sexta-feira, 31 de julho de 2015

Será que eu tenho voz?

Carac-teres
Maíra Garcia

Não precisamos nos ver pela primeira vez 
e nem esperar o tempo certo de dormir.
Não teremos o jantar para esquecer,
quem somos,
de vez em quando.
Sentir o cheiro da roupa um do outro na ausência.
Não precisamos segurar as mãos e tocar as linhas
que bordariam o nosso destino.
Sentir se a pele da boca
desliza direito com a língua,
nos nossos caminhos.
Não precisamos juntar os trapos,
fazer planos.
Pensar se teremos filhos.
Não precisamos conversar sério.
Temer o silêncio.
Visitar hospitais.
Sentar junto ao leito.
Temer o adultério.
Não precisamos segurar o tempo,
pela ausência do belo
e o clarear dos pelos.
Eu não queria estragar a surpresa,
ficaremos a sós até o fim do verso.
Ninguém vai virar do avesso.
Sem precisar nos conhecer,
sem pressa,
nem precisão de qualquer gesto.
Nossas palavras já se casaram,
se encontraram antes de nós,
e vão nos separar para
encerrarem juntas
este texto.


Vozes
Maíra Garcia


Será que eu tenho voz,
ou tenho prisão?
Será que eu tenho casa,
ou tenho calçada?
Será que eu tenho amor,
ou tenho coração?
Me disseram que eu tenho nada.
Se na casa tem porrada,
na rua tem porrada.
Se tem dinheiro na biqueira,
lá continua a senzala,
tem escravidão.
Será que eu tenho voz,
ou tenho prisão?
Eu sou de menor, doutor.
A educação que você teve,
eu nem sabia que podia.
Eu não sei se tenho.
Educação, me disseram,
é pra quem tem um coração,
me disseram que eu não tenho.
Será que eu tenho voz?
Você que tem,
pode falar por mim?
Pra mim tem voz de prisão.



Meia saudade
Maíra Garcia


Já fiquei esperando num lugar
aonde tinha certeza que viria.
E você não veio nesse dia.

Até que de tanto querer
você veio.
Veio um meio você,
de tanto medo de mim,
que veio pela metade me ver.

Um sentado me sorria
de soslaio, enquanto
o outro corria e
segurava os braços
ao contrário.

E a vontade que eu não sei se eu tenho,
é um desejo e meio.
Desejo de abraço,
não sei se de beijo.

Parece bonito demais
e fala bonito demais.
E que está sempre certo,
quando diz que eu não sei
o que eu quero.

Quando apenas um querer eu tenho.
Abraçar você bonito demais,
pra falar bonito demais,
porque meu braço
quer descansar de esperar,
a sua outra metade chegar.
E conhecer você de verdade.
E um dia ser, saudade
inteira de saudade.


Maíra Garcia, 44 anos, é formada em Publicidade e Propaganda pela ECA USP. É redatora, poeta, cantora e compositora intuitiva. Natural de Ribeirão Pires (Grande ABC) é voluntária do Centro de Arte e Promoção Social do Grajaú, que realiza, no extremo-sul da periferia de São Paulo rodas que difundem discussões sobre filosofia, literatura, religião e artes, assim como oficinas para escrita e saraus.Tem um blog chamado Depois da Lua de Ontem, que desde 2011, reúne mais de 2000 textos, com poemas, haicais, aforismos, e contos. Um blog que tem vontade de se tornar um livro. As fotografias aqui reproduzidas são de autoria de Maira Garcia

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Et Patati et patata !

Et Patati et patata !

Revivez les tables-rondes qui ont parlé de littérature et d’actualité sur le stand du Centre National du Livre pendant le Salon du livre de Paris de 2015 !

La littérature jeunesse brésilienne. Le plaisir de la lecture pour les petits et pour les grands. Et patati et patata !

Avec Ana Maria Machado, Angela Lago, Béatrice Tanaka et Agnès Desarthe.
Animé par Nathalie Donikian

Cliquez sur le Lien : Littérature Jeunesse

Angela Lago/ Printemps Littéraire Brésilien 2015


Consultez le programme complet

Et Patati et patata !

Revivam os grandes momentos em torno da literatura brasileira e da atualidade no stand do Centre National du Livre durante o Salão do Livro de Paris de 2015!

A literatura infanto-juvenil brasileira. O prazer da leitura para os pequenos e os grandes.. E patati et patata !

