sexta-feira, 24 de abril de 2015

Homenagem à Adriana Lisboa


Homenagem à Adriana Lisboa
O Blog Etudes Lusophones publica os textos redigidos pelos estudantes da Université Paris-Sorbonne à escritora Adriana Lisboa, uma das homenageadas na 2° Edição do Printemps Littéraire Brésilien de 2015.

Um pé depois do outro
Por Carla Ezarqui (*)

“Celina tinha dúvidas de que ainda soubesse andar de bicicleta. Aquele mito de se tratar de algo que nunca se esquece não passava disso: um mito. Quase tudo era passível de ser esquecido. Muitas outras coisas insistiam em não ser esquecidas. E assim a memória seguia como subalterna do coração.”

Também tenho dúvidas de que eu ainda saiba andar de bicicleta. E o mito de que nunca esquecemos de como andar de bicicleta sempre foi um mito pra mim. Eu diria mesmo que andar de bicicleta foi um mito na minha vida, assim como patinar o foi plenamente. Dois invernos se foram e eu fiquei do lado de fora da pista de gelo, assim como eu fiquei do lado de fora do mar e as férias passaram, as estações passaram, eu passei. Sempre penso que se houvesse alguém comigo, eu tentaria de novo andar de bicicleta, mas é mentira, o que podemos fazer sozinhos, às vezes é ainda mais assustador. E de um verão a dúvida se estendeu para o próximo e ainda para um próximo e último, pelo menos o último dos primeiros ou talvez o primeiro dos últimos, nunca se sabe.
Esqueci. Esqueci de como andar de bicicleta, assim como esqueci toda a ingenuidade de criança de subir nela e cair; simplesmente cair, levantar e tentar de novo ou então chorar, chorar muito pra voltar a atenção das pessoas pra minha dor, porque quando se é criança também se sente um mal estar diante de situações de “ridículo”. Aliás, quando se é criança, o que mais fazemos é permitir que a dor doa, às vezes até mais do que ela realmente dói. É assim que garantimos as pessoas ao nosso lado. O tempo passa e entendemos que permitir que a dor doa é suicidar-se e continuar vivendo minutos depois, como se nada tivesse acontecido e sozinhos. A dor decorre de uma perda total do contato com o chão e do consequente reestabelecimento desse contato, até que aprendemos a nos equilibrar e não haverá mais dúvidas de que a dor é o que dá equilíbrio à vida. É a partir dela que mediremos a intensidade das nossas sensações, sejam elas boas ou ruins. Assim como a bicicleta, a dor marca um ritual de passagem e independentes nos tornamos mais autênticos. A dor nos liberta e saber conviver com ela é saber o momento certo de tirar as mãos do guidão e o momento certo de retomar a direção. Ela está e continuará ali, do mesmo lado em que o cerébro armazenou a capacidade de andar de bicicleta, porque podemos até acreditar que esquecemos, mas toda vez que passarmos perto da nossa bicicleta, ela vai doer. A dor é sempre pela dor em si. É pra ter outra vez a saudade em cima do corpo e o passado embaixo dos pés.
Na bicicleta, sinto o vento bater no rosto e entendo que essa viagem é para onde a dor dicidiu me levar. Para pedalar, basta impulsionar um pé depois do outro. Um pé depois do outro. Não é complicado. Não é dificil.

Entre e là-bas
Por Alexandra Silva Montes (*)
Adriana Lisboa,
Foi com grande entusiasmo que recebi a notícia pelo professor Leonardo Tonus de que trabalharíamos Azul Corvo durante nosso curso. Embora formada em Letras, não havia ainda sido apresentada às suas Obras no Brasil – prefiro acreditar que isso tenha sido mais uma das disposições do tempo, me guardando para o momento ideal.
Mestranda na área da Análise do Discurso Literário, em Paris, minhas leituras majoritariamente não significam um momento desprendido, onde posso me deixar levar suavemente pela trama e sentir empatia pelos personagens. Os romances, sobretudo os de autores brasileiros, não faziam mais parte da minha rotina e quando seu livro surgiu em minhas mãos foi como a materialização da sensação que Clarice Lispector chamou brilhantemente de felicidade clandestina.
Ao ler o primeiro capítulo de Azul-Corvo já me senti em casa e não mais entre e là-bas, esse entre-dois, que é uma constante à condição de ser uma estrangeira. Ter referências é algo que até então não tinha me dado conta do quão acalentador pode ser quando estamos ainda tateando as do Outro, e as que você me ofereceu foram as mais belas, Adriana. De supetão, eu estava na década de 80, férias escolares no escaldante Rio de Janeiro, as conversas dos adultos que vinham de outros cômodos sobre política enquanto me preparava animada para ir à praia, a coleção de conchas e o gosto salgado na pele. Nostalgia.
Contudo, ler Azul-Corvo, paradoxalmente, também me extirpou em muitos momentos dessa zona confortável e familiar, pois não pude deixar de olhar para as minhas próprias bagagens, literais e metafóricas. O que coloquei dentro delas, o que tirei e o que não posso tirar não foram reflexões passivas e livres de questionamentos. Suas linhas me tocaram profundamente e gostaria de te agradecer por isso. Minhas bagagens ficaram mais leves e meus sapatos mais confortáveis para continuar minhas buscas.  
Gratidão.

Alexandra Silva Montes
Paris, 18 de março de 2015.


Hai-caí
Por Horácio Dib (*)


Quando eu Hai-caí
Nessa lírica doce
Me vi e foi-se.

A poesia fluía
Simples, complexo, afoito:
Um pé, o outro.

Carla Ezarqui, Adriana Lisboa, Luiz Ruffato e Leonardo Tonus no Printemps Littéraire Brésilien


Carla Ezarqui é graduanda em Letras (português-francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do programa de intercâmbio PLI ( Programa de Licenciatura Inertnacional) com a Université paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones.

Alexandra Silva Montes é graduada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, onde foi bolsista pelo CNPq com a pesquisa “A poesia de Mahmoud Darwich em tempos de selvageria”, sob a direção de Maria Zilda Cury. Atualmente é mestranda em Análise do Discurso Literário, na Université Paris-Sorbonne, sob a direção de Dominique Maingueneau com a pesquisa “Escritos de Benjamin Péret sobre as religiões afro-brasileiras”.


