segunda-feira, 18 de abril de 2016

vazio de lá e de cá


Alécio de Andrade: "Grand Palais" (Paris), 1975



que algumas coisas continuem
nos acompanhando em segredo
que a água entre nossos dedos
que o gesto desamparado
que o murmúrio derradeiro
que o medo o medo o medo

que a recém inaugurada
livraria da cidade
que a ternura do banco
que o desbotado do traço
que o pacto com o silêncio
que a praça a praça a praça

que algumas coisas continuem
nos socorrendo caladas
que a voz enrouquecida
que a vida despreparada
que o beijo que desafia
a infância abandonada

que a fala a fala a fala
que algumas coisas continuem
na coragem da viagem
no encontro com si mesmo
na aliança com o pequeno
na certeza do improvável

que algumas coisas permaneçam
nos guardando em segredo
nos dedos nas águas nas praças
nos gestos na entrega na fala
no consolo do vento
na miséria que apunhala

que a vida que não existia
que a neblina na vidraça
que o papel preto ardendo
que o lamento o lamento o lamento
que o que continua é o efêmero
no anseio no quarto desarrumado

***********



precisa-se de uma solidão escolhida
uma bem vinda solidão vivida

precisa-se de uma dor incrustada na vida
vinda desde sempre e não tendo previsão
nem modo nem como sair

precisa-se de uma respiração divina
uma mão que pousa por cima
e escreve por mim

precisa-se enfim
de um começo
jamais de um fim

************
Cassio Vasconcellos, Anhangabau"3


a coragem de se abandonar
de se interromper
de parar de ser

a ânsia da não obra
a vitória da não coerência
do desaprender

de ser nosso próprio fracasso
iluminado – apressado –
do deixar de ser

**********
na minha vida nordestina
eterna parisiense
agora tão severina

vi três carcarás
voando no alto mais alto
três carcarás majestosos

eles têm cabeça branca
e voam generosos
além dos barcos bêbados
e dos muros de salém

na minha vida severina
serei toujours nordestina
morte e vida que se destina
aos olhos do meu bem


*********


hoje o dia será vazio
vazio de lá e de cá

vazio desarrumado
vazio encurralado

deus engavetado
sem respirar

********


mon amour rilke
toi e moi e
essa nossa mania
de não explicar ninguém

nem recusar nada
nesse vai e vem de palavras
e o sono e o sono
rir e morrer

longe aquelas outras
semi-endeusadas
desfilam o novo prêt-à-porter
linhas frases páginas

magras pálidas
desvitalizadas
colando a boca no ombro
aparecer por aparecer

daqui o néon o letreiro
do motel sempre vermelho
melhor ser frase de banheiro
suja e calada

imunizada sem data
sem explicar nada
sem querer entender
feito eu você

e meu amour rilke
teu amor espinosa
pele feita sobre medida
vida mutilada sendo

assim reconstruída
beneficio dos alienados
de grota em grota
reinventando o viver





Patricia Laura Figueiredo, entre São Paulo, onde nasceu e se dedicou à poesia e ao teatro desde cedo, e Paris, onde mora desde 1990, amadureceu seus poemas numa vida dedicada a tornar o poema uma experiência essencial. Publicou o seu primeiro livro de poesias, Poemas sem Nome pela editora Ibis Libris e seu segundo No Ritmo da Agulhas, em março de 2015 pela editora Patuá. Participou de várias antologias, no Brasil e na Alemanha e também em diversas revistas digitais de literatura e poesia. Acaba de publicar, pela Editora Dasch seu terceiro livro de poemas Poemas Bebês.

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