sábado, 30 de maio de 2015

Phlippe Delerm en portugais

Conférence avec

Norma Domingos
(Professeure à l’Université Estadual Paulista – Assis)

La première gorgée de bière (Philippe Delerm, 1997) : caminhos e desafios para sua tradução

Le mardi 2 juin à 18h00

Institut Ibérique – Salle Delpy
31, rue Gay-Lussac
75005 Paris



Professora Doutora Assistente do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Ciências e Letras de Assis - UNESP, Norma Domingos é graduada em Letras (Licenciatura Plena Português/Francês), em 1986, pelo Instituto de Ciências e Letras de Araraquara da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e possui Mestrado (2005) e Doutorado (2009) em Estudos Literários pela mesma Instituição. Tem ampla experiência na área de Letras, com ênfase em Língua e Literatura Francesas, atuando principalmente nos seguintes temas: Francês Língua Estrangeira, Tradução, Tradução Literária, Literatura Francesa do século XIX, Simbolismo, e Villiers de lIsle-Adam. Desde 2004, é membro do Grupo Interdepartamental de Tradução do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara e atua na linha de pesquisa Literatura e Tradução. Além de diversas traduções, tem vários artigos publicados que versam sobre Villiers de lIsle-Adam, Tradução Literária e Literatura francesa. De julho de 2008 a novembro de 2010, trabalhou como docente efetiva de Ensino Médio II, no Colégio Técnico Industrial Prof. Isaac Portal Roldán da Faculdade de Engenharia de Bauru, onde ministrou aulas de Língua portuguesa e Literatura. Interessada pelo uso das TICs em Educação, coordenou em 2010, no CTI (FEB-UNESP), o Projeto de Extensão Universitária Jogar, aprender e interagir com o novo acordo ortográfico, linha programática: produção de difusão de material educativo. . Desde 2010, é membro do Grupo de pesquisa Vertentes do fantástico na literatura atuando nas seguintes linhas de pesquisa: Dimensão estética e fronteiras conceituais do fantástico; Tradução do fantástico. É ainda pesquisadora junto ao Grupo de Pesquisa Narrativas Estrangeiras Modernas Gêneros Híbridos da Modernidade , do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Ciências e Letras de Assis. Norma Domingos é membro da coordenação do Programa de Licenciatura Internacional pela UNESP.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

Albertine e o desejo

Im propia de Raquel Paiewonsky
Albertine e o desejo
        

                                                                           Myriam Campello (*)

