sexta-feira, 4 de março de 2016

Mentiras

Mentiras

Mentiras, romance de estreia de Felipe Franco Munhoz, chega às livrarias brasileiras O aniversário de um ano sempre tem uma simbologia especial. A Editora Nós, pouco depois da comemoração de seu primeiro ano de existência, entrega agora ao público seu sétimo lançamento, o intrigante romance Mentiras, a esperada estreia de Felipe Franco Munhoz, uma voz única na literatura brasileira contemporânea.

“Trazer o livro do Felipe à luz, sobretudo nesse momento de apatia e retração do mercado editorial brasileiro, é de certa forma reafirmar nossa fé na literatura contemporânea. É preciso que o novo surja, sempre, e essa é uma das diretrizes da Nós, dar vida e voz a quem ainda não foi lido”, assegura Simone Paulino, diretora editorial da Nós.

No livro, assim como Virgílio conduziu Dante na Divina Comédia, Felipe estabelece um diálogo imaginário com a figura de seu homônimo Philip Roth, com a intenção manifesta de tecer o livro-travesseiro de sua vida. O desejo expresso e impresso do autor é fazer “diálogos que realmente pareçam diálogos”, ou seja, que a sua obra e a de Roth sejam entrelaçadas e reverberem em todos os níveis. Alusões diretas e veladas à extensa obra de Roth irão pontuar todo o livro. Muito além de desenovelar os prazeres e os desencontros de que só o amor é capaz, seja com a católica Thaís ou a judia Marina, Felipe nos enreda em uma transmutação constante entre personagens, autores e nós, leitores, para que possamos nos “redespir”, “descircuncidar” nossa alma.



Philip Roth não é somente o alter ego ou o duplo de Felipe, um personagem-autor com quem ele “conversa” nas tardes de um café imaginário. Ele é também um leitor dentro do lúdico work in progress do livro. A própria estrutura de Mentiras, assentada unicamente em diálogos, evoca a quebra da quarta parede utilizada na dramaturgia moderna. Como escreve o renomado poeta e tradutor Paulo Henriques Brito na quarta capa do livro: “Belo trabalho de metaficção.” Em outros termos, a engenhosa fluidez formal do livro, perpassada de fina auto-ironia e eruditas discussões estéticas, envolve completamente o leitor, pois ele também é parte da construção do romance. O invulgar objetivo do romance é plasmar identidades, técnica empregada em romances de Roth. Logo no início do romance Felipe expõe seu projeto artístico: “(...) trocar a minha solidão pela sua; habitá-lo, Philip, você que, por enquanto, em nada se parece comigo; desaparecer dentro de você (...)”. E, como desde James Joyce, nossas contradições e nosso “indissolúvel caos” devem ser expostos com algum grau de invenção e transgressão da linguagem, o autor faz diversas experimentações, como o uso de frases entrecortadas à maneira da linguagem oral, capítulos gráficos ou mesmo palavras decompostas ou entremeadas por pontuação hesitante. Ao final da leitura, enlevados pelo poder encantatório de uma prosa impregnada de malícia, o impacto do romance ainda é amplificado por um epílogo genial que reafirma e sintetiza o credo artístico do autor: “O que faço, meu ofício, é forjar; na metáfora da forja, da ferraria, nos dois sentidos que o verbo transitivo admite.” Mentiras é um culto divertissement, como diriam os franceses, perfeitamente acessível a qualquer leitor. Uma equação que poucos escritores conseguem resolver.

Felipe Franco Munhoz faz parte da delegação da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien que vai acontecer em Paris entre os dias 21 e 31 de Março. Ele lança o seu livro hoje, sexta-feira 4 de Março às 18h30 na Livraria da Vila, em São Paulo.

Sexta-feira dia 4 de Março às 18h30 - Livraria Da Vila.
Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo

Um pouco de leitura
Mentiras – trecho do romance

- Você passa as tardes comigo neste café, as noites no apartamento dela. Quando escreve?
– O tempo todo.
– E pretende chegar? Em um romance longo?
– Ainda não sei. Caso demore, quer algum animal
para lhe fazer companhia? – Não.
– Cachorros? Um aquário?
– Não.
Você já teve bichinhos de estimação? Dois gatos. Por alguns dias.
Quais eram os nomes?
A e B.
[risos] A e B. Não deu certo.
Não. Felipe, você e Thaís fazem sexo
religiosamente.
– Religiosamente. Dou início ao diálogo após o
último suspiro de prazer.
– Pós-coito.
[risos] Pós-coito.
É isso? O possível romance longo. Sexo,
bichinhos de estimação, literatura. E falas contidas. Nenhum background para Thaís.
        Estou. Ainda estou elaborando, rascunhando em guardanapos no café da manhã, tentando        
encontrar a cor do fio. Para então começar o travesseiro.
                 – Preste mais atenção no que já está acontecendo. E o passado é fundamental. Foram citados Faulkner, Joyce, Steinbeck, Melville, darei minha contribuição: pense em F. Scott Fitzgerald. O que é que Scott Fitzgerald falou? Assim seguimos adiante, barcos contra a corrente, arrastados sem trégua rumo
ao passado.
                – A formação.
                – É importante. Dê mais atenção ao detalhe.
                À imensidão do detalhe, à forc
̧a do detalhe, ao peso do detalhe.
               – Certo.
               – Mais atenc
̧ão ao cenário.
              
Certo. Obrigado.
              
Posso fazer uma pergunta básica? Por que Thaís? – Ela é simpática.
              
Boa de cama?
              
Cada vez melhor. [risos] Religiosamente.
               – E quando ela menstruar?
               – Qual é o problema?
              
O que você vai fazer? Suprimir os diálogos?
               – Philip. O que vou fazer? Esse tipo de detalhe,
               que interfere na privacidade, eu prefiro deixar de fora, entende?



Felipe Franco Munhoz nasceu em São Paulo, em 1990. É graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Paraná. Em 2010, recebeu uma Bolsa Funarte de Criação Literária para escrever – em tempo integral – o romance Mentiras, inspirado na obra de Philip Roth. A convite da Philip Roth Society, Franco Munhoz leu trechos do romance durante as comemorações de 80 anos de autor, em Newark. Seus primeiros textos de ficção foram publicados em diversos veículos, como Gazeta do Povo, Rascunho, Cândido e The Huffington Post. É coordenador do site Antessala das Letras.

Né à São Paulo en 1990, Felipe Franco Munhoz est diplômé en Communication Sociale par l’Université Fédérale du Paraná. En 2010, il a reçu une bourse de la Funarte pour son roman Mentiras  (Editora Nós, 2016), inspiré de l’œuvre de Philip Roth. A l’invitation de la Philip Roth Society, Franco Munhoz a lu quelques passages de son roman lors de la commémoration des 80 ans de Philip Roth à Newark, en mars 2013. Il a déjà publié des nouvelles dans divers journaux et revues littéraires au Brésil et à l’étranger, tels que Gazeta do Povo, Rascunho, Cândido et The Huffington Post. Membre de l’APCA (Association Paulista de Critiques d’Art) pour de la littérature, il est également le concepteur du site Antessala das Letras.






Mais informações no site da Editora Nós


Consultem a resenha publicada no Jornal Estado de São Paulo sobre o romance Mentiras de Felipe Franco Munhoz. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário