quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A cabeça do santo

A Cabeça do Santo

Primeira Parte[1]

Traigo los ojos com que ella miró estas cosas, porque me dio sus ojos para ver.
Juan Rulfo

Caminho


Ele não tinha mais sapatos e seus pés, àquela altura, já eram outra coisa: um par de bichos disformes. Dois animais dentados e imundos.  Duas bestas, presas aos tornozelos, incansáveis, avante, um depois do outro, avante, conduzindo Samuel por dezesseis longos e dolorosos dias sob o sol.

Nos primeiros dias o sangue e a água que minavam das bolhas arrebentadas nos seus pés chiavam em contato com o asfalto em brasa, inclemente. De tão secos, fizeram silêncio.  Surgiu uma pele nova, quase um couro de cobrasturricado, admirável engenho da natureza para os que não podem contar com qualquer lapso de piedade do inimigo.  As pernas, gêmeos paradoxos: quanto mais magras, mais fortes. Os músculos cresceram, até nas canelas sujas que sustentavam as coxas de pouca carne. Ele, sujo como um desenterrado, andando sempre em linha reta.

Dezesseis dias. Por vezes olhava para baixo e temia que o ventre colasse de vez nas costelas, como na história do homem caído que a mãe Mariinha contava.  Dizia que foi em um dia de muito calor, pior que o sopro quente de sempre, quando ela ouviu alguém bater palmas diante de sua porta. Foi abrir, levando a alegria discreta que sempre doava aos vizinhos ou aos compradores de chapéu. O sorriso acabou-se no espanto, porque ali estava um homem esticado no chão, tão faminto que a pele da barriga colara nas costelas. O desmaiado era bonito e foi isso que o salvou. As mulheres da vizinhança não demoraram a ferver um mingau de milho, cozinhar uma galinha gorda, um quilo de arroz refogado com alho e sal, uma panela grande de farofa com carne seca e coentro, nove copos de leite com canela e oito ovos cozidos. Não faltaram voluntárias para trazer os pratos, dar comida na boca, fazer a barba, limpar o rosto com pano perfumado de colônia barata. Foram dois dias de comilança para que a barriga do desinfeliz descolasse das costelas, fazendo um estalido seco e alto que se ouviu por todo o horto. Voltou dos mortos tão cheio de desejo que não demorou para que pedisse a mão de umas das moças em casamento. Era Estelita, a que lhe trouxe mingau de milho.

Samuel também tinha o ventre quase colado nas costas e oxalá ainda fosse possível desgrudar quando chegasse a hora. Alguém ajudaria? Alguém daria comida a um desenterrado? Pensava na galinha cozida, nas bananas, nas mãos da mãe enchendo o seu prato de louça branco leitoso, com as bordas quebradas e a pinturinha de flores descascadas. Das mãos da mãe ele tentava não lembrar. Era uma dor sem nome.

Sapatos, as pernas da calça, mangas da camisa, o parco dinheiro: tudo ficou pelo caminho. (Existe quem compre mangas de camisa, isso é espantoso.) Seu torso mal protegido tinha duas cores. Os braços queimados de sol não serviam para nada além de sustentar as mãos. Das coisas que um corpo exige, ele não tinha quase nenhuma, o corpo pede e pune, na mesma medida. A mala que levava quando deixou a casa ficou pelo caminho logo no quinto dia. Ou isso, ou a fome. Trocou por um prato de carne cozida e baião de dois. A dona de uma pensão aceitou, de má vontade, só porque precisava de uma mala para guardar as toalhas das mesas.

Restava apenas o endereço de poucas palavras no bolso esquerdo. Às vezes o pequeno pedaço de papel pegava fogo e torrava a única pista do seu destino. Samuel enfiava a mão no bolso com desespero: era o pior do elenco de pesadelos daquela jornada.  Ele queria chegar lá, no lugar indicado por oito palavras e um número. Chegar lá era a única coisa que tinha na vida. 

Os cabelos escuros e lisos cresciam rápido e já escorriam de forma irritante sobre a testa, atrapalhando a vista. Tinha olhos pequenos, sobrancelhas fartas e juntas acima do nariz, boca carnuda e traços de índio, herdados da mãe Mariinha.

Samuel era um corpo magro e faminto, quase uma sombra, que não parava de andar. Quase dez horas de caminhada por dia. Pouca água, comida rara, sono em cotas breves. Tudo ficou pelo caminho: juventude, alegria, pedaços de pele, mililitros de suor, quilos do corpo e os parcos e velhos fios de esperança de que houvesse alguma coisa invisível que ajudasse aos homens sobre a Terra. As esperanças nunca foram suas, eram de Mariinha, ele as usava por empréstimo em casos raros. Naquele momento Samuel não tinha fé nenhuma nas coisas do espírito. Do outro lado da estrada, em direção contrária, caminhavam exemplares do seu extremo oposto.



[1] Trecho do romance A cabeça do santo (Companhia das Letras, 2014)


Socorro Acioli nasceu em Fortaleza em 1975. É jornalista com Mestrado em Literatura Brasileira e Doutorado em Estudos de Literatura na Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Sua tese foi uma experiência de escrita a partir do livro A preparação do Romance, de Roland Barthes. O romance resultado da tese, A cabeça do santo, foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras, na Inglaterra pela Hot Key Books. Em 2016 será lançado nos EUA pela Dellacorte Press e na França pela Editions Belleville. Começou a carreira em 2001 e desde então publicou livros de diversos gêneros, como as biografias Frei Tito (2001) e Rachel de Queiroz (2003), contos infantis e romances juvenis. Em 2006 foi selecionada para a oficina 'Como contar um conto', ministrada pelo Prêmio Nobel Gabriel García Márquez na Escola de Cinema de San Antonio de Los Baños, Cuba. A autora foi escolhida pelo próprio García Márquez a partir da sinopse do romance A cabeça do santo, ainda inédito. Em 2007 foi pesquisadora visitante na Biblioteca Internacional de Juventude de Munique, Alemanha e já proferiu palestras em países como Portugal, Índia, Africa do Sul, Líbano, Ilhas Maurício, Bolívia e Cabo Verde. Em 2014 foi uma das artistas convidadas para o projeto Art for Saving a Life da Bill and Melinda Gates Foundation. Seu romance é finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Oceanos.  

Abençoada cozinha
Por Rogério Pereira (*)

Socorro Acioli acaba de estrear na literatura adulta com A cabeça do santo, escrita a partir de uma oficina literária com Gabriel García Márquez. É apenas uma nova fase em uma trajetória literária de mais de dez anos, iniciada na literatura infantojuvenil. Ganhadora do prêmio Jabuti 2013 com Ela tem olhos de céu, Socorro é otimista em relação ao momento literário brasileiro, sempre mantendo um olhar crítico, principalmente em relação à produção voltada a crianças e jovens. Nesta entrevista concedida por email, a autora cearense fala de sua breve convivência com García Márquez, das dificuldades em ser escritor no Brasil, do mercado editorial, da formação de leitores e de sua paixão pela gastronomia.