         – Apenas me limitei a rir
         – Foi o suficiente. Quem faz o que quer
         – Clichezinho antigo, esse
         – Às vezes é preciso recorrer ao estoque popular. Voz do povo, voz de hebreu
         – De Deus
         – Que seja. Não costumo ler a Bíblia. Para mim bastam-me as escrituras que eu própria desenrolo. Tome assento e sirva-se de chá
         – I hate tea. Do you have cocoa?
         – Nada de línguas vivas, por favor. Só me expresso em línguas mortas como o dalmático, o português, o nhanbiquara e o gnu. O passado é pra lá de atraente com sua fixidez de totem: se me perguntam algo em eólio respondo sem hesitação. Com um leve sotaque
         – ?
         – Porque sim. Dão-me alergia. Espirro e não paro.  Aliás, não tenho que lhe explicar tudo.  Não sou casada com você
         – !
         – Ainda bem mesmo
         – Eu não disse nada
         – Mas pensou. Como os morcegos, sou sensível, vibro e capto muito bem. Ontem, não pude fazer ouvidos de mercador para as queixas que ele me fez de seu comportamento abrupto e extemporâneo
         – Não sei por que se queixou.  Apenas ri, Albertine
         – Pode-se rir antes ou depois. Se rir durante, fodeu. Quer dizer, exatamente o contrário. Cessam as atividades e sobrepõe-se o silêncio dos humilhados.  Ou a gritaria dos ofendidos
         – Mas foi engraçado
         – Paciência, pensasse em outra coisa. Que tal contar até dez? O desejo é um juiz togado, não admite graçolas. Um indivíduo sombrio que acabou de matar a mãe. Afinal empenha-se nos caminhos da carne, o que é sempre volátil e tortuoso. Exige concentração ímpar e muito jeitinho a fim de obter seu segundo céu.  Qualquer coisa a borboleta voa
         – Seu Segundo Céu é o Grande de Espanha?
         – Você confunde tudo: aquele é Dom Segundo Ceu, que ia para cama de terno, meias e pensando em Franco. Jamais riria ao transar com alguém. Nem a fantasia te salvou?
         – Eu apenas começava a ter uma vaga idéia de possuir um corpo.  Estava ainda estava na fase dicotômica, não ingressara na 
         – ..?
         – A unívoca não chegou a aparecer, coitada  Assustou-se com o bafafá
         – Qualquer mínima distração rompe o fio do prazer. Para mim a campainha do telefone, buzinadas, a festa do vizinho e até o soluço de um bêbado na esquina desarma essa construção sobre as águas. Certa vez uma barata dançando no silêncio me arrancou da antecâmara do
         – Você tem déficit de atenção?
         – Tenho vários déficits, inclusive esse
         – E o que me diz da demora excessiva? Quando tentam por um tempo infinito e não nos fazem gozar?
         – Nem me lembre esse momento agônico. É preciso decidir se o outro é um sapo ou um príncipe, e durante a fase sapríncipe fica tudo em suspenso. O gozo é uma questão de fé.  Perdendo-se a fé, o parceiro desce pelo ralo junto com  cascas de maçã e os restos da refeição de ontem
– A mente é invadida pelas contas a pagar, as plantas que devem
ser regadas, a sede na Etiópia e a fome em Luanda.  Junto com a vontade de voar para longe da arena improdutiva  
         – Considerando-se como a questão é grave, há muito pouca literatura sobre
         – Eu diria que não há nenhuma 
         – O fato é que quando a coisa se estende e não declancha, transformo-me de uma cristã temente a Deus num muçulmano furioso pronto a se vingar da
         – Você botou o dedo no problema
         – Tenho um caderno mental, animado e a cores, do qual lanço mão nos momentos de aperto. Quando o sapríncipe periga estender-se ao próximo milênio, abro sem demora a coleção de êxtases que uma vida profícua foi amealhando – pequenas jóias Fabergé - e tento inspirar-me 
         – Com êxito?
         – Variável. O excesso de imagens às vezes me dispersa. Pulo de uma para outra qual passarinho ao alvorecer – o que perturba a imaginação, transtorna a serotonina e embaralha os canais competentes. De qualquer forma há noites galantes que empacam como mulas teimosas e às quais nem Casanova em pessoa daria jeito.  Melhor levantar e dar milho aos pombos
         – !?
         – Figurado, ora essa
         – ... ................ ..  .......... .
         – .Por que está murmurando?
         –.... .....
         – Não. Ele saiu e só volta depois do solstício, como marido de bom senso. Em suma, os obstáculos ao prazer são tantos e regulares como as listas da zebra: gestos que deviam ser cozidos e saem crus. Lentidões eternas quando se deseja a rapidez de um botão apertado. Efeitos especiais quando se espera sutilezas da China.  Um buquê matizado de incompreensões.
          – E o beijo que não dá certo?
         – Ah, esse é como o alpinista no ponto mais alto da montanha: quando cai arrasta todo o resto para o abismo. Se o primeiro passo não engata, melhor desistir da sequência 
         – E bocas com excesso de saliva?
         – Ou moles como pudim de mãe? 
         – Nem te falo das empedernidas. Que não aquiescem nem ante uma oração de São Longuinho.
         – Pior só quando beijam com os dentes. Tenho vontade de fugir ante essa barreira surgida do nada, cancela irredutível que não se ergue nem para a passagem do rei
         – Que rei? Somos uma república
         – Para você ver  
         – E as línguas imensas? Com certas pessoas tenho a impressão de ter um polvo na boca. Um octopus gordo e onipresente prestes a matar por enleio
         – Também temo bocas enfurecidas que engolem o parceiro como jibóia, deixando à mostra apenas o seu chifre
         – Seremos complicadas talvez
         – O desejo é que flui por linhas traiçoeiras. Quase nunca está onde devia mas certamente sempre onde não deve. Correndo atrás do Viagra feminino, uma industria farmacêutica tentou descobrir o que excita as mulheres e nada conseguiu. Isto é, o corpo delas molhou-se mas suas mentes permaneceram secas como se comparassem o preço dos feijões.  Impossível achar o que solta a libido dessas criaturas insondáveis 
         – Bem feito.  Quem manda serem  incompreensíveis,  malucas e
         – É como se diz em nhambiquara padrão: Inambuanhanga alentesu negarotê
         – Sábias palavras
          – Pois me lembram o chuveiro de críticas que ouvi sobre você ontem: desatenta, desagregadora, descortês e descorticada, disseram – para ficar só na letra D
         – Apenas ri, Albertine
         – Quem ri na hora H não merece o I e o J 
         –Terei outra chance ?
         – Ontem vociferavam. Mas dada a inconsistência humana, daqui a um mês cansar-se-ão das invectivas e você de novo será encarada como um fettuccine. Finja-se de esquecida e contemple o horizonte com o olhar vago Sobretudo não ria.

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Myriam Campello nasceu no Rio de Janeiro. Com Cerimônia da noite, seu primeiro livro, recebeu em 1972 o Prêmio fernando Chinaglia para romance inédito. Publicou ainda Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993, editado na Alemanha em 1998), Sons e outros frutos (contos, 1998, Bolsa para Conclusão de Obra da Biblioteca Nacional em 1996), Como esquecer (romance, 2003) e Jogo de damas (romance, 2010). Em 1997, recebeu o Prêmio União Latina - Concurso Guimarães Rosa para conto inédito. Participou de diversas antologias, entre elas Os cem melhores contos brasileiros do século (2000). Seu último romance, Adeus Alexandria foi publicado em 2014 pela editora 7Letras.                                                        
                                     














                                     



                                               

segunda-feira, 25 de maio de 2015

La BD au Brésil! Quadrinhos no Brasil!

O Quadrinho brasileiro em outro patamar

Não, você não leu errado. Mas pode estar se perguntando: o que está fazendo um texto sobre quadrinhos num espaço sobre literatura brasileira contemporânea? Simples: os quadrinhos, mais do que nunca, estão na moda e se encontram em outro patamar. E não é por que eles são simplesmente a nova mina de ouro dos estúdios americanos. Não. As graphic novels  (“romances gráficos”), tão tradicionais nas livrarias francesas e belgas, já são tidos, por vários jornalistas, como literatura. E, para muitos, quadrinhos não são literatura, são muito mais que isso. São uma linguagem genuína, contos mestiços de palavras e imagens. E ainda entrelaçam artes tão grandiosas como a literatura, o desenho, a pintura, numa mesma peça para o consumo, seja em nichos de mercado, seja numa produção de massa.