Horácio Dib graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones, responsável pelo projeto Palavrarquitetada.

domingo, 19 de abril de 2015

À margem da memória

JR | Wrinkles of the City, Shanghai 2010
À margem da memória
Palavrarquitetada: envelhecimento

Sônia Barros (*)

Todas as manhãs,
no mesmo local
– cadeira de balanço na varanda –
logo após o café,
o ritual:
punha-se a pescar
pensamentos, reais
acontecimentos
quase à mão
da memória.

O avô também vinha
à beira do rio
e talvez por isso a voz
que ouvia de fora dissesse
vô, está na hora da sopa.

Sim, tinha certeza
de que era mesmo o avô
ao seu lado, pois podia
sentir os calos das mãos
grossas sobre as suas
de menino
tentando trazer
o peixe à tona.


(*)Sônia Barros é escritora, poeta com dois livros publicados. O primeiro, Mezzo vôo, Nankin Editorial, 2007, selecionado pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. O segundo, Fios, vencedor do Prêmio Paraná de Literatura de 2014 e publicado pela Biblioteca Publica do Paraná. Sônia é autora de literatura infanto juvenil, com 17 títulos publicados. Destes, 5 foram transcritos para o braile. A autora é embaixatriz da Confraria das Letras em Braille do Rio Grande do Sul. Consulte o seu blog no link : http://escritorasoniabarros.blogspot.fr/

Para participar do projeto Palavrarquitetada e ter seu texto publicado neste blog  acesse:











sábado, 11 de abril de 2015

Aquecendo o mercado editorial

Participação do Brasil no Salão de Paris deve aquecer parcerias

O Brasil será homenageado, pela segunda vez, no Salão do Livro de Paris, que ocorrerá entre 20 e 23 de março na capital francesa. Um grupo de 43 autores e autoras representará o País no evento, que terá a presença do ministro Juca Ferreira e contará com espaço de 500 metros quadrados para venda, exposição de livros e palestras.

Guiomar Grammont, curadora da programação brasileira do Salão de Paris, explica a importância da participação no evento. "A promoção do livro e da literatura brasileira no exterior é essencial para o desenvolvimento de um maior intercâmbio científico e cultural, o que amplia as divisas do País, fortalece nossa moeda, e promove melhoria da qualidade de vida em todos os níveis", defende.

Leonardo Tonus, professor da Universidade de Sorbonne e um dos curadores que selecionaram os autores brasileiros, também destaca os benefícios da ação. Para ele, a participação do Brasil no Salão de Paris vai aquecer o mercado editorial entre os dois países e permite a consolidação de nossa cultura na França, principalmente o ensino de português nas escolas.

Em entrevista concedida ao Ministério da Cultura, Tonus fala sobre o cenário da literatura brasileira na França e também avalia a importância das bolsas de tradução concedidas pelo governo brasileiro."Estes programas foram e ainda continuam sendo essenciais na promoção e na divulgação da literatura nacional no exterior" diz.

Angela Lago ( Stand du CNL)

MinC- Como a literatura brasileira é vista hoje na França?

Leonardo- As relações culturais entre a França e o Brasil não datam de hoje. Neste sentido, vale a pena lembrar o trabalho empreendido por Ferdinand Denis no século XIX, um dos primeiros brasilianistas e promotores da literatura brasileira na França, como também o empenho do poeta Valéry Larbaud em querer aproximar os modernistas brasileiros dos intelectuais franceses. Não esqueçamos, também,  os nomes  de  [Georges] Bernanos, [Roger] Caillois, Roger Bastide, Claude Lévi-Strauss, Le Corbusier, Pierre Monbeig, Fernand Braudel e tantos outros intelectuais, escritores e pensadores franceses que inauguraram uma era de conhecimentos e contatos recíprocos entre os nossos dois países.

De fato, ao longo do século XX observa-se uma penetração cada vez maior da  cultura e da literatura brasileiras no universo francês. No entanto, poucos autores de nossas letras nacionais conquistaram um lugar de destaque em sua esfera pública. A tradução da literatura brasileira na França, bem como sua circulação, é quase inexistente até o segundo quartel do século XX, limitando-se aos círculos restritos de intelectuais e apaixanados por nossa cultura.

A grande reviravolta dá-se nas décadas de 1960 e 1970 com o boom da literatura latinoamericana na Europa que traz à tona figuras importantes como Alejo Carpentier, Gabriel Garcia Marquez, e Jorge Amado, um dos autores brasileiros ainda hoje mais apreciados pelo público francês.

Ora, da década de 1980 para cá muita coisa mudou, sobretudo se levarmos em conta a multiplicação dos canais de difusão cultural no Brasil, bem como a diversificação de seus atores, como atestam a emergência  de vozes até então silenciadas no campo literário brasileiro (negros, índios, mulheres, homossexuais, etc) e seu reconhecimento para fora do espaço nacional.  Apesar de ainda permanecer um espaço em disputa, como sugere a professora e pesquisadora Regina Dalcastagnè (UnB), nestes últimos anos, a literatura brasileira pluralizou-se, quer seja a nível nacional como internacional.

Hoje o leitor francês que se interessa por nossa cultura e literatura pode contar com uma grande variedade de autores, estilos e gêneros até há pouco tempo inexistentes. De Paulo Lins a João Carrascoza, passando por Edyr Augusto, Adriana Lisboa, Conceição Evaristo, Roger Mello, Fábio Moon, Carlos Drummond de Andrade, Rodrigo Ciríaco ou Bernardo Carvalho, entre outros, eis alguns nomes que se encontram hoje facilmente nas estantes das principais bibliotecas públicas ou nas gôndolas de livrarias francesas. Evidentemente muito esforço ainda há de ser feito, nomeadamente no que diz respeito à divulgação de nossos pensadores, artistas plásticos, cineastas, poetas, dramaturgos e até, por que não dizer, dos atores de um ser modo de ser brasileiro.

Paloma Vidal, Leonardo Tonus, Michel Laub e Luiz Ruffato ( stand du CNL)

MinC- Que benefícios a participação do Brasil no Salão do Livro de Paris pode trazer?

Leonardo- Para além do fortalecimento das relações bilaterais e do aquecimento do mercado editoral entre os dois países, a participação do Brasil permitirá a consolidação de nossa cultura na França, nomeadamente do ensino do seu idioma.

