domingo, 30 de agosto de 2015

Dobradinha

Sebastião Salgado
Dobradinha
Sheyla Smanioto
Esses dias eu estava voltando pra casa e uma mulher, nunca vou esquecer o rosto dela, os cabelos compridos, ela me pediu dinheiro para comer e eu, com pressa, fazendo conta, e eu, que geralmente dou um jeito, arranjo um lanche, eu apressada, concreta, paulista, falei que não tinha. Eu nunca vou esquecer a mão dela pelos cabelos ondulados, compridos, eu nunca vou esquecer o rosto dela aflito, segurando a raiva com os dentes, o nó desfeito das suas pernas, eu nunca vou esquecer o que ela me respondeu.
Eu continuei andando adiante, talvez tenha olhado de relance, apenas para guardar na memória, caramba, eu não ia conseguir voltar e oferecer um prato de comida, como eu já tinha feito outras vezes com medo de que a fome se vingue, depois do que ela me disse eu não ia conseguir voltar e dizer pensei melhor, vamos naquele boteco que eu te pago uma dobradinha e um suco e talvez fritas, porque eu não consegui voltar do que ela me disse, até hoje eu não voltei.
Melhoras. Assim, ela disse assim: melhoras. Eu disse que não tinha dinheiro e ela me desejou melhoras. A mão entrando pelos cabelos ondulados, os dedos uvalados, os olhos tristes eu só entendi depois, com a memória, os pés nos chinelos, na rua, o diabo da fome pegando a coitada pelos cabelos, esfregando na calçada, a boca dela ondulada, crespa, a boca inquieta, seca, mas pronta para uma bofetada. Melhoras. Melhoras. Melhoras, é o que eu diria, foi o que ela disse, se me negassem um prato de comida.
Melhoras, ela disse como quem se vinga. Ela, o personagem implícito de qualquer um dos meus contos, a mulher sendo fodida, não ficou em silêncio, isso não. Ela falou com a fome: foi poetisa. Ela sentada me botou contra a parede, eu indo embora com a certeza de ter sido tomada pela garganta, melhoras, minha senhora, ela disse e me tomou pela garganta, não pela minha, pela dela, ela me tomou pela garganta dela me esganou pelas costas calou minha boca ela disse melhoras minha senhora melhoras ela disse mas a fome, a fome não foi embora.
Tudo que eu queria era voltar, oferecer a dobradinha de carne, perguntar se ela gosta de farofa, eu queria voltar e não chorar no banho, eu queria voltar e esquecer e sentar com ela, feito criança, e aprender com ela a palavra vingança. Eu queria dar risada daquilo, eu queria ter virado e dado risada e voltado, rindo e falando, que engraçado você dizer isso, melhoras, que engraçado porque eu sou exatamente o tipo de pessoa que diz melhoras para quem me recusa ajuda, engraçado, eu queria ter dito, eu não sou quem eu fui com você, eu queria ter dito e dado risada. Mas a fome não é engraçada.
A fome é uma mulher cavando sua carne. A fome é uma mulher dizendo melhoras.
Eu queria ter voltado e oferecido o prato, eu queria ter rido do melhoras, você sempre fala isso para as pessoas, eu ia perguntar, mas continuei andando, entalada, eu continuei dobrando as ruas até ficar cansada. A garganta seca, as sacolas, eu nem lembro o que carregava, as sacolas deixaram meus dedos roxos, cheguei em casa sem sentir as pernas, os dedos dos pés, não eram as unhas que estavam encravadas, as sacolas, eu nem sei onde coloquei as sacolas.
Eu queria ter voltado, engraçado, mas ao invés disso fui escrever o conto que faltava pra ela, minha personagem implícita. Engraçado, porque eu geralmente escrevo para me vingar e eu não queria me vingar dela, eu só queria voltar do melhoras, eu só queria ter conseguido voltar, olhar para trás, caminhar até ela, meu Deus ela estava faminta, eu só queria que ela não tivesse fome, a verdade é que eu não queria sofrer com a fome dela, eu só queria que ela não existisse, a fome, eu só queria que a fome não existisse, nem ela.
Engraçado porque eu geralmente escrevo para me vingar, e talvez seja isso mesmo, uma vingança, uma vingança por ela ter me dito melhoras, uma vingança por ela ter fome, eu estava tão feliz naquele dia, carregando minha sacola eu nem lembro o que tinha nela, não era comida, eu estava tão feliz e aquela mulher aquela maldita mulher cabelos ondulados pernas compridas aquela maldita mendiga pedindo comida, ela não era uma mendiga, meu Deus, não era, quem eu estou tentando enganar?