Bill Kartalopoulos, editor da coletânea Best American Comics, diz que “os quadrinhos possuem propriedades específicas que permitem expressar ideias que não poderiam ser transmitidas de outra forma. Eles nos induzem a ler de formas diferentes do que apenas a prosa”.



Bem, o mercado de quadrinhos brasileiro é muito diferente do rico e consolidado mercado francês. O quadrinho nacional sempre viveu de "altos e baixos", muitos mais baixos do que altos, sempre vivendo da desconfiança de editoras como sendo um mercado de valor, soterrado por toneladas de super-heróis e super vilões americanos.

Porém, além de tentar venderem produtos para o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) através de adaptações literárias em quadrinhos, editoras brasileiras começam a olhar para o nosso quadrinho autoral. Muitos quadrinistas completos, que desenham e escrevem suas hqs, já publicam e conquistam seu espaço até mesmo fora do país. Ao mesmo tempo, Maurício de Sousa, o pai da Mônica e Cebolinha, até hoje o mais bem sucedido case quadrinístico brasileiro, tem prestado um enorme serviço ao mercado nacional lançando versões oxigenadas de seus personagens famosos desenhados por novos talentos, pelo selo Graphic MSP, já atingindo ótimas vendagens.


Além disso, a cena independente vem contando com um forte impulso vindo do financiamento coletivo. Mais de 100 hqs autorais e com a "cara do Brasil" já ganharam as ruas nos últimos dois anos através do principal site de crowdfunding do país. Arnaud Vin, editor da Nemo, selo do Grupo Autêntica dedicado aos quadrinhos, aponta alguns fatores para que o quadrinho brasileiro viva essa fase que ele define como "de bela exuberância, prolífica, forte e grande". O primeiro deles o dinamismo e a qualidade da produção independente , que desperta a atenção de um público cada vez maior. O segundo é proliferação de eventos "nerds" e "geeks” relacionados ao tema.  E o terceiro, o espaço que autores brasileiros galgam no exterior aliado ao respeito que conquistam internamente – lembra, inclusive, que dois quadrinistas, Fábio Moon e Marcelo Quintanilha, fizeram parte da delegação que representou o Brasil no Salão do Livro de Paris este ano, onde o Brasil foi homenageado.



O SUCESSO DO ANTI-HERÓI

Dentro desse cenário de novos quadrinistas lançando obras autorais, o carioca Luciano Cunha tratou de chutar a porta. Disposto a colocar em nanquim epapel toda a sua indignação contra a classe política brasileira, Cunha criou um anti-herói com tudo o que se tem direito: misterioso, sombrio, imparável emuito, muito violento. Apesar de nascido em 2010, O Doutrinador alcançou fama nas redes sociais durante a onda de protestos que varreu o país em junho de 2013. Catapultado pela mesma revolta em que o autor se inspirou, o personagem já tem 40 mil fãs no Facebook e sua ira contra corruptos não para de crescer. Os posts semanais viraram uma luxuosa edição impressa de 84 páginas, já esgotada. A reimpressão da primeira e a segunda aventura, esta com roteiro original do músico e ativista Marcelo Yuka, ex- O Rappa, já se encontram na gráfica. Mirando o mercado internacional, Luciano Cunha já encomendou as traduções da saga para o inglês e francês. O nome do personagem ganhou uma ligeira adaptação: "O Doutrinador em inglês ficaria num tom professoral demais, algo literal mesmo. Então o tradutor me sugeriu outro nome que eu realmente adorei: The Awakener, que é algo como "aquele que te desperta, que te acorda". Não significa o aparelho despertador, mas aquilo que, na verdade, o personagem quer suscitar, que é dar uma chacoalhada no leitor para que ele acorde para o problema e, de alguma forma, proteste no seu cotidiano." conta o autor.


Uma porta no Velho Mundo acaba de se abrir: O Shifter, site português de cultura pop, encomendou uma versão do Doutrinador atuando em Lisboa. Um jornalista da edição argentina da Rolling Stone chamou O Doutrinador de " El Eternauta brasileño", numa clara referência da importância política do personagem de Cunha. Sites americanos, ingleses, japoneses, uruguaios e até chineses já teceram elogios à obra. O jornal Metro, versão brasileira, chamou o personagem de "Cavaleiro das Trevas tupiniquim". A revista inglesa R.O.A.R classificou O Doutrinador como “um anti-herói na vanguarda da imaginação radical.” Com tantos elogios, Luciano Cunha espera ver logo um outro sonho se tornar realidade: publicar O Doutrinador na Europa. "Seria a realização total. França, Bélgica e Reino Unido tem uma longa tradição de amor às graphic novels. Chegar às livrarias destes países seria um  belo salto."

Outro movimento natural que vem acontecendo com os comics é a sua capacidade transmidiática. Luciano conta que já tem projetos bem encaminhados de transformar O Doutrinador em games para celulares, jogos de tabuleiros (RPGs) e até série para canal fechado.

É o quadrinho brasileiro alcançando outros patamares.

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La BD brésilienne dans un autre univers

Oui, vous avez bien lu ! Mais vous êtes en droit de vous demander ce que fait un texte sur la BD dans un espace réservé à la littérature brésilienne contemporaine ? C’est très simple, plus que jamais la BD est à la mode et peut se découvrir dans un autre univers que le sien. Et pas seulement parce que c’est la nouvelle mine d’or des studios américains. Non. Les romans graphiques si communément présents sur les rayons des librairies françaises ou belges, sont considérés par les journalistes comme de la littérature à part entière et pour certains même la BD est bien plus que de la littérature. C’est un vrai langage de mots et d’images, et qui utilise, en les mélangeant, d’autres langages tels que la littérature, le dessin, ou la peinture afin de créer un objet artistique qui s’adressera aussi bien à un marché confidentiel qu’à un marché de grande diffusion.