Resido em Paris há mais de 25 anos e sou professor de literatura brasileira na Universidade da Sorbonne desde 2001. Ao longo dessas últimas décadas, assisti não somente à euforia em torno da promoção da língua portuguesa no ensino público francês, bem como ao seu declínio, ao desaparecimento dos concursos para professores de português no secundário, ao fechamento dos departamentos de estudos lusófonos nas universidades francesas, situações que acabaram por fragilizar a presença do livro brasileiro no mercado editorial francês.

A aposta na internacionalização de nossa cultura realizada pelo governo brasileiro nas últimas décadas parece, no entanto, inverter  este quadro sombrio. E os beneficios  já são perceptíveis. Desde 2012, data quando o Brasil retorna ao Salão do Livro de Paris, constata-se um aumento significativo de traduções ou reedições dos clássicos de nossa literatura e de jovens  autores nacionais.  Atesto também uma mudança significativa em meu cotidiano de docente na Universidade da Sorbonne com um acréscimo exponencial do número de estudantes interessados pelo aprendizado do português do Brasil e de sua cultura.

Não posso deixar de mencionar aqui o meu prazer a ministrar cursos sobre a nossa literatura com turmas de quase 70 estudantes! Como disse, os beneficios são imensos e perceptíveis. No entanto, há de se ter muito cuidado. A penetração da literatura brasileira nas diversas esferas públicas da sociedade francesa ainda é fragil e requer um apoio contínuo  por parte das instituições brasileiras. Saúdo aqui o belíssimo trabalho empreendido pela Embaixado do Brasil na França na promoção de nossas letras.  Penso, no entanto, que este poderia multiplicar-se através de um esforço contínuo realizado pelos diversos atores locais e nacionais.

Rodrigo Ciriaco ( stand du Brésil - source anacaona.fr)


MinC- Quais são os atuais e principais desafios que autores brasileiros enfrentam em relação a expandir produção para fora do País?

Leonardo- Os atuais e principais desafios que autores brasileiros enfrentam em relação à expansão da produção literária para fora do País limitam-se, em minha opinião, à continuidade de uma produção de alto nível, como ela o é hoje. Se os autores brasileiros contemporâneos reivindicam, com pertinência, o reconhecimento de um estatuto profissional, este não requer necessariamente uma implicação no processo de promoção  dependente, como sabemos, das forças do campo literário, como já afirmava o sociólogo francês Pierre Bourdieu.

Os verdadeiros e atuais desafios do processo de internacionalização da literatura brasileira situam-se antes na reestruturação da cadeia do livro brasileiro no exterior. Para além de uma melhor aproximação dos atores locais, torna-se imprescindível, por exemplo, a formação de leitores e tradutores  do português para outros idiomas, bem como a disponibilização e uma maior centralização de informações  acerca da produção literária nacional recente, quer seja por portais na internet,  catálagos ou encontros realizados no exterior sobre questões relativas e específicas ao campo literário nacional.

MinC- O Ministério da Cultura investe na promoção da tradução da literatura brasileira. Exemplo disso é o Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasieliros no Exterior. De 1991, ano em que o Programa foi criado, até 2014, foram concedidas 771 bolsas de apoios à tradução e à publicação de autores brasileiros. 70% destas, concedidas desde 2011. Qual é a importância do apoio do governo?

Leonardo- Estes programas foram e ainda continuam sendo essenciais na promoção e na divulgação da literatura nacional no exterior. Mas as demandas cresceram, e a questão que se coloca hoje é de como suprir estas novas expectativas e se adequar ao potencial e às exigências do mercado editorial internacional. Os programas de residência de tradutores no Brasil e os editais permitindo à presença de autores brasileiros  fora do país constituem já uma resposta a esta questão.

Talvez, no entanto, seja o momento de se repensar novas estratégias, através, por exemplo, de editais (privado-público) que abarquem projetos internacionais ou de acordos bilaterais entre instituições nacionais e internacionais vinculadas ao universo do livro que possam deste modo consolidar a aventura singular da literatura brasileira na França e no Salão do Livro de Paris de 2015. 

Josyane Savigneau, Nélido Piñon e Leonardo Tonus ( stand du CNL)


Fonte: Ministério da Cultura

terça-feira, 7 de abril de 2015

Um dedo de prosa com Cristovão Tezza

Um dedo de prosa com Cristovão Tezza

Escritor com um amplo reconhecimento nacional e internacional, Cristovão Tezza inicia sua carreira artística no teatro. Em 1968, ele integra o Centro Capela de Artes Populares (Cecap), dirigido por Wilson Rio Apa, no qual permanece até 1977. Tratava-se de um grupo inovador para época que se apresentava em locais públicos da cidade de Curitiba, dialogando, à sua maneira, com as culturas hippie, beatnik e com as artes de vanguarda dos anos 1960. Ainda na adolescência, Tezza participa da primeira peça de Denise Stoklos, além de outras montagens teatrais. Em 1974, ele viaja a Portugal para estudar letras na Universidade de Coimbra e, por conta da Revolução dos Cravos, perambula pela Europa.  Na década de 1980 torna-se professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e, posteriormente, na Federal do Paraná (UFPR) dando continuidade à sua carreira de escritor.
Como resumir a vastíssima obra de Cristovão Tezza que, para além de mais de 10 romances, conta com a publicação de contos, crônicas, ensaios, livros didáticos, premiados tanto no Brasil como no exterior ? Talvez a melhor maneira talvez seja evocando o sucesso do romance O Filho Eterno um dos livros da literatura brasileira contemporânea mais premiados nas últimas décadas. Eros, Tanatos, felicidades, tristezas, alegrias, crueldades, delicadezas e violências. Estas e outras contradições da experiência da afetividade constituem o eixo condutor deste romance que foge a todo tipo de convenção romanesca. Trata-se do relato de um pai que descobre que seu primogênito nasceu com síndrome de down. Situação  tragica encenada  sem qualquer didatismo ou sentimentalismo politicamente correto. Pelo contrário, o desmanche do heroísmo da figura paterna atinge aqui o seu paroximo, nomeadamente pela exposição das contradições humanas, dos preconceito e pela vergonha em relação a um filho que no final lhe revela o verdadeiro significado da palavra afetividade.  Assistam abaixo  a entrevista que Cristovão Tezza concedeu ao Blog Etudes Lusophones e descubram alguns dos seus textos ficcionais e teóricos.



