nelson Lineu. Infeliz e dramaticamente continua deficitária a presença feminina.


XXX



Amosse Mucavele nasceu em 1987 em Maputo (Mocambique). Jornalista cultural, poeta, ensaísta e tradutor dirige o projeto de divulgação Literária Esculpindo a Palavra com a Língua. É também chefe de redação da publicação Literatas, revista de Literatura moçambicana e lusófona. Sobre a escrita do moçambicano, Susana Busato escreveu: "A poesia de Mucavele desenvolve-se em meio à alegoria do fazer do arquiteto que molda nas formas da cidade a forma do desejo e a pulsão sexual." Em 2013, o poeta coordenou a antologia poética A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua. A obra é o primeiro volume do projecto “Esculpindo a Palavra com a língua”, que junta poemas de escritores sonantes de países como Moçambique, Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Portugal e Brasil. Geografias de la mirada foi publicada em 2016 ( Edição bilingue)

Consulte a resenha e Amosse Mucavele para o Blog Etudes Lusophones no link abaixo : Amosse Mucavele 

Um comentário:

  1. Ilmo Prof. Leonardo Tonus, cheguei aqui buscando literatura africana e deparei-me com Moçambique em pauta. Fiquei feliz e fiquei fã. Parabens pelo belo trabalho e obrigado pela contribuição que recebo através do seu projeto.Minha satisfação está expressa aqui ... http://letrastaquarenses.blogspot.com.br/2016/05/estudos-lusofonos-via-sorbonne-antonio.html

    Abraços,
    Antonio Cabral Filho

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