quarta-feira, 2 de março de 2016

Manifesto do Arvoresser

               Planeta ©Maurício Vieira
Manifesto do Arvoresser

Maurício Vieira

Reza o velho adágio que uma imagem vale mil palavras.  Ora, Millôr Fernandes já desafiava qualquer um a tentar dizer isso sem palavras.   Entretanto, hoje Millôr ficaria estarrecido ao constatar que cada vez mais, as palavras viraram imagem.  A imagem atualmente domina a atenção de todos.  Ela é rápida em transmitir ideias e seduz.  A palavra escrita é lenta, pois é a morada da ideia, onde ela é gestada, alimentada, onde ela se fortalece, até poder ganhar mundo. A imagem é sua montaria, através da qual ela se propaga com maior rapidez.  Hoje estamos fascinados com a montaria, com sua velocidade, e esquecemos da morada.  Eu diria que a quantidade avassaladora de imagem produzidas e reproduzidas pela mídia e por nós mesmos, nas diversas telas, no celular e nas redes sociais, nos deixa desnorteados.  Nossa bússola foi desmagnetizada pelo brilho das imagens.  Consumimos, produzimos, desejamos e cultuamos imagens a todo instante, desde o despertar até a hora de dormir, num permanente estado de alerta.  Vocês devem certamente conhecer a sigla FOMO, que em inglês significa Fear of Missing Out, ou o medo de perder o que se passa, e que se passa a todo momento. 

Mulheres Deitadas na Relva ©Maurício Vieira

A poesia, logo ela, tão completa, criadora de música, de ritmo, de imagem, de estrutura, perde seu espaço, pois ela tem outro ritmo que o da imagem.  Que lugar tem a poesia no mundo das imagens onipresentes, estas montarias tão velozes que fazem até mesmo que a ideia se perca?  Que lugar tem a poesia num mundo onde as mensagens entre os telemóveis usam cada vez mais abreviações e imagens de rostinhos amarelos felizes ou tristes, onde essencialmente até a palavra escrita se transforma em imagem?  Que lugar tem a poesia num mundo em que cada imagem é notícia?  Afinal, hoje, mais do que nunca, já não basta a palavra: é necessário ver para crer.  Como colocou num poema William Carlos Williams, numa livre tradução minha, “não há notícia alguma no poema, mas as pessoas morrem miseravelmente todos os dias por falta daquilo que há no poema.” 

                  Para o lume ©Maurício Vieira

A poesia na antiguidade se entrelaçava ao culto ancestral à natureza, pois reconhecíamos uma na outra.  Safo e Salomão cantavam as rosas e a primavera em louvor ao despertar do amor e do bem amado.  Até pouco tempo atrás, a poesia e a natureza compartilhavam a mesma morada.  Se a poesia, uma das companheiras de morada mais antigas da natureza, está esquecida nestes tempos de montarias velozes, o que dizer da natureza em si, a nossa morada como seres vivos?  Só nos lembramos dela quando ocorre algum desastre natural, como quem só lembra que tem teto quando surge uma goteira.  Se a poesia contém sabedoria, não poderia ser diferente a natureza.  As árvores sabem a hora de parar de crescer.  Sabem que o solo à volta não pode suportar mais do que um certo número de árvores e crescem até uma certa altura para não exaurir os nutrientes e a água.  O planeta se recobre de CO2, pois, com nossa velocidade imparável, nos distanciamos cada vez mais delas.  Antes cultuávamos estes sábios seres como divindades.  Depois passamos a cultuar um deus da criação, cujo plano divino dava às árvores forte simbologia.  Hoje cultuamos apenas o deus dinheiro, que não dá em árvore.
          Caminho de ferro ©Maurício Vieira
Vaclav Smil declara que o modelo econômico baseado no crescimento não é sustentável. Já Michael Baumgart é mais pessimista ao dizer que somente recompondo profundamente as cadeias de produção iremos conseguir estancar o ritmo avassalador de destruição do planeta.  Larry Fink, gestor da BlackRock, maior instituição financeira do planeta, propôs em carta a CEOs das maiores corporações do mundo que as gerissem para darem retorno a longo prazo.  Leonardo Boff colocou que  “teremos que viver uma sobriedade compartida e aprender a ser mais com menos,” pois "a modernidade nos fez esquecer que somos parte da natureza...”  Nós, diferente das árvores, já não sabemos a hora de parar de crescer.  Em resposta ao culto das montarias velozes, ganha corpo um novo culto à lentidão, às raízes e às moradas.  Foi Carl Honoré quem popularizou o termo Slow para diversas atividades humanas, desde a nutrição até a arte, que adotam este novo ritmo.  Até mesmo o Papa, guardião de um monoteísmo, salienta em sua encíclica “O Cuidado da Casa Comum,” que não estamos cuidando de nossa morada compartilhada.  Não deve ser por acaso que a introdução a seu texto tenha sido escrita por Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food.