Era eu a mulher sentada na calçada, pedindo comida, passando pelo olhar daquela gente, perdida. Eu estava com fome e pensei pedir comida não faz mal, não faz mal, já ajudei tanta gente na rua, não faz mal, eu pensei, tudo bem essa fome, eu pensei, é só agir naturalmente, a fome dá um jeito e bota ronco no silêncio da gente, eu sei, só umas moedinhas, as pessoas continuam andando é isso o que elas fazem, por favor, minha senhora, um real já ajuda, casal, calma, eu pensei, é só fingir que está tudo bem, eu pensei, qualquer trocado e eu gasto tudo em cigarro, eu nem pensei.
Eu podia ter ficado quieta, sentada, eu podia continuar fingindo que estava ali esperando alguém, naquela esquina, não sei quantos dias olhando para os lados, decorando as promoções da drogaria, a mesma roupa, não sei quantos dias tentando não resmungar, eu sempre tive medo do que os mendigos resmungam, eu não queria resmungar e descobrir por minha própria boca, eu não queria resmungar e descobrir e ser descoberta, às vezes abrir a boca é como abrir os olhos, outro jeito de a gente esbarrar nos outros. Por isso pedia quieta, muda nascendo pra dentro, envergonhada da minha própria fome, era só o que me faltava.
Sheyla Smanioto, 
Era eu a mulher mantendo a pose e pensando, caralho, a vida tem um senso de humor do caralho. Era eu a mulher sendo fodida, a personagem implícita, rezando está tudo bem isso logo passa está tudo bem depois escrevo um conto, boto essa gente toda em desgraça. Era eu engolindo a raiva, uma coceira na cara, vontade louca de dar uma bofetada, de quebrar tudo, uma vontade louca, sôfrega, eu estava sem forças, mas não era eu tentando ficar escondida no meu pedido insistente, tentando não ouvir os olhares dizendo perguntando isso lá é coisa de gente. Por isso respondi.
A branquela, vinte e poucos anos, não sei, umas maçãs do rosto para comer com canela, ela veio me dizendo que não tinha dinheiro, porra, não tem dinheiro? Desejo melhoras pra senhora. A outra pediu desculpas, o salto pontuando as frases, eu respondi não foi nada, eu que peço desculpas de atrapalhar seu caminho pra casa. Hoje não vai dar, o cara disse, terminando o sorvete, amanhã eu volto, então, senhor, quer deixar hora marcada? Estou sem dinheiro trocado, disseram e eu respondi que pena, doutor, hoje não estou aceitando fiado.
Pena que não dá para comer cara de tacho e é só o que eu tenho para pôr na goela e é uma tristeza, eu sei, mas mesmo assim não engulo, e mesmo assim eu falo, e mesmo assim os ratos, e a fome procura, as pessoas não raspam direito o feijão da marmita, a fome vasculha o lixo, as pessoas, os bichos, tem gente que toma o sorvete e larga a casquinha, eu parada e a fome encontra a ponta secreta de uma coxinha, a fome se mexe, arisca, qualquer cheiro, resto, naco, qualquer papel engordurado, merda de cavalo, qualquer coisa no taco, raspa no copo, no talo, no osso, de repente estou lembrando das frutas pelo caroço.
É normal, não é normal as coisas darem errado e a gente querer gastar tudo em cigarro? Não é assim que se escreve um clássico? Não em um quarto, condomínio fechado, não se escreve um clássico em um Starbucks lotado. Nenhum verso sobrevive a um banheiro pago. As palavras crescem no meio da rua, em sofás desconhecidos, no corredor de um prédio antigo, as palavras vêm quando você nem imagina, sendo fodido no meio da rua, numa kitnet sem cortina, pedindo, pedindo comida, e torcendo pra nenhum conhecido dobrar a esquina.
A mulher com as sacolas, os dedos roxos feito salsichas, as amigas escondidas na conversa, cremes com cheirinho de fruta, sozinho o moleque finge que não escuta, em bando ele grita olha a puta. Poeira do espaço, eu lembro, todos nós somos poeiras do espaço, eu não consigo mais esquecer, poeira, do espaço. É assim, só pode ser assim, tem que ser assim que se escreve um clássico: de quatro, com a vida te fodendo que nem louca e você apoiada em um só braço.
Tem que ser assim que se escreve um clássico e de repente aparece um amigo e graças a Deus um sofá e vai ficar suave, arroz e salsicha sempre tem, vai ficar suave, vem curtir com a gente, vem, mas o caroço largado da fruta é o pomo da minha goela, o fiapo é frango enroscado na lata de lixo feita de panela, a casquinha arrancada do fundo, a casquinha abrindo um machucado, sangrando, a topografia do alumínio amassado, rasgando. O gosto metal do lixo vive agora em cada garfo. Disso a gente não volta. Depois vou dizer que é mentira, imagina, inventei tudo isso, claro que é só um conto, pouco importa, vou rir e dizer rir e dizer:
Eu sou só uma mulher que diz melhoras.


