quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Paisagem de porcelana

Paisagem de porcelana

As experiências e artefatos da exogenia contam já com uma fortuna crítica significativa cujo campo conceitual articula-se, essencialmente, em torno de dois epistemes. O primeiro, de cunho antropo-sociológico, tende a privilegiar as categorias espaciais  que,  no seu sentido geográfico ( literatura de i/emigração), econômico (literatura brazuca, american-brazilian literature) e social (literatura da diáspora) direcionam os presupostos críticos.  O “deslocamento” torna-se neste caso a  principal chave analítica em função da qual é constatado o valor documental dos textos com o intuito de legitimá-los e/ou inscrevê-los no campo e no cânone literário nacional. Face a esta vertente neonaturalista, um segundo núcleo conceitual confere à experiência do deslocamento extra-territorial uma profundidade poético-discursiva, como sugerem os conceitos de escrita fronteiriça,  diglossia, literatura portunhol, escrita migrante etc.  Ao retomarem a hipótese de Edward Saïd segundo a qual a cultura ocidental seria, em larga medida, “obra de exilados, emigrantes, refugiados”  a exogenia passa a desempenhar  a função de fundadora de uma certa modernidade estética. É neste sentido que podemos compreender o posicionamento de Marthe Robert para quem o nascimento do romance moderno europeu estaria vinculado à tradição inaugurada por Dom Quixote e Robinson Crusoé, narrativas que, segundo a crítica, expõe o sujeito à ruptura das origens e a diferentes formas de deambulação exógena : errância, fuga e viagem iniciática. É através desta clave que podemos ler o belíssimo romance Paisagem de porcelana da escritora Claudia Nina, uma das convidadas da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien  que acontece em Paris durante os dias 21 e 31 de Março de 2016.

Leonardo Tonus


Sneeuw

Fui a Utrecht no começo de um dezembro sem rosto. Precisava dividir com Peter a aflição do desconhecimento; o assombro de não saber onde estava meu reflexo tinha de ser dividido mesmo que com uma pessoa sem a menor ideia de qual diagnóstico me dar. Eu buscava algum antídoto contra aquela maldição; quanto mais me desesperava em agonia silenciosa, mais meu rosto fugia de mim.
Não tinha ninguém além de Peter que me parecesse real. Os holandeses viviam em uma dimensão que não era a minha - eu não conseguia entrar na realidade deles. Não pertencia à Holanda na mesma proporção que a Holanda ignorava a minha presença, não seria naquele momento que a situação iria se modificar, quando eu havia perdido o que mais me qualificava diante de mim: a cara com que vim ao mundo.
As ruas estavam modestamente enfeitadas para o Sinta Klass – um enfeite aqui outro ali, tudo sem brilho, uma decoração tão opaca quanto a minha figura no cenário que não me aceitava. Segui em frente, pisando com força as botas de guerra nas pedras avermelhadas, na esperança de que uma delas me engolisse e daí eu despencaria sem fazer esforço, indo parar em algum buraco no mais dentro daquela terra - um vulcão submerso seria a surpresa. Em vez de jorrar no alto da colina, o vulcão espalharia lava pelas ruas e inundaria os pés de quem passava despercebido. Qualquer situação me parecia menos trágica do que a fantasmagórica sensação que eu experimentava. Um vulcão gravado no dentro das águas submersas.
 E se eu me reconhecesse no rosto de algum estranho? Aí seria o fim de tudo ou um começo de vida mais decente, quem sabe? Se eu me reconhecesse no rosto de uma holandesa típica, veria a minha cara sem precisar de espelhos, e veria também o quanto poderia ser feliz no pescoço de alguém que sabia apertar as tarraxas certas.
Saí da Cetraal Station de Utrecht em direção ao prédio do departamento onde Peter trabalhava, localizado na parte medieval da cidade tão linda. Casas renascentistas, velhice de pedra, vários canais menores, pequenos veios, mais estreitos que os de Amsterdã, talvez mais podres. Atravessei uma das pontes. Olhei para cima e vi mais enfeites. Todos igualmente opacos, e eu sem serventia para o cenário. Segui.
Alguns canais afundam-se até cinco metros abaixo do nível das ruas para evitar inundações. Em uma das ruas esmirradas, a calçada era tão estreita que mal cabiam meus pés de bota - por um triz não fui escavar as águas. Oudegracht. Não dava para ficar olhando para cima à cata de enfeites, era melhor prestar atenção nos passos e decidir se queria mesmo afundá-los em algum vulcão submerso ou se chegaria inteira até Peter. Não era uma questão de escolha: eu estava apenas seguindo um fluxo, e o máximo que conseguia era me manter de pé e dar passos em uma linha reta da estação até a praça e depois fazer uma pequena curva à direita para então seguir outra linha reta e alcançar o prédio. Decorei o percurso.
Utrecht é uma cidade romântica para quem tem um par ou imagina que este passeia por perto. Há uma quantidade enorme de estudantes, muitos bares. E igrejas. A torre gótica, de 1300 e alguma coisa, é a mais alta da Holanda – a Domtoren. A famosa torre venceu o furacão no século XVII, que destruiu a nave central. Li isso no guia e não serviu para nada – eu só queria saber onde está um rosto. Todo o meu conhecimento técnico a respeito do país veio do guia turístico, mas nada serviu de fato para me ajudar a entrar na dimensão em que os holandeses vivem. Não estava escrito em página nenhuma, por exemplo, como fazer para não morrer afogada na chuva ou como desvendar a engenharia dos diques para construí-los na alma a fim de que a chuva de fora não encharcasse por dentro. Isto sim seria de muita utilidade.
Cheguei ao prédio do departamento e lá estava Peter sentado à frente do computador, que, por sua vez, ficava de frente para uma janela que nunca se abria nem mesmo nos poucos dias em que o verão se lembrava de dar as caras. Nevava pingos. O chão recebia os pingos um por um, sem rejeição, e aquele pingado de neve fazia o manto do inverno só por instantes; logo depois o pingo se desfazia em água e, gota por gota, ensopava a rua. Quando encontrei Peter, estava ensopada; o rosto suava ao contrário, porque os poros não molhavam por dentro e sim de fora – não era suor, era o pingo da neve gelada que meu corpo recebia com raiva.
Peter me chamou para perto da janela à guisa de um olá. Achei que fosse alguma coisa importantíssima, uma revelação, um assassinato, um dragão branco vestido de Papai Noel, mas não. Era a neve que pingava. Sneeuw - neve em holandês. 
New – ele disse - new.
E continuou:
Minha de filha de cinco anos come a letra esse. E fala new em vez de sneeuw. Ela come os primeiros esses de todas as palavras.
Peter falou com alegria estendida ao máximo - uma grande corda puxada de uma extremidade à outra. Aquele era um de seus momentos de maior intensidade, eu nunca antes tinha presenciado tamanha alegria. Ver a neve cair e falar dos feitos linguísticos da filha ao mesmo tempo. Esperei que depois desta informação viesse outra para justificar o contentamento, mas depois percebi que tudo era aquilo só. E aquilo só era muito, uma quase exaltação da vida. Eu não alcançava a altura.
 Não conseguia compreender a alegria suprema de se ter uma vida que consistia em: ter uma filha de 5 anos que engole os esses das palavras e, em um dia de neve pingada, estar em um escritório com uma janela-nunca-aberta, de frente para a neve que pingava e lembrar da filha que come os esses das palavras. Realmente, a neve pingando era (deveria ser) um lindo bom dia se eu realmente existisse naquele cenário. Ouvi com atenção o comentário sobre a neve e a filha e, em resposta, disse algumas coisas que não acrescentaram nada ao momento. Por fim, quando não havia mais assunto diante da neve que pingava nem da filha que engolia os esses, falei:
Peter, estou mal.