Após 10 anos de uma bem-sucedida carreira como autora de livros infantojuvenis, vocês estreia na literatura adulta com A cabeça do santo. Quais as inquietações que a levaram a escrever um romance voltado ao público adulto?
Esse assunto rende uma resposta cheia de desdobramentos, já que a definição de idade do público leitor é algo muito complexo. O que me fez decidir a linguagem e a identidade desse livro foi o próprio tema. Fui arrebatada pela imagem de uma cabeça oca, gigantesca e inacabada de Santo Antônio que vi em uma matéria de jornal. O texto falava dos problemas causados pela cabeça no meio da rua e um deles era o fato de ter servido de morada para um homem qualquer. Imediatamente, percebi que tinha um tema e um personagem muito fortes para construir um romance a partir dali. Ao desenvolver a narrativa, decidi que esse homem teria o poder de ouvir as orações das mulheres pedindo por casamento e que armaria uma confusão com as informações que tinha em mãos. Pensei em adultério, crimes, segredos, amores proibidos e nada disso caberia em uma narrativa infantil ou juvenil, a princípio. Eu poderia, sim, ter dobrado a esquina e feito do meu protagonista, Samuel, apenas um rapazinho brincalhão, mas essa não era a história que eu queria contar. Por outro lado, fico me perguntando se, mesmo com crime, crueldades, adultério e amores proibidos, esse livro não poderia ser lido por um jovem. Penso que pode, sim. Tanto que a editora inglesa Hot Key Books está lançando o mesmo livro, o mesmo enredo, no seu selo para o público juvenil. A cabeça do santo, portanto, estaria na categoria que o mercado internacional chama de crossover — um texto que pode agradar a adolescentes e adultos. É o que tenho visto com o retorno dos leitores que me escrevem nas redes sociais, todos os dias.

No momento da construção da narrativa, há diferenças entre escrever para criança, jovem ou adulto — leitores, supostamente, diferentes?
Para mim todos exigem muito trabalho, muito mesmo. Não escrevo facilmente, inspirada pela Musa. Eu sofro um bocado. E não acho que texto infantil é fácil e adulto, difícil. Não chamo livro infantil de livrinho. O que muda é o universo ficcional de cada um. Alguns temas importantes para adultos não fazem parte do espectro de interesse de uma criança. A linguagem também exige uma atenção, tanto em coisas mais visíveis, como vocabulário, quando na composição de metáforas e pontes de narrativa que talvez um leitor mais jovem não consiga captar. Infelizmente, tenho visto critérios absurdos nesse julgamento da qualidade no livro infantil. Já vi professoras dizendo que um bom livro para crianças não pode falar de morte, não pode ter palavras de quatro silabas ou que sejam muito distantes do vocabulário natural da criança. Dizem, ainda, que o bom livro infantil é o que ensina alguma coisa — a tal alcunha de paradidático. Costumo fazer palestras para professores e tento conversar sobre a diferença entre livro para criança e literatura infantil. O livro pra criança é aquele que as bienais vendem aos quilos por cinco reais, que ensinam as cores e os tipos de formas de amarrar sapatos. A literatura infantil é arte, é feita por um autor sensível a determinado tema, ciente da escolha do seu universo de palavras. Ela pode e deve falar de morte, dor, tristeza, alegria porque tudo isso faz parte da condição humana. Enfim, as diferenças caminham mais no terreno da escolha dos temas. Ao menos para mim, escrever exige muito trabalho, não interessa o destinatário do texto.

Quais desafios você se impõe ao iniciar o projeto de um novo livro?
É muito bom começar um projeto novo, cheia de esperanças. Na verdade, é talvez o segundo melhor momento — o primeiro é receber o livro pronto. Quando decido por um novo tema, a primeira providência é comprar um caderno, onde anoto tudo o que interessa para a construção do texto. São muitos desafios. Para mim, ao menos, um dos maiores é não repetir o que já fiz antes. Não repetir temas e estruturas. É difícil, é arriscado. O mais certo — pensando no mercado — é repetir o que já funcionou bem, mas não é o que eu quero para a minha carreira. Já escrevi ensaios biográficos, livro infantil em prosa, em verso, livro juvenil, ensaio acadêmico, romance. Não sou excelente em todos os gêneros, mas adoro experimentar e aprender. Outro desafio é o tempo. Sou muito lenta, levo anos em um projeto e o prazo apertado costuma me atrapalhar muito. Tento organizar o tempo de escrita a fim de cumprir os cronogramas, mas nem sempre consigo. Mais uma questão é a linguagem. Gosto de dar um espaço entre um texto e outro para ler mais e aprender com o bordado dos grandes autores que tenho conhecido. Já entendi que meu forte como autora não tem nada a ver com reinvenção de linguagem, ao menos por enquanto. Busco o texto mais simples enquanto dou sangue no enredo mais surpreendente possível. Aliás, surpreender o leitor é um desafio gigantesco.

Qual a importância do convívio com Gabriel García Márquez, em 2006, na oficina Como contar um conto, em Cuba, para a escritura de A cabeça do santo?
Foi um convívio muito rápido, apenas cinco dias de aula, mas a importância foi decisiva. O livro só nasceu por causa desse contato com ele. Procurei um tema para mandar e concorrer a uma vaga na fabulosa oficina Como contar um conto e foi assim que encontrei e decidi investir na cabeça do santo. Ter o aval do García Márquez e ouvir dele que eu tinha um material maravilhoso em mãos foi o que me deu coragem para não desistir. Em termos práticos, ele sugeriu coisas importantes. Por exemplo: eu estava na dúvida se o personagem Samuel deveria ouvir só as orações das mulheres ou também os pensamentos do santo. García Márquez disse que eu deveria optar pelas rezas, já que conhecer segredos de amor das mulheres de uma cidade é uma forma de poder. Outra coisa que ele repetiu várias vezes pra turma toda e que me serviu muito foi a frase: “Conte sua história como se contasse a da Chapeuzinho Vermelho”. Ou seja: o seu mundo ficcional tem que ser claro e só quando conseguimos definir tudo em um parágrafo é que temos o domínio da história. Quando estive com García Márquez, eu só tinha o começo da ideia do livro. À época, queria fazer um roteiro de cinema e insisti nessa linguagem por quatro anos. Em 2010, por um conselho do diretor Lula Buarque de Hollanda, desisti de escrever um roteiro e comecei a trabalhar no livro, de verdade. Há influência do García Márquez no texto, mas vejo uma filiação muito mais forte com Jorge Amado e Ariano Suassuna, por exemplo. Escrevemos a partir do nosso repertório de leituras e experiência de vida. Não posso negar que o Realismo Mágico me marcou, mas não é isso que estou tentando fazer agora.

O que mais a marcou na convivência com García Márquez?
A generosidade e a coragem. Acho incrível que um Prêmio Nobel de prestígio internacional, lido, admirado e querido no mundo inteiro, disponha-se a passar uma semana sentado a serviço de autores iniciantes. No primeiro dia de aula ele anunciou que “estava ali para ouvir”. Isso é raro. Durante a fala de todos os alunos, ele estava de fato concentrado, empenhado em entender. Tratava de cada personagem até esgotar as possibilidades. Sugeria, cortava, pensava com força no que poderia melhorar. Por cinco dias, ele nos deu o melhor que poderia nos dar: seu talento e experiência. A outra coisa que me marcou foi a coragem dele, que me contagiou. García Márquez precisou de muita força para enfrentar um sem número de obstáculos na vida, inclusive a opção de ser escritor.

A cabeça do santo tem uma linguagem aparentemente muito simples — uma das qualidades da narrativa. Como se deu a construção da voz narrativa para esta história com traços de realismo fantástico?
O objetivo era essa mesmo: o mais simples que eu pudesse fazer. Eu queria um narrador onisciente e sensível, que soubesse muito, mas soubesse dosar as informações. Meu foco, na Cabeça do santo, foi dar conta de amarrar essa narrativa cheia de subenredos. Há um eixo principal (Samuel indo a Candeia procurar o pai e a avó) e vários outros eixos que caminham à margem (o passado da sua mãe, Mariinha, o passado da cidade, a história de Fernando, de Rosário, etc.). Eu precisava de um texto claro e limpo para desenvolver essas tramas todas. De outra forma, eu não teria conseguido. Por enquanto, pretendo seguir escrevendo assim, um texto simples a serviço de enredos complexos.