Sheyla Smanioto, 25 anos, é formada em Estudos Literários e mestra em Teoria e História Literária pela Unicamp. Publicou, em 2012, o livro de poemas Dentro e folha, pelo coletivo “Dulcineia Catadora”. Participou da Coleção Incubadora Cultural com a peça No ponto cego, vencedora do IV Concurso Jovens Dramaturgos do Sesc. E da coletânea de jovens dramaturgos com a peça Salto Para, resultado de sua participação na 5ª turma do Núcleo de Dramaturgia do SESI/British Council. Foi produtora e roteirista do webdocumentário Osso da fala, feito em parceria com Raphael Picerni e premiado pelo Rumos Itaú Cultural Cinema e Vídeo. Em 2015 vence o Prêmio Sesc de Literatura em 2015 com o romance inédito Desesterro, um romance feito de muitas vozes, de sonhos, de fotografias imaginadas, de uma menina sem nome e de uma avó cansada. Trata-se de história sobre metamorfoses feita de uma mulher com nossos destinos gravados na pele, de um homem com cães latindo dentro dele e de uma cidade faminta.

Consultem o site da autora no link : http://sheylasm.com/



sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A vizinha e a andorinha

A VIZINHA E A ANDORINHA 


Primeiro infantil de Alexandre Staut traz aquarelas da artista plástica Selene Alge. “A vizinha e a andorinha”, de Alexandre Staut, com aquarelas de Selene Alge, conta a história de um menino que fica intrigado com a nova moradora do seu prédio, uma moça de roupas coloridas, que guarda passarinhos em seu apartamento. O livro aborda, de forma divertida, a ‘descoberta do outro’ e a importância da convivência. Além disso, a obra trabalha onomatopeias e sons que uma criança pode fazer com a boca para imitar o piado de passarinhos, além de rimas (como andorinha e vizinha, por exemplo).

Lançamento: 22 de agosto na loja principal da Livraria Cultura (Conjunto Nacional), em São Paulo.