Claudia Nina é Jornalista e doutora em Letras pela Universidade de Utrecht, na Holanda, com tese sobre Clarice Lispector, publicada pela Editora da PUC-RS (A palavra usurpada, de 2003). Trabalhou como professora-visitante na Uerj, em Teoria Literária. Desta experiência, nasceu a base da pesquisa para seu segundo livro: A literatura nos jornais: crítica literária dos rodapés às resenhas (Summus, 2007). O livro A barca dos feiosos, com ilustrações de Zeca Cintra, foi sua primeira obra de literatura infantil, lançada em 2011. O texto, que fala de diversidade, foi apresentado como trabalho final de curso do Publishing Management – O negócio do Livro, pela Fundação Getúlio Vargas. Pela Editora DSOP, publicou seu segundo livro infantil, Nina e a Lamparina, com ilustrações de Cecília Murgel. Também publicou o perfil biográfico ABC de José Cândido de Carvalho (Editora José Olympio), e os romances Esquecer-te de mim (Editora Babel, 2011) e Paisagem de porcelana (Rocco, 2014). Os lançamentos mais recentes são os infantis A misteriosa mansão do misterioso Senhor Lam (Vieira & Lent, 2015) e A Repolheira (Aletria, 2015). Participou em 2014 da antologia Vou te contar (Rocco), com o conto “Na solidão da noite”. É colunista da Revista Seleções (Reader´s Digest).



Sneeuw
(traduction Stéphane Chao)