Com Ana Maria Machado, Angela Lago, Béatrice Tanaka e Agnès Desarthe.
Moderação por Nathalie Donikian


Cliquem no link : Literatura infanto-juvenil


 Consultem o programa completo




segunda-feira, 27 de julho de 2015

Primeiro a saber

     
Banksy, Naked Man, Park Street (Bristol)

PRIMEIRO A SABER

                                                                    Myriam Campello

         Meu janelão dava prum baita edifício cheio de janelas amplas e eu me senti como que num palco  Era olho demais em cima deste seu criado coisa pra endoidecer até um santo de bondade exemplar Também quem manda pôr minha mesa de cálculo bem na frente desse exército inútil com tempo de sobra pra vasculhar a vida de um por um dos colegas de rua?
         Mas eu não me apertava  Desenvolvi um jeito similibus curantur de tratar a cobra com o próprio veneno  Parece incrível mas sempre que se olha de volta alguém que está te olhando o cara se desarma Acham que é bom olhar sem que os vejam escondidinhos bem ali na calada  Mas se se pega o sujeito em pleno pulo ele perde o interesse vira à direita esquerda vai saindo sonso da janela e se enfia no saco Uma coisa
         De certo modo sou doutor em negaceio já que fui casado há tempos com dona sinuosa pra quem a verdade e a mentira dançavam um minueto ao sol de flauta Isso bem antes da mulher fugir com outro: porque depois do fato feito é fácil a todos remontar a história milímetro a milímetro passo a passo
         Diz o ditado que o marido é o último a saber e eu digo que é o primeiro se não for um néscio Ele é quem vê quem lê quem ouve o que não deve e se tortura e vai cada vez mais sendo empalado em requintada lâmina morte de gourmet intensa ministrada aos poucos sibarita ultra-sofisticada lenta cortando de alto a baixo o que já sangra

Resistances, Marina Abramovic & Ulay Rest Energy, 1980.
Paris, © Adagp, Paris 2010
         E o pior é que você fica um bobo um tonto um peso um pobre dum lunático ao reclamar do que gritantemente se anuncia a seus olhos expertos E ela diz que não que nada absolutamente é impossível essa desconfiança toda tão injusta não consigo viver com quem me ronda me acusa me vigia e vai me atormentando com ideias de sua própria lavra doentia tirania CIA ia ia  E arrematava: Precisa se tratar fazer psicanálise pra ver se melhora  Assim não inventa o que existe tanto quanto o Unicórnio a Mula o Boto o Abracadabra é dose pra leão tremendo insulto à minha imagem ilibada a uma conduta prístina a um comportamento ético e sem mácula
         Isso posto continuava a fazer o que vinha fazendo daquele modo entrecerrado tênue esconso movediço onde quem pusesse o pé ali mesmo afundava Não sei como o sujeito traído não enlouquece A realidade medonha paira à sua frente como um pétreo edifício em seus pilares sólidos e tudo que ele ouve é que aquilo é miragem fruto de delírio infância problemática neurose acachapante fraqueza irreprimível  Em suma um chato de galocha
         Me lembra aquele filme em que o marido vai pirando a mulher pra ficar com o dinheiro que era dela e diminui o gás das lâmpadas e diz que não que a luz tá boa tão clara como o sol ela é que é doida A vitória final pertence a ela (se se pode falar de vitória em casos semelhantes Pois se leva no peito uma cidade arrasada em lugar daquela outrora verde e isso para sempre)
         Mas tudo tem um lado bom: ainda que amargo ainda que difícil de engolir mas bom O golpe que levei foi tão feroz que junto com a cabeça decepou de mim – eternamente – a tal mania de felicidade Fiquei livre da nostalgia secreta do perfeito desse contínuo querer reter as nuvens dessa perpétua névoa se esgarçando em outras tantas formações aladas
         Acabou-se o tempo medido pelo medo Sempre que a via longe dos meus olhos se introduzia em mim um terror vago de que ela sumisse se quebrasse derretesse na fogueira do mundo Nosso destino tinha que ser comum precisa geometria: o bom o mal acontecendo a ela tinha que ocorrer também a mim sorte simétrica simultânea repicando em uníssono paralela mesmo no desastre  Despencar no abismo podia desde que eu fosse junto Não queria ser órfão dela neste mundo vazio que só é azul pros astronautas

