terça-feira, 13 de outubro de 2015

Jogo de pernas


Portinari, Futebol, 1935
Jogo de pernas

                             Maria José Silveira
                                              
         Na tarde quente, os meninos se juntam com a bola no gramado da casa. Todo dia é assim. Agora, então, que arranjaram um técnico, estão crentes de que formam um time de verdade. A grama seca amarelada grudou no chão como se quisesse voltar para o fundo da terra, agora que está morta. Nos dois cantos do gol, já não há grama alguma no centro; a terra dura retomou seu lugar, formando um afundamento feio como careca de velho, fiapos aloirados achatados dos lados.
O técnico é a novidade.
Ela sabe quem ele é, um rapaz que mora na viela vizinha. Mais velho. Nem bonito nem feio, mas outra coisa. Uma outra coisa que, essa, ela não sabe o que é, mas a faz ficar meio fixada, olhando o jeito dele, diferente dos meninos da turma do irmão, um jeito que talvez mais tarde ela aprenda a reconhecer como másculo, mas naquele momento ainda não. Aos onze anos, não se sabe dessas coisas. O que sabe é que essa tarde, sem se dar conta do que aquilo significa, ela se viu interessada no futebol dos irmãos e seus colegas da escola.
Senta-se na beira da calçada da garagem, chupando uma laranja suculenta e madura. Passa a língua pela tampa, primeiro. Mordisca. E antes de passar para a laranja propriamente dita, vai puxando com os dentes os gomos finos da tampa, um a um.
O tal do técnico está com um apito que acabou de tirar do bolso da camisa branca. Apita com força, junta os meninos e diz coisas que ela não escuta. Nunca viu nada mais chato