Bill Kartapoulos, éditeur du recueil Best American Comics affirme que la BD a des particularités qui lui permettent d’exprimer des idées qui ne peuvent être transmises autrement. La BD nous incite à lire d’une manière différente de celle que nous propose la prose. Bien évidemment, le marché de la BD Brésilienne diffère du marché de la BD française, riche et reconnu.



La BD brésilienne a toujours vécu des hauts et des bas, plus de bas que de hauts d’ailleurs, souvent victime de la méfiance des éditeurs qui n’y voyaient pas de marché potentiel, compte tenu de l’invasion des super-héros et des anti-héros américains.

Cependant, les maisons d’éditions brésiliennes, en adaptant des œuvres littéraires à la BD, commencent à s’intéresser à la BD nationale en essayant de vendre leurs produits au PNBE (Programme National des Bibliothèques d’ Ecoles). Plusieurs auteurs qui écrivent et dessinent leurs BD ont déjà publié et ont acquis une visibilité et même à l’étranger. De la même manière, Maurício de Sousa, le créateur de Mônica et Cebolinha, qui jusqu’à aujourd’hui reste le plus célèbre de nos créateurs de BD, participe grandement au développement du marché national. En remettant au goût du jour ses personnages redessinés par de nouveaux talents de la Graphic MSP, ses œuvres ont atteint des scores de ventes inégalés.

Par ailleurs, on constate dans le milieu de la diffusion indépendante, un fort développement dû au financement collectif. Depuis ces dix dernières années, grâce au principal site de crowdfunding du pays plus de 100 BD se sont imposées. Arnaud Vin, éditeur de NEMO, maison d’édition du groupe Autêntica, dédiée à la BD, souligne quelques caractéristiques  pour que la BD vive cette période qu’il définit comme « belle, exubérante, prolifique, forte et grande ». En premier lieu c’est le dynamisme et la qualité de la production indépendante qui retient d’attention d’un public de plus en plus important. Ensuite c’est la prolifération d’événements « nerds » et « geeks » liés au sujet. Enfin, c’est l’espace conquis par les auteurs brésilien à l’étranger en s’appuyant sur leur notoriété, comme Fábio Moon et Marcello Quintanilha qui ont fait partie de la délégation officielle pour représenter le Brésil, pays invité au Salon du Livre de Paris cette année


LE SUCCES DE L’ANTI-HEROS

Parmi les nouveaux auteurs de BD, le carioca Luciano Cunha, tente de faire bouger les lignes. Décidé à témoigner de son indignation envers la classe politique brésilienne, Cunha a créé un anti-héros avec tout ce que cela présuppose de mystère, de noirceur et de violence. Bien que créé dans les années 2010, O Doutrinador devint célèbre sur les réseaux sociaux durant les vagues de protestation qui secouèrent le pays en juin 2013. Habité par la même révolte que celle de son auteur, le personnage a déjà 40000 fans sur son facebook et sa colère contre la corruption ne cesse de s’amplifier.

Les parutions hebdomadaires donnèrent lieu à la sortie d’une luxueuse édition de 84 pages déjà épuisée. La réédition des deux premières aventures, dont celle tirée d’un scénario original du musicien et activiste Marcelo Yuka, l’ancien O Rappa, sont déjà sous-presse.  Luciano Cunha qui vise le marché international a déjà commandé une traduction de sa saga en anglais et en français.

« On a dû adapter le nom du héros au marché ciblé. La traduction du terme « Doutrinador » en anglais donnait un caractère trop professoral au personnage, un peu trop littéraire. Le traducteur m’a donc suggéré autre chose que j’ai beaucoup aimé The Awakener, celui qui te secoue qui te réveille. Cela n’évoque pas le réveil en tant que tel, mais plutôt ce que le personnage veut susciter, c’est-à-dire, donner un choc au lecteur pour que celui se trouve confronté au problème et qu’il remette en question son quotidien », affirme Luciano Cunha.


On vient d’ouvrir une porte sur le Vieux Continent : le Shifter, le website portugais de culture pop, a commandé une version de la BD O Doutrinador mais qui se déroule à Lisbonne. Un journaliste de l’édition argentine de Rolling Stone a appelé O Doutrinador « l’internaute brésilien » référence claire à l’importance politique du personnage de Cunha.

Déjà des sites américains, anglais, japonais, uruguayens et même chinois ne tarissent plus d’éloges sur l’œuvre. Le journal Metro, dans sa version brésilienne, appelle le personnage : « Le chevalier des trêves tupiniquim ».La revue anglaise, R.O.A.R. classe, enfin, O Doutrinador dans la catégorie des «anti-Héros d’avant-garde de l’imagination radicale ». Devant tant de succès, Luciano Cunha espère voir bientôt un autre rêve devenir réalité : publier O Doutrinador en Europe. « La boucle serait bouclée. La France, la Belgique et le Royaume Uni entretiennent une longue histoire d’amour avec la BD. Parvenir à entrer dans ces pays ça serait quelque chose. »

Une autre particularité de la BD actuelle c’est sa capacité à intégrer d’autres supports médias. Luciano raconte qu’il a déjà des projets bien avancés pour adapter O Doutrinador aux jeux pour les téléphones portables, aux échiquiers RPG et même aux série télévisées destinées aux chaînes privées.