Pierre Malphettes, Lettre anonyme, 2003 © Pierre Malphettes
         Tudo isso acabou Reintegrado na realidade agora sei que viver é pão é queijo é óleo diesel é o que se vê sem retoques nem desejos de uma idade de ouro ora perdida e que nunca existiu  Desmonto as naus ancoradas no peito recolho suas velas O oceano demasiado grande tem espaço excessivo para os tempos presentes O relativo é um desenho singelo ao toque e ao paladar
         Hoje estou pronto perfeito não olho mais pra trás já me garanto  Mas nem sempre foi assim confesso  Há alguns anos quando ela me ligou pedindo suas cartas fiquei por um momento mudo – mais pra morto é verdade – e disse que não dava  Insistiu  Porém não havia jeito  de  eu lhe entregar um pedaço de mim ainda sangrando  Tudo que o outro faz enfia facas na ferida que luta por fechar em vão Não se propósito Apenas deixam de enxergar quem está à frente como um chão já pisado – outro é o ângulo
         E as cartas ali: retângulos de dor bem enfiados na gaveta final para que não me mordessem a toda hora todo dia  Lá longe a mulher era uma esfera sem entrada esfinge sem saída um caso verdadeiramente enigmático no qual se eu pensava me perdia  – quando o ódio deixava E este também não me servia é verdade: fazer o quê? matar estripar roer seu osso como um leão feroz ferrando o dente fácil na presa que agoniza? E depois? E era ódio? Nada mais penoso que esse escombro de amor girando no vazio como uma roda inútil enferrujada que geme pra ninguém numa praia deserta Só o tempo nos estende a mão – e tempo à beça
         Foi o que aconteceu  Vários fatos depois um belo dia a dor sumiu encontrando seu plácido lugar no rol dos prejuízos  – como a vida requer  Então pensei já posso devolver as cartas já consigo já que estou forte em paz pronto pra outra  já que ela quer tanto as famosas missivas
         Liguei e ofereci as ditas: agradeceu surpresa disse sim mas por qualquer razão misteriosa jamais veio buscar as tais antes tão necessárias tão prementes tão e tão pedidas Pergunto aos meus botões como entender mais essa Só queria tê-las porque eu também queria? Ou era medo de que num impulso eu pegasse as frases publicasse nas folhas vendesse pro padeiro exibisse aos amigos? Ou apenas medrou de ver o fim do meu amor história de balada? Até hoje não sei O ser amado é mistério por si sem fazer força pântano semeado de flores fundo fim de um poço de águas negras muito abaixo do chão Ninguém enxerga
         Junto ao meu janelão quando o trabalho deixa passo um olho vago pelo mundo lá fora E de tanto não ver me lembro algumas vezes dessas cartas-estátuas escondidas na cômoda Um pouco mais cinzentas pelo uso do tempo um tanto mais rombudas nos seus quatro cantos: quem disse o que e para quem e como? A própria memória tropeça em pernas tronchas Mas não nego o passado: o que agora é folha escurecida já foi rio rompante e ar e céu e luz – por mais que essa linguagem hoje esteja morta Fez de mim o que sou verso e reverso: o que sou e o que deixei de ser Seu lugar é sagrado na gaveta da cômoda


Myriam Campello nasceu no Rio de Janeiro. Com Cerimônia da noite, seu primeiro livro, recebeu em 1972 o Prêmio fernando Chinaglia para romance inédito. Publicou ainda Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993, editado na Alemanha em 1998), Sons e outros frutos (contos, 1998, Bolsa para Conclusão de Obra da Biblioteca Nacional em 1996), Como esquecer (romance, 2003) e Jogo de damas (romance, 2010). Em 1997, recebeu o Prêmio União Latina - Concurso Guimarães Rosa para conto inédito. Participou de diversas antologias, entre elas Os cem melhores contos brasileiros do século (2000). Seu último romance, Adeus Alexandria foi publicado em 2014 pela editora 7Letras.  “Primeiro a saber" faz parte da antologia de contos Sons e outros frutos, que ganhou a Bolsa para Conclusão de Obra de Escritores Brasileiros da Biblioteca Nacional em 1996.




         

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Programa de Licenciatura Internacional

photo : Olivier Jacquet
Programa de Licenciatura Internacional

A cerimônia de encerramento da promoção PLI (Programa de Licenciatura Internacional) 2013-2015 teve lugar em 10 de julho na Reitoria da Universidade Paris-Sorbonne.

Estudantes UFAM
O PLI foi criado em 2013 a partir de uma parceria estabelecida entre a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior) e Sorbonne Universités (Université Pierre et Marie Curie e Université Paris-Sorbonne), com o objetivo de qualificar professores brasileiros para o ensino fundamental e médio no Brasil. Para a primeira turma foram selecionadas nove universidades brasileiras (74 estudantes), abarcando as áreas das ciências exatas, biologógicas e humanas, entre elas :  UFTM, FURG, UNESP, USP, UFRN, UFC, UFPA, UMTM e UFAM.

Estudantes UFRN

A cerimônia finalizou, com êxito, esta primeira etapa do programa: 27 estudantes diplomados em Letras pela Universidade Paris-Sorbonne – 11 com louvor.  Uma segunda turma  já está em andamento e conta com estudantes oriundos de três universidades brasileiras: UFRGS, UnB e UEL.

Estudantes USP

Tanto o Presidente da Universidade Sorbonne, Barthélémy Jobert, quanto o coordenador pedagógico do Programa PLI/ França, Pr. Leonardo Tonus, esperam que o programa possa continuar ao longo dos próximos anos, não somente estreitando os laços culturais entre o Brasil e a França, como também fortalecendo o ensino da língua francesa no Brasil e do português na França.

Estudantes UNESP

Veja as fotos oficiais da cerimônia de encerramento da promoção PLI (Programa de Licenciatura Internacional) na Reitoria da Universidade Paris-Sorbonne. 

Clique no link : Fotos Cerimônia- PLI




Estudantes UFC
Une chance d'avoir un avenir plus grand

Les établissements membres de Sorbonne Universités entretiennent de longue date des liens étroits avec le Brésil.