Horário: 12h às 15h

www.editoracuore.com.br



Sobre os autores

Alexandre Staut é autor dos romances “Jazz band na sala da gente” (2010), “Um lugar para se perder (2012) e “Avante!”. Todos para gente grande. Para o cinema, escreveu a história “O anjo da guarda de Caio Fernando Abreu”. É o idealizador da revista literária São Paulo Review. Nunca teve passarinho na gaiola. Já teve as gatas Issa, Pâmela e Pretinha. Esta miava em português e em francês. Agora é dono da Ferrugem (foto). Alexandre Staut é colunista do Blog Etudes lusophones. Consultem seus textos no link : Alexandre Staut

Selene Alge é artista plástica, professora e ilustradora que também gosta de tocar baixo e cantar como as andorinhas. Sempre teve uma queda por passarinhos. Quando criança, seu avô a apelidou de tico-tico, talvez porque comia e sentia frio feito uma avezinha. Hoje em dia já aprendeu a se agasalhar direito e a comer como gente grande. 

Alexandre Staut no Printemps Littéraire Brésilien



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Festa Literária

Festa Literária

Venha festejar os 5 anos da Revista Pessoa
e o lançamento da edição especial da antologia

Literatura Brasileira Contemporânea
(edição especial Salão do Livro de Paris 2015).

Leitura dramática dos textos e bate-papo com alguns dos autores que integraram a coletânea.

Quand
20 de Agosto de 2015 às 20h00
Onde
Teatro e Bar Cemitério de Automóveis.
Rua Frei Caneca, 384
São Paulo
Entrada Grátis

A edição especial da Revista Pessoa – Salão do Livro de Paris 2015 reúne 27 autores brasileiros de diversas regiões do país. A organização é do professor da Université Paris-Sorbonne Leonardo Tonus. A antologia abarca as múltiplas vozes da literatura brasileira, com trechos de obras de escritores com sólido reconhecimento no Brasil. São eles: Evandro Affondo Ferreira, Elvira Vigna, Alexandre Vidal Porto, Andrea del Fuego, Jacques Fux, Tércia Montenegro, Alexandre Staut, Luisa Geisler, Amilcar Bettega, Luci Collin, Ana Martins Marques, Eucanaã Ferraz, Alice Alice Sant'Anna, Nuno Ramos, Mariana Ianelli, Heitor Ferraz Mello, Dora Ribeiro, Moacir Amâncio, Ana Elisa Ribeiroo, Alberto Brescianii, Daniel Munduruku, Cintia Moscovich, Lúcia Hiratsuka, Maria Valéria Rezende, Fernando Vilela, Paula Autran e Leo Lama.
Faça o download do seu exemplar na Amazon (Em breve também estará disponível nas demais e-bookstores.).

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O Doutrinador

O doutrinador invade São Paulo

Apesar de nascido em 2010, O Doutrinador alcançou fama nas redes sociais durante a onda de protestos que varreu o país em junho de 2013. Catapultado pela mesma revolta em que o autor se inspirou, o personagem já tem 40 mil fãs no Facebook e sua ira contra corruptos não para de crescer. Os posts semanais viraram uma luxuosa edição impressa de 84 páginas, já esgotada. A reimpressão da primeira e a segunda aventura, esta com roteiro original do músico e ativista Marcelo Yuka, ex- O Rappa, já se encontram na gráfica. Mirando o mercado internacional, Luciano Cunha já encomendou as traduções da saga para o inglês e francês.

Lançamento dia 14 de Agosto

às 19 horas na Livraria Cultura.
Avenida Paulista, 2073 


Leia a resenha completa sobre O Doutrinador no Blog Etudes Lusophones. Clique no link : O Doutrinador


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Desgracida

Desgracida



Dalton Trevisan – Desgracida
Rio de Janeiro: Record, 2010
Miguel Sanches Neto[1]


Sempre com um boné, cuja aba cobre seus olhos, e caminhando em linha reta, sem acompanhar o que acontece ao redor, o escritor Dalton Trevisan (Colombo, 1925) se desloca pelos mesmos trajetos há décadas – um pequeno tabuleiro da região central de Curitiba, que vai do Alto da XV, nas imediações da Reitoria da Universidade Federal do Paraná, ao extremo oposto do Centro, um pouco além da Praça Osório. Nesse umbigo da urbe, ele se move incógnito e sempre desconfiado.