Ao ganhar o prêmio Jabuti, no ano passado, você afirmou que “o prêmio chega na hora mais certa possível”, mas que seguirá “na vida caseira, lendo muito, pensando muito, demorando pra escrever, publicando com cautela”. Como é a sua rotina de criação e contra quais equívocos um escritor deve lutar?
No momento, tomei a decisão de só trabalhar em um projeto de cada vez. Como eu disse antes, sou muito lenta, detesto as primeiras versões de tudo que escrevo e preciso de tempo para maturar enredo e texto. A rotina de cada texto começa com a escolha do tema, depois o desenvolvimento da narrativa — traçado em um caderno — e sempre, sempre, sempre começo tudo de uma pesquisa. Isso vem da minha formação como jornalista. Quase tudo que escrevi veio de um fato real, mas o que produzo são reportagens inventadas. Só depois da pesquisa eu consigo traçar o eixo principal da história, o que vai acontecer com os protagonistas do começo ao fim. Sem isso, nem sento para começar. Preciso saber como vai terminar — mesmo que depois eu mude de ideia. Costumo planejar os capítulos, usando um método de fichas que aprendi na minha formação para escrever roteiros de cinema. Tenho uma ficha para cada capítulo e nele eu determino o lugar dos fatos. Isso é ótimo, porque se eu resolver contar algo só mais à frente, basta mudar de lugar. Eu ia começar A cabeça do santo contando o passado de Candeia, porque a estátua não foi concluída. Mas depois vi que eu deveria começar com Samuel, manter a pergunta no leitor e explicar depois. Foi só mover a ficha de lugar. Depois de organizar a estrutura, vem a hora de escrever uma primeira versão do texto e assim prosseguir. Mais à frente chegam os leitores que me ajudam muito — minha agente, Lúcia Riff, os editores, preparadores de texto. Sou grata por esse momento, é o fim da solidão e o começo do trabalho em equipe para fazer o livro existir. Mas isso tudo é só um lado da minha vida profissional. Tenho ainda a carreira de professora em construção. Acabei meu Doutorado e estou ministrando cursos livres de Construção de Narrativa. Além, é claro, das rotinas de dona de casa, de cuidar da família, da vida toda ao redor.



Você já afirmou que ser escritor no Brasil é muito difícil. Quais as principais dificuldades que um autor enfrenta num país como o Brasil?
Instabilidade financeira e desrespeito diante da profissão. É raro que um escritor consiga viver de direitos autorais no Brasil. O que tem ajudado muito é o número de eventos literários no país inteiro, que pagam cachês e ajudam na receita mensal dos autores. O problema é que viver viajando para dar palestras destrói essa rotina de método e silêncio que todo escritor precisa ter para trabalhar nos livros. Muitos autores encaram o dilema cruel de ter um emprego para escrever sem preocupações ou viver só de escrever, mas sofrer a cada final de mês. A falta de respeito e desconhecimento diante da profissão também é terrível. A pergunta “você trabalha ou só escreve?” é o mínimo que se escuta. Eu coleciono frases de uma grosseria absurda, especialmente como autora de livros infantis. Já me convidaram para eventos onde esperavam que eu cantasse e dançasse, coisa que não faço. Sou escritora. O que sei fazer diante de um grupo de crianças é conversar sobre meu processo criativo, contar coisas engraçadas ou surpreendentes, ler o texto, responder perguntas. Confundem literatura infantil com animação de palco, às vezes. Para ser honesta, acho que com dez anos de estrada eu já consigo tirar de letra. Tenho respostas ótimas para perguntas desrespeitosas sobre a profissão.

Já pensou em desistir de escrever?
Não. Já desisti de projetos, isso sim. Mas não paro de escrever. Posso demorar, posso conduzir minha energia para a carreira de professora como prioridade por um tempo, mas parar de escrever, nunca.

Ao ler em média de seis a doze livros por mês, você, obviamente, é uma leitora muito acima da média. O que você busca na leitura de ficção?
Nem sempre consigo esse máximo de doze livros, mas leio muito e sempre. O que me ajuda bastante é o advento fantástico do ebook. Tenho um Kobo alimentado por uma biblioteca incrível e aproveito cada minuto livre que tenho. Tenho metas de leitura, anoto tudo que leio, faço estatísticas, é um negócio divertido e meio nerd. Mas isso não faz de mim uma erudita, porque leio muita, muita bobagem. Antes de dormir, geralmente, opto por livros que contem uma boa história e não tenho o menor problema em escolher algo mais leve e nem de perder tempo com best-seller. Muitas vezes eu sigo as indicações das minhas leitoras adolescentes e compro os sucessos do momento — a maioria dos textos me irrita, mas eu leio. Ao mesmo tempo, andei numa fase obsessiva por autores africanos — Mia Couto, Agualusa, Luandino Vieira, Pepetela, Ondjaki, Armenio Vieira. Tive uma paixonite pelo Ian McEwan, pelo Murakami. Ano passado fui à Argentina pela primeira vez e me preparei lendo Borges. A paixão do momento é o Valter Hugo Mãe. O que eu busco na ficção depende do momento. Escolher um livro é fazer um pacto com ele, olhando nos olhos da capa. Para alguns eu digo: “ok, eu quero rir um pouco com você e esquecer da vida, por favor”. Diante de outros eu reverencio o autor e digo: “Nada menos que arrebatamento, é o que espero”.

Da sua experiência com jovens leitores, é possível buscar explicações para as dificuldades em formar mais leitores no Brasil? Quais seriam as principais barreiras?
É um quadro complexo. O que cerca um leitor em potencial? Família e escola. Sem incentivo desses dois pilares da sua formação, fica difícil tornar-se leitor. Existem iniciativas fantásticas no Brasil. Aplaudo de pé o programa Agentes de Leitura, criado pelo educador Fabiano dos Santos, que leva livros de casa em casa. Também sou entusiasta da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, que mantém diversas ações impressionantes envolvendo autores, ilustradores, editores, família e professores. Se eu tiver de arriscar um caminho, creio que a saída para o problema é o investimento na formação do professor leitor. Eu já dei uma palestra para um público de professores às 20h e perguntei quantos ali tinham dado mais de dois turnos de aula. A maioria levantou o braço. Perguntei quem trabalhava aos sábados e todos levantaram o braço. Quando esse professor vai ler? E sem ter, ele próprio, uma vida de leitor, como vai transmitir esse gosto para os alunos? Por outro lado, vemos um aumento imenso no mercado de literatura infantil e juvenil no Brasil. Eventos de editoras voltados para o público jovem lotam as livrarias do Brasil, assim como as tardes de autógrafos de autoras como Thalita Rebouças, Paula Pimenta, Bruna Vieira. Estamos falando de números e nesse sentido, o momento é de otimismo.

De que maneira você auxilia sua filha a se formar uma boa leitora?
Tenho algumas regras com ela. A primeira é nunca negar livros que ela queira comprar. Nunca. A segunda é não censurar as leituras. Ela escolhe o que quiser ler, mesmo que eu ache uma bobagem, eu compro. Comigo não tem essa de mandar que compre com mesada, eu invisto mesmo. E digo sempre às mães que façam a mesma coisa. Cada leitor tem seu caminho. Ela viaja comigo para eventos literários desde pequena, acompanha minhas palestras e me vê sempre lendo e falando de livros. Agora me pediu um Kobo e eu comprei. Acabou de ler a trilogia Jogos vorazes e começou
O cão dos Baskervilles — está adorando. Sim, ela é uma leitora. Acho que tomei boas decisões nesse processo.