La participation active des membres de Sorbonne Universités aux programmes de coopération bilatéraux franco-brésiliens est une autre expression de cette relation ancienne et suivie. À travers CAPES-COFECUB, pour la recherche collaborative et la formation doctorale, BRAFITEC, pour la formation d'ingénieurs, et plus récemment Sciences sans frontières, programme national d'internationalisation de l'enseignement supérieur et de la recherche du Brésil, Sorbonne Universités contribue à tisser les relations entre les deux pays.

Estudantes UFMT
Ces liens ont été mis en valeur à l'occasion de la visite en France en octobre 2013 de M. Aloizio Mercadante, alors Ministre de l'Education du Brésil, qui a choisi la Sorbonne pour s'adresser à un large public de jeunes Brésiliens participants à ces programmes et accueillis par les établissements de Sorbonne Universités.

Estudantes FURG


En juin 2013, Sorbonne Universités et la CAPES (organisme fédéral brésilien en charge notamment du financement de la mobilité internationale) ont lancé un Programme de Licence Internationale (PLI). Entièrement financé par la CAPES et porté par l'UPMC et Paris-Sorbonne, ce programme a permis, dès l'année 2013-2014, à une première cohorte de 74 futurs enseignants du secondaire brésiliens de venir se former en France.

Consultez l’interview que les étudiants André Freitas e Luan Mattos ont accordé au site du PRES Sorbonne Universités sur leur participation au Programme PLI 2013

Aline Amorin ( FURG) e Leonardo Tonus ( Sorbonne) 

Cliquez sur le lien : Sorbonne Universités



                                                                                                               



quarta-feira, 22 de julho de 2015

A prótese peniana


Sandra Lecoq, Penis Carpet 4 "Yellow" , 2001-2002
A prótese peniana

Ângela Dutra de Menezes (*)


Conto a história com todo respeito, li-a num jornal de Brasília.

Um antigo policial legislativo – será segurança? -, com 73 anos e aposentadoria de 23 mil Reais mensais, teve câncer de próstata. Após a cirurgia, passou a sofrer de disfunção erétil, nome chique de impotência. Afirmam os psicólogos que impotência é uma insolúvel tragédia masculina. Ou é resolvida ou os machos morrem. Mas, nem tudo está perdido, a Ciência oferece uma solução para estes sofredores: o implante de prótese peniana.

Claro, com o desenvolvimento tecnológico, as próteses estão cada vez mais supimpas. Mas custam caro. Absurdamente caro. A prótese desejada pelo ex-funcionário, que reclama o seu direito na Justiça, custa quase 50 mil Reais. Sem contar a cirurgia, internação, adaptação e etc. e tal. Com 73 anos, o sequelado poderia aceitar a prótese mais simplinha oferecida pelo Seguro Saúde do Senado, que garante o prazer de muita gente boa. Afinal, não é tão ruim assim. Não sei, dizem, deste assunto, eu não entendo.

Os advogados que defendem os interesses do Senado juram que o pênis artificial mais antigo e mais barato desempenha perfeitamente as suas funções: lava, passa, arruma, engoma e a única desvantagem é ser manipulado manualmente. Vira para cima, vira para baixo, dá a sensação de eterno priapismo, mas tudo bem. Desde que o recauchutado não entre num ônibus superlotado e se encoste a alguma senhora ou senhorita... Enfim, qual situação não tem vantagens e desvantagens?

O problema é que o nosso amiguinho impotente não é só teimoso, é vaidoso também. Segundo o seu advogado, o cliente faz questão de mudernidade porque o tal do aparato caríssimo, além de aparentar três volumes diferentes, de acordo com o gosto do freguês, é pré-conectado – gente, que pênis chique, pré-conectado a quê? Será um pênis pensante? – e inflado manualmente. Ou seja, o recuperado pode usar roupas apertadinhas, fazer a sua corridinha em paz, dançar de rostinho colado como se usava no tempo dele (dele, o paciente, não do pênis). Além de, quando a situação exigir, o ex-impotente poder bombear ar até alcançar o volume desejado.  Tudo ao mesmo tempo, agora. Melhor que o original, vamos combinar.

Apesar de já ter recebido cinco negativas à sua pretensão (duas do Seguro Saúde do Senado e três da Justiça comum), a vítima não desiste. Pessoalmente, acho que ele está perdendo um tempo precioso enquanto rola este pode-não-pode. Afinal, a expectativa de vida de um homem residente em Brasília é de 76,2 anos. O ex-funcionário está brincando com a sorte. Se tivesse colocado uma prótese oferecida já teria se divertido muito.