Tal obsessão por uma identidade anônima tem uma função literária. Permite que ele seja o espião de uma cidade que, a cada livro, fica mais delimitada. Coletor de histórias desde sempre, ele frequenta um pequeno círculo de amigos, gente da mais variada procedência, garimpando casos, episódios, documentos e depoimentos pessoais – todo um material humano que será transportado para a sua linguagem e sua visão de mundo, em um processo de alquimia literária. Mudam os personagens e os dramas, mas a paisagem de fundo é sempre a mesma: a província perversa.

Nem sempre, no entanto, Dalton Trevisan esteve afastado da vida literária. Na década de 1940, ele foi um dos centros periféricos da cultura nacional. Em uma delegação de rapazes, que se antecipou aos acadêmicos locais, ele participou do II Congresso Brasileiro de Escritores, em Belo Horizonte, em 1947, junto com jovens que faziam a revista Joaquim (1946-1948). Dalton unia as juvenilidades (lá estavam, entre outros, o poeta José Paulo Paes e os críticos Wilson Martins e Temístocles Linhares) para fazer uma limpeza do campo literário dominado pelo tradicionalismo da Geração de 45. Trevisan estreia assim como contista e editor de uma revista iconoclasta.



Nas páginas dessa publicação, ele assina críticas contra grandes nomes locais e nacionais. Emiliano Perneta, ícone da poesia simbolista paranaense, é tratado, por exemplo, como um produto bairrista, em um artigo intitulado “Emiliano, poeta medíocre” (Joaquim, julho de 1946). Também se torna alvo da artilharia (em agosto de 1947) um escritor antes cultuado pelos jovens – o Monteiro Lobato de Urupês, acusado por Dalton de promover um “terceiro indianismo”, sucedendo os de “I-Juca-Pirama” (de Gonçalves Dias) e de Iracema (de José de Alencar). “Monteiro Lobato, ainda em vida, é um autor póstumo”, decreta o jovem Dalton.

O fato é que, nesse período, o contista e o crítico literário se misturam, e ele conquista uma presença forte na literatura brasileira, recebendo aplausos e colaboração dos maiores nomes da cultura nacional. Finda a revista, por um acúmulo de textos medíocres de colaboradores, que se publicados negariam a brigada contra a má literatura, Dalton se dedica a uma carreira solo, usando a mesma lógica da revista: imprime folhetos de contos e os manda, meio anonimamente, aos grandes intelectuais do momento. Eis o início do mito do escritor recluso.

Depois de transitar nesse grupo, que referenda sua produção (Temístocles Linhares e Wilson Martins escrevem em jornais de circulação nacional sobre sua obra), Dalton se une a um núcleo do Rio de Janeiro, criado em torno de Otto Lara Resende e Rubem Braga. É o seu ambiente de maturidade, onde se fortalecerão suas ideias de uma literatura leve, lírica, erotizada, fiel aos pequenos nadas da vida. Agora já é um Dalton Trevisan consagrado como mestre. Esse reconhecimento vem com o Prêmio Nacional de Contos de 1968, promovido pelo Governo do Paraná. Dalton vence, deixando para atrás, entre outros, Lygia Fagundes Telles, Luiz Vilela e Ignácio de Loyola Brandão. Na comissão julgadora, gente de peso, como Fausto Cunha, Rubem Braga, Peregrino Junior, Autran Dourado e Ledo Ivo.



Na entrega do prêmio, Luiz Vilela entrevista o autor para o Jornal da Tarde (06 de julho de 1968). O escritor curitibano fala de contos baseados em histórias de amigos e de parentes, pede para que os nomes das filhas constem na matéria e, depois de se deixar fotografar, e vendo o resultado, confessa: “Puxa, não é que estou bacana aqui? Estou começando a gostar dessa coisa toda...”. Apesar de uma timidez crônica, reconhecida por todos que conviveram com ele, principal determinante do mito do vampiro, ele se mostra extremamente afável e de bem com a mídia nesse momento de consagração – estava com 43 anos. Mas acontecerá justamente o contrário e ele seguirá uma rota cada vez mais reclusa, potencializando a sua timidez, fugindo ao confronto direto com muitas pessoas reais que serviram de modelo a personagens nada agradáveis, garantindo uma liberdade para levar uma existência normal entre pessoas que logo se tornariam matéria literária – dentro da lógica realista de sua literatura. Enfim, solidificou-se o mito paralelamente ao sucesso de público.