Oui, vraiment la BD brésilienne pénètre des univers bien différents !

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Luciano Cunha é carioca, tem 42 anos e desenha desde que se conhece por gente. Se primeiro emprego, aos 16 anos, foi desenhando a revistinha do Menino Maluquinho, com Ziraldo. Depois ilustrou para várias revistas e dirigiu arte para vários jornais diários no Rio de Janeiro, tendo trabalhado também em diversas agências de publicidade. Hoje é designer na gerência de comunicação de uma multinacional. Voltou a desenhar quadrinhos em 2010, quando decidiu desengavetar O Doutrinador


* traduction Leonardo Tonus

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Histórias de meninos

L'information scolaire - Robert Doisneau (1956)
"Manuel e Carlos : histórias de  meninos"
(A representação da infância em Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade)

Conférence avec Monsieur le Professeur
Antonio Carlos Secchin

(De l’Académie Brésilienne des Lettres)
− Conférence en portugais −

Le mercredi 27 mai à 18h30

Maison de la Recherche - Salle 40
Université Paris-Sorbonne
28 rue Serpente
75006 – Paris



Antonio Carlos Secchin nasceu no Rio de Janeiro.   É professor emérito de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFRJ e Doutor em Letras pela mesma Universidade.
Poeta com seis  livros publicados, destacando-se Todos os ventos (poesia reunida, 2002), que obteve os prêmios  da Fundação Biblioteca Nacional,  da Academia Brasileira de Letras  e do PEN Clube para melhor livro do gênero  publicado no país em 2002.
Ensaísta, autor de João Cabral; a poesia do menos, ganhador de três  prêmios nacionais, dentre eles o Sílvio Romero, atribuído pela ABL em 1987. Organizou várias seletas e obras completas de poetas brasileiros, (Castro Alves, Mário Pederneiras, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar).  Em 2010, publicou Memórias de um leitor de poesia. Este ano, pela Cosac Naify, será editada a obra João Cabral: uma fala só lâmina, reunindo tudo que Secchin escreveu sobre o poeta pernambucano ao longo de trinte e cinco anos.
Proferiu quatrocentas e vinte palestras em vários estados do  país  e no exterior. Foi professor convidado das Universidades de Barcelona, Bordeaux, Califórnia, Lisboa, Mérida, México, Los Angeles, Nápoles, Paris (Sorbonne), Rennes e Roma.
Autor de mais de três centenas de textos (poemas, contos, ensaios) publicados nos principais periódicos literários brasileiros e internacionais. Sobre sua obra já escreveram favoravelmente ensaístas como Benedito Nunes, José Guilherme Merquior, Eduardo Portella, Alfredo Bosi, Antônio Houaiss, Sergio Paulo Rouanet, José Paulo Paes e Antonio Candido, entre outros.
Em 2013, a editora da UFRJ publicou Secchin: uma vida em letras, livro-homenagem com cerca de 90 artigos, ensaios e depoimentos de renomados críticos e docentes brasileiros e estrangeiros. Todos os aspectos de sua multifacetada produção foram objeto de estudo: a poesia, o ensaísmo, a ficção, o magistério, a bibliofilia.
Foi eleito em junho de 2004 para a Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Tia Marga

The family, Paula Rego, 1988
Tia Marga

Natália Borges Polesso(*)