O que seria um bom leitor? É possível defini-lo?
Talvez seja o que lê com prazer, porque gosta, porque não sabe viver sem livros. Um por mês, que seja. Talvez seja o leitor que pensa sobre o que leu, que sabe compreender os livros dentro dos seus contextos, que entende o lugar de cada autor no seu tempo e sua posição e contrastes diante dos demais. Talvez seja o que surta nas livrarias, compra mais do que consegue ler, ama os autores loucamente. Existem inúmeros tipos de bons leitores, não existe um gabarito.

Nos últimos anos, o Brasil vem tentando implantar políticas públicas para o livro e leitura. Como você avalia estas iniciativas, muitas vezes voltadas apenas para a compra de livros?
A compra de livros para bibliotecas escolares no Brasil é impressionante. Mas sem formação de mediadores para conquistar o público leitor é uma equação difícil de fechar. Uma boa biblioteca ao alcance da criança é importante, mas o adulto que indica o livro, conta o comecinho da história, percebe o gosto de cada um e lê junto, isso sim, faz a diferença no começo de vida do leitor. Em geral, vejo que estamos avançando, mas ainda insisto na necessidade de investir nos professores.


Como foi a sua formação como leitora?
Não venho de uma família de leitores. Fui criada por uma avó sertaneja que só teve dois livros na vida: a Bíblia e O brasileiro perplexo, da Rachel de Queiroz, onde ela guardava dinheiro. Um dia aconteceu um assalto na nossa casa e todo a grana da família foi salva pela ignorância do ladrão, que não teve interesse em roubar um livro. Comecei minha vida de leitora com Monteiro Lobato, naquelas coleções vendidas de porta em porta. Já é quase clichê dizer isso, mas ele encantou minha infância. Tanto que, anos depois, ele foi tema da minha dissertação de mestrado (Aula de leitura com Monteiro Lobato, publicada pela Editora Biruta). Depois passei a pegar livros emprestados da biblioteca de uma amiga mais velha e li muitos autores brasileiros. Meu primeiro amor literário foi com A metamorfose.

Quais autores são fundamentais na sua vida?
Italo Calvino, Roland Barthes, Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Luis Fernando Verissimo, Guimarães Rosa.

Na introdução de Aula de leitura com Monteiro Lobato, você afirma que “escrevi este livro porque acredito, a cada minuto da minha vida, que a literatura pode salvar o mundo”. Por que esta crença na literatura?
Uma vez a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil organizou uma exposição chamada Santos Dumont leitor de Julio Verne. Fiquei impressionada com aquilo, com o poder da literatura como condutora da vida de um inventor. A boa literatura dá sentido à vida, no mínimo. Nos melhores casos, alimenta grandes ideias. O querido Bartolomeu Campos de Queiroz disse uma vez que é a imaginação que movimenta o mundo. Esse computador onde eu escrevo e esse outro de onde você me lê só existe porque alguém imaginou. E a literatura nos dá isso, esse poder de sonhar, especialmente na infância. Existe também a literatura que dói e que faz enxergar a dor do outro. Nada mais necessário do que o exercício da empatia nos dias de hoje, esses tempos de egoísmo.

Ao percorrer o Brasil em feiras, festivais, encontros com leitores, como você avalia o momento literário brasileiro do ponto de vista de mercado? É possível viver de literatura?
Para alguns autores, sim. Uns têm a sorte de viver só de vendas de livros, o melhor dos mundos. Outros conseguem cumprindo uma agenda de muitas viagens por mês, nas condições mais diversas. Mas de qualquer forma, temos um número razoável de escritores vivendo de literatura e isso é muito bom. Do ponto de vista do mercado, é um momento aquecido. Muitos eventos, muitos autores surgindo, muitos livros de sucesso vendendo bem nas livrarias do Brasil, vários editais para compras de governo por ano, concursos, prêmios literários, etc.

Você acompanha a produção literária brasileira? O que mais te chama a atenção na literatura atual?
Acompanho, claro. Como leitora e como amiga de muitos autores — a maioria que vou conhecendo pela estrada das feiras e festas literárias. Os autores sérios estão em busca da sua própria voz, isso é o que mais me impressiona. Não temos uma produção em bloco, aquela série de livros parecidos. Adriana Lisboa, Tatiana Salem Levy, Daniel Galera, Michel Laub, cada um tem seu caminho próprio, seu projeto literário muito bem fundamentado. Já na literatura infantojuvenil surgem muitos autores novos todos os dias. A maioria vem copiar o que já deu certo, o que é uma pena. Uma minoria de muita qualidade oferece uma voz original. Isso sim, me anima.

Você circula com muita desenvoltura pelas mídias digitais, com seus blogs, facebook, twitter. De que maneira o mundo digital facilita ou atrapalha a vida dos escritores?
Facilita muito porque é mais rápido encontrar pessoas. Editores, jornalistas, críticos, estão todos ali, ao alcance de um clic. Basta ser amigo virtual e a porta está aberta para ver e ser visto. Divulgar eventos pelo facebook e twitter é maravilhoso e é pelas redes sociais que os leitores chegam ao blog. Atrapalha porque toma muito tempo. E porque o risco de se expor demais é enorme. É preciso saber dosar bem quando se posta uma informação que mil pessoas vão ler. Eu confesso que gosto bastante, tenho muitos amigos que conheci pela internet. Adoro receber os recados dos leitores, especialmente as coisas engraçadíssimas que os adolescentes postam. Mas transito com muito cuidado por esse terreno virtual.

Como transformar uma ideia em boa literatura?
Com muito trabalho. No meu caso, com um planejamento intenso até encontrar a estrutura adequada ao texto. A ficção exige uma série de tomadas de decisão por parte do autor. Onde acontecerá a história? Quem são os personagens? O que eles querem? O que os impede? Vão conseguir? Em quanto tempo tudo acontecerá? Quem contará a história, um narrador onisciente? Será em primeira pessoa? Quais as verdades ou as perguntas que movem esse texto? Essas são apenas algumas das perguntas que o livro precisa responder. O que aprendi com cursos de roteiro e escrita criativa me ajudou muito a facilitar o processo. Juntando os cursos, o estudo e minha experiência, tenho promovido oficinas de construção de narrativa para tentar iluminar esse caminho entre a ideia e a literatura.

Quando você considera um livro pronto para ser publicado?
Quando o editor diz que não pode mais esperar pela minha última revisão. Por mim, nunca está pronto, nunca está bom, sempre pode melhorar.

Qual a importância dos prêmios literários para os autores? E qual a importância no seu caso específico?
Prêmios conferem uma visibilidade imensa para o livro e o autor. Para o público leitor, é uma legitimação do trabalho, um atestado de qualidade. O Jabuti foi o meu primeiro prêmio nacional e o salto da minha posição no mercado foi estrondoso. Muitas portas se abriram, muitos convites, muito reconhecimento. Tudo fica mais fácil depois quando o autor tem um Jabuti no currículo. Na vida real, ao menos pra mim, não muda muita coisa. Continuo batalhando muito, lutando no dia a dia para seguir escrevendo, estudando, pensando meus projetos, correndo muito para dar palestras, fechar as contas no fim do mês. Valorizo muito os prêmios que já recebi, me fizeram feliz e espero que venham mais. Porém, eles não mudam quem eu sou.