Por que ler os clássicos brasileiros
Por Cristovão Tezza
Muito já se disse para defender a literatura brasileira e tentar quebrar a resistência que o próprio leitor parece sentir com relação a ela -pelas listas de best-sellers, percebemos de fato que há algo de estranho no reino das nossas letras.
E a defesa sempre parece ganhar um tom patriótico, repercutindo afinal nossa própria história literária, em que a questão da famigerada "identidade" tem sido freqüentemente um ponto de honra. Mas penso que podemos defender a literatura brasileira sem recorrer a álibis, observando apenas um ponto de partida -a língua portuguesa do Brasil, não como uma entidade oficial, mas como a linguagem que criou a forma da nossa visão de mundo, em toda a sua imensa variedade.
Do histórico pessoal e social da língua, não podemos nos livrar por escolha; a língua dirige nosso olhar, escolhe objetos e referências, estabelece relações, cria entonações, se multiplica em subentendidos e muitas vezes fala por nós. E, dentre todas as formas da língua, do padrão escolar aos mil dialetos populares da oralidade cotidiana, a literatura consolida um padrão de civilização, a passagem entre a liberdade da fala e a dureza da escrita; e, mais que isso, é o grande elo de ligação entre o indivíduo -esse desejo solitário de dizer, que é a alma da literatura- e a sociedade, a quem respondemos com nossa palavra.

Essa relação poderosa entre a nossa língua e o olhar que ela encerra, em estado de liberdade, pode ser encontrada na literatura brasileira com grande nitidez. Mais que isso, ela é a ponte que afinal pode nos tornar cidadãos do mundo. É um bom motivo para conhecê-la.
Dos 20 livros da "Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros", começo por lembrar a importância em minha formação pessoal dos poemas de Carlos Drummond de Andrade, versos que ressoam até hoje como formas insubstituíveis de reconhecimento do mundo, na minha língua.
Lugar das diferenças
A percepção da realidade pela voz de seus poemas criou um sistema de referências que nenhuma outra forma da linguagem -todas utilitárias, a serviço de algum objetivo imediato- seria capaz de dar. Em seguida, a leitura da prosa de Graciliano Ramos me abriu outro universo. A sua frase curta e seca, falando de um mundo a um tempo terrível e próximo, avançava como que desmontando as coisas que eu via pelos olhos dele.
Quase ao mesmo tempo, entrei nos textos de Machado de Assis para descobrir também naquela linguagem o que de fato me interessava na literatura, o ponto de confluência mental entre língua, indivíduo e sociedade, em que as formas da nossa sensibilidade são postas à prova página a página. Um bom texto literário não é apenas um sistema de referências descritivas, abstrato e redutível a um código -é uma voz pessoal que tem algo urgente a nos dizer, usando a nossa palavra.
Com Drummond, Graciliano e Machado, aprendi fundamentalmente um modo de olhar o mundo, de perceber suas relações e sentir seus valores; eles sugeriam sutilmente quem eu era e onde eu estava. E com eles descobri e consolidei minha linguagem pessoal.
Mas, é claro, como a literatura é o território das diferenças, ela revela milhares de modos de ver -cada bom escritor tem sua marca inconfundível, apresenta um repertório novo de referências e nos propõe um ângulo do olhar.
No caso da literatura brasileira, com um detalhe fundamental: usando substancialmente as palavras, entonações, sentidos e frases que deram forma à nossa cabeça, desde a aquisição da linguagem (considerando, também, a passagem nem sempre tranqüila ao mundo da escrita).
Exótico, épico e sensual
Para escolher, graduar e até mesmo negar, é preciso conhecer. A literatura brasileira nos dá muitas chaves para pensar nosso espaço e nossa vida. Com autores como Jorge Amado e Erico Verissimo, grandes narradores do Brasil do século 20, entramos em contato com concepções de mundo, de linguagem e de país cuja influência continua ressoando no nosso imaginário. O Brasil exótico e sensual e o Brasil épico se entrelaçam nesses autores e continuam a nos colocar questões importantes hoje, quando nosso perfil rural já não é o mesmo de 50 anos atrás.
E um autor como Guimarães Rosa acrescenta elementos mágicos e místicos, dando à sabedoria popular uma inesperada transcendência, pela força transfiguradora da linguagem. O apelo regional tem sido, aliás, fonte permanente de nossa narrativa -"Memorial de Maria Moura", de Rachel de Queiroz, que integra a coleção, é um belo exemplo. Em outra chave, o clássico "Macunaíma", de Mario de Andrade, o herói sem nenhum caráter, continua a nos desafiar com a sua proposta poética de uma identidade brasileira.
O charme do exotismo, um eterno canto de sereia, às vezes encontra seus inimigos ferozes pela voz da sátira. Autores tão díspares como Lima Barreto (e seu maravilhoso "Triste Fim de Policarpo Quaresma") e Oswald de Andrade (com o demolidor "O Rei da Vela") batem frontalmente na ilusão do nosso berço esplêndido. A voz da imagem do povo encontra ressonância no teatro de Ariano Suassuna ("Auto da Compadecida") e na poesia dramática de João Cabral de Melo Neto -em "Morte e Vida Severina", a dura lapidação formal do grande poeta encontra-se com o apelo popular.
Ainda no teatro, o clássico "Vestido de Noiva" inaugura outra desmontagem radical do homem brasileiro: mais que ninguém, Nelson Rodrigues entendeu que não somos santos. O lirismo, representado na coleção em versos e crônicas, estabelece um parentesco sutil que começa com o pernambucano Manuel Bandeira, passa pelo carioca Vinicius de Moraes e vai até o gaúcho Mario Quintana; o "Romanceiro da Inconfidência", de Cecília Meireles, recria com traços épicos emblemas da nossa história.
E o "Poema Sujo", de Ferreira Gullar, é uma síntese contemporânea de nossas múltiplas vertentes poéticas. Finalmente, dos prosadores urbanos mais recentes, dois momentos políticos fundamentais da nossa história estão representados na "Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros" -"Agosto", de Rubem Fonseca, tematizando o suicídio de Vargas, e "Reflexos do Baile", de Antonio Callado, retomando as complexas ramificações do golpe de 1964.
Publicado Folha de S. Paulo, Ilustrada, 17/fev/2008