Foi a risada do Marcos que ressoou primeiro, depois a minha, e aquela sensação de estupidez completa, a tomada dos sentidos pelo riso que apenas empurra e empurra cada vez mais o ar para fora do corpo. Eu apoiava uma das mãos no caixão, enquanto a outra tapava minha boca, minha cara, eu, tentando fingir um choro, mas ninguém compraria. Todos estavam vendo que era riso estourado já, até que o Marcos, novamente, naquele repé em que o ar volta barulhento pelo nariz ou garganta, pega na minha mão e vamos descendo até embaixo do caixão. Minha mãe é o demônio agora. Eu a suplico com os lábios uma tentativa de perdão, mas ela me torra a alma. O resto da parentada, mais os amigos, se olham confusos. Umas doze velhas enfileiradas fazem o sinal da cruz com as mãos moles em coro surdo tremelicando na fronte, no peito, nos ombros, na fronte, no peito, nos ombros e beijam os terços no final. A única a ter o semblante inabalável é a tia Marga, que no caixão parecia até uma ótima pessoa. Uma senhorinha fofa, ali no meio das flores, cercada de família e amigos, ela transcendia em paz, e nas nossas lembranças já se tornava uma tia querida.  A morte tem essa coisa de conceder às pessoas um ar de bondade. O Marcos e eu sabíamos que não. Mas não ríamos por maldade, ríamos justamente por lembrarmo-nos de como a tia era purgante. Purgante era o adjetivo que ela mais amava. Chamava todos de purgante: a filha do Mário é uma guria purgante! É purgante a sobrinha da Tônia. Velho purgante aquele José. Só sabe purgar o marido purgante da Nora. A coisa já tinha virado piada e nós a trabalhávamos em variações.
A tia Marga sempre tinha uma opinião sobre tudo e todos. Geralmente não era algo bom. O Marcos, que era gay, sabia, e a sorte dele era ter ido morar nos Estados Unidos, porque assim, ele não precisava dar as caras em festas e eventos familiares com a mesma frequência que eu precisava, por isso ele permanecia meio que imune aos comentários. Ele me falava sempre sobre a importância de saber dizer não, de se desvincular de algumas coisas sem sentir culpa, mas eu não conseguia. Eu não tinha aquele desprendimento, portanto, eu tolerava o convívio. A nossa família venerava encontros: casamentos, batizados, almoços gigantescos e indigestos em que parentes que você jamais tinha visto e, com sorte, jamais veria novamente, apareciam como coelhos desentocando por todos os lados. A tia amava os eventos mais do que todos, porque neles, ela tinha a oportunidade de cutucar um pedacinho escuro de cada um. Contudo, não poderia mais fazê-lo.
Demorou um pouco para que alguém viesse nos repreender. Acho que uns dois minutos, dois longos minutos, enquanto ríamos como porcos deitados embaixo das hastes metálicas que desciam em bonitos arabescos nos pedestais. No meio de tudo, me ocorreu que eu nunca tinha visto a parte de baixo de um caixão. Foi meu pai que me levantou pelo braço e esbravejou entre dentes e saliva. “Daniela, onde já se viu uma mulher de quarenta anos cair na gaitada no enterro da tia!”. Eu parei de rir. Não porque meu pai me repreendia, era por causa daquele som ecoando na minha cabeça: quarenta anos. Eu era, entre muitas coisas, uma mulher de quarenta anos.
Para o meu pai eu era uma filha boa, contudo sem sorte “uma lástima não ter casado de verdade”. Para minha mãe eu era uma “péssima filha, ovelha negra, além de tudo solteirona que só me envergonha”. Para a tia Marga eu era “a cancerosa sem sorte de útero seco que só deu desgosto pros pais, malcontenta, povereta”. A verdade é que eu tinha casado sim, por oito anos com a Tereza, agora estava havia dois anos sozinha. Meu pai achava que não era casamento de verdade, que era uma fase – dos 18 aos 40, baita fase. Minha mãe fingia que não sabia, que não ouvia, que não enxergava nada e sempre, sempre me perguntava quando eu ia casar, tomar rumo na vida, me obrigava a ir a encontros com filhos de amigos do trabalho e, até pouco tempo atrás, dava jantares constrangedores em que convidava os mesmo filhos de amigos do trabalho e, lá pelo meio da conversa, me oferecia como mercadoria encalhada promocional. Os rapazes, é claro, saíam correndo. Eu também não fazia questão de ser agradável e isso, mais tarde, era jogado na minha cara em forma de ataque de nervos. O pior é o dia da novena. Antes de começar, minha mãe e suas amigas da igreja sempre decidem pelo que vão rezar, porque reza genérica não é atendida, então minha mãe sempre pede por mim. Virgem Maria, traz um homem bom pra minha filha Daniela, um homem paciente que possa aguentar o gênio dela, um homem calmo e bom e rico. Eu passei a achar engraçado, coitada da Virgem com essa tarefa.  O que eu achava bem menos divertido é que minha mãe conversaria com um leproso, mas não conversaria com a Tereza.
