sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Lúcia Bettencourt e Arthur Rimbaud

Printemps Littéraire Brésilien - 2016
Entrevista com a Lúcia Bettencourt
por Joyce Pereira e Thaisnara Matos(*)

1. Como foi a experiência de sair do conto e partir para a escrita mais longa do romance?
Escrever um romance é uma experiência completamente diferente de escrever contos. Há que ter mais paciência, pois o romance exige mais tempo em cada história, além de devotamento e entrega. No conto, minha ansiedade em vê-lo terminado explica-se pelo desejo de ver o “mundo ordenado”. Começo as histórias sem saber onde elas vão dar. No romance, já prevemos um final (que pode se modificar, durante o processo criativo), mas não escrevemos no escuro. Os dois processos de escrita me agradam, no entanto, e espero continuar escrevendo os dois gêneros.

2. Como você explica a importância do referencial intertextual em seus contos e no seu romance?  Pensamos, entre outras, no conto ‘Insônia’ que nos remete a uma releitura de ‘Missa do Galo’ de Machado de Assis, ou nos mitos  de ‘Herodíades’, ‘Lazaro’ e  Medéia no romance O amor acontece.
Sou uma pessoa totalmente apaixonada por leitura, e creio que isso me leva a esses diálogos com obras e mitos muito amados. Em alguns casos, respondo a situações que percebo no texto fundador. No caso de Insônia, por exemplo, fui tentada a imaginar aquela mulher solitária, sofrendo com o desamor de seu marido, e descrita por Machado com ambiguidade e uma certa pontinha de malícia. Procuro ver a história que se esconde “do outro lado do espelho”, ou vê-la “pelo avesso”. Todos contam o grande milagre de Cristo, trazer alguém de volta à vida. Mas o que isso significa para o ressuscitado? Como voltar a viver, ser um indivíduo, depois que já nos integramos de volta à energia primordial? Mas também tenho outros questionamentos, pessoais, e tento responder a essas questões com minhas histórias. Muitas vezes tento ordenar o mundo, encontrar um sentido para injustiças, nem que seja um sentido perverso. No meu novo romance, O regresso, por exemplo, tentei “reparar” uma injustiça com Rimbaud: a agonia de sua morte e um enterro ao qual só compareceram sua mãe e sua irmã. Ao ler sua biografia e suas cartas senti que precisava encenar esse funeral e acompanhá-lo, e a única maneira em que podia fazer isso era escrevendo sobre ele.

3. A sexualidade e  atravessa boa parte do seu universo literário.  Ela surge como indagação do desejo feminino  no conto ‘Segredos da carne’, onde uma adolescente aprende a conhecer a sua sexualidade a partir do crescimento de seu corpo, ou na ‘A predadora’ em vemos uma mulher madura, segura de si, que sabe como e onde seduzir um homem.  Em ‘ O divórcio’ encontramos uma mulher de 50 anos que após o divórcio crê que não terá mais ninguém em sua vida, pois ‘velha’, com 3 filhos e com um corpo marcado pelos anos e pela gravidez não se sente mais atraente e nem poderosa. Como abordar a sexualidade, e nomeadamente da sexualidade feminina sem cair no vulgar ou no estereótipo? E no que tange à masculinidade?
O desejo feminino está realmente muito presente em minha escrita. Descobri que as mulheres têm direito a exercê-lo, apesar de ter sido criada sob uma sociedade repressora, que ensinava o sexo como pecado. Acho que, por ter sofrido, ter me sentido má e suja em minha adolescência, e ter me esforçado para ultrapassar essas questões, me sinto na obrigação de mostrar o quanto ainda pode ser difícil, para as mulheres, aceitarem seu direito à própria sexualidade. Hoje vejo isso presente sobretudo na dificuldade que as pessoas têm em aceitar a existência de desejo sexual em mulheres de mais de 50 anos. Ou as mulheres se congelam numa aparência que procura apagar os sinais de sua idade, ou elas se encolhem, tímidas, ou, ainda, assumem posições combativas e até agressivas. E, como não escrevo para excitar o desejo, mas para examiná-lo, creio que é essa a razão de não ter um texto vulgar nem estereotipado. No que tange a masculinidade, acho que observo os homens com quem convivo, e procuro revelar como aquele machismo meio canalha, que não se furtava a se aproveitar de jovens inexperientes, agora está dando lugar a um “macho mais saciado”, que não precisa mais ser canalha e pode ser amigo e companheiro. Preciso ressaltar que as relações amorosas entre pessoas, de qualquer sexo ou idade, são um assunto fascinante e que rendem sempre boas histórias.