Le fils du Printemps
– Je crois que c’est pour aujourd’hui, dit-elle. Mainte­nant, a-t-elle ajouté d’une voix plus forte, en lui touchant le bras, car c’est un homme distrait.
Oui, distrait, pourquoi pas ? Quelqu’un de provisoire, peut-être, qui, à vingt-huit ans, n’a toujours pas commencé à vivre. Dans le fond, hormis un éventail d’anxiétés heu­reuses, il n’a rien, il n’est encore rien. Et cette maigreur ambulante à la joie agressive, parfois insultante, s’est retrouvée devant sa femme enceinte comme s’il ne mesu­rait qu’à présent toute l’étendue du fait : un enfant. Un jour ou l’autre, il arrive, a-t-il éclaté de rire, expansif. On y va !
Sa femme qui, dans tous les sens du terme, le soutenait depuis déjà quatre ans, était maintenant soutenue par lui tandis qu’ils attendaient l’ascenseur, à minuit. Elle est pâle. Les contractions. La poche, a-t-elle dit – quelque chose comme ça. Il ne pensait à rien – au regard de la nouveauté, il serait le lendemain tout aussi nouveau que son fils. Il fallait plaisanter, en attendant. Avant de sortir, il se souvint d’une flasque de whisky, qu’il glissa dans sa deuxième poche ; dans la première, il avait déjà mis les cigarettes. Un dessin animé : le personnage fume cigarette sur ciga­rette dans la salle d’attente, jusqu’à ce que l’infirmière, le médecin, n’importe qui, lui montre un paquet et lui dise quelque chose de très drôle, et tout le monde rit. Oui, il y a quelque chose de drôle dans cette attente. C’est un rôle que nous jouons, le père angoissé, la mère heureuse, l’enfant en pleurs, le médecin souriant, la silhouette incon­nue qui surgit du néant et qui nous félicite, le vertige d’un temps qui, maintenant, s’accélère désespérément, tout tourne rapidement et irrémédiablement autour d’un bébé, pour ne s’arrêter que quelques années plus tard, parfois jamais. Il existe un décor entier monté pour le rôle, dans lequel on doit afficher son bonheur. Son orgueil, aussi.
Il s’attirera le respect. Il existe un dictionnaire entier de phrases appropriées pour la naissance. D’une certaine manière – maintenant, il démarrait sa Coccinelle jaune (ils ne disent rien, mais sentent quelque chose d’agréable dans l’air) et prenait garde à ne pas érafler le pare-chocs contre le pilier, comme c’était arrivé deux fois déjà – il était aussi en train de naître à cet instant, et cette image plus ou moins édifiante lui plaisait. Pourtant, il continuait de ne pas être
où il était – sensation permanente, celle-ci, raison pour laquelle il fumait tant, la machine insatiable exigeant du carburant. C’est un vaste champ d’idées : quand on s’y aventure, on n’y trouve rien, à part l’espoir d’un futur vague et indéfini. Mais moi non plus je n’ai encore rien, dirait-il, dans une sorte de métaphysique de compétition. Ni maison, ni emploi, ni paix. Bon, un enfant – et, tou­jours pour plaisanter, il se vit bedonnant, sévère, travaillant dans quelque chose d’enfin solide, avec une image publi­citaire de la famille congelée au mur. Non : il se situe dans une autre sphère de la vie. Il est prédestiné à la littérature – forcément supérieur, un être pour lequel les règles du jeu sont différentes. Rien d’ostentatoire : la vraie supériorité est discrète, tolérante et souriante. Il vit en marge, voilà tout. Ce n’est pas du ressentiment, parce qu’il n’est pas encore mûr pour le ressentiment, cette force qui, à tout moment, peut nous remettre agressivement à notre place. Il se peut que le début de cette résistance (mais il serait incapable de le savoir, si près de l’instant présent) soit dans le fait qu’il n’a jamais réussi à vivre de son travail. De son vrai travail. Une tension qui s’échappe presque tou­jours par le rire, la seule libération dont il dispose.
A l’accueil de la maternité, la fille, aimable, demande un chèque de garantie, et les choses vont trop vite, parce qu’on emmène sa femme au loin, oui, oui, la poche s’est rompue, entend-il, pendant qu’il remplit les papiers – et une fois
de plus, il ne sait pas comment remplir la case de la profession, tout juste s’il ne dit pas “c’est ma femme qui a une profession. Moi” –, et il trouve encore le temps de dire quelque chose, sa femme aussi, mais l’affection se transforme, sous des yeux étrangers, en solennité – quelque chose de plus grand, semble-t-il, est en train de se passer, une espèce de théâtre se dessine dans l’air, nous sommes trop délicats pour la naissance et il faut dissimuler tous les dangers de cette vie, comme si quelqu’un (l’image est absurde) emmenait sa femme vers la mort et qu’il n’y avait absolument rien d’anormal à cela. Il éprouve à nouveau l’horreur des hôpitaux, des bâtiments publics, des institu­tions solennelles, des colonnes, des halls, des guichets, des dômes, des files d’attente, de leur stupidité de granit – la grammaire de la bureaucratie se répète ici encore, dans cet espace petit et privé. Plus tard, il se retrouve dans une salle, devant sa femme étendue sur un brancard, qui, pâle, lui sourit, et ils se touchent la main, timidement, comme s’ils commettaient une transgression. Les draps sont bleus. Tout est aseptisé, il y a une absence brutale d’objets, les pas éveillent des échos comme dans une église, et de nouveau il éprouve l’angoisse de la fausseté, il y a une erreur première quelque part, et il ne parvient pas à la localiser, mais aussitôt après il n’y pense plus. Les secondes passent.