Temístocles Linhares, que acompanhou toda a carreira do contista, reclama do amigo no dia 04 de outubro de 1982 (o trecho está na coletânea Diário de um crítico, vol. VI, Imprensa Oficial do Paraná, 2002), depois do grande sucesso de Essas malditas mulheres (1982), livro que sai pela Record com uma tiragem inicial de 20 mil exemplares, quando Trevisan já é o maior contista do Brasil: “É certo que Dalton Trevisan nunca foi muito acessível. Era sempre muito difícil aproximar-se dele. Mas isso não acontecia com os amigos ou as pessoas mais chegadas. Agora, porém, estas também são evitadas. Cada vez mais isolado, ele não procura ninguém, a não ser conhecidos eventuais, mas não de seu nível intelectual. Não só as suas personagens que são neuróticas e mesmo monstruosas. Assim, agora só resta a Dalton escrever a sua autobiografia. Ele próprio, quer me parecer, seria a sua maior personagem”.

Com esse crescente isolamento do autor, que insiste em dizer que só a obra tem valor, seus livros vão passar a se encher de recados contra desafetos, textos respondendo a provocações, e algumas avaliações críticas. É uma forma de rascunhar a própria biografia, ocultando-a no meio dos textos de ficção e lhes dando o mesmo status. O caso mais famoso é o argumento que nega as leituras modernas de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Dalton defende uma leitura contextualizada do livro em “Capitu sem enigma”, em Dinorá (Record, 1994), e depois ficcionaliza a questão em Capitu sou eu (Record, 2003). Entre as inúmeras passagens em que ele usa o espaço ficcional para se dirigir a desafetos, há alguns casos em Dinorá. Com as acusações “Santíssima e patusca” e “Edu e o cheque”, ele, respectivamente, destrata uma professora universitária que usou trechos de sua correspondência numa dissertação de mestrado e acusa um grande amigo da infância, advogado que cuidava de seus negócios, de ter roubado um cheque.



A presença do não ficcional, antes periférica, foi se intensificando nos últimos livros e ganha uma centralidade em Desgracida, volume que passa a figurar entre os mais importantes do autor. Dividido em duas partes (“Ministórias” e “Mal traçadas linhas”), ele retorna aos combates da revista Joaquim. Na primeira seção, composta de pequenos contos, há um texto central, que religa o autor ao tempo em que empreendeu a cruzada contra os passadismos simbolistas do Paraná. Em “Emiliano revisitado”, Trevisan zomba da poetisa paranaense Helena Kolody (1912-2004), comparando-a a uma santa popular. Aqui, ele reescreve o artigo “Emiliano, poeta medíocre” para negar um lirismo galvanizado, sem conexão com o tempo presente, vendo em Helena Kolody a permanência dessa tradição, posteriormente valorizada por Paulo Leminski. Nesse momento do livro, encontramos contos propriamente ditos, mas também meras piadas, aforismos, citações, poemas de amor, sobressaindo entre eles “Marishka” e “Iluminação”. O primeiro é um canto amoroso para uma mulher fatal, significativamente uma referência cinematográfica (área de onde descende boa parte das imagens de Trevisan) à mulher do conde Drácula. Longe das Marias de suas narrativas provincianas, as diabas em forma de fêmea, as desgracidas do título, ele elege um ideal feminino universal, centro de todas as afetividades e erotismos.

