sábado, 13 de fevereiro de 2016

Um dedo de prosa com Michel Laub



Um dedo de prosa com Michel Laub

A solidão, a incomunicabilidade, os encontros e os desencontros entre os seres constituem alguns dos temas que percorrem o conjunto da produção romanesca de Michel Laub e mais particularmente  seus dois últimos romances (Diário da Queda e A maça envenedada) que integram uma trilogia acerca dos efeitos individuais das catástrofes históricas. Em Diário da queda o autor evoca as tribulações de um narrador face ao peso do seu passado e de suas heranças. Para além do trágico episódio da infância no qual um colega de classe sofre uma queda durante sua festa de aniversário, o romance propõe um mergulho angustiante pelos espaços labirínticos da memória individual e coletiva do narrador e de seus familiares. O romance evoca assim a  triste história, do avô, sobreviente do campo de Auschwitz, e do pai que sofre de Alzheimer. 
Assistam aos vídeos gravados em Paris durante o Salão do Livro de  2014 nos quais Michel Laub evoca seu percurso literário e comenta suas obras.


La solitude, l’incommunicabilité entre les hommes, les rapports entre mémoire collective et individuelle, voici quelques thématiques qui parcourent l’univers romanesque de Michel Laub et sa trilogie élaborée autour des catastrophes humaines.  Dans Journal de la chute l’auteur revisite, dans ce premier roman publié en France, trois de ces catastrophes – trois chutes – qui traversent la quête d’identité du narrateur : Celle du grand-père suicidaire, survivant d’Auschwitz et exilé au Brésil ; Celle de João, l’ami du narrateur, un jeune goy victime d’ostracisme devenu par la suite, porte-parole d’un discours antisémite ; enfin celle du narrateur et de sa plongée dans l’alcool et la dépression. 
Regardez les vidéos enregistrées pendant le Salon du livre de 2014 dans lesquelles l’auteur évoque son parcours littéraire et commente ses œuvres.

Cliquem nos links abaixo para assistir aos vídeos






Diário da queda

1.

Meu avô não gostava de falar do passado. O que não é de estranhar, ao menos em relação ao que interessa: o fato de ele ser judeu, de ter chegado ao Brasil num daqueles navios apinhados, o gado para quem a história parece ter acabado aos vinte anos, ou trinta, ou quarenta, não importa, e resta apenas um tipo de lembrança que vem e volta e pode ser uma prisão ainda pior que aquela onde você esteve.

2.

Nos cadernos do meu avô não há qualquer menção a essa viagem. Não sei onde ele embarcou, se ele arrumou algum documento antes de sair, se tinha dinheiro ou alguma indicação sobre o que encontraria no Brasil. Não sei quantos dias durou a travessia, se ventou ou não, se houve uma tempestade de madrugada e se para ele fazia diferença que o navio fosse a pique e ele terminasse de maneira tão irônica, num turbilhão escuro de gelo e sem chance de figurar em nenhuma lembrança além de uma estatística — um dado que resumiria sua biografia, engolindo qualquer referência ao lugar onde foi criado e à escola onde estudou e a todos esses detalhes acontecidos no intervalo entre o nascimento e a idade em que teve um número tatuado no braço.

3.

Eu também não gostaria de falar desse tema. Se há uma coisa que o mundo não precisa é ouvir minhas considerações a respeito. O cinema já se encarregou disso. Os livros já se encarregaram disso. As testemunhas já narraram isso detalhe por detalhe, e há sessenta anos de reportagens e ensaios e análises, gerações de historiadores e filósofos e artistas que dedicaram suas vidas a acrescentar notas de pé de página a esse material, um esforço para renovar mais uma vez a opinião que o mundo tem sobre o assunto, a reação de qualquer pessoa à menção da palavra Auschwitz, então nem por um segundo me ocorreria repetir essas ideias se elas não fossem, em algum ponto, essenciais para que eu possa também falar do meu avô, e por consequência do meu pai, e por consequência de mim.