A tia tinha adquirido essa compaixão distorcida por mim, porque um dia fomos o Marcos, a Tereza e eu visitá-la. O Marcos é o irmão que eu não tive, primos que crescem juntos e descobrem juntos como a vida funciona. Numa das raras vezes em que o Marcos estava no Brasil, resolvemos ir passar o fim de semana no interior, e minha mãe recomendou que visitássemos a tia. Nós assentimos. Tereza e Marcos foram como noivos e eu fui com um câncer fictício no útero. Como de costume, a tia nos serviu seus biscoitos conhecidos por serem duros como pau, tomamos um café morno e com o gosto dos dias estampado no aroma e então, Tereza pediu licença e foi até o banheiro, foi aí que a tia soltou a primeira. “Meio escurinha a sua noiva, Marcos.” “Sim, tia, ela é negra.” “Imagina! Não diga uma coisa dessas da moça, tão educada! Ela é morena.” E o Marcos insistiu no desagrado. “Não, tia, ela é negra.” “shhhh” E vinha a Tereza, tentando não rir do acontecido, pois tinha nos escutado do corredor. Continuamos conversando, a tia parecia muito animada. Foi a minha vez de sair. Eu saí para fumar um cigarro, mas menti que ia ver os cachorros para evitar a ladainha. “Ma quando a Daniela vai casar, é? Tão dizendo que ela é ó – e apontava com as duas mãos para os pés, fazendo um grande espaço entre elas – Quando ela vai ficar noiva? Tem que falar com ela, Marcos, que tu dá o exemplo. Daqui a pouco não pode mais ter filho e ninguém vai querer...” Aí o Marcos largou a informação. “Tia! Pelo amor de Deus, não toque nesse assunto! A Dani teve um câncer no útero!” “Um câncer? Móóó Misericórdia! Coitada.” E ele continuou. “Ela já está seca, tia, nenhum homem quer.” “Sacramento! É cancerosa, então?” O Marcos disse que a cara da tia tinha se espichado tanto naquela hora que quase se desmanchara. Eu tinha dado a volta na casa e os escutava da janela. Desperdicei duas ou três tragadas rindo do Marcos. Fumaria mais uns cinquenta cigarros lá, mas não achei justo que ficassem tanto tempo com ela. Quando foi a vez dele sair, a tia ficou muda, parecia querer me dizer alguma coisa, tinha até um tremor no olho, mas não disse nada. É claro que na mesma semana ela ligou para a minha mãe perguntando mais detalhes sobre o casamento do Marcos e sobre o meu câncer. Minha mãe logo entendeu o que ocorria, mentiu uma desculpa para encerrar a conversa e me ligou em tom de deserdância. “O que foi que vocês fizeram? São uns monstros sem coração! Eu não vou mentir pra tia de vocês!” Só que ela acabou mentindo, porque pra ela o casamento e o câncer eram melhor do que eu transar com uma mulher negra e o Marcos dar a bunda.
Foram cinco anos de mentira e a tia Marga morreu. Ninguém esperava aquilo, nem ela mesma. O tio Olímpio, irmão dela foi quem presenciou tudo. “Ela tava bem, sabe? Ainda foi tirar umas folhas da calha de manhã. Eu disse que tirava de tarde, che, mas ela não sabe esperar, né. Não sabia, che. Não acostumei.” “Mas Olímpio, ela foi tranquila, tá num lugar melhor, tenho certeza.”, disse o meu pai. “Che, foi tranquila? A mulher fez um escarcéu antes de morrer. Derrubou prato, derrubou balde, gritou que tava morrendo e a pia tava cheia de carne pra descongelar. Eu disse pra ela se acalmar e sentar um pouco, que devia ter sido o sol e o esforço de ter subido na casa, che, mas a mulher não me senta na cadeira e dá uns grito de pavor, fica vesga e bate com as mãos na mesa e depois no peito e cai de cara no prato de queijo.” “Credo, Olímpio, foi assim?” “Olha, eu não desejo uma morte daquelas pra ninguém, e que ninguém visse, também, o desespero. E se foi, che. Puta merda, e as carne ficaram lá na pia mesmo, quero ver o fedor da casa” “Bom, mas não te preocupa com isso, nós vamos pra lá te ajudar depois” meu pai ainda apertava meu braço, porque eu continuava tentando não rir daquilo tudo.
Na casa da tia, mais um grande encontro, umas trinta pessoas circulando entre pêsames e lembranças. O cheiro da carne tinha infetado a casa inteira, mas ninguém parecia se importar ou querer mencionar algo sobre. Era como se a tia ainda estivesse ali, fazendo comentários que deixariam esse mesmo fedor no ar: a minha solteirice, o Marcos que não parava com nenhuma mulher, o Olímpio que não tinha onde cair morto e agora tinha que morar com ela, meu pai que era frouxo demais, a Sandra que não ficava em casa pra cuidar dos filhos, por isso o marido tinha encontrado outra, o Igor que era caolho e ninguém fazia nada, por aí iria. Curioso era que ninguém mencionava nenhuma dessas coisas, e dessa forma, parecíamos estranhos. Era certo que todos sabiam de tudo, de alguma maneira, porém, o fato de silenciarmos para os problemas e as questões familiares, nos fazia parecer um bando de gente desconhecida, unido pela morte de alguém. Um mal-estar se instalou na casa, uma náusea. Talvez fosse o cheiro da carne podre, talvez fosse a força motriz da mudança e o que ela causa. Olhei meus tios, tias e primos e seus rostos desapareciam gradualmente dentro de canecas de chá, atrás da fumaça de um café quente ou de um cigarro. Apagados todos. Andei até a janela, perto de onde minha tia-avó, Otília, estava sentada. Acariciei de leve o seu braço. Estava muito abatida, pois a tia Marga e ela eram muito próximas. Me agachei ao lado da poltrona, era uma daquelas poltronas quadradas com o couro já amarelado, apoiei os dois cotovelos no braço duro do estofado e a tia Otília me olhou com a cara mais jururu do mundo. Reparei que ao redor todos sofriam pela tia. Fiquei envergonhada pelo ataque de riso horas antes. Alguma coisa precisava ser feita. Era para o bem da família, para que os encontros se revigorassem, para que outras lembranças pudessem ser construídas. Era a primeira vez que eu sentia minha família se desmembrando e que aquele não pertencimento me doía. Me inclinei para dar um beijo na tia Otília, grudei meus lábios com força na bochecha ossuda da velhinha e na volta do movimento me inclinei até seu ouvido e disse “tu sabia que o Marcos é bicha?”. Os olhos da tia se encheram de vida. Me afastei da poltrona com a clemência estampada em mim, saí para fumar. Logo a tia se levantou para pegar um chá, puxou minha mãe e umas primas para o canto do corredor. Em dez minutos, tudo voltara a ser como antes. O rosto das pessoas reconhecível os assuntos calorosos nas rodas, narizes torcidos, olhares de piedade e risos disfarçados. Tudo bem. Tudo como devia ser.