Se esse texto é mais um poema, “Iluminação” é um conto antológico, que retoma a temática do amor. O narrador volta a um bairro polonês da região, onde ele teve o primeiro deslumbramento sexual, em busca da fêmea de outrora. Ele a encontra morta, sendo velada numa casa simples. Entra para vê-la no caixão, uma das filhas a descobre e ele se depara com uma “velhinha de novecentos anos”. Esse conto faz referência a dois textos clássicos da literatura brasileira – a narrativa “Viagem aos seios de Duília”, de Aníbal Machado, e o poema “Alumbramento”, de Manuel Bandeira. Nessa viagem às coxas brancas da antiga polaquinha, ele não lê apenas a velhice da mulher um dia desejada, entrevendo agora as pernas da filha – reprise da epifania de outrora. O conto é perfeito, breve e intenso, apresentando um retrato cruel do bairro curitibano, um dos pontos da geografia afetiva do autor: “As polacas da Cachoeira bebem cachaça no sábado. A gente encontra todas as polacas bêbadas. Que voz mais rouca. Que canto mais triste. Cambaleiam ao sol. Você as derruba no mato” (p.156). Passado e presente se misturam nesse conto, mostrando um narrador unido a um espaço desejante, na sua eterna busca pelo sexo.


Mas é na segunda parte do livro que está o valor de Desgracida. Nunca antes em sua obra o homem Dalton Trevisan esteve tão à mostra, embora sempre estivesse sugerido. O discurso crítico já se manifestara em outros livros, mas agora as suas opiniões dão vida às cartas que ele escreveu aos seus amigos mais próximos: Pedro Nava, Rubem Braga e Otto Lara Resende. Tendo sempre ocultado os documentos íntimos, Trevisan publica como conto algumas confissões que são valiosos documentos sobre a sua obra e que têm um poder de polêmica muito grande. Nelas, comenta leituras, avalia autores, elogiando uns e negando outros. Por meio desses textos, todos saborosíssimos, ele apresenta uma verdadeira arte da escrita ao recuperar essas avaliações, que, em momentos distintos, ele enviou a interlocutores reais. Apenas uns poucos não nasceram como carta, figurando apenas como opção textual por esse gênero. Mas a maioria integra a correspondência do autor, principalmente com escritores a quem ele admirava.

Nesses seus comentários até então de circulação fechada, Dalton busca modelos literários em outras culturas. Diz, em um dos aforismos da primeira parte, que Fernando Pessoa só foi um grande poeta porque, desde a infância, aprendeu a escrever e a pensar em inglês. A mesma tese ele aplica, em uma das cartas, aos diários de Helena Morley (Minha vida de menina): ela escreveria bem em português porque pensava em inglês. Sua bronca não é com nenhum autor específico, mas com um padrão de pensamento e de escrita marcado por platitudes. Recusa também a chatice literária, pecado creditado ao Proust de Em busca do tempo perdido, e também ao Guimarães Rosa de Grande sertão: veredas. Sobre este, ainda acrescenta que lhe faltam a alma de romancista e a noção de verossimilhança, tendo Rosa criado uma mulher travestida de homem que seria facilmente reconhecida por qualquer um. Ele elogia o Rosa cronista, mas diz que o autor “pensa convencional”: “A forma seria inovadora, mas o fundo é reacionário” (p. 232). Esse texto está ligado a outro artigo de Dalton, também publicado na revista Joaquim, sobre Monteiro Lobato. Diz ele agora, como se continuasse o anterior: “Rosa é herdeiro de José de Alencar, epígono do novo indianismo”. Com esta carta (datada de 21 de fevereiro de 1968), Trevisan abre novas perspectivas para avaliar Guimarães Rosa, revolucionando – ou ao menos tumultuando – a recepção de sua obra.