Por que manter um blog de receitas gastronômicas?
Por prazer. Adoro cozinhar, pesquisar receitas, conhecer ingredientes novos, reproduzir em casa as comidas que aprendo nas viagens. Minhas malas voltam cheias de ingredientes e utensílios. Faço comida todos os dias para minha família e é nesse momento que surgem ótimas ideias para a literatura. De vez em quando eu penso que, um dia, pode surgir um projeto literário daí, mas nada concreto ainda. Por enquanto, é prazer e distração.



Rogério Pereira é jornalista e escritor. Autor do romance Na escuridão, amanhã (Cosac Naify). Tem contos publicados no Brasil, França, Alemanha, Finlândia e México. Desde 2011, é diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Em 2000, fundou o Rascunho. Vive em Campo Largo (PR).

Entrevista publicada originalmente no Jornal Rascunho em maio d 2014


Socorro Acioli
http://socorroacioli.wordpress.com/

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Um dia toparei comigo


Um dia toparei comigo

Paula Fábrio

Em seu livro de estreia, Paula Fábrio ganhou o prêmio São Paulo de Literatura, em 2013. Neste segundo romance, ela nos convida para uma viagem perturbadora: a arte de observar, e se ver através do mundo. O ponto de partida é a partida do Brasil – sem trabalho fixo, e fugindo do luto pela morte recente do pai, a protagonista resolve sair do país e viajar com a namorada pela Europa. Neste road livro por Madri, Barcelona e Paris, ela encontra personagens tresloucadas, espelhos do passado e sonhos de futuro, refletindo sobre o amor entre iguais e desiguais, a perda de pessoas importantes em nossas vidas, e a reparação que o tempo nos oferece, para seguir adiante. 

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A ligação estava ruim. Chiado da fiação ou a voz de fato falhava, advinda do fundo de um caixão. A segunda hipótese só me ocorre agora. Naquela segunda-feira, ele telefonou para contar que marcara médico. Por três vezes me deu datas diferentes para acompanhá-lo e também reclamou de não ter tido companhia para almoçar no domingo. Eu almoçara com ele no domingo. Urrei do outro lado da linha, aquela chantagem não era justa. Talvez eu estivesse variando. O tom ansioso da minha voz denunciava, falava como se corresse numa estrada para me livrar dos problemas. Para me livrar. Simplesmente. Ele não ouvia meus argumentos. E de repente mudou de parágrafo, para falar do baile, do namoro que terminou dentro do carro, na porta do clube atlético, onde havia um salão para bailes às sextas-feiras. A mulher dirigia carro importado, modesto, mas importado. E não era só. Trabalhava num escritório de exportações. Cinquenta anos e duas filhas casadas. Boa companhia, engraçada, não cobrava muita coisa, apenas um pouco de sexo. Mas isso ele não disse a mim, disse à empregada. E esta me reportava tudo, bisbilhotando a partir de um senso prático: seu pai está ficando velho.
         Setenta e cinco anos e alguns detalhes, à primeira vista, imbecis. O atropelo do motoqueiro num cruzamento do bairro. Suas mãos tremiam e ele repetia, não sei de onde ele veio, mas pode vir a me processar. O carro já estava meio uva-passa mesmo. Resolvi não acumular problemas. Mas depois vieram mais detalhes, a princípio também idiotas, mas depois não.
         O fato é que, após o último baile, meu pai nunca mais conseguiu memorizar a data de uma consulta. E isso eu somente descobriria na semana seguinte. Naquele dia, o dia do telefonema chiado, encerrada a ligação, prossegui discutindo com ele, tentando me desvencilhar de um impeditivo. O impeditivo de seguir minha vida. Ele na casa dele, eu na minha. Mesmo assim eu gesticulava. Os móveis da casa a me observar. Talvez me repreendessem. Não sei. Mas interposto ao meu raciocínio, perfurando minha cabeça, reverberava cada minuto do almoço de domingo. Almoço de domingo, ocasião de coletar pérolas. Pérolas sobre economias necessárias, a vida do aposentado, a poupança a definhar, o governo e um tal ministro advogando em prol do arrocho salarial dos velhinhos. Um governo ruim, que eu não achava tão ruim, ao que ele contestava, espere chegar na minha idade.
         Faça-me o favor, por nada eu queria permanecer ali, em visita à sua velhice. Em visita ao meu futuro. A relação com os pais deveria ser menos obrigatória. E eu pensava, onde há amor em mim? 

***

         Os documentos. Os documentos estão na pasta. Já amarela. Tão guardada de mim. Dizem que é bom guardá-los, pelo menos por um tempo.
         Receosa, vasculho aquele nicho nomeado herança. Identidades caem no chão. Recolho os papéis com mãos caridosas, reticentes, quase infantis. Fotos antigas, datas de nascimento que antes já me pareceram mais antigas. Agora se aproximam de mim, numa manobra matemática inconformista e exasperadora.
         Me cubro de tensão. Quem recolherá meus documentos? Os documentos de uma existência que não haverá mais. Quem fará o papel que estou fazendo agora? Quem decidirá por queimá-los ou guardá-los? Quem revolverá o medo de ser o próximo?
         Tenho tempo para adiar. Adiar decisões. Pensarei nos documentos depois. Agora a campainha traz o doce sorriso de dona Helena.
         Fico sabendo que sua filha quer buscá-la.
         Em vão.
         Helena é matrona, não vai se subjugar em outra casa, encurvar-se num quarto com bordados e revistas de telenovela. Ainda tem amigos. Dona Eugênia mora ao lado e juntas fazem o supermercado e a feira. E tem a mim. Solto um longo suspiro, que ela percebe. Estamos felizes. Que bom que ela não mudará do Richard Wagner. Teremos ocasiões para nos consolar.  Ouvir gritinhos no corredor, ela e Eugênia rindo da vida. Haverá outras tardes com café e álbum da Espanha. Não haveremos de desperdiçar, ainda mais agora que o primeiro velhinho morreu.

Um dia toparei comigo
Paula Fábrio
Editora Foz




Paula Fábrio é escritora e mestre em Letras. Nascida em São Paulo, atuou na publicidade até o início dos anos 2000, quando abriu a Rato de Livraria. Após a experiência como livreira, publicou seu primeiro romance, Desnorteio [Ed. Patuá], vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2013, como Melhor Livro do Ano - categoria estreante. Seu novo livro, Um dia toparei comigo [Foz, 2015], foi agraciado com a bolsa de criação literária do ProAC.

Leiam o conto inédito de Paula Fabrio publicado no Blog Etudes Lusophones pelo link : Uma familia inteira



Lançamento de "Um dia toparei comigo"
6 de novembro às 19h 
Livraria Blooks, 3° piso do Shopping Frei Caneca




sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Amora


Amora

Quando a vida se distancia da acomodação e se aproxima do deslumbramento e da descoberta, um novo cenário de experiências e reflexões se faz presente. Mais do que abordar relações homossexuais, os contos de Amora retratam ritos de passagem, embates com a estranheza, caminhos de aceitação, além das possibilidades, dos dramas e das mudanças na realidade de personagens mulheres de diferentes idades.

Natalia Borges Polesso, que recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura em 2013 (na categoria Contos com o livro Recortes para álbum de fotografia sem gente), traz em Amora o tema do encontro de si mesmo. Mas de um modo desafiador: quando ele ocorre fora dos padrões e encaminha para uma transformação inevitável.

Natalia traz narrativas curtas que desafiam os conservadores, abordando a questão da orientação sexual e trazendo-a para a realidade cotidiana. Ao longo do livro, as personagens se descobrem e tentam se aceitar, lidam com as expectativas ou rejeições familiares, entram em conflitos nas relações sociais e no ambiente de trabalho, ou levantam a cabeça e quebram muitos paradigmas, como a própria definição de família tradicional. Tudo permeado por um constante sentimento de estranheza e extraordinariedade.