On dit des choses qu’il n’entend pas ; et dans l’attente, il perd la notion du temps – quelle heure est-il ? Tard dans la nuit. Maintenant, il est tout seul dans un cou­loir près d’une rampe vide et devant deux portes battantes, percées d’une fenêtre circulaire au milieu de chaque panneau par où, de temps à autre, il jette un coup d’œil mais ne voit rien. Il ne pense à rien, mais, s’il pensait, peut-être se dirait-il : je suis comme j’ai toujours été – seul. Il alluma une cigarette, heureux : et c’est très bien comme ça. Il but une gorgée du whisky qu’il tira de sa poche, se faisant son petit théâtre. Pour l’instant, tout va bien – il ne pen­sait pas à l’enfant, il pensait à lui-même, et cela compre­nait la totalité de sa vie, femme, enfant, littérature, avenir. Il sait qu’il n’a jamais rien écrit de réellement bon. Des piles de mauvais poèmes, depuis l’âge de treize ans jusqu’au mois dernier : Le Fils du printemps. La poésie l’entraîne sans pitié vers le kitsch, le tire par les cheveux, mais il faudrait dire quelque chose sur ce qui se passe, et il ne sait pas exac­tement ce qui se passe. Il a vaguement l’impression que les choses vont bien se passer, parce qu’elles sont le fruit du désir ; et quand on vit en marge, on prend des risques, sinon il serait prisonnier de la sous-vie du système, toute cette merde, il déclame presque, et il boit une autre gorgée de whisky et allume une autre cigarette. A vingt-huit ans, il n’a toujours pas terminé ses études de lettres, qu’il méprise, il boit beaucoup, rit d’une façon prolongée et inconve­nante, lit chaotiquement et écrit des textes qui encombrent son tiroir. Un crochet atavique le rattache encore à la nostalgie d’une compagnie de théâtre, qu’il fréquente une fois par an, dans une dépen­dance prolongée du gourou de l’enfance, une gymnastique interminable et insoluble pour ajuster l’horloge d’aujour­d’hui à la fantasmagorie d’une époque révolue. Rejeton attardé des années 70, imprégné de l’orgueil de la péri­phérie de la périphérie, il cherche intuitivement une issue. Il est difficile de renaître, dira-t-il, quelques années plus tard, la tête froide. En attendant,
il donne des cours privés de rédaction et révise attenti­vement des thèses et des mémoires de DEA portant sur n’importe quel sujet. La grammaire est une abstraction qui accepte tout. Il a renoncé à être horloger, ou c’est la profession qui a renoncé à lui, dinosaure médiéval. Si encore il avait la bosse du commerce, derrière un comptoir. Mais non : il a choisi de réparer des horloges, la fascination infantile pour les mécanismes et la délicatesse inutile du travail manuel.
Et cependant, il se sent optimiste, il sourit, en se voyant d’en haut, comme dans son dessin animé imaginaire devenu maintenant réalité. Seul dans le couloir, il boit une autre gorgée de whisky et se sent envahi par l’euphorie du père naissant. Les choses s’emboîtent. Un chromo publi­citaire, et il rit du paradoxe : comme si le simple fait d’avoir un fils impliquait une immolation définitive au système, mais cela n’est pas forcément mauvais, pourvu qu’on reste “entier”, qu’on soit “authentique”, “vrai” – il aimait encore ces mots ronflants pour son usage personnel, la mythologie des pouvoirs de la pureté naturelle contre les dragons de l’artifice. Il commence à se méfier de ces totalités rhéto­riques, mais il manque de courage pour rompre avec elles. De fait, il ne s’est jamais complètement délivré de cet imaginaire qui, au fond de son âme, impliquait de rester un pas en arrière, attentif, à chaque instant de la vie, pour ne pas se laisser dévorer par le terrible et inépuisable pouvoir du lieu commun et de l’impersonnel. Il fallait que la “vérité” sorte de la rhétorique et devienne une interro­gation permanente, une brève utopie, un éclat dans le regard.
Comme maintenant : et il but une autre gorgée d’alcool, presque euphorique. Il voulait créer la solennité de cet instant-là, une solennité pour son usage personnel, intime, intransmissible. Comme le metteur en scène d’une pièce de théâtre indiquant aux acteurs les éléments de la scène : sens-toi comme ceci ; avance jusque-là ; souris. Regarde comment tu prends la cigarette dans le paquet, assis tout seul sur ce banc bleu, pendant que tu attends l’arrivée de ton enfant. Croise les jambes. Pense : tu n’as pas voulu assister à l’accouchement. Maintenant, ça commence à devenir une mode, les pères assistent à la naissance des enfants, une participation quasi religieuse. Il semble que tout se transforme en religion. Mais tu n’as pas voulu, se surprend-il à dire. C’est que mon univers est mental, dirait-il peut-être, s’il était plus vieux. Un enfant, c’est l’idée d’un enfant ; une femme, l’idée d’une femme. Par­fois, les choses coïncident avec l’idée qu’on s’en fait ; parfois, non. En fait, presque jamais, mais alors le temps a déjà passé, et on s’intéresse à d’autres choses, qui relèvent d’une autre famille d’idées. Il n’a même pas voulu savoir si ce serait un garçon ou une fille : la tache épaisse de l’écho­graphie, ce fantôme primitif projeté sur un petit écran obscur, bougeant dans l’obscurité et la chaleur, ne s’est pas traduit en sexe, mais seulement en être. Nous préférons ne pas savoir, c’est ce qu’ils ont dit au médecin. Tout va bien, semble-t-il, c’est ce qui importe.