 Enfim, cada um sabe de si, talvez ele seja masoquista. O fato é que, entre idas e vindas às várias instâncias da Justiça, o caso chegou à Advocacia Geral da União, com lances de dramaticidade. Na exposição aos senhores juízes, o advogado lamenta que, por falta de uso condizente, o verdadeiro pênis do cidadão esteja encolhendo. Sim, leitores, o termo pouco jurídico que ele usou foi este: en-co-lhen-do. Consta do processo: um centímetro já foi para o brejo. Mas, vem cá, também não estaria encolhendo por conta da idade? Afinal, o pretendente à finíssima traquitana já não é nenhum garotão.

Mas continua agindo como se não houvesse amanhã. Apesar de a Advocacia Geral ter lhe acenado com uma esperança: ele pagaria os custos da tão desejada prótese e a necessária cirurgia e o Senado o ressarciria de acordo com um preço estipulado pelo juiz, o cara está inflexível. Quer tudo de graça. Para alcançar seu objetivo, lançou um desafio assustador: ou o Senado assume todas as despesas de seu novo e multifuncional pênis ou ele entregará à Imprensa o nome de senadores, inclusive ex-presidentes da casa, que dependem de próteses, modernosas ou não, para ciscar por aí.  

Uauuu, o Brasil é um Circo de Cavalinhos, há sempre uma atração no picadeiro. Já estou imaginando os Ministros do Supremo Tribunal Federal atrapalhados com a legalidade deste jogo de empurra-empurra peniano – sem trocadilho, por favor.

Lamento pelo danificado em suas nobres funções masculinas. Rouba-se tanto neste país, o que custava lhe dar um acessório de vanguarda?

Só quero ver se, realmente, ele colocar a boca no trombone.



A jornalista carioca Angela Dutra de Menezes, estreou na literatura em 1995, com o bem sucedido romance Mil anos menos cinquenta, publicado no Brasil, na Espanha e em Portugal. Em 2007, o livro O português que nos pariu foi best seller em terras brasileiras e portuguesas — onde integrou por seis meses a lista dos mais vendidos do ano seguinte. É autora também de Santa Sofia (1997); O Avesso do Retrato (1998), Todos os dias da semana (2005) e A tecelã de sonhos (2008). Todos editados pelo Grupo Editorial Record.

Angela Dutra de Menezes, Susana Fuentes, Lucia Bettencourt,
 Eunice Gutman e Leonardo Tonus no Printemps Littéraire Brésilien

segunda-feira, 13 de julho de 2015

La BD au Brésil/ Quadrinhos no Brasil

L’âge d’or de la BD Brésilienne

Revivez les tables-rondes qui ont parlé de littérature et d’actualité sur le stand du Centre National du Livre pendant le Salon du livre de Paris de 2015 !

Comment le Brésil produit un 9ème art innovant avec l’émergence d’une génération de talents qui dialogue avec de grands noms de la scène française.

Avec S. Lobo, Marcello Quintanilha, Daniel Galera, Fábio Moon et Wandrille.
Animé par Jean-Pierre Mercier.

Cliquez sur le lien : BD Brésilienne

A idade de ouro dos quadrinhos no Brasil

Revivam as mesas-redondas em torno da literatura brasileira e da atualidade no stand do Centre National du Livre durante o Salão do Livro de Paris de 2015!

Como o Brasil produz uma 9° arte inovadora graças à emergência de uma geração de talentos que dialogam com os grandes nomes da cena francesa.

Com S. Lobo, Marcello Quintanilha, Daniel Galera, Fábio Moon e Wandrille.
Mediação de Jean-Pierre Mercier.

Cliquem no link : Quadrinhos no Brasil

Consultez le programme complet/ consultem o programa completo


quinta-feira, 9 de julho de 2015

Años de soledad

Centro Histórico de Porto Alegre, Eurico Salis
         Años de soledad*
Tailor Diniz

