segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Eu, cowboy


Eu, cowboy

Eu, cowboy de Caco Ishak é um não-livro onde personagens parecem sumir e reaparecer a contragosto do autor. Através da não-história de Carlo Kaddish, um fracassado em plena crise existencial dos trinta, o romance surge aos olhos do leitor como um universo movediço ancorado no deserto líquido da contemporaneidade De seu promontório fraturado, o protagonista observa o microcosmo de Belém e regurgita personagens, situações e espaços cujo esgarçamento territorial e identitário desafia à própria feitura romanesca. Vômito literário e conceitual Eu cowboy, vem, segundo as palavras do crítico Ronaldo Cagiano, descascar o verniz da etiqueta de um mundo fetichizado pelo deus mercado e marcado por um politicamente correto contrário ao fazer artístico.

Capítulo XVIII
As luzes continuavam piscando. Abre e fecha os olhos. Abre e fecha. Abre e fecha. Abre. And now I see the long, the short, the middle and what's in between. Cagalhão de merda... e dá-lhe cusparada na cara. Fecha. I could spit on a stranger. “O que te deu na cabeça, bicho?! Tu cuspiu no cara!” Dá um tempo, Hermano. Abre. You ́re a bitter stranger. Desci pro porão. Cusparadas seguidas em quem subia pela escadinha estreita de madeira, quase um boliche. Pull me out. Uma multidão atrás de mim. “Carlo, volta aqui!” Fecha. Whatever you feel. “Calma, amigo, ele tá muito bêbado, eu vou dar um jeito nisso”. Abre. Whatever it takes. Do porão pro cemitério. Subi numa mureta e da mureta pra laje. “Carlo, desce daí! Tu vai te matar!” Fecha. Whenever it ́s real. Balde d ́água na cabeça de quem estivesse embaixo. Abre. Whatever awaits me. “Puta que pariu...” Fecha. “Se tu não descer agora, eu juro que subo aí e te mato de porrada, eu mesma!” Abre. I ́ll be the one that leaves you high. Era alto. Uma queda dali y adiós. Desci ao tempo em que o segurança chegava. “Porra, cowboy, tu é só mancada. O cara aqui disse que tu cuspiu na cara dele. Bora lá pra fora conversar, bora”. Eu? Cem por cento zonzo. “Não, meu amigo, relaxa. Pode deixar que ele tá comigo. Eu tava lá na hora, vi tudo. Não foi cuspe, ele só espirrou. Foi sem querer mesmo, de verdade”. Mentira tua. “Cala a boca, Carlo, vem pra cá”, Manoela me puxou prum canto. Por quê? Fecha. “Tu tava ficando com ela no carro, seu filho da puta?” Dente do Demônio rindo à toa. Abre. Hermano de volta à roda. “Tudo resolvido. Agora, vê se para, pelo amor de Deus”. Fecha. Eu deitado na terra, Rudie Ruth dando com a sandália na minha cara. Pé dentro. Dente do Demônio, tudo muito engraçado, dando uma força amiga. Abre. Eu, agarrando a perna de Rudie Ruth. Fecha. Sangue na boca. Sangue do dedão do pé de Rudie Ruth na boca. Gritos. Abre. Hermano apartando a briga. Fecha. Eu, tomando o rumo da roça com a macaca nos ombros. Abre. Eu na frente de um espelho. Fecha. “Arromba essa porra!” Abre. Espelho, vaso sanitário e pia aos pedaços. Todos os seguranças do Café Farofa invadindo o banheiro. Fecha. Pancada na clavícula. Abre. Eu, nadando de costas por cima da multidão. Mas não fui eu, porra! “Cala a boca, cowboy! Dessa vez é pra valer! Aqui, tu não pisa mais não! Tá banido!” Cês não tão entendendo! NÃO. FUI. EU. Eu, Carlo. Tu, escada. A gente já se conhece, lembra? Tudo bem contigo?