Minha prima está na cidade

Natalia Borges Polesso(*)

“Minha família adora a Bruna, eles só acham engraçado ela morar comigo, já que é uma mulher feita que tem uma carreira relativamente estável, sabe?”
Abri a porta do apartamento, vi a luz do banheiro acesa e comecei a discernir um barulho de chuveiro: entrei em pânico. Minhas colegas de trabalho me olharam, eu olhei de volta para elas, congelada. Lembrando agora é engraçado, mas na hora foi terrível. Eu só queria fazer uma janta lá em casa. Apartamento novo, trabalho novo, essas coisas que a gente faz para se entrosar. Aproveitei que a Bruna estava viajando e decidi convidar o pessoal da firma. É que eu nunca tinha falado da Bruna para nenhuma das minhas colegas. Eu trabalho num lugar que não me permite fazer isso. Sei lá, a Bruna é designer, acho que, no meio em que ela circula, é mais fácil aceitar. Eu vou jantar com os amigos da Bruna, amigos do trabalho. Eles sabem que a gente é um casal, porque a Bruna não tem problemas com isso. Eu tenho. Quer dizer, já tive mais, mas agora consigo lidar até bem com essa questão de sexualidade, claro, dentro da minha cabeça. Não conto para muitas pessoas, tem gente que não precisa saber, não faz diferença. Por exemplo, as minhas colegas de trabalho não precisam saber, nem a minha família. Minha família adora a Bruna, eles só acham engraçado ela morar comigo, já que é uma mulher feita que tem uma carreira relativamente estável, sabe? Acham que ela poderia já estar casada, morando com um marido bacana. Aí, eles mesmos se desdizem, ah mas hoje em dia tá assim, pode casar tarde mesmo, primeiro tem que estudar, fazer um pé de meia pra depois pensar em ter uma família, acho que ela tá certa. Acontece que eu e a Bruna somos uma família, mas eu demorei para entender que éramos. Foi um dia em que eu fiquei bem doente e cogitei a possibilidade de passar a noite na casa dos meus pais, e a Bruna ficou puta comigo, com razão. Aquela era a nossa casa e eu podia me sentir bem e protegida ali, foi assim que eu comecei a entender. Comecei a entender com cheiros de sopa e pão, banhos quentes e carinhos e escolhas bobas como a cor dos móveis ou a necessidade de uma cortina, assim comecei a entender o que era uma família, com louças acumuladas e montes de cabelos que se perdiam pelo chão, cabelos pretos e compridos, porque eu e a Bruna temos cabelos pretos e compridos. Minha família estava ali, com louça, gripes, montes de cabelos, cheiros de comida caseira, café na cama e banhos quentes, com brigas e pedidos de desculpas, carinhos, amores, cuidados, e era mesmo uma família, até quando ficávamos vendo televisão no domingo de tarde ou quando levávamos nosso cachorro imaginário para passear no parque. Não é que não gostamos de bichos, só não queremos ter nenhum no momento, nem eu nem ela temos tempo ou disposição para um bichinho agora, então temos essa piada de casal lésbico cool que tem cachorro e leva para passear no parque no domingo de tarde. Levamos a Frida, nossa cachorra de gênio mexicano para passear no parque e rimos quando jogamos uma bola imaginária para ela e rimos mais quando damos um biscoito imaginário e quando deixamos de recolher a merda imaginária que ela faz no canteiro da casa em frente ao nosso prédio. Mas é tudo muito discreto e essas são as piadas que nós temos e que não podemos contar para outras pessoas, porque é mais estranho do que engraçado, mas é também pelas estranhezas que as pessoas se unem. Eu amo a Bruna e nunca quis magoá-la e nunca vou querer. Temos essa combinação de evitar dizer coisas das quais possivelmente nos arrependeremos mais tarde e nunca, nunca ameaçamos uma a outra com um término de relação a menos que isso seja mesmo uma possibilidade, aliás, mais do que isso, que seja uma vontade legítima para além daquele momento. Desde que estabelecemos esses acordos, nossa vida anda tão melhor, temos essa espécie de cumplicidade que nos protege de contar nossas piadas ruins para as outras pessoas, que nos protege de assumir para os outros que, apesar de lermos e irmos a exposições, porque isso é meio compulsório no mundo lésbico artsy pseudocult, pseudointelectual em que vivemos, ainda assistimos programas de televisão como Faustão, Big Brother, novelas e Honey Boo Boo, dublado, diga-se de passagem, e que finalmente nos protege da falta de amor do mundo, porque nós duas nos cobrimos, nos acobertamos e nos namoramos desse jeito simples. E só eu sei como a Bruna pode ser chata quando fica doente e como fica ansiosa quando tem que entregar algum projeto, só eu sei que a ansiedade dela faz seu rosto se encher de espinhas e seu coração disparar durante a noite e nos tira o sono, porque eu também me preocupo e mesmo que eu diga cem vezes que ela vai conseguir fazer, só eu sei que ela não vai acreditar, só eu sei. E só ela sabe como eu sou chata com coisas absolutamente irrelevantes como não sujar o pano de secar a louça, não sentar nas almofadas do sofá, só ela sabe como eu sou chata com o modo de dobrar as roupas e com a disposição dos livros nas prateleiras e no banheiro, só ela sabe, mesmo que isso seja normal entre todos os casais do mundo; de nós duas, só nós sabemos. 


E o que importa é mesmo pensar que somos únicas. Mas a vida não é tão fácil nem tão boa que tudo possa ser perfeito sempre; às vezes, a gente não se entende e, às vezes, ela diz coisas que eu acho que me ofendem e mesmo que ela diga que não foi por querer ou que não foi aquilo que ela quis dizer, eu continuo ofendida e magoada e ela sabe que eu preciso de silêncio nesses momentos e eu sei que ela precisa falar e a gente fica tentando achar uma medida para nossa vida funcionar. Eu mordo meus lábios e tento dormir e vejo que ela fica aflita porque não queria ter me magoado, então ela vem me abraçar, tentar falar comigo, mas eu não consigo, e ela sabe que eu não consigo e é aí que a gente se entende porque a gente sabe uma da outra. Quando sou eu que faço ou geralmente deixo de fazer algo, e ela se magoa, é igualmente difícil, pelo mesmo motivo: ela quer falar e eu não consigo, mas a gente tenta conforme a urgência e a mágoa de cada uma. Até agora tudo tem estado bem, mesmo depois que eu abri aquela porta com três colegas de trabalho que não tinham a menor ideia de quem era a Bruna e, assim que ela saiu do banho, de toalha enrolada e disse oi para todas nós, mesmo depois de tê-la apresentado daquele jeito, as coisas ainda estão dando certo. Eu só queria fazer uma janta aqui em casa, falei para a Bruna na hora, e ela me olhou cabreira, mas já sabendo do que se tratava, então ela me disse que tinha chegado antes da viagem porque a feira de produtos estava chata e ela tinha resolvido voltar. Nesse tempo, minhas colegas estavam paradas ali, meio sem saber o que estava acontecendo, a Bruna ficou esperando que eu dissesse algo, explicasse quem eram aquelas pessoas na nossa casa, e eu disse:
Bruna, essas são minhas colegas de trabalho.
Gurias, essa é a Bruna. Minha prima. Ela veio fazer uma prova. Veio fazer o Enem.
A Bruna olhou para minhas colegas e as cumprimentou como se aquilo de prima e Enem fosse a mais ordinária verdade e pediu licença para ir estudar. Eu fiquei na cozinha com as gurias, mas a comida desceu arranhando a noite toda. Depois que elas foram embora, eu fui falar com a Bruna e ela só me disse que em algum momento aquilo teria que mudar, riu do absurdo e disse também que a verdade teria sido indolor, talvez, mas não tinha certeza, talvez estivesse errada. O fato é que continuamos tentando.