Je suis allé à Utrecht au début de décembre, privé de mon visage. Il fallait que je partage avec Peter ma détresse devant l’inconnu, mon désarroi d’avoir perdu mon reflet, même s’il n’avait pas la moindre idée du diagnostic à me donner. Je cherchais un antidote contre cette malédiction ;  plus je m’abîmais dans une agonie silencieuse,  plus mon visage m’échappait.
         Hormis Peter, personne ne me semblait réel. Les Hollandais vivaient dans une dimension qui n’était pas la mienne – je n’arrivais pas à entrer dans leur monde. J’étais exclue de la Hollande de la même manière que la Hollande ignorait ma présence. La situation n’allait-elle pas se renverser, dès lors que j’avais perdu ce qui me caractérisait le plus vis-à-vis de moi-même : le visage avec lequel j’étais venu au monde.
         Les rues étaient chichement décorées pour la Sinta Klaas – quelques fioritures çà et là, sans le moindre éclat, une ornementation aussi opaque que mon visage dans le décor qui ne m’acceptait pas. J’ai continué à fouler pesamment les pavés rougeâtres avec mes bottes de guerre, dans l’espoir que l’un d’eux m’avale et que je dégringole sans effort jusque dans un trou quelconque au plus profond de la Terre – un volcan englouti, ce serait la surprise.  Au lieu de jaillir du haut d’une colline, le volcan répandrait de la lave dans les rues et inonderait les pieds de celui qui passait inaperçu. N’importe quelle situation me semblait moins tragique que la sensation fantasmagorique que j’expérimentais. Un volcan englouti au fond des eaux.
         Et si je me reconnaissais dans le visage d’un étranger ? Ce serait alors la fin de tout ou le début d’une vie plus digne, qui sait ? Si je me reconnaissais dans le visage d’une hollandaise typique, je verrais mon visage sans avoir besoin d’un miroir, et je verrais également combien je pourrais être heureuse, la tête vissée sur le cou de quelqu’un sachant serrer correctement les bons boulons.
         Je suis sorti de la Centraal Station de Utrecht en direction de l’immeuble du département, où Peter travaillait, situé dans la partie médiévale de cette ville si belle. Maisons datant de la Renaissance, vieilles pierres, innombrables petits canaux, ruelles étroites, plus encore que celles d’Amsterdam, peut-être plus pourries. J’ai traversé un des ponts. J’ai levé les yeux et j’ai vu encore d’autres décorations. Toutes invariablement opaques et moi en porte-à-faux dans ce décor. J’ai continué à marcher.
         Certains canaux sont à cinq mètres au-dessous du niveau des rues pour éviter les inondations. Dans l’une des rues chétives, le trottoir était si étroit qu’il y avait à peine assez de place pour mes pieds bottés – il s’en est fallu d’un cheveu pour que je ne tombe à l’eau. Oudegracht. Je ne pouvais pas marcher la tête en l’air pour chercher les décorations, il valait mieux faire attention à ses pieds et décider si je voulais vraiment tomber dans quelque volcan englouti ou si je voulais arriver entière jusqu’à Peter. Ce n’était pas un choix : je ne faisais que suivre le sens du courant, et le mieux que je pouvais faire, c’était me tenir debout et mettre un pied devant l’autre en ligne droite de la gare à la place, puis prendre le virage à droite pour ensuite continuer tout droit et atteindre l’immeuble. J’ai appris l’itinéraire par cœur.
         Utrecht est une ville romantique pour quiconque a un compagnon ou imagine que celui-ci se promène dans les environs. Il y a une multitude d’étudiants, nombre de bars. Et des églises. La tour gothique, datant de 1300 et quelques, est la plus haute de Hollande – la Domtorren.  Cette célèbre tour a vaincu l’ouragan du XVIème siècle, qui a détruit la nef centrale.  Je l’ai lu dans un guide et cela m’a été inutile – je voulais seulement savoir où était mon visage. Toute ma connaissance technique de ce pays provenait d’un guide touristique, mais elle ne m’a servi à rien pour essayer d’entrer dans la dimension où les Hollandais vivent. Par exemple, il n’était écrit nulle part comment il fallait faire pour ne pas mourir noyé sous la pluie ou pour percer à jour l’ingénierie des digues afin de les construire dans son âme de manière à ce que la pluie du dehors ne détrempe pas l’intérieur.  
         Je suis arrivé à l’immeuble de l’appartement et Peter se trouvait là assis devant un ordinateur placé devant une fenêtre qui ne daignait jamais s’ouvrir, même pendant les rares jours où l’été se rappelaient à notre souvenir. Il neigeait des flocons. Le sol les recevait les uns après les autres, sans réticence, et ce saupoudrage ne formait un manteau hivernal que par instant ; il fondait tout de suite et, flocon après flocon, la rue était délavée. Lorsque j’ai retrouvé Peter, j’étais trempée ; mon visage suait à rebours, mes pores me mouillaient de l’extérieur vers l’intérieur  – ce n’était pas de la sueur, mais des gouttes de neige gelée, que mon corps recevait avec colère.
         Peter m’a fait signe de m’approcher de la fenêtre en guise de salut. Je pensais qu’il avait quelque chose d‘extrêmement important à me dire, une révélation, un assassinat, un dragon blanc déguisé en père noël : que nenni. C’était les flocons de neige qui tombaient. Sneeuw – neige en hollandais.
         New – dit-il – new.
         Et il a poursuivi :
         Ma fille de cinq ans mange la lettre S. Elle dit new au lieu de sneeuw. Elle mange les premier S de tous les mots.
         Peter a dit cela avec une joie qu’il a prolongée au maximum – une grande corde tirée d’une extrémité à une autre. C’était pour lui un moment d’intensité maximale, je ne l’avais jamais vu avant dans une telle joie. Voir la neige tomber et parler des problèmes linguistiques de sa fille en même temps. J’espérais que, après cette information, il en viendrait une autre pour justifier son contentement, mais je me suis aperçue ensuite que c’était tout. Et c’était déjà beaucoup, quasiment une exaltation de la vie. Je n’atteignais pas ces hauteurs.
         Je ne pouvais pas comprendre une telle existence, dont la joie suprême consistait à avoir une fille de 5 ans avalant les S et à se trouver dans son bureau, un jour de neige,  devant une fenêtre jamais ouverte, à regarder tomber les flocons et à se souvenir de sa fille qui mange les S. La pluie de flacons aurait réellement constitué (ou auraient dû constituer) un splendide « bonjour », si j’existais réellement dans ce décor. J’ai écouté avec attention son commentaire sur la neige et sur sa fille et en guise de réponse, j’ai dit quelque chose qui n’a rien apporté sur le moment. Finalement, une fois épuisé le sujet des flocons de neige et de sa fille qui avalait les S,  j’ai dit :
         Peter, je me sens mal.

Claudia Nina est journaliste et docteur ès lettres par l’Université de Utrecht (en Hollande) où elle a soutenu une thèse sur Clarice Lispector, publiée aux  éditions de la PUC-RS ( A palavra usurpada, 2003). Elle a enseigné la théorie littéraire en tant que professeur invité à l’Uerj et cette expérience lui servira de base pour la rédaction de son second livre A Literatura nos jornais : critique littéraire des rodapés às resenhas (Summus 2007). En 2011 elle publie A barca dos Feiosos son premier ouvrage pour enfants, illustré par Zeca Cintra. Ce texte qui a pour thème la diversité humaine a été présenté par la Fondation Getúlio Vargas à l’occasion du “Publishing Management- O negócio do livro”. Par la suite, elle pulie aux éditions DSOP son second ouvrage pour enfants, Nina e a lamparina, illustré par Cecilia Murgel ; une  biographie de l’écrivain José Cândido de Carvalho (ABC de José Candido de Carvalho) aux éditions José Olympio et les romans Esquecer-te de mim (Babel, 2011) et Paisagem de porcelana (Rocco,2014).Ses dernières parutions pour jeunesse sont :  A misteriosa mansão do misterioso senhor Lam (Viera  et Lent 2015) et A repolheira ( Aletria 2015). Claudia Nina a collaboré à l’anthologie Vou te contar (Rocco) avec la nouvelle «Na solidão da noite » et écrit pour la Revista Seleções (Reader Digest).

Resenha

Final dos anos 1990. Uma brasileira de 25 anos decide colocar a mochila nas costas e se aventurar em uma cidade do exterior; escolhe Amsterdã, na Holanda. Tudo o que tem é a matrícula num curso selecionado ao acaso e uma quantia irrisória de dinheiro. O que encontra é um país sem montanhas, oprimido pelo monótono céu baixo e pelo frio atordoante. Um lugar que espera apenas respostas binárias – “sim” ou “não” –, onde as refeições se revezam entre sopa de ervilha e sanduíche de arenque, e onde a viajante se torna cada vez mais invisível. Uma terra na qual cartografia e memória se unem para compor uma armadilha poderosa, criando uma história que se reinventa a cada parágrafo.

Paisagem de porcelana, o aguardado segundo romance de Claudia Nina, é um road book às avessas. O ímpeto da aventura, em vez de atiçar a viagem por estradas e paisagens exóticas, desencadeia um perturbador processo de introspecção e imobilidade. A trajetória da jovem protagonista, narrada em primeira pessoa, descreve de forma lírica e delicada uma investida na névoa: a história de terror e solidão cujos contornos a memória – ou será a loucura? – tratou de embaralhar.

Exercendo o estilo original que já havia demonstrado em Esquecer-te de mim, no limiar da prosa poética, Claudia Nina descreve o momento-limite, a crise absoluta, o esfacelamento. O ponto em que a vertigem da perda amorosa e da solidão se converte mesmo em degradação física – a consciência do corpo desgarrando-se de si.

Encurralada pela paisagem de estranhas amplidões, a jovem viajante – cujo nome só será revelado a certa altura do romance – mantém seu tênue contato com o mundo por meio de apenas três pessoas. Yasuko é a vizinha japonesa de quem se torna cúmplice cotidiana, mas de quem se perde por completo. Peter é o professor afetuoso, porém distante na geografia. Ernest, filho de paquistaneses, é o namorado, mas também a personificação da tragédia: é ele que encarna, pouco a pouco, os olhos de fera do javali. É ele que a ameaça e a leva mais para perto do abismo. É ele que, pouco a pouco, enlouquece.

Ou será que é a protagonista-viajante quem vai, dia a dia, enlouquecendo? Tudo é movediço em Paisagem de porcelana. Não frágil – instável, isso sim. Transtornado pelas reviravoltas e desmentidos de uma narrativa que parece emergir como fluxo, em que “os episódios vêm em golfadas” e a narradora assume, já nas primeiras linhas, que “a memória não tem detector de mentiras”. Tudo é inconstante, exceto aquela tarde de janeiro na estação de Amsterdã, em 1998, começo e fim de uma viagem perturbadora pelos labirintos da angústia e do medo


Fonte : http://www.rocco.com.br


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