sábado, 12 de março de 2016

Cabeça de Mulher Olhando a Neve

Cabeça de Mulher Olhando a Neve


A grande novidade literária, o grande susto, o prazer imediato e misterioso que todo leitor espera de um livro – e há quanto tempo! – está finalmente aqui nesta coleção de contos, Cabeça de mulher olhando a neve, de Jéferson Assumção. Grande novidade sim, como uma paisagem nevada no sertão do nordeste. E essa grande novidade é apenas algo simples e natural, porém raro, como um autor com a fantasia em estado puro. Esta é a marca e a maldição dos que nascem com o impulso da criação ordenada e desordenada, dos que tensionam a corda que une a ordem racional e o universo do arbítrio e do sonho, dos que edificam uma humanidade que não distingue razão e desejo, prazer e trabalho, dos que carregam a marca dos loucos, dos assinalados, dos surrealistas. Surrealismo, por que não? Ele independe de datas, de tempos históricos, de conjunturas econômicas. Brota, simplesmente.
Jéferson Assumção, filósofo de formação e convicção, deixou-se arrebatar pela fantasia em estado puro e foi criando um atrás do outro estes contos que nos desconcertam, fascinam, nos assustam e depois nos fazem pensar. Cada conto deste livro é uma peça única e rara. O leitor desde a primeira página fica tomado pelo poder surrealista e vai lê-las e relê-las e cada vez que as ler terá a impressão de que estará lendo outro conto, outra história, outra fábula, com outra moral e outra intenção. Não há mágica maior no ofício literário. Celebremos esta conquista de Jéferson, vamos nos deixar levar pela fantasia que está impressa nestas páginas e talvez então também sejamos abençoados pelo mistério.”

Tabajara Ruas



Cabeça de Mulher Olhando a Neve

Saturno no laranjal

Nosso pai era um exímio descascador de laranjas. Com velocidade e precisão, ele deslizava a faca afiada entre o amarelo da casca e o branco do bagaço, sem nunca feri-las ao ponto de aparecer alguma parte da polpa. O que nos encantava era como se formava uma espiral comprida, que ia descendo de sua mão a cada volta da lâmina afiada e que só terminava quando a tampinha da outra ponta também estava feita. A casca, então, despencava, dali, inteira para a grama. A gente se acotovelava pra chegar primeiro e era sempre eu, o mais velho, que as pegava antes, para brincar. Pareciam, à minha imaginação, pequenos móbiles ou baralhos de mágico que se abriam em sanfoninhas perfumadas.

De tal maneira era feito aquilo que nós, que nunca conseguíamos nem uma coisa nem outra, ou seja, nem retirar a casca intacta nem fazê-lo sem esfolar – e consequentemente sangrar – a laranja aqui e ali, ficávamos de boca aberta com a habilidade dele. Nosso pai fazia isso em silêncio. Uma, três, cinco vezes. Depois, se esticava todo e puxava um galho para baixo para pegar as mais maduras. Nós três ficávamos ansiosos querendo saber para quem ele daria, primeiro, a laranja tão habilmente descascada. Mas ele sempre nos desapontava. Não digo que apenas no começo ele tenha gerado esse sentimento e que depois a gente tenha se acostumado. Nós sentávamos a uma pequena distância a vê-lo comendo, sozinho, cada uma daquelas laranjas. Com a já referida habilidade, nosso pai chupava-as inteiras e jogava fora os bagaços intactos, como se fossem cabeças de crianças murchas.


Jogos infantis

Era a época da neve, e depois dos seis meses de seca as nuvens pesadas não paravam de derramar carregamentos enormes de chuva solidificada por cima do Plano Piloto. Quem via de cima, de avião, como era o meu caso, se surpreendia com a beleza formada pelos desenhos dos fios pontilhados dos postes de luz na superfície branca, as geométricas formas que nasciam deste contraste e que somente serviam para ressaltar o cartesianismo dos seus construtores. Tudo branco, límpido, como as ideias claras e distintas dos arquitetos, planejadores e políticos que fazem nossa capital ser o que é.

Há décadas que venho a Brasília, vindo do Recife, e sempre tento evitar a época da neve, em que o trânsito se torna infernal devido ao acúmulo de gelo cor de barro vermelho nas largas avenidas. Me incomoda sobretudo ver como sofre o povo, apesar de hoje as pessoas já terem se adaptado ao clima desde a fundação de BSB por JK. Mas o frio me leva sempre a pensar nos pioneiros, nos candangos vindos do Nordeste em busca de melhorar de vida, e tendo que trocar o distante sertão, onde a seca perdura e sempre nevou pouco.

Aquele era o meu caso, a recolher a última e demorada mala na esteira rolante já quase deserta, a recomeçar tudo, do nada, a vida vazia como um guardanapo de boteco sem coisa alguma escrita. Atravessando a faixa de pedestres, em busca de um táxi, meu paletó em segundos ficou pontilhado do branco da neve espessa tão característica do nosso Cerrado. Tive arrepios na nuca já desacostumada.