4. Notamos em alguns contos abordagens de  temáticas bastante contundentes.   No conto ‘A carta’, você evoca a trejetória de um homossexual que aguarda uma carta com uma “resposta derradeira”. Nesse conto não sabemos o conteúdo da mesma, mas imaginamos seu resultado. Em ‘Segredos da carne’, você descreve brilhantemente não apenas o nascimento da sexualidade, mais também  o abuso sexual dentro do ambiente familiar. Finalemente  em ‘Ceia de natal’ presenciamos a desigualdade social e a necessidade de um pouco mais de humanidade para que possamos conviver melhor com o próximo. Há temáticas tabus na literatura? Como aborda-las?  O que a levou a trabalhar tais questões?
Meu desejo de ordenar a vida, de examinar e explicar fatos que são contundentes, tanto humana como socialmente. Gosto muito desses meus personagens “bizarros”, como o velhinho de Perfeição, que, às portas da morte, ainda se rende à sedução da vida e do prazer estético que o piercing da jovem lhe proporciona. Outro personagem estranho é aquele de Caindo em tentação, que tem problemas sexuais, nunca transou, e finalmente se realiza ao, com uma faca, penetrar outro corpo. Não acho que exista tabus para a escrita. Mas acho que não devemos escrever sem procurar a verdade que existe naquela questão. Somos como Édipo, a vida está sempre nos confrontando com perguntas cuja resposta é sempre a mesma: o homem (no sentido de ser humano). Mas o que é ser homem ou mulher? O que nos confere humanidade? Como construímo-nos do jeito que somos? Num outro conto, O carona, examino nossa impotência contra as questões de violência: mesmo incomodados pelo assunto e dispostos a fazer “algo”, a vida (metaforizada no trânsito) vai-nos empurrando e levando para longe . Sofro com meus personagens, quero salvá-los, mas me sinto impotente. Então jogo a isca para os leitores: ajudem, por favor!

5. Você poderia nos contar um pouco mais sobre seu novo romance O regresso de Rimbaud
O titulo já conta uma boa parte: O regresso, a última viagem de Rimbaud. Como falei acima, a leitura da biografia e das cartas de Rimbaud me provocou um intenso desejo de acompanhar o funeral de um dos maiores gênios literários do mundo. As circunstâncias de sua morte, também, me deixaram penalizada. Foi uma vida inteira de frustrações e fracassos, como se o fato de ser genial tivesse encarniçado os outros e todos os deuses contra ele. Comecei a compará-lo com Odisseu, o herói perseguido, e achei que ele, nestes tempos de “felicidade obrigatória”, em que todos temos que aparecer “bem na foto” para postar no Instagram, no Facebook ou no que quer que seja a tecnologia da moda, podia nos ensinar uma lição essencial: é preciso ter o direito de falhar, é bom lembrar que as melhores narrativas são as do aprendizado, das frustrações e das perdas. E que tudo isso é preciso para que haja uma vitória, um crescimento.