1.
Lembro-me que, ao voltar à razão, liguei para o Walter, um  amigo meu, dono de uma loja de armas. E perguntei quais eram os procedimentos para comprar um revólver. Naquele mesmo dia, ele me indicou um amigo da polícia, com quem consegui um porte, na hora, e já pude voltar armado para casa.O segundo passo foi chamá-la para jantar. Queria preparar um cenário bacana, de cinema, à altura do evento.
Ela adorava comida japonesa, mas não lhe revelei o prato que ia servir. Disse apenas que pensava em preparar uma coisinha especial, eu tivera um projeto aprovado na agência e precisava comemorar. Ela achou a ideia ótima e marcamos para as 21h do dia seguinte.
Acordei cedo, fui a uma loja especializada em comida japonesa, comprei saquê, um jogo de sakazukis, um livro de receitas, óleo de gergelim, gohan, shoyu, raiz forte, hashi e algas púrpuras. E duas facas: uma para filetar e outra para fatiar...
Passei no mercado público e me abasteci de salmão, linguado, atum, camarão, manga, kani, cebolinha fresca, queijo cremoso, pepino, molho especial, tomates secos, rúcula, gengibre em conserva, caldo de peixe e arroz.
A parte da manhã reservei para estudar o livro de receitas. À tarde, fui para a cozinha e preparei tudo. Perto da hora marcada, tomei banho, me vesti, servi uma dose de uísque e pus a rodar o meu Piazzolla preferido.
E esperei que chocasse o ovo da serpente.
         Como de costume, ela chegou atrasada. Mas isso não era problema. Não seria agora que eu iria me estressar por causa de mais um atraso dela para os nossos compromissos quase matrimoniais. Quando ela entrou, recebi-a com um abraço. Era esse, aliás, o nosso costume, tivéssemos ou não nos visto naquele mesmo dia.
         — Bem — eu disse, apontando para a mesa de centro, entre almofadões coloridos. — Olha só o que nos espera.
         Ao ver posta a mesa de sushis, ela soltou um grito de espanto.
         — Nossa! Você mesmo preparou!? Imaginei que fossem aquelas divinas isquinhas de filé ao brandy...
         — Iscas de filé ao brandy é o trivial, não seria surpresa. Só de me ver prepará-las você até já decorou a receita.
         — Isso é verdade. Mas todos esses anos e você nunca me disse que sabia preparar sushis! — Ela riu e me abraçou mais uma vez. — Vou ficar mal-acostumada.
         Eu ri também, por trás da cabeça dela.
         E disse: — Por um bom motivo não há o que não se aprenda a fazer.
         Ela sentou-se sobre as almofadas.
Servi o saquê. Peguei uma pitada de sal e larguei-a nas bordas do meu sakazuki. Depois fiz o mesmo no dela. E convidei-a para um brinde: os sakazukis nas mãos, as cabeças inclinadas para a frente como num ritual, pousamos os lábios nas bordas salgadas, sorvemos o primeiro gole. E ela, com graça, manuseou seus hashis com a mão direita e se serviu.
         — Hummmm... Shozunmaki! O meu preferido!
         — E eu não sei?
         Ela mastigava com volúpia.
         — Você é dez!
         — E você é a minha cobaia.
         — Com muito prazer, quero ser sempre a tua cobaia.
         — Sempre?
         — Sim, sempre.
         — Nada é para sempre — eu disse, sem levantar o rosto.
         — Às vezes, sim.
         — Mas, às vezes, também não.
         Nossa refeição se prolongou até tarde da noite, comemos sem pressa, bebemos, começamos algumas carícias que acabaram numa transa entre as almofadas. Dançaram três garrafas de saquê, o suficiente para dormirmos ali mesmo, no meio da sala. De madrugada, me acordei com frio e fui ao quarto apanhar as cobertas. Quando voltei e a vi deitada de costas, nua; antes de soltar o edredom ao lado dela e retornar ao quarto para apanhar o revolver, fiquei um longo tempo a observar seu corpo, as pernas bem feitas, os cabelos pretos soltos ao leu sobre uma almofada, as marcas do biquíni, os ombros largos e os braços dobrados na altura da cabeça.
         — Que bela posição para morrer — eu disse, num sussurro, ao retornar à sala, o revólver na mão direita, me preparando para fazer a mira. — Lamento, meu amor. Mas tu penúltimo whisky quedará sin beber...