Autora do livro Coração à corda, Natalia Borges Polesso é escritora, professora e tradutora. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade pela UCS e doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, ( e na Université Paris-Sorbonne) é autora de Recortes para álbum de fotografia sem gente , obra vencedora do prêmio Açorianos 2013 na categoria contos, e também da tirinha tosca A Escritora Incompreendida, publicada apenas via facebook. Seu coração arrítmico a obrigou a tentar ser poeta.


Natalia Borges Polesso, Marilia Garcia, Gabriel Harfield  e os estudantes da Sorbonne durante a 2° edição do "Printemps littéraire brésilien"

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Exportando a Música Popular Brasileira



Exportando a Música Popular Brasileira

Entrevista com os integrantes do Grupo 3 no Som que no mês de Fevereiro de 2015 se apresentaram na Universidade da Sorbonne. Confiram a entrevista realizada por Vivian M.F. Ramos(*) na qual os músicos evocam seu percurso, trabalhos e projetos.

Como surgiu o grupo 3 no Som?
O grupo surgiu em 2010 com a mesma formação instrumental de gaita, violão e percussão. Depois de algumas mudanças de músicos, o trio se consolidou em 2011 com: Bruno Mota (percussão), Caio Chiarini (violão) e Diego Sales (gaita).

Qual a formação musical dos integrantes?
Somos todos formados no curso de Licenciatura em Educação Musical (LEM) pela Universidade do Estado de São Paulo (Unesp). Tivemos formações completares em conservatórios como o de Tatuí e a Escola Música do Estado de São Paulo, além de aulas particulares com alguns renomados instrumentistas brasileiros.

Por que a ideia de uma formação somente a partir da gaita, percussão e do violão?
A ideia inicial foi partir dessa formação instrumental. Podemos dizer que esta formação é muito interessante e desafiadora, pois são 3 instrumentos tentando preencher o máximo. Quando falamos isso, queremos dizer em termos de texturas sonoras. Nossa formação instrumental é muito distante uma da outra. Para se ter uma ideia, por exemplo, entre a percussão e o violão seria possível ter um baixo, e entre o violão e a gaita seria possível haver um cavaco. É aí que está o nosso desafio: preencher estes espaços. Por isso precisamos de ensaios e conhecer bem a maneira como cada um toca.
 
Os Oito Batutas
Quais são suas maiores influências?   
As nossas influências  são diversas; artistas da música brasileira (Hermeto Pascoal, Sivuca, Egberto Gismonti e cancioneiros como Cartola e Luiz Gonzaga) e o Jazz (John Coltrane). O grupo também permite que as influências individuais se apresentem em seu resultado sonoro, colocando outros gêneros em sua interpretação como Rock e o Blues.

Esta foi a segunda turnê do grupo na Europa. Como a música brasileira tem sido recebida no exterior?
Fomos muito bem recebidos nos dois países, tanto na Itália como na França. O nosso público foi diverso e tivemos a oportunidade interagir com o público jovem, idoso, músicos e não músicos. Além disso tivemos boa recepção de pessoas que desconheciam a música brasileira. Os resultados têm sido bastante positivos , o que nos deixa felizes.  
 Acreditamos que o diferencial está na nossa proposta de concerto didático (se é assim que podemos chamar), ou seja, tocamos uma série de gêneros brasileiros e discorremos acerca deles pontuando suas influências, o contexto histórico em que foram criados, etc. Essa maneira de expor o trabalho aproxima o público das obras expostas permitindo com que este tenha uma experiência mais completa.

Existe diferença entre tocar para o público brasileiro e para o público estrangeiro?
Nas duas situações das quais presenciamos (Itália e França) não houve diferença em relação à receptividade do nosso trabalho. Percebemos que tanto no Brasil quanto na Itália e França, o intercâmbio cultural se mostra necessário na medida em que há uma certa carência de novas experiências musicais e culturais.



Vocês exercem outras atividades além do grupo 3 no Som?
Sim, todos trabalham com educação musical e possuem outros grupos musicais.

Quais são os projetos futuros do grupo?
A nossa prioridade está em gravar nosso primeiro disco. Paralelamente à gravação, temos uma ideia de escrever um artigo sobre esta experiência e elaborar novos projetos musicais.

Das músicas do repertório, sabemos que vocês possuem composições próprias.
Todos nós possuímos composições e várias delas serão lançadas no CD. Atualmente, seis estão de fato dentro do nosso repertório. São elas: “Espia Lurdes”, “6 do Caio” e “Frevo Maldito” de Caio Chiarini; “A primeira dama”, “Santinha” e “Simples porém sincero” de Diego Sales.
Flautista, Candido Portinari, 1957
Há uma previsão para o lançamento do CD?
A previsão é para o final desse ano.

Quais as maiores dificuldades encontradas para a divulgação do trabalho?
Acreditamos que a maior dificuldade esteja nos meios de comunicação de massa. É muito difícil entrar nesse meio com a proposta que temos (música instrumental). Isso sem entrarmos no assunto Indústria Cultural...precisaríamos de uma longa conversa para tentarmos esclarecer algumas coisas...(risos)
Por este motivo, trabalhamos com formação de público, de forma alternativa, tocando nas ruas e praças da cidade de São Paulo, utilizando a internet e as redes sociais como aliadas, convidando as pessoas a conhecerem nossas páginas.  Nós costumamos publicar novos conteúdos para mantermos toda a rede atualizada com a nossa produção.

É possível viver só de música no Brasil?
Sim. Por isso resolvemos encarar a música como profissão. Acreditamos que viver de música não implica em apenas tocar...é preciso trabalhar nos diferentes campos por onde a ela passa, inclusive atuando como professores.


Links e Informações sobre o grupo:
Vera Cruz - https://www.youtube.com/watch?v=cNVIn9rNw6M
Santinha - https://www.youtube.com/watch?v=Br0J6XFVmTI
6 do Caio - https://www.youtube.com/watch?v=nld_OSb_8Vw
Documentário - https://www.youtube.com/watch?v=bgvAuQG4WK4
Programa Musicas que Elevam LBTV
https://www.youtube.com/watch?v=1vF3Mi7Bioo

Site: www.3nosom.com
Facebook: www.facebook.com/3nosom
Email: 3nosomcontato@gmail.com


Vivian Maria Florêncio Ramos é graduanda em Letras (Português-Francês) pela Universidade de São Paulo. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones.