domingo, 24 de janeiro de 2016

Poetas não se morrem mais




A palhaça na Paulista (atriz Priscilla Amaral)
Poetas não se morrem mais
Maíra Garcia

Poetas,
vivem de todas as formas
e formas que se tem notícia.
Poetas fingem morrer
para viver
nas juntas,
nas canelas,
na corredeira
de sua gente lista
 e fictícia.
Poetas não se morrem mais,
poetas não mentem.
Poetas não se morrem mais,
como antigamente.
Poetas não se morrem mais,
para viver de contar
o que corta o mundo
de hoje e de aurora
e
o que vem pela frente.

Agora é festa,
pois poetas,
não se morrem mais,
como antigamente.
Vivem de seu papel,
aqui e no céu,
para que todos amem sua gente,
para todo sempre,
e que todos se amem
nos finalmentes,
também.
Pois poetas não se morrem mais
como antigamente.



Solidão
A maior tragédia que pode existir

A maior tragédia que pode existir,
é achar que tudo que se passa no mundo,
que tudo, que tudo, foi feito pra si.
Sendo assim,
a maior tragédia que pode existir,
é o se, é o se, é o se.

A maior tragédia que pode existir,
é não existir para si.
É poder ouvir e não ouvir,
é ter olhos e negar a visão,
sentimentos e negar o toque,
é ter mente e não ter coração.
Sendo assim,
a maior tragédia que pode existir,
é não saber
o existir do mundo,
do outro mundo,
do mundo do outro e de si.
Sendo assim,
a maior tragédia que pode existir,
é o si, é o si, é o si.
 
Amores




E se eu disser que a dor que se vê por aí
É a dor de vivir.

Em outra língua
A gente parece outro existir.

se o poeta fingiu na mesma língua
É bobagem o que eu disse acima,
tem a mesma dor

na altura do braço a íngua,
O mesmo Lácio

embaixo do equador.



África daqui
Os versos,
da próxima página,
esperam controversos,
os olhos que não chegam.
Ansiosos, o coração dispara,
faz saltar palavra por palavra.
Com a língua de fora,
a boca pede
água, mas depois a língua
pede a palavra.
O olho corre mais que a boca,
o olho é tagarela,
pisca sem parar,
bate como a tecla.
A palavra pede água,
mas a mão
não ouve a palavra.
E vira a página.


Ocupação Américo Brasiliense, Santo André.
Em todo país
Em todo país uma fábrica.

Em todo país um povoado.
Em todo país um trocado.
Em todo país um bocado

de pão.

Em todo país um mal entendido.
Em todo país uma língua morta.
Em todo país uma volta.
Em todo país uma história.

Em todo corpo, órgãos, células,
sangues, telas.
Em todo país uma faca cega.

Em todo país uma moeda.
Em todo país uma fila de espera.
Em todo país uma cor.
Em todo país uma bandeira.
Em todo país um amor

que não se encerra.

Em todo país uma sina a ser rasgada
desde a hora que um rebento chega.



Mauá
Esta dor embaixo da dobra do braço,
é dor de cotovelo.

É a elegia da graça,
que foi feita pra pessoa amada,
no cansaço de um apelo.

Carrego as mãos no rosto,
apoio os braços na mesa,
e o muito pesar
inflama minhas certezas.

Essa dor embaixo da dobra do braço,
é dor de cotovelo.

Que vai desinflamar
com a vontade,
de quem vê que o braço
do outro amor é de verdade,
e sabe
que onde o coração bate,
mesmo sem ser
seu tocador
será feliz.
 
A Fila

Maíra Garcia, 44 anos, é formada em Publicidade e Propaganda pela ECA USP. É redatora, poeta, cantora e compositora intuitiva. Natural de Ribeirão Pires (Grande ABC) é voluntária do Centro de Arte e Promoção Social do Grajaú, que realiza, no extremo-sul da periferia de São Paulo rodas que difundem discussões sobre filosofia, literatura, religião e artes, assim como oficinas para escrita e saraus.Tem um blog chamado Depois da Lua de Ontem, que desde 2011, reúne mais de 2000 textos, com poemas, haicais, aforismos, e contos. Um blog que tem vontade de se tornar um livro. As fotografias aqui reproduzidas são de autoria de Maira Garcia


4 comentários:

  1. bela e merecida homenagem!

    parabens!

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  2. Múcio, poeta querido, muito obrigada!!!

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  3. Poeta e mestre Leonardo Tonus, é muito gratificante ver meus poemas e fotos por aqui. Recebo como um presente na véspera do aniversário da cidade de São Paulo, cidade que me inspirou, verdadeiro cenário de uma grande parte dos meus textos! Muito, muito obrigada!!!

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  4. Poeta e mestre Leonardo Tonus, é muito gratificante ver meus poemas e fotos por aqui. Recebo como um presente na véspera do aniversário da cidade de São Paulo, cidade que me inspirou, verdadeiro cenário de uma grande parte dos meus textos! Muito, muito obrigada!!!

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