2.
         Há alguns anos, quando eu preparava a biografia de uma sobrevivente de um campo de concentração, tomei o hábito de caminhar pelo bairro, no fim da tarde, para ganhar fôlego, descarregar a tensão e poder, com as energias retomadas, tocar a escrita no dia seguinte. Tão grande era a tragédia da minha personagem que, numa certa altura da narrativa, eu precisava parar tudo, desligar o computador e correr à rua para respirar uma atmosfera que não fosse aquela de abismos e de tragédias na qual eu me via mergulhado todos os dias, durante um ano. Em muitos momentos, enquanto escrevia, tive vontade de mudar o fluxo da história, abrandá-la um pouco, mas não se tratava de uma ficção. As personagens eram reais, verdadeiras, e assim, apesar do desconforto e da vontade de salvá-las do horror, não lhes podia alterar o destino.
         Foi numa dessas fugidas, num dos muitos momentos em que precisei abandonar a densidade de um cenário que me oprimira, que o conheci. Eu havia feito uma caminhada longa, descompromissada, e acabava de me sentar de frente paro o lago do parque, onde alguns patos brincavam na água, apesar do frio. Ele trazia à mão uma velha mala de couro, e as ombreiras lhe sobrando acima dos braços davam a impressão de que seu velho casaco desbotado ainda estava pendurado no cabide, sem ninguém dentro para preenchê-lo. Do tom macerado do rosto, do pescoço e das mãos marcados de cicatrizes, da magreza absurda e do jeito moribundo de se mover podia-se concluir que acabava de chegar de uma guerra, da qual sobrevivera sabe-se lá por que milagre de Deus. Mal podia trocar os passos, e num certo momento cheguei a pensar que cairia antes de alcançar o banco onde eu me encontrava. Acomodou-se ao meu lado, ajeitou a velha mala entre as pernas e se virou para mim, como se tudo o que precisasse naquele momento fosse de um ouvido para lhe aliviar a dor de não ter com quem conversar.
         Tinha uns lapsos de lembranças, repetia várias vezes o mesmo trecho da história, invertia a ordem de alguns, mas outros, demonstrando um raro dom descritivo, ele relatava com a precisão de uma fotografia digital. Um intrincado quebra-cabeças que me custou tempo para ser colocado em ordem.
         Naquela noite do jantar, a primeira em que passaram juntos após ele descobrir a traição, estando de volta à sala onde ela dormia, apoiou as costas na poltrona, segurou o revólver com as duas mãos e lhe fez a mira na altura da nuca. Ficou algum tempo brincando de mirar a cabeça dela e puxar o gatilho. Por fim, numa espécie de diálogo consigo mesmo, ou como se na poltrona houvesse outra pessoa ocupando o mesmo espaço onde se encontrava, falou, a arma em punho, apontada para ela:
         — Não, querida. Assim você não vai saber por que morreu. Não quero te sonegar esse direito.
         Guardou o revólver e voltou a dormir ao lado dela. Abraçou-a por trás, os joelhos dobrados, os corpos ajustados um no outro, compartilhando a maciez e o calor do edredom que ele acabava de trazer do quarto. De manhã, foram para a cama e transaram de novo. Até que ela se levantou, estava na sua hora. Ele ficou no mesmo lugar, as costas apoiadas nos travesseiros, as mãos agarradas ao lençol sobre o peito. Quando ela abriu o chuveiro e o cantar da água ultrapassou os limites da porta fechada, ele espichou o braço, apanhou o revólver de baixo do colchão e olhou-se no espelho da parede. Enquanto ela se banhava, ele usou a própria testa ali refletida para fazer a mira e simular, infinitas vezes, que puxava o gatilho. Ora fazia apenas com a mão direita, ora segurava a arma com as duas. Fez aquilo até que o chuveiro silenciou, e ela voltou ao quarto, nua, os cabelos molhados, enxugando-se numa toalha branca.
Ele contava-me sua história e, volta e meia, apalpava a velha mala de couro. Tive a impressão de que ali procurava algo de extrema utilidade para complementar a narrativa. Em muitos momentos, pensei que fosse chorar. Mas não. Seus olhos permaneceram secos o tempo todo. Dali nada mais poderia sair além de um velho retrato em sépia a delatar a extensão de sua própria desgraça.


3.
         Ele disse:
“Aproximava-se o fim de semana, período em que passávamos sempre juntos. Às vezes eu ia para o apartamento dela, em outras ela vinha para o meu, sem um critério muito definido. Era de improviso. Aquele que saía antes do trabalho na sexta-feira telefonava para o outro avisando que havia preparado alguma coisa e o esperava para comer. Na semana posterior aos sushis, ela havia arranjado várias desculpas para não nos encontrarmos. E fui deixando, para ver até onde ela pretendia chegar. Na sexta-feira, comecei a ficar tenso, não queria que aquela situação se prolongasse mais. Saí da agência no meio da tarde, comprei algumas coisas no supermercado e telefonei a ela para dizer que a esperava para jantar. O telefone do trabalho foi atendido por outra pessoa. Ela havia saído mais cedo, me informou uma colega a quem a ligação fora transferida. Peguei o revólver do criado mudo e conferi, apenas por formalidade, se continuava carregado. Passava da meia noite quando ela me ligou. Já estava na sua cidade natal, fora preciso viajar às pressas, não havia dado tempo de me avisar. Ela sofria da chamada LER — Lesão por Esforço Repetitivo —, as dores haviam se agravado durante o dia e fora obrigada a marcar novas sessões de reabilitação para o sábado de manhã. Isso foi apenas uma confirmação do que eu já havia descoberto. Não sei como não desconfiara antes daquela história de tratamento no interior, se aqui devia haver clínicas especializadas para tal, com profissionais até mais capacitados. Naquele dia, me arrependi do fundo da alma de não ter puxado o gatilho quando ela dormia nas almofadas, depois do banquete de sushis. Mas decidi esperar. De domingo à noite ela não passava.”


4.
         Ele interrompeu a narrativa e voltou a procurar algo dentro da mala. Sem encontrar o que ali procurava, voltou a afivelá-la, resignado. Seguiu-se uma nova procura, agora nos bolsos das calças e do velho casaco de veludo cotelê, que outrora fora marrom. Olhou-me como se eu soubesse o que procurava, deu um breve sorriso de dentes amarelos e gastos, e continuou a falar, repetindo trechos já contados, intercalando outros ainda não referidos, reforçando a pronúncia sempre que lhe saltava da secura dos olhos o arrependimento por ter esperado tanto. Contou-me, a voz pausada, que após o banquete de sushis nunca mais voltou a vê-la. O telefone dela deixou de funcionar, e, no trabalho, nada sabiam informar sobre o seu paradeiro. No meio da semana, quando decidiu procurá-la no apartamento onde morava, o porteiro, um conhecido seu, com ar de espanto por ele não saber, contou que ela havia se mudado.

