quarta-feira, 25 de maio de 2016

Eu detesto resenhas literárias

Eu detesto resenhas literárias
Leonardo Tonus


Eu não suporto resenhas literárias. Eu não gosto de resenhas literárias. Eu detesto resenhas literárias. Nunca as leio. Maçã digerida que fica entalada na garganta. Também não leio sinopses de filmes. Pois busco sempre o espanto. Na morte de Gelsomina. No beijo em Casablanca.  Na queda de King-kong. A kiss is still a kiss ? Not really. Tá, mas você esqueceu Machado. Machado, o quê ? A historiazinha do mortinho abandonado ?  Tá.  E não tá.  Já pensou nos vermes ?  Esqueceu os vermes ! Ninguém pensa nos vermes. Ninguém pensa em vermes. E no entanto.  Croc, croc. O dedão do melancólico é devorado. Croc, croc. Seu corpo escarafunchado. Croc, croc.  Os vermes e seus dentinhos afiados cocegam os pés do defuntinho.  ( empresto aqui o neologismo ao meu amigo Roberto Parmeggiani). Seu nariz. Suas orelhas. E os falsos sistemas de pensamento. Croc, croc. Humanitismos. Evolucionismos. Croc, croc. Naturalismos. Desenvolvimentismos. Positivismos. Croc, croc. Dizem que alguns destes voltaram a estar na moda. Croc, croc. Mas os vermes também. Croc, croc. Os vermes de Machado são o abismo de Machado. Toda experiência artística é abismal. Ou deve ser. Sartreano convito (ou quase) busco o espanto da angústia. Sou um ser-para-morte.  Sempre.  Nas artes. Em sala de aula. Na descoberta do outro. Nos jantares com meus amigos. Meus jantares também são abismais. Ou eram. O espanto desapareceu nos inquéritos preliminares. Vegetariano ? Carnívoro ? Alérgico?  Felizmente pouparam-nos as sobremesas.  Atirar-se no precipício da primeira colherada de uma baba de moça. De uma tarte tatin. De um mousse de maracujá.  Ou das primeiras linhas de um romance de capa amarela.  Mas dele não falarei. Pois não gosto de resenhas. Eu nunca as leio. Eu não suporto resenhas. Não comentarei  a busca de Samuel pelo pai desaparecido.  Seu sofrimento.  Fome e sede durante  mais de dezesseis dias de caminhada pelo sertão. O destino trágico de Maiirinha. Sua dignidade.  A cabeça decepada do santo. O pícaro Francisco. Meio trickster. Meio malandro. A denúncia dos sistemas de opressão. As derivas do fanatismo. O horrores do clientelismo. Uma estrutura romanesca tradicional cujo ritmo, no entanto, nos empurra precipício abaixo. Com estômago virado. Rindo das piruetas de suas personagens. De nossas cambalhotas. E chorando com  grito sufocado do protagonista.  E o espanto face a um real quase mágico.  Quase e absurdo.  No romance também há angústia. A eterna e prazerosa angústia do proceso de leitura. Pela certeza de saber que iremos nos espatifar. E nos espatifamos. Felizes como tomates. Espanto.  Afetividades. Angustia. Dor.  Abismo. E os vermes da Cabeça do santo de Socorro Acioli.  Mas dela não falarei. Seu livro não comentarei. Suas personagens não descreverei. Pois eu não gosto de resenhas literárias. Eu não suporto resenhas literárias. Eu destesto resenhas literárias. 

Leia um trecho do romance A cabeça do santo de Socorro Acioli, clicando aqui : 

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