Sempre nevou pouco no Nordeste, mas das poucas vezes foi muito. Uma vez em Caruaru, quando criança, com meu pai e meus irmãos, visitamos a feira, caminhamos pelos labirintos de coisas para vender, comemos churrasco de bode e tiramos fotos como cangaceiros, com aqueles lindos capotes de couro. Criado em Recife, mas filho e neto de pernambucanos do sertão, lembro das histórias da vida no interior em épocas passadas, das brigas de família, dos assassinatos por um ou dois bodes roubados ou por uma pulaçãozinha de cerca que não deveria ter maiores consequências – também a alegria dos sertanejos quando, depois de uma longa estiagem, finalmente, vinha a neve.

Eu lembro bem do mato seco e frio, fechando meus olhos em dois riscos, com a dolorida lembrança da mulher e os filhos que eu deixei por, segundo Marisa, pura infantilidade – não esqueço das cabras só com a cabeça de fora, nos campos brancos de minha infância.

Da janela do carro eu vi se aproximar a casa baixa da pensão na W3 com seu telhado quase sucumbindo ao acúmulo de gelo... Paguei o táxi, puxei as malas fazendo um trilho no branco até a porta que abriu em uma fresta.

 Em Caruaru, também estivemos na casa de mestre Vitalino e nos emocionamos com a simplicidade com que ele produzia seus bonecos só com neve. Tinha uma romazeira no pátio, mas ela estava seca, toda branca, e do forno de barro do Mestre só o que se podia enxergar era a parte de cima da cúpula arredondada. O resto o gelo tinha coberto tudo, dos calanguinhos às galinhas, duras, mortas, que encontramos a um canto do galpão, como se tivessem tentado se esconder. Sei que lá, de vez em quando a neve volta, só que nunca mais com tanta força, como quando antes fazíamos bolinhas pra acertar na cabeça dos mandacarus com seus braços espinhentos abertos pra nós. Sim, como o mundo está mudado! Agora que neva pouco é que vemos. O sertão sob a neve é um lugar que precisa ser conhecido por todo o brasileiro, pela força que ela tem em arrasar toda aquela riqueza com sua miséria, com sua tristeza branca.

Jéferson Assumção. Cabeça de Mulher Olhando a Neve. Edições BesouroBox



Jéferson Assunção participará do Printemps Littéraire Brésilien 2016 com uma palestra na Universidade da Sorbone na próxima quarta-feira dia 17 de Março às 11h30 em torno de seu último romance Notas sobre Turibio Núñez, escritor caído. Uma sessão de autógrafos é também prevista durante o Salão do livro de Paris no sábado dia 19 de Março às 16h00.

Consultem a programação completa do Printemps Littéraire Brésilien 2016 clicando no link : Printemps Littéraire Brésilien 2016.




Jéferson Assumção nasceu em Santa Maria-RS, em 1970. Tem mais de 20 livros publicados, entre eles A Vaca Azul é Ninja em Uma Vida Entre Aspas (Libretos, 2014), A Ilustração Vital (Bestiário, 2013), Homem-massa (Bestiário, 2012) e Máquina de Destruir Leitores (Sulina, 2000). Foi secretário adjunto de Cultura do Rio Grande do Sul (2011-2014), secretário municipal de Cultura de Canoas-RS (2009-2010), Assessor, Coordenador-geral e Diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura (2005-2008 e 2015). Atualmente faz Pós-doutorado em Literatura no Programa de Pós-graduação em Literatura da Universidade de Brasília (Póslit-UnB). É Doutor em Humanidades e Ciências Sociais – Filosofia, pela Universidade de León (Espanha), com a tese A Ilustração Vital: O Raciovitalismo de Ortega y Gasset como via para o Desenvolvimento de uma Sociedade Leitora. Licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário La Salle (Canoas-RS), tem Diploma de Estudos Avançados (DEA) em Filosofia também pela Universidade de León. Coordenou a campanha Mosaico de Livros - Biblioteca Social Mundial entre 2001 e 2004. Como repórter especial, gestor cultural e ativista, já atuou em mais de 30 países, tais como Índia, Quênia, Marrocos, Senegal, Tunísia, diversos países sul-americanos e europeus, Japão, Cuba, República Dominicana e Costa Rica. Mora em Brasília - DF. É vocalista e guitarra-base da banda Gorda.


Né à Santa Maria (Rio Grande do Sul) en 1970, Jéferson Assunção a publié plus d’une vingtaine d’ouvrages, parmi lesquels : Cabeça de mulher olhando a neve (Besouro Box, 2015), A vaca azul é ninja em uma vida entre aspas (Libretos, 2014), A ilustração vital (Bestiário/Fundación Ortega y Gasset, Cátedra Unesco de Leitura - PUC - Rio, 2013), Homem-massa (Bestiário/Fundación Ortega y Gasset, 2012) et Máquina de destruir leitores (Sulina, 2000). Titulaire d'un doctorat en Humanités, Sciences Sociales et Philosophie, par l'Université de Léon (Espagne), il est actuellement en stage postdoctoral à l'Université de Brasilia (UnB). Entre 2009 et 2010, il a été Secrétaire de la culture de la ville de Canoas, puis, Secrétaire Adjoint de la culture de l’Etat de Rio Grande du Sud (2011-2014). Nommé Coordinateur Général et Directeur du Programme du Livre, de la lecture, de la littérature et des bibliothèques du Ministère de la culture (de 2005 à 2009 et en 2015), il a été l'un des organisateurs du Plan National du Livre, de Lecture et de Littérature (PNLL).


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