Os autores-chave para Trevisan, revelados por essas cartas, formam um pequeno grupo. No Brasil: Pedro Nava, tido como superior a Proust. Rubem Braga, com suas crônicas do cotidiano, é uma espécie de irmão de Montaigne e de Machado de Assis. Extasia-se com Helena Morley. E elege Otto Lara Resende, seu maior interlocutor, o autor de uma grande obra que poderia ter sido e que não foi. Dalton exige do amigo que ele escreva o livro-síntese que o seu estilo e a sua visão do mundo anunciam. Na literatura estrangeira, ele idolatra o francês Léautaud (“Desabusado, irreverente, contestador”, diz em uma das missivas), autor de diários ferinos e obscenos. E ainda lê Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez, como uma das obras-primas da modernidade. Para o contista paranaense, no panteão da grande literatura se encontram o contista Anton Tchekhov, um santo leigo, e o seu equivalente nacional, Machado de Assis.


Eis o que faz, para ele, uma grande literatura: uma linguagem agradável (próprio de uma concepção erótica do idioma), um olho atento para a realidade, fidelidade aos mitos da infância, uma capacidade de criar personagens em carne e osso, com os quais o leitor sofra e aprenda, uma experiência de vida, uma aversão a qualquer oficialismo ou artificialismo, uma originalidade de espírito. Ele próprio define a arte literária: “[O] que se espera de um bom e vero escritor [é] o strip-tease do coraçãozinho esfolado e ainda pulsante” (p.236).

É justamente isso que encontramos nos melhores contos deste livro, que ainda tem o valor adicional de apresentar fragmentos de uma espécie de autobiografia, como queria Temístocles Linhares. Uma autobiografia, no entanto, intelectual.



Texto originalmente publicado no número 40 da revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, disponível em: http://goo.gl/9XUtOj ou no site so Scielo : SCIELO







[1] Professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Ponta Grossa, Paraná, Brasil.

sábado, 1 de agosto de 2015

Revista Pessoa

Babel
Literatura e Mercado Editorial

Por Maria Fernanda Rodrigues (*)


TRADUÇÃO

Feira de Boston

Organizada por Leonardo Tonus e lançada pela Revista Pessoa no Salão de Paris, a coletânea de autores brasileiros contemporâneos sairá agora nos EUA.

O lançamento será em outubro, no Boston Book Festival, com apoio do MIT e da Boston University. Estarão por lá Alexandre Vidal Porto, Luisa Geisler e Adriana Lisboa.

*

Antes, dia 15 de agosto, no Sesc Santos, Luisa Geisler e Andrea Del Fuego apresentam a obra, que deve ser lançada também em Bruxelas até o final do anto. Tudo isso para comemorar os 5 anos da Revista Pessoa.

( *) Fonte : Estado de São Paulo, 31 Julho 2015 | 23:22


Revista Pessoa

Edição especial Salão do Livro de Paris 2015
Literatura brasileira contemporânea

Versão em português, disponível pelo site da Amazon.com.br.
Cliquem no link abaixo :



Version en portugais, disponible sur le site Amazon.com.br. 
Cliquez sur le lien ci-dessous :



Leonardo Tonus, Gabriel Harsfield e Paula Salnot
Revista Pessoa no Salão do Livro de Paris 2015

Revivam o lançamento da edição especial em francês da Revista Pessoa – A literatura brasileira contemporânea - realizado no stand do Brasil durante o Salão do Livro de Paris de 2015!

Com Leonardo Tonus, Daniel Munduruku e Paula Salnot.
Moderação : Gabriel Harsfield



Para adquirir a edição especial em francês da Revista Pessoa, contactem : revistapessoa@revistapessoa.com


        
Leonardo Tonus et Jean-Christophe Ruffin
Revista Pessoa au Salon du livre de Paris 2015


Revivez le lancement de l’édition spéciale en français de la Revue Pessoa - La littérature brésilienne contemporaine - réalisé sur le stand du Brésil pendant le Salon du livre de Paris de 2015 !

Avec Leonardo Tonus, Daniel Munduruku e Paula Salnot.
Moderação : Gabriel Harsfield


Pour acquérir l’édition spéciale en français de Revue Pessoa, contactez : revistapessoa@revistapessoa.com

Daniel Munduruku, Leonardo Tonus, Gabriel Harsfield et Paula Salnot