sábado, 21 de maio de 2016

Doce de leite


Doce de leite
Leonardo Tonus


« O senhor tem uma encomenda ». O carteiro, ontem, tocando em casa. Por aqui os carteiros ainda entregam a correspondência em mãos. Pelo menos, o meu carteiro entrega. Claro, isso quando ele não se engana de destinatário. Ele sempre se engana de destinatário. Todas as semanas. Todos os meses. Assim, soube que senhora idosa do 2° andar, tão recatada, assina uma revista sobre motos. As crianças do 3° andar ganharam no último mês um presentão da Rússia. O selo era russo. O nome do expeditor também. Alguém se lembrou do casal do 1° andar. Abraços das Antilhas. Saudades. Na semana passada encontrei a senhora do 2° andar no elevador. A da revista das motos. Vestia um tailleur. Sorri. E quase pedi que me levasse na garupa por suas estradas imaginárias. Desta vez, o meu carteiro acertou e a minha encomenda chegou. Envelope grande. Papel pardo. Brasil. Minhas encomendas sempre vêm do Brasil. Livros. São sempre livros. Acho que meus livros também já circularam pelo prédio. O senhor sisudo do 5° adorou o último da Elvira Vigna. Ele começa em Paris. A garota do 4° andar, com seus eternos fones de ouvido, chorou com o relato do Kucinski. Mas meus vizinhos não falam português. Sou eu que adoro Elvira e que chorei com o K. Assino o comprovante da encomenda registrada. E o ritual começa. Não rasgo o envelope. Busco uma faca. Sento no sofá. Apalpo a encomenda. O expeditor é brasileiro. O selo é brasileiro. A letra do expeditor brasileiro é redonda. Evitou as tradicionais garrafais, tão impessoais. A letra é afetiva. A encomenda é afetiva. Papel pardo é sempre afetivo. Sinto que lhe devo respeito e coloco o livro sobre meus joelhos. Abro delicadamente o envelope. Pequeno formato. Bela diagramação. A imagem da capa é de Jephan de Villiers. Ignorante que sou, não o conheço. Googlelizo o nome. Imagino o autor escolhendo essa imagem de um artista francês já sabendo que um seu livro um dia chegaria por aqui. Em minha casa. Em Paris. Obviamente que não. Mas os laços de afetividade já se estabeleceram. Eu. O livro. O autor. As palavras. E o meu carteiro. O meu carteiro é um subversivo. Talvez faça parte de uma gangue de carteiros subversivos espalhados pelo mundo. Talvez esteja criando um evento literário subversivo entre carteiros também subversivos. Durante esse evento os carteiros da gangue subversiva errariam propositalmente os seus destinatários. E receberíamos livros dos outros. Eu gostaria de receber uma antologia de poemas kurdos. O « Mentiras » chegaria ao Congo. O « Outros cantos » acabaria numa kashba da Argélia. Mas desta vez o meu carteiro acertou. Este livro tinha-me realmente como destinatário. Não o leio de imediato. Guardo-o para a noite. À minha cabeceira. Ao longo do dia, no entanto, passarei por lá para verificar sua adaptação. Coloquei-o ao lado do Drummond para que se sinta em casa e menos estrangeiro. O meu carteiro também faz isso. Troca propositalmente os destinatários das cartas. Ele quer que nos sintamos menos estrangeiros. Ou menos solitários. Suas correpondências trocadas têm gosto de doce de leite. Meus livros também. Daquele doce de leite que você guarda na geladeira e promete que não vai comer. Doce de leite. Doce ilusão. Pois a cada cinco minutos a geladeria está aberta. Uma colheradinha aqui. Mais outra lá. E outra. E outra. E lá se foram sua promessas. E lá se foi o doce de leite. Também não resisto ao meu livro doce de leite. Sérgio Tavares, é seu autor. Queda da própria altura , o título. Na segunda página leio : « os livros são uma necessidade, pois são chaves para a solidão ». Eles sempre foram a chave de minha solidão. A minha queda será vertiginosa. A primeira colheradinha. A segunda colheradinha. Uma outra. Mais uma. E outra. Outra. E…

2 comentários:

  1. Maravilha, Leonardo! Muito bom, mesmo. Estou, neste instante, ouvindo a quinta e última parte do seu depoimento no Conexões Itaú Cultural (2008). Legal te conhecer.

    Sou editor e escritor. Como te enviar livros?

    Abraços amazônicos,
    Abel Sidney

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