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Capítulo XXI
Passando da hora disso tudo terminar. Escuta. Pega pra direita. Segue reto. Continua, vai. Começando a não fazer sentido. Presta atenção no que eu estou dizendo.
Não abre os olhos. Não abre. Escuta.
Só porque não estão entendendo não quer dizer que não esteja fazendo sentido. Continua. Anda, vai. Cuidado pra não tropeçar. Não tropeça. Nem olha pra trás. Não para. Desvia do buraco.
Não abre.
Só desvia. Não olha pra trás. Pega pra direita de novo. Passando da hora de colocar a cabeça no lugar. As peças estão espalhadas pelo tabuleiro. As respostas estão todas lá. Sempre estiveram todas lá. A questão sempre foi achar a pergunta certa. Ninguém sabe. Cachorro de rua nenhum sabe da tua desgraça. Uiva à vontade. Tua desgraça não cabe na rua. Não olha pra trás. Ninguém está te vendo. Segue em frente, vai. As respostas sempre estiveram todas lá. Não tem como fugir. Foco e risco.
Eu disse pra não abrir. Agora, vai ter de recomeçar tudo do zero.
Tua desgraça é de apartamento. Tua desgraça é de colo de vó. Tua desgraça é do tamanho de um mundo compactado na colher de sopa que tua vó te dava na boquinha. Direita outra vez.
Melhor fechar logo, sem embromação, vai.
Antes, tudo parecia tão mais simples. Tão mais fácil de ser visualizado. Éramos os cinco, os seis, somente nós, os três, os dois que sobraram pra contar a história. Não me culpa agora se tuas costas doem. Se teus cabelos caem. Se tuas dívidas te afogam. Se teus amigos te abandonam. Se tua mulher te abandonou. Se tua filha já não sabe mais que tem um pai. Não me culpa pelo fracasso que é tua vida.
Quanto mais demorar pra fechar, pior. O que é difícil de imaginar, viu, tendo chegado aonde chegamos.
E, agora, no meio desse enxame de gente morta zumbindo na minha cabeça, agora, despencando em queda-livre com um enxame de gente morta zumbindo nas nossas cabeças, agora, despencando em queda-livre, agora, só agora, foi que me ocorreu uma dúvida.
Isso. Fecha. Só não abre mais.
Não tem do que ter medo. Bicho-papão só existe até os sete anos de idade. Depois, tudo é real.
Onde exatamente essa história teve um fim? Um começo vem pra todos. Um começo sempre vem pra todos. Nascemos com as mesmas chances. Ganha o jogo quem descobrir primeiro quando começou a perder.
Tudo pisca. Tudo se move. Tudo é comida.
Late à vontade. Assim, uiva. A matilha já te reconhece pelo cheiro. Bom trabalho. Tua desgraça já é da rua, já é do povo. Uiva. Se te jogarem pedras, uiva. Se te jogarem água pelando das casas, uiva mais alto. Se te cortarem a garganta, uiva mesmo com o sangue jorrando e borbulhando teu uivo. Mas não te esquece nunca da tua natureza. Um gato se faz cão entre os cães pra sobreviver tão somente. Leva tua vida como um gato. Te esgueira como um gato. Uiva pra sobreviver. Não ladra, não pensa: uiva. Cá está teu manto. Para.
No fundo do mar ou em terra-firme, tudo é comida.
Essa é a pergunta certa. Quando foi que eu comecei a perder? Não tem como fugir. Só não ganha o jogo quem não quiser.
No nada em que se transformaram nossas vidas, tudo é comida.
O manto que protegerá a única vida que te sobra. Da caixa de papelão que te aprisionava entre ser ou não ser, um manto que protegerá tua liberdade tecnicolor. Envolve teu corpo e segue. Vai bater nas portas das casas. Vai pedir a benção dos pais sem medo de descabaçar suas filhas. O manto te protegerá.
Não adianta abrir os olhos. Fecha os olhos de uma vez. Não tem interruptor à vista. Somos todos comida. É tudo real.
Foco e risco. Termina logo com isso. Não tem escapatória.
O manto te protegerá. Só mais alguns passos. Toca a campainha. Uiva. Luzes. Estão chegando. Faróis acesos. Estão chegando. Corre. Vai embora. Não tem saída. Pula na frente do carro. O manto te protegerá.
Fecha os olhos e dorme. Amanhã talvez seja um novo dia. Nunca se sabe. E, se não sabemos, melhor dormir.
Morre tentando ou tenta viver de uma vez.


Caco Ishak nasceu em 1981, na cidade de Goiânia, embora tenha sido criado em Belém. Escritor, jornalista e tradutor literário, teve textos publicados na exposição “Blooks: Letras na Rede”, com curadoria de Heloísa Buarque de Hollanda, Bruna Beber e Omar Salomão; em projetos literários organizados pelo escritor gaúcho Paulo Scott (Ruído e Literatura, Na Tábua, e Orquestra Literária); em sites e revistas literárias como Modo de Usar & Co., Poesia Sempre, Paralelos, Cronópios, Musa Rara, Bala, Cortiça, Ornitorrinco, Machado, Nerval, Rosa; entre outros. Foi idealizador e curador da primeira galeria virtual brasileira, “baixo.calão” (2007-2010 avec Cardoso), voltada à arte urbana e ao lowbrow. Acabou virando Mestre em Epistemologia da Comunicação pela USP.

Pela editora carioca 7Letras, lançou Dos versos fandangos ou a má reputação de um estulto em polvorosa (2006) e Não precisa dizer eu também” (2013), este sendo traduzido para o inglês (parcialmente), o alemão (na íntegra, por Marcia Huber e Burkhard Sieber) e o espanhol (por Catalina Arroyave).

Em 2014, participou das antologias de contos “Tudo o que não foi”, organizada por Deborah Kietzmann Goldemberg (Carlini & Caniato), e “Vou te contar”, em homenagem aos vinte anos do falecimento do maestro Tom Jobim, organizada por Celina Portocarrero (Rocco).

Em 2016: “An Anthology of Contemporary Brazilian Poetry”, organizada por Ana Guadalupe e Jeremy Spencer (Scrambler).

Seu primeiro romance, “Eu, Cowboy”, foi publicado em 2015, pela Oito e Meio.

Informação do site do autor : http://ciaocretini.org/

Confira a resenha de Ronaldo Gagiano sobre o romance Eu, cowboy no site da São Paulo Review : http://saopauloreview.com.br/geografia-do-caos-numa-prosa-dilacerante/



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