AGONIA[1]
Quantas vezes morri? Pois é um erro pensar que só se morre uma vez.  A morte é recorrente, a cada dia um pedaço de nós se apaga, mas, a impressão que temos é que, enquanto morremos, os seres odiosos que nos rodeiam se perpetuam, imortais. Toda uma corja de hipócritas, de enfatuados, de nulidades, assumem posições de destaque; estatuescamente se imobilizam nos nichos e impedem que os ares da modernidade arejem as mentes e os corações.  Todos se acorrentam em suas posições. Um é mestre, outro é bibliotecário, uma é mãe, outra é  vendedora, um é dono, outro é policial e todos eles exercem poderes incompreensíveis, pois se chocam com a humanidade e com os ideais. Liberdade, igualdade e fraternidade. Mentiras! Enganos! Na verdade só o que se conhece na prática são os pequenos poderes que esses seres acorrentados usam como uma consolação pela sua própria falta de liberdade.
Pensei que os escritores, que os poetas, fossem seres acima dessas mesquinharias. Na minha ilusão, julguei que o talento que encharcava cada célula do meu corpo ainda franzino, seria reconhecido por aqueles a quem acreditei serem irmãos. Julguei que os proscritos seriam perdoados através de seus versos. E que eu seria amado e respeitado porque, dentro de mim, um deus havia feito sua morada. Eu me sentia um vate. Aquele que pode prever o futuro, um sacerdote da Verdade e da Liberdade. A morte deste ser que um dia fui me fez passar pela pior das minhas agonias. Entre uivos de dor e de desespero fui capaz de descrevê-la, com uma lucidez que até a mim mesmo me assombrou. E renasci.
É intrigante pensar que, enquanto morria, eu podia escrever. Escrevia porque o ser que eu havia sido ainda respirava e sentia. Nos seus delírios de moribundo julgava que as palavras ainda significavam coisas mais preciosas do que a posição social, o trabalho, a posse e o poder. As palavras eram nosso alento divino, nosso único liame com Deus, mas não com esse deus de catecismo, irado e rabugento como um nobre ameaçado. Não o “senhor” que nos quer prostrados e cordatos como ovelhas. Mas o Deus que nos colocou acima do natural e nos permitiu reconhecer o sublime. O Deus poeta e criador, talentoso e perdulário, que esbanjou belezas e perfeições em feras e até em flocos de neve, esquecendo-se de aperfeiçoar nossas sensibilidades. Olhando para nuvens e céus mutantes, admirava-me  de um espírito capaz de fazer tanta beleza para que um capricho de vento, um apagar de luzes viessem desmanchar. E depois entendi que era assim mesmo que devia ser a Arte. Livre. Arte é “liberdade livre”. Generosa, para todos e para ninguém. Pois a beleza dos céus e das nuvens existe mesmo que não haja ninguém para apreciá-la. E daqui a pouco essa beleza terá se transformado e desaparecido para sempre, sem deixar traços. Sobretudo sem deixar traços. Uma vaga lembrança nos olhos que um dia a contemplaram. E, quando esses olhos se fecharem, nem mesmo isso. Mas a obra é grandiosa. E não precisa de críticos, de amigos, de protetores, de editores e de seguidores. Ela existe livre de tudo, acima de tudo, apesar de tudo.
Nos meus primeiros anos a arte me sustentou. A beleza me alimentou. A imaginação me embalou. A poesia me fortaleceu. Eu morria de fome e de frio, e continuava insistindo, acreditando. Aqueles que deveriam me reconhecer como poeta, me ignoraram. E seguiram cultuando seus versinhos medíocres, estampados em revistinhas autocongratulatórias. Sentindo-se superiores a mim quando, em verdade me digo, eles foram piores que as hienas que um dia vim a conhecer. Estas prestavam um serviço, se atirando às carcaças malcheirosas, e evitando que as doenças e os ratos invadissem o lugar. Eu precisei viver sob o domínio dos ratos. Mas me rebelei. Lutei. E sucumbi, sem glória, sem compreensão. Um vencido, moribundo enlouquecido de dor e mesmo de medo. Batendo nas paredes com os punhos fechados, com a testa onde o conhecimento da morte torturava minhas certezas. Mas, na dor, meus gritos foram de beleza, e permanecem.


O romance O regresso, os últimos dias de Rimbaud de Lúcia Bettencourt será lançado dia 20, a partir das 19h, na Livraria Argumento ( Rio de Janeiro) Divulguem e compareçam!



Lúcia Bettencourt nasceu no Rio de Janeiro (RJ). É autora dos livros de contos A secretária de Borges e Linha de Sombra (prêmios SESC, Josué Guimarães e Osman Lins), do romance O amor acontece (Record, 2006, 2008, 2010), dos infantis: O sapo e a sopa, A cobra e a corda  Botas e bolas e A oca e a toca (Escrita Fina) e do ensaio O Banquete: uma degustação de textos e imagens (Vermelho Marinho, 2012, Prêmio da Academia Brasileira de Letras). Seu próximo livro, O regresso, os últimos dias de Rimbaud sairá pela editora Rocco no dia  20 de outubro de 2015.

Joyce Pereira participou do Programa de Licenciatura Internacional e é diplomada em Letras Português/Francês pela Université Paris-Sorbonne. Atualmente termina sua gradução na USP.

Thaisnara Matos participou do Programa de Licenciatura Internacional e é diplomada em Letras Português/Francês pela Université Paris-Sorbonne. Atualmente termina sua gradução na Universidade Federal do Ceará

Mais informações no site da editora Rocco : http://www.rocco.com.br

Lucia Bettencourt, Thaisnara Matos e Joyce Pereira
Printemps Littéraire Brésilien - 2016

Lucia Bettencourt e Leonardo Tonus
Printemps Littéraire Brésililen - 2016






[1] Trecho do romance O regresso, os últimos dias de Rimbaud de Lúcia Bettencourt ( Rocco, 2015)

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