XXXXXX
Natalia Borges Polesso é escritora e doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS. Autora de Recortes para álbum de fotografia sem gente (Modelo de Nuvem / 2013), obra vencedora do Prêmio Açorianos de Literatura 2013 na categoria Contos, do livro de poemas Coração à corda (Patuá / 2015), e também da tirinha tosca A escritora incompreendida, publicada apenas na internet.
Minha prima está na cidade” integra o livro Amora, de Natalia Borges Polesso, publicado pela Não Editora em outubro de 2015. 


Paloma Vidal escreve, na orelha, sobre Amora. “‘No entanto, era um descolamento, a sensação de não pertencer a lugar nenhum’ – esta sensação – desdobrada em cenas de personagens ora mais desgarradas, ora mais amparadas, idosas, jovens, crianças, adolescentes, ou quase adolescentes, num delicado momento de passagem, que lhes permite dizer que ‘o tempo era bonito nas quintas-feiras’ – percorre os contos de Natalia Borges Polesso, deixando-nos um sentimento de comunidade inevitável, mesmo que tantas vezes inconfessável. Esse não-lugar, um descolamento, uma estranheza, se define no próprio livro recorrendo ao que já sabemos, porque basta abrir o dicionário: o estranho é o esquisito, e também o extraordinário; é o que está de fora, que foge ao convívio, e também o misterioso, o enigmático, o novo – dupla face de toda estranheza, que nos abraça em cada ato, em cada palavra, em cada imagem.”

Mais informações no site da editora Não-editora

Leiam o conto "Tia Marga" de Natalia Borges Polesso no link : Tia Marga

Natalia Borges Polesso e Marilia Garcia no Printemps Littéraire Brésilien



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Lúcia Bettencourt e Arthur Rimbaud

Printemps Littéraire Brésilien - 2016
Entrevista com a Lúcia Bettencourt
por Joyce Pereira e Thaisnara Matos(*)

1. Como foi a experiência de sair do conto e partir para a escrita mais longa do romance?
Escrever um romance é uma experiência completamente diferente de escrever contos. Há que ter mais paciência, pois o romance exige mais tempo em cada história, além de devotamento e entrega. No conto, minha ansiedade em vê-lo terminado explica-se pelo desejo de ver o “mundo ordenado”. Começo as histórias sem saber onde elas vão dar. No romance, já prevemos um final (que pode se modificar, durante o processo criativo), mas não escrevemos no escuro. Os dois processos de escrita me agradam, no entanto, e espero continuar escrevendo os dois gêneros.

2. Como você explica a importância do referencial intertextual em seus contos e no seu romance?  Pensamos, entre outras, no conto ‘Insônia’ que nos remete a uma releitura de ‘Missa do Galo’ de Machado de Assis, ou nos mitos  de ‘Herodíades’, ‘Lazaro’ e  Medéia no romance O amor acontece.
Sou uma pessoa totalmente apaixonada por leitura, e creio que isso me leva a esses diálogos com obras e mitos muito amados. Em alguns casos, respondo a situações que percebo no texto fundador. No caso de Insônia, por exemplo, fui tentada a imaginar aquela mulher solitária, sofrendo com o desamor de seu marido, e descrita por Machado com ambiguidade e uma certa pontinha de malícia. Procuro ver a história que se esconde “do outro lado do espelho”, ou vê-la “pelo avesso”. Todos contam o grande milagre de Cristo, trazer alguém de volta à vida. Mas o que isso significa para o ressuscitado? Como voltar a viver, ser um indivíduo, depois que já nos integramos de volta à energia primordial? Mas também tenho outros questionamentos, pessoais, e tento responder a essas questões com minhas histórias. Muitas vezes tento ordenar o mundo, encontrar um sentido para injustiças, nem que seja um sentido perverso. No meu novo romance, O regresso, por exemplo, tentei “reparar” uma injustiça com Rimbaud: a agonia de sua morte e um enterro ao qual só compareceram sua mãe e sua irmã. Ao ler sua biografia e suas cartas senti que precisava encenar esse funeral e acompanhá-lo, e a única maneira em que podia fazer isso era escrevendo sobre ele.

3. A sexualidade e  atravessa boa parte do seu universo literário.  Ela surge como indagação do desejo feminino  no conto ‘Segredos da carne’, onde uma adolescente aprende a conhecer a sua sexualidade a partir do crescimento de seu corpo, ou na ‘A predadora’ em vemos uma mulher madura, segura de si, que sabe como e onde seduzir um homem.  Em ‘ O divórcio’ encontramos uma mulher de 50 anos que após o divórcio crê que não terá mais ninguém em sua vida, pois ‘velha’, com 3 filhos e com um corpo marcado pelos anos e pela gravidez não se sente mais atraente e nem poderosa. Como abordar a sexualidade, e nomeadamente da sexualidade feminina sem cair no vulgar ou no estereótipo? E no que tange à masculinidade?
O desejo feminino está realmente muito presente em minha escrita. Descobri que as mulheres têm direito a exercê-lo, apesar de ter sido criada sob uma sociedade repressora, que ensinava o sexo como pecado. Acho que, por ter sofrido, ter me sentido má e suja em minha adolescência, e ter me esforçado para ultrapassar essas questões, me sinto na obrigação de mostrar o quanto ainda pode ser difícil, para as mulheres, aceitarem seu direito à própria sexualidade. Hoje vejo isso presente sobretudo na dificuldade que as pessoas têm em aceitar a existência de desejo sexual em mulheres de mais de 50 anos. Ou as mulheres se congelam numa aparência que procura apagar os sinais de sua idade, ou elas se encolhem, tímidas, ou, ainda, assumem posições combativas e até agressivas. E, como não escrevo para excitar o desejo, mas para examiná-lo, creio que é essa a razão de não ter um texto vulgar nem estereotipado. No que tange a masculinidade, acho que observo os homens com quem convivo, e procuro revelar como aquele machismo meio canalha, que não se furtava a se aproveitar de jovens inexperientes, agora está dando lugar a um “macho mais saciado”, que não precisa mais ser canalha e pode ser amigo e companheiro. Preciso ressaltar que as relações amorosas entre pessoas, de qualquer sexo ou idade, são um assunto fascinante e que rendem sempre boas histórias.

4. Notamos em alguns contos abordagens de  temáticas bastante contundentes.   No conto ‘A carta’, você evoca a trejetória de um homossexual que aguarda uma carta com uma “resposta derradeira”. Nesse conto não sabemos o conteúdo da mesma, mas imaginamos seu resultado. Em ‘Segredos da carne’, você descreve brilhantemente não apenas o nascimento da sexualidade, mais também  o abuso sexual dentro do ambiente familiar. Finalemente  em ‘Ceia de natal’ presenciamos a desigualdade social e a necessidade de um pouco mais de humanidade para que possamos conviver melhor com o próximo. Há temáticas tabus na literatura? Como aborda-las?  O que a levou a trabalhar tais questões?
Meu desejo de ordenar a vida, de examinar e explicar fatos que são contundentes, tanto humana como socialmente. Gosto muito desses meus personagens “bizarros”, como o velhinho de Perfeição, que, às portas da morte, ainda se rende à sedução da vida e do prazer estético que o piercing da jovem lhe proporciona. Outro personagem estranho é aquele de Caindo em tentação, que tem problemas sexuais, nunca transou, e finalmente se realiza ao, com uma faca, penetrar outro corpo. Não acho que exista tabus para a escrita. Mas acho que não devemos escrever sem procurar a verdade que existe naquela questão. Somos como Édipo, a vida está sempre nos confrontando com perguntas cuja resposta é sempre a mesma: o homem (no sentido de ser humano). Mas o que é ser homem ou mulher? O que nos confere humanidade? Como construímo-nos do jeito que somos? Num outro conto, O carona, examino nossa impotência contra as questões de violência: mesmo incomodados pelo assunto e dispostos a fazer “algo”, a vida (metaforizada no trânsito) vai-nos empurrando e levando para longe . Sofro com meus personagens, quero salvá-los, mas me sinto impotente. Então jogo a isca para os leitores: ajudem, por favor!

5. Você poderia nos contar um pouco mais sobre seu novo romance O regresso de Rimbaud
O titulo já conta uma boa parte: O regresso, a última viagem de Rimbaud. Como falei acima, a leitura da biografia e das cartas de Rimbaud me provocou um intenso desejo de acompanhar o funeral de um dos maiores gênios literários do mundo. As circunstâncias de sua morte, também, me deixaram penalizada. Foi uma vida inteira de frustrações e fracassos, como se o fato de ser genial tivesse encarniçado os outros e todos os deuses contra ele. Comecei a compará-lo com Odisseu, o herói perseguido, e achei que ele, nestes tempos de “felicidade obrigatória”, em que todos temos que aparecer “bem na foto” para postar no Instagram, no Facebook ou no que quer que seja a tecnologia da moda, podia nos ensinar uma lição essencial: é preciso ter o direito de falhar, é bom lembrar que as melhores narrativas são as do aprendizado, das frustrações e das perdas. E que tudo isso é preciso para que haja uma vitória, um crescimento.


AGONIA[1]
Quantas vezes morri? Pois é um erro pensar que só se morre uma vez.  A morte é recorrente, a cada dia um pedaço de nós se apaga, mas, a impressão que temos é que, enquanto morremos, os seres odiosos que nos rodeiam se perpetuam, imortais. Toda uma corja de hipócritas, de enfatuados, de nulidades, assumem posições de destaque; estatuescamente se imobilizam nos nichos e impedem que os ares da modernidade arejem as mentes e os corações.  Todos se acorrentam em suas posições. Um é mestre, outro é bibliotecário, uma é mãe, outra é  vendedora, um é dono, outro é policial e todos eles exercem poderes incompreensíveis, pois se chocam com a humanidade e com os ideais. Liberdade, igualdade e fraternidade. Mentiras! Enganos! Na verdade só o que se conhece na prática são os pequenos poderes que esses seres acorrentados usam como uma consolação pela sua própria falta de liberdade.
Pensei que os escritores, que os poetas, fossem seres acima dessas mesquinharias. Na minha ilusão, julguei que o talento que encharcava cada célula do meu corpo ainda franzino, seria reconhecido por aqueles a quem acreditei serem irmãos. Julguei que os proscritos seriam perdoados através de seus versos. E que eu seria amado e respeitado porque, dentro de mim, um deus havia feito sua morada. Eu me sentia um vate. Aquele que pode prever o futuro, um sacerdote da Verdade e da Liberdade. A morte deste ser que um dia fui me fez passar pela pior das minhas agonias. Entre uivos de dor e de desespero fui capaz de descrevê-la, com uma lucidez que até a mim mesmo me assombrou. E renasci.
É intrigante pensar que, enquanto morria, eu podia escrever. Escrevia porque o ser que eu havia sido ainda respirava e sentia. Nos seus delírios de moribundo julgava que as palavras ainda significavam coisas mais preciosas do que a posição social, o trabalho, a posse e o poder. As palavras eram nosso alento divino, nosso único liame com Deus, mas não com esse deus de catecismo, irado e rabugento como um nobre ameaçado. Não o “senhor” que nos quer prostrados e cordatos como ovelhas. Mas o Deus que nos colocou acima do natural e nos permitiu reconhecer o sublime. O Deus poeta e criador, talentoso e perdulário, que esbanjou belezas e perfeições em feras e até em flocos de neve, esquecendo-se de aperfeiçoar nossas sensibilidades. Olhando para nuvens e céus mutantes, admirava-me  de um espírito capaz de fazer tanta beleza para que um capricho de vento, um apagar de luzes viessem desmanchar. E depois entendi que era assim mesmo que devia ser a Arte. Livre. Arte é “liberdade livre”. Generosa, para todos e para ninguém. Pois a beleza dos céus e das nuvens existe mesmo que não haja ninguém para apreciá-la. E daqui a pouco essa beleza terá se transformado e desaparecido para sempre, sem deixar traços. Sobretudo sem deixar traços. Uma vaga lembrança nos olhos que um dia a contemplaram. E, quando esses olhos se fecharem, nem mesmo isso. Mas a obra é grandiosa. E não precisa de críticos, de amigos, de protetores, de editores e de seguidores. Ela existe livre de tudo, acima de tudo, apesar de tudo.
Nos meus primeiros anos a arte me sustentou. A beleza me alimentou. A imaginação me embalou. A poesia me fortaleceu. Eu morria de fome e de frio, e continuava insistindo, acreditando. Aqueles que deveriam me reconhecer como poeta, me ignoraram. E seguiram cultuando seus versinhos medíocres, estampados em revistinhas autocongratulatórias. Sentindo-se superiores a mim quando, em verdade me digo, eles foram piores que as hienas que um dia vim a conhecer. Estas prestavam um serviço, se atirando às carcaças malcheirosas, e evitando que as doenças e os ratos invadissem o lugar. Eu precisei viver sob o domínio dos ratos. Mas me rebelei. Lutei. E sucumbi, sem glória, sem compreensão. Um vencido, moribundo enlouquecido de dor e mesmo de medo. Batendo nas paredes com os punhos fechados, com a testa onde o conhecimento da morte torturava minhas certezas. Mas, na dor, meus gritos foram de beleza, e permanecem.


O romance O regresso, os últimos dias de Rimbaud de Lúcia Bettencourt será lançado dia 20, a partir das 19h, na Livraria Argumento ( Rio de Janeiro) Divulguem e compareçam!



Lúcia Bettencourt nasceu no Rio de Janeiro (RJ). É autora dos livros de contos A secretária de Borges e Linha de Sombra (prêmios SESC, Josué Guimarães e Osman Lins), do romance O amor acontece (Record, 2006, 2008, 2010), dos infantis: O sapo e a sopa, A cobra e a corda  Botas e bolas e A oca e a toca (Escrita Fina) e do ensaio O Banquete: uma degustação de textos e imagens (Vermelho Marinho, 2012, Prêmio da Academia Brasileira de Letras). Seu próximo livro, O regresso, os últimos dias de Rimbaud sairá pela editora Rocco no dia  20 de outubro de 2015.

Joyce Pereira participou do Programa de Licenciatura Internacional e é diplomada em Letras Português/Francês pela Université Paris-Sorbonne. Atualmente termina sua gradução na USP.

Thaisnara Matos participou do Programa de Licenciatura Internacional e é diplomada em Letras Português/Francês pela Université Paris-Sorbonne. Atualmente termina sua gradução na Universidade Federal do Ceará

Mais informações no site da editora Rocco : http://www.rocco.com.br

Lucia Bettencourt, Thaisnara Matos e Joyce Pereira
Printemps Littéraire Brésilien - 2016

Lucia Bettencourt e Leonardo Tonus
Printemps Littéraire Brésililen - 2016






[1] Trecho do romance O regresso, os últimos dias de Rimbaud de Lúcia Bettencourt ( Rocco, 2015)