Alguns de vocês certamente já assistiram ao filme “Wild”, com Reese Witherspoon.  Este filme comunica de forma veloz a experiência vivida e relatada pela escritora Cheryl Strayed em seu livro homônimo. Ao enfrentar traumas que estavam destruindo sua vida, a autora fez algo inusitado: ela desceu da montaria que a desnorteava, colocou uma mochila nas costas e percorreu sem pressa alguma uma trilha de 2000 km em meio a desertos, montanhas e florestas. O que ela deixava nos livros de visita ao longo da trilha?  Poemas.


              Beleza ©Maurício Vieira

As images aqui reproduzidas fazem parte da exposição  de fotografias « Especiaria Intocada » de Maurício Vieira Sobre Angola que acontecerá em Paris durante o Printemps Littéraire Brésilien 2016. Em breve no blog Etudes Lusophones a programação completa do evento.

Les images ici reproduites intègrent l’exposition de photographies de Maurício Vieira « Especiaria intocada » sur l'Angola qui aura lieu à Paris pendant le Printemps Littéraire Brésilien 2016. Bientôt le programme complet du festival sur le blog Etudes Lusophones



Nascido em Santo André, São Paulo aos 2 de janeiro de 1978. Estudou na Universidade de Chicago e na Universidade de Miami.  Viveu no Brasil, nos Estados Unidos, em Portugal, em Angola, e atualmente reside em França.  Autor dos livros de fotografia A Árvore e a Estrela (Pinakotheke, 2008), Angola Soul (Edição do Autor, 2011), e do livro de poesia Árvoressências (Editora de Cultura, 2014).  Realizou exposições no SESC em maio de 2015 e no Instituto Moreira Salles em julho de 2015.  Sua poesia figurou na exposição de pintura de Miguel da Franca em Luanda em dezembro de 2015.  Participou do evento literário Raias Poéticas em Portugal em outubro de 2015 e participará em maio da edição 2016 da Flipoços.  Edita a revista digital de poesia Arvoressências (www.arvoressencias.com), que em 2016 abrigará poemas de Nuno Moura, Luís Serguilha, João Rasteiro, e Abreu Paxe, entre outros poetas lusófonos contemporâneos, sob a temática Fleurs du Mal. 




Né à Santo André dans l’Etat de São Paulo en 1978, Maurício Vieira a étudié à l’Université de Chicago et à Miami. Il a séjourné au Portugal et en Angola et vit actuellement en France. Il est l’auteur des livres de photographies A Árvore e a Estrela (Pinakotheke, 2008) et Angola Soul (Edição do Autor, 2011). En 2015, il a exposé ses photographies au SESC et à l’Institut Moreira Salles. En 2014, il publie son premier recueil de poésies (Árvoressências, Editora de Cultura) et participe aux rencontres littéraires « Raias Poéticas » au Portugal.  Il sera présent à la prochaine l’édition de la Flipoços en mai 2016 et est l’éditeur de la revue online Arvoressências (www.arvoressencias.com) qui, en 2016, publiera des poètes lusophones contemporains tels que Nuno Moura, Luís Serguilha, João Rasteiro et Abreu Paxe. 




#printempslitterairebresilien

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