Cristovão TEZZA, Le Fils du printemps (Traduit par Sébastien Roy), Paris : Editions Métailié, 2009. Source : http://editions-metailie.com



quinta-feira, 2 de abril de 2015

Poesia brasileira contemporânea

O Feito, Trabalho”, por Fábio Lopes, João Nakacima, Thales Lira e Thiago Fernandes
Um breve olhar sobre a poesia brasileira contemporânea

Por Maria Esther Maciel

Abordar as múltiplas vozes que se entrecruzam na poesia brasileira contemporânea é lidar com um cenário por demais movediço e difícil de ser definido. Mesmo porque o próprio termo “contemporâneo” quase sempre dá margem a dúvidas e nebulosidades conceituais. O que seria exatamente o contemporâneo? Que extensão temporal teria essa designação? É possível definir o começo do que chamamos contemporaneidade? Ou seria melhor admitir que todo marco inicial revela-se um começo arbitrário para o que não pode ser mensurado temporalmente de forma satisfatória?

Há quem circunscreva a poesia brasileira contemporânea ao conjunto da produção existente a partir da segunda metade do século 20, após o ocaso dos movimentos e projetos coletivos que nortearam a poesia moderna e de vanguarda. Outros já tendem a adotar a década de 80 como o marco inicial preciso, enquanto cresce a propensão de muita gente a circunscrever o contemporâneo apenas ao século 21, ou melhor, às suas primeiras décadas. O que evidencia uma vocação cada vez mais ostensiva do termo a se adaptar ao agora imediato. E disso, decorre, inevitavelmente, a imprecisão que o contemporâneo instaura, ao manter uma singular relação com o próprio tempo, sem deixar de alojar também todos os tempos que se entrecruzam no presente.

Tal confluência de tempos num agora imediato não deixa de instaurar um problema não menos complexo do que o que envolve a palavra “contemporâneo”, que é o das gerações que se encontram e se justapõem num determinado momento. Como lidar com esse jogo geracional? Como situar vivos e mortos, não necessariamente divididos em velhos e jovens, nesse quadro? Seria o caso de privilegiar apenas os poetas vivos e em ação, independentemente de suas idades? Ou optar apenas pelos mais jovens ou por uma faixa etária aleatória? Enfim, de que autores realmente falar? Isso só reforça a dificuldade de circunscrição dessa abrangência do contemporâneo. Resta-nos, então, tratar dele segundo nossas convicções.

Para além desse problema de ordem etária e geracional, há também que se considerar outro dado, bastante óbvio: a constatação da heterogeneidade que define o conjunto dos poetas em atividade no Brasil. Uma heterogeneidade, aliás, que não se deixa classificar facilmente, visto que são muitas as linhas de força que atravessam a poesia brasileira atual. Os poetas, mais do que nunca, estão livres para o exercício de seu ofício, podendo retomar dicções do passado, inventar outras, seguir rastros deixados pelos grupos que os precederam, adequar-se às diretrizes impostas pelo mercado, buscar linguagens estranhas, experimentar recursos tecnológicos, combinar todas essas possibilidades ou negar todas elas e procurar outras formas de dicção. Todos têm, ainda, a liberdade de optar por diferentes suportes e formas de difusão. Não apenas os livros (impressos ou eletrônicos), blogs e sites de poesia têm tido uma presença incisiva nesse cenário, como também os saraus e happenings que vêm acontecendo em várias partes do país, impulsionados sobretudo por grupos que atuam em espaços periféricos dos centros urbanos. Ou seja, os poetas brasileiros – em sintonia com uma ordem (ou desordem) global – têm tido cada vez mais uma enorme liberdade de escolher suas próprias vias criativas e seus espaços de expressão.

Vale acrescentar que outro inegável desafio para quem tenta mapear esse intrincado cenário da poesia brasileira é saber lidar com a vastidão territorial e cultural do país, com suas múltiplas paisagens literárias e muitas zonas ainda não devidamente exploradas pela crítica e pelas instâncias legitimadoras.

Posto esse contexto, creio que, ao invés de assumir a impossível tarefa de apresentar satisfatoriamente a vasta produção poética brasileira contemporânea, o mais viável aqui é fazer um pequeno recorte, uma demarcação (certamente arbitrária e subjetiva) desse quadro.


Para tanto, começo por ressaltar um viés que tem tido uma presença muito incisiva na poesia hoje e que adota como paisagem privilegiada o “rés do chão”, a vida cotidiana. Sem necessariamente poder ser chamado de realista (no sentido estrito do termo), esse é um viés que registra – seja por flashes, seja por descrições, impressões ou sensações – a vida prosaica, a hora do mundo, a banalidade de todo dia. Ou seja, apresenta a realidade como matéria-prima, mas dela extrai o que se esconde sob a visibilidade das coisas imediatas. Em certa medida, aproxima-se da poesia do contingente exercitada por Carlos Drummond de Andrade ou por Manuel Bandeira, além de apresentar algumas incidências da poética do cotidiano que atravessou o cenário poético dos anos 80 do século 20, com autores como Paulo Leminski, Ana Cristina César, Armando Freitas Filho e Francisco Alvim, entre outros. Mas, sem com isso, perder suas peculiaridades e seu frescor.

Curioso como as mulheres têm se destacado como representantes poderosas dessa poética da vida prosaica. Basta mencionarmos nomes como Ana Martins Marques, Ana Elisa Ribeiro e Alice Sant’Anna, entre outras. O que não significa, é claro, um vínculo entre esse viés e as mulheres poetas, visto que toda compartimentação dessa natureza tende tanto a simplificações quanto a generalizações. Além disso, sabemos que esse não é um território propriamente demarcado em termos de gênero, uma vez que vários poetas – como Tarso de Melo, Fabrício Marques e Moacir Amâncio, só para mencionar três – também fazem uma poesia voltada para as coisas do mundo e as trivialidades da vida. Ao que se soma o dado de que grande parte da poesia que se faz hoje no Brasil não prescinde da matéria-prima da realidade. Afinal, o exercício poético sempre manteve uma relação ambígua com o que se chama de real. Por vezes, a realidade se configura para os poetas como “coisa delicada, de se pegar com as pontas dos dedos”, para usar aqui as palavras de Paulo Henriques Brito. Em outros casos, ela pode ser o que mais pesa no poema e quase o sufoca com seu peso, ou pode ainda se configurar apenas como um ponto de partida para outros voos. Ou seja, cada um constroi uma maneira singular de transformar a realidade em poesia.

No caso da poeta mineira Ana Martins Marques, pode-se dizer que ela alia simplicidade, apuro formal e inventividade para capturar aquilo que se esconde (e se revela) nas dobras do cotidiano mais banal. Para tanto, atém-se aos detalhes palpáveis e prosaicos da vida de todo dia, com ênfase nas coisas, nos objetos – seja um espelho, um capacho, uma cortina, uma colher ou uma fruteira – deles extraindo sensações e reflexões imprevistas. A seção “Interiores”, do livro A arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011), evidencia isso de forma exemplar. Composta de 17 poemas – uns bastante concisos, outros mais longos –, a série abarca objetos e espaços próprios de uma casa. Cada poema tem um título bem referencial, como “Açucareiro”, “Relógio”, “Cômoda”, “Canteiro”, “Talheres”. Os poemas, entretanto, se desviam da referencialidade direta, deflagrando paisagens interiores, imagens, memórias, indagações íntimas e pequenas epifanias.