5.
“A partir daí, comecei uma busca insana por todos os cantos da cidade, do estado, do país. Até no exterior andei atrás dela. Na época, tínhamos muitos amigos em comum, e a eles, sem qualquer escrúpulo ou vergonha, fui pedindo ajuda na tentativa de localizá-la. Nunca interrompi minha rotina obstinada de perscrutar os vãos de mundo por onde andei, com esperança de acertar as nossas contas. Certa vez, um dos nossos antigos amigos, o Zé Teodoro, ao me encontrar perambulando pelo Parque da Redenção, disse-me que a tinha visto em Barcelona, na companhia de um encantador de serpentes, comendo paella negra numa mesa de calçada, na Rambla da Cataluña. Depois, o Pedro Morgante a teria visto comprando roupas num brechó de Covent Garden, em Londres, e algumas semanas mais tarde, ainda de acordo com o Pedro Morgante, ela e o mesmo encantador de serpentes tomavam Le Pastis com água Perrier, num bistrô de cortinas floridas às margens do Senna, em Paris. O doutor Valdirene, há mais ou menos vinte anos, encontrou-a em Madrid. Seguia solitária e com pressa, nas proximidades do museu do Prado, em direção à Gran Vía. O doutor Valdirene chegou a interpelá-la. Ouviu dela que acabara de se casar com um deputado evangélico e estava se mudando para a Itália. Ia morar próximo à Piazza Navonna. Um outro parceiro daqueles tempos, o Saúva, ainda ontem, ao me encontrar lá no Marinha do Brasil, me disse que a vira bem perto daqui. Fazia compras num free shop de Rivera, gorda, cabelos brancos e ralos, quase careca, destruída dos pés à cabeça pelas desgraças da vida pregressa. O Saúva talvez tenha dito isso com a intenção de me transmitir algum conforto. Meus amigos não entendem que a procuro não com o sórdido objetivo de retomar qualquer tipo de sentimento, nem de ódio, nem de prazer, nem de dor. Eu a procuro, mesmo, é para matá-la de uma vez por todas e assim morrer em paz, sossegado, num canto qualquer da cidade. Agora me lembro de um outro amigo, o Jeremias. Ele a teria visto, em janeiro de 1998, numa praia de Istambul, triste e solitária, enquanto a tarde, também triste e solitária, morria, cintilante, sobre o azul-turquesa do estreito de Bósforo. E ainda outra, a Princesa Leopoldina, uma mendiga que dorme lá no viaduto da Borges de Medeiros, contou-me, com o semblante grave e sério, que ela está é aqui em Porto Alegre mesmo, vive da gorda pensão de um desembargador falecido, disfarçada por incontáveis cirurgias plásticas no rosto e na infelicidade da alma. E por isso, na opinião da Princesa Leopoldina, eu nunca fui capaz de reconhecê-la, embora cruze com ela quase todos os dias aqui no Moinhos de Vento. Desconfio que alguns, de alguma forma, querem me ajudar, ocupando minha mente com informações, mesmo imprecisas, mas capazes de me dar algum alento e alguma esperança. Outros, no entanto, estão mesmo é me tomando por louco e tirando humor da minha tragédia. Mas esses, enfim, esses eu deixo na mão de Deus, que saberá o destino mais apropriado a lhes dar no dia do Juízo Final.”
         De súbito, ele se levantou e estendeu-me a mão para se despedir, com jeito de atrasado para algum compromisso importante.
         E perguntou: — O senhor vem sempre ao Parcão?
         Respondi que sim.
         Ele ficou de frente para mim, e não pude impedir que me olhasse de forma direta, algo que tentei evitar desde o início da nossa conversa.
         — O senhor, por acaso, nunca a viu passar por aqui?
         — Não. Infelizmente, não.
         Ele ainda me olhou mais um pouco, não sei se decepcionado com a minha disposição de não lhe mentir, depois baixou os olhos para o chão.
         — Lá se vão mais de trinta anos, meu amigo — disse, com dificuldade para soltar a voz, erguendo a velha mala. — Enquanto isso, eu ando por aí, desse jeito.
         E saiu, rastejando e decomposto, mal podendo trocar os passos, em direção ao trânsito pesado de início de noite da Avenida Goethe.

Centro Histórico de Porto Alegre, Eurico Salis



*Música de Astor Piazzolla

Años de soledad, para ouvir durante ou depois da leitura:

Tailor Diniz é escritor e roteirista, tem 14 livros publicados, entre eles A superfície da sombra, que foi tema de mesa, com participação do autor, na Primeira Semana Brasil, na Universidade Sorbonne, Paris. Adaptado para o cinema, tem estreia prevista para 2016. A superfície da sombra é publicado no Brasil pela Editora Grua.
Leia o conto inédito « Um mistério na Rue de la Huchette » publicado no Blog pelo link :