4.

Nos meses antes de completar treze anos eu estudei para fazer bar mitzvah. Duas vezes por semana eu ia à casa de um rabino. Éramos seis ou sete alunos, e cada um levava para casa uma fita com trechos da Torá gravados e cantados por ele. Na aula seguinte precisávamos saber tudo de cor, e até hoje sou capaz de entoar aquele mantra de quinze ou vinte minutos sem saber o significado de uma única palavra.

5.

O rabino vivia do salário da sinagoga e da contribuição das famílias. A mulher tinha morrido e ele não tinha filhos. Durante as aulas ele tomava chá com adoçante. Pouco depois do início pegava um dos alunos, em geral o que não havia estudado, e sentava ao lado dele, e falava com o rosto quase encostado no dele, e o fazia cantar de novo e de novo cada verso e sílaba, até que o aluno errasse pela segunda ou terceira vez e o rabino desse um soco na mesa e gritasse e ameaçasse que não faria o bar mitzvah de ninguém.

6.

O rabino tinha unhas grandes e cheiro de vinagre. Era o único que fazia essa preparação na cidade, e era comum que na hora de ir embora esperássemos na cozinha enquanto ele tinha uma conversa com nossos pais, na qual dizia que éramos desinteressados, e indisciplinados, e ignorantes e agressivos, e no final do discurso ele pedia um pouco mais de dinheiro. Nessa hora era comum também que um dos alunos, sabendo que o rabino era diabético, que já tinha parado no hospital por conta disso, que tinha havido complicações e uma das pernas chegou a correr o risco de ser amputada, esse aluno se oferecia para pegar mais chá e em vez de adoçante botava açúcar na xícara.

7.

Praticamente todos os meus colegas fizeram bar mitzvah. A cerimônia era aos sábados de manhã. O aniversariante usava talid e era chamado para rezar junto com os adultos. Depois havia um almoço ou janta, em geral num hotel de luxo, e uma das coisas que meus colegas gostavam era de passar graxa nas maçanetas dos quartos. Outra era fazer xixi nas caixas de toalhas dos banheiros. Outra ainda, embora isso só tenha acontecido uma vez, na hora do parabéns, e naquele ano era comum jogar o aniversariante treze vezes para o alto, um grupo o segurando nas quedas, como numa rede de bombeiros — nesse dia a rede abriu na décima terceira queda e o aniversariante caiu de costas no chão.

Journal de la Chute
(traduction de Dominique Nédellec)

1. Mon grand- père n’aimait pas parler du passé. Ce qui n’a rien d’étonnant, du moins s’agissant de ce qui compte vraiment : le fait qu’il était juif, qu’il ait débarqué au Brésil à bord d’un de ces bateaux où les gens s’entassaient, le bétail pour qui l’histoire semble s’être arrêtée alors qu’ils avaient vingt ans, ou trente, ou quarante, peu importe, et ne reste plus ensuite qu’une sorte de souvenir qui va et vient et peut devenir une prison pire encore que celle par où tu es passé.

2. Dans les cahiers de mon grand- père, on ne trouve pas la moindre allusion à ce voyage. Je ne sais pas où il a embarqué, s’il s’était procuré des papiers avant de partir, s’il avait de l’argent ou une vague idée de ce qui l’attendait au Brésil. Je ne sais pas combien de jours a duré la traversée, si les vents ont été violents ou non, s’il y a eu une tempête à l’aube et si cela aurait changé quelque chose à ses yeux que le bateau sombre et qu’il disparaisse d’une manière si ironique, dans un tourbillon obscur et glacé, et sans aucune chance de laisser en souvenir de lui autre chose qu’une donnée 11 statistique –  qui à elle seule aurait résumé sa biographie, escamotant toute référence à l’endroit où il avait grandi, à l’école où il était allé et à tous ces menus événements survenus entre sa naissance et le jour où on lui avait tatoué un numéro sur le bras.