Já a mineira Ana Elisa Ribeiro confere ao tom coloquial de sua poesia (ressalto aqui o livro Anzol de pescar infernos, Patuá, 2014) uma ironia fina, de forma a capturar (ou pescar) o que importa da vida no aqui-agora e o que resta do vivido na memória. São poetas que, sem abdicar de um trabalho consciente com a linguagem poética, mostram, como já disse Manuel Bandeira, que “a poesia está em tudo,/ tanto nos amores, como nos chinelos”.


2
Um outro viés que eu apontaria como relevante no cenário poético brasileiro dos últimos anos é o que explora as mestiçagens culturais por meio de uma linguagem também híbrida e uma escrita que desafia os limites dos gêneros literários.  Trata-se de uma poesia que resiste às classificações convencionais e tem sido praticada por autores que, de uma forma ou de outra, possuem um percurso poético mais experimental, voltado para a pesquisa e a um trabalho radical com as possibilidades inventivas da linguagem.

O repertório desse tipo de poesia no Brasil, hoje, é bastante variado. E uma de suas manifestações mais instigantes, sem dúvida, é a que incorpora elementos das culturas ameríndias e das fronteiras geográficas do país, deixando-se contaminar, também no plano da escrita, por mestiçagens linguísticas e culturais.  Dentre os poetas que se dedicam a esse exercício, Sérgio Medeiros (do Mato-Grosso) e Josely Vianna Batista (do Paraná) destacam-se como referências. Antes deles, um outro poeta já tinha  se dedicado, de forma efetiva, a esse viés: o também paranaense Wilson Bueno, morto precocemente em 2010, que deixou uma obra bastante singular nesse campo. Principalmente nos livros Manual de zoofilia (1991) e Jardim Zoológico (1999), ele compôs poemas em prosa sobre animais que, assim como os próprios textos, são híbridos e fronteiriços, com forte caráter transnacional. Trata-se de livros construídos a partir da mistura de elementos mitológicos, lendas indígenas, referências literárias e diferentes espaços linguísticos e geográficos, visto que o autor busca sua matéria prima nas fronteiras entre o Brasil e países da América Hispânica.

Quanto a Sérgio Medeiros, pode-se dizer que ele realiza um trabalho radical, no que tange à forma e à mistura de temas. Sua estranheza, inclusive, desafia quase sempre os nossos esforços de compreensão.

Um de seus livros exemplares nesse campo é Totens (Iluminuras, 2012), que apresenta uma configuração física indeterminada, por mesclar prosa e verso e se estruturar de forma fragmentada, à feição de uma partitura. Como o título sugere, a base dos textos é a imagem do totem, em que inexiste a separação entre o humano, o divino, o animal e o vegetal.

Quanto a Josely Baptista Vianna, autora de vários livros de poesia e tradutora experiente,  a heterogeneidade se dá numa linha afim, embora distinta, da poesia de Sérgio Medeiros. É o que evidencia a obra Roça barroca (Cosacnaify, 2011). Nela, a poeta reúne textos por ela traduzidos da língua guarani – são 3 cantos sagrados que narram poeticamente o mito da criação do mundo da traibo Mbyá-guarani – e poemas escritos por ela mesma, a partir de seu contato com a cultura ameríndia e das pesquisas realizadas no campo da etnografia.



Vale ressaltar que o Mbyá, dialeto do guarani que ela traduz, é composto da união de vocábulos, um  pouco na linha dos ideogramas orientais, mas intensamente vinculado ao universo linguístico indígena. Segundo a própria Josely,  essa composição do guarani  tem uma alta potencialidade poética, por incluir  palavras-montagem, ritmos icônicos, metáforas e onomatopéias. O uso dessa língua no livro, seja pela incorporação nos poemas ou pela tradução, possibilitou que à poeta inserir no português um pouco do que ela chamou de  “sussurro ancestral”da língua guarani.

Além desses autores, que cultivam um vivo interesse pelos mundos ameríndios, existem ainda os que também realizam uma poesia híbrida que se furta às amarras dos gêneros literários, como é o caso do paulista Nuno Ramos, que não apenas incorpora em seus escritos poéticos os registros narrativo e ensaístico, mas também os coloca em interface com as artes visuais contemporâneas, visto ser o poeta também um artista plástico, de amplo reconhecimento nacional e internacional.

Como se vê, não é tarefa fácil tratar da poesia brasileira contemporânea, mesmo pela via do recorte. Em cada conjunto de práticas afins, há uma miríade de nomes e poéticas particulares. Nesse mesmo campo dos diálogos com outras artes, por exemplo, outros poetas poderiam entrar no rol deste texto, como Eucanaã Ferraz, autor de uma obra primorosa que, entre outras potencialidades, dialoga com o cinema; André Vallias, com seu trabalho poético experimental que incorpora diversas linguagens e se vale, de forma original, das tecnologias digitais, e Rodrigo Garcia Lopes, que alia o legado das vanguardas à literatura “beat” e à cultura pop.

Variam, no cenário poético do presente, as concepções do que seja poesia. Coloquialismos, retomadas da tradição lírica, experimentalismos, experiências neobarrocas, diálogos multidisciplinares, intervenções performáticas e cibernéticas, mestiçagens de gêneros, línguas e culturas, tudo isso incide no horizonte poético da atualidade. Daí que à crítica empenhada em analisar a poesia contemporânea convenha, cada vez mais, o recorte, a demarcação de territórios.

O que se pode concluir disso, mesmo que de forma ainda precária, é que no Brasil, hoje, a poesia se afirma explicitamente como um universo vivo, em estado permanente de movimento.

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 Artigo escrito para edição especial da Revista Pessoa – Salão do Livro de Paris 2015. Para maiores informações sobre a edição especial ou sua aquisição contacte-nos pelo email do Blog : etudeslusophonespairs4@gmail.com

Texto publicado inicialmente na Revista Pessoa :





Maria Esther Maciel nasceu em Patos de Minas (MG) e vive em Belo Horizonte. É professora de literatura da Universidade Federal de Minas Gerais. Publicou, entre, outros, os livros: Triz (poesia, 1999); A memória das coisas (ensaios, 2004, finalista do Prêmio Jabuti); O livro de Zenóbia (romance, 2004); O livro dos nomes (2008, romance, finalista de vários prêmios literários, como Jabuti, Portugal Telecom e São Paulo), e As ironias da ordem (ensaios, 2010). É também colunista semanal do caderno de cultura do jornal Estado de Minas.