3. Moi non plus je ne tiens pas à parler de tout cela. S’il y a bien une chose dont le monde peut se passer, c’est d’entendre mes considérations sur la question. D’autres se sont déjà chargés de la traiter dans des films. D’autres encore dans des livres. Les témoins ont déjà livré des récits détaillés, et on dispose de soixante ans de reportages, d’essais et d’analyses, des générations d’historiens, de philosophes et d’artistes ont consacré leur vie à ajouter des notes de bas de page à cette masse de documents, s’efforçant de renouveler encore et toujours l’opinion générale sur le sujet, la réaction de tout un chacun au mot Auschwitz, alors je n’envisagerais pas une seconde de répéter ces idées si elles n’étaient pas, d’une certaine façon, essentielles pour que je puisse aussi parler de mon grand- père, et par conséquent de mon père, et par conséquent de moi.

4. Dans les mois qui ont précédé mon treizième anniversaire j’ai suivi des cours pour préparer ma bar- mitsva. Deux fois par semaine j’allais chez un rabbin. Nous étions six ou sept élèves, et chacun rapportait chez soi une cassette avec un enregistrement de passages de la Torah chantés par lui. Pour le cours suivant, il fallait qu’on sache tout par cœur, et aujourd’hui encore je suis capable d’entonner ce mantra long de quinze ou vingt minutes dont je ne comprends pas un traître mot.

5. Le rabbin vivait de son salaire de la synagogue complété par une contribution des familles. Sa femme était morte et il n’avait pas d’enfants. Pendant les cours, il buvait du thé auquel il ajoutait un édulcorant. À peine avait- on commencé qu’il choisissait un élève, en général celui qui n’avait pas étudié, il venait s’asseoir à ses côtés, s’adressait à lui en collant son visage au sien ou presque et lui faisait chanter et rechanter chaque vers et chaque syllabe, l’élève se trompait une deuxième fois, une troisième fois, alors le rabbin tapait du poing sur la table, se mettait à hurler et menaçait de ne célébrer la bar-mitsva de personne.

6. Le rabbin avait des ongles longs et une odeur de vinaigre. Il était le seul dans toute la ville à assurer cette préparation, et il arrivait fréquemment qu’au moment de partir on doive attendre dans la cuisine pendant qu’il avait une discussion avec nos parents, il leur disait qu’on ne s’intéressait à rien, qu’on était indisciplinés, ignorants et agressifs, et une fois son discours terminé il leur réclamait une rallonge. Il était tout aussi fréquent qu’un des élèves, sachant que le rabbin était diabétique, qu’il s’était déjà retrouvé à l’hôpital pour cette raison et que des complications s’en étaient suivies au point qu’on avait failli l’amputer d’une jambe, que cet élève, donc, se propose alors pour aller lui resservir un thé et qu’à la place de l’édulcorant il verse du sucre dans sa tasse.

7. Pratiquement tous mes camarades de classe faisaient leur bar- mitsva. La cérémonie avait lieu le samedi matin. Le garçon revêtait le talit et était appelé à venir prier aux côtés des adultes. Ensuite, il y avait un déjeuner ou un dîner, généralement dans un hôtel de luxe, et parmi les choses que mes camarades aimaient bien faire alors, il y en avait une qui consistait à enduire de cirage les poignées de porte des chambres. Une autre à pisser dans les paniers de serviettes des salles de bains. Une autre encore, bien que cela ne se soit produit qu’une seule fois  : au moment de souhaiter un joyeux anniversaire à l’intéressé, on avait l’habitude de le projeter en l’air à treize reprises et tout le groupe le rattrapait à chaque fois, comme avec un filet de pompiers –  seulement, ce jour- là, le groupe s’était écarté au moment de la treizième réception et le garçon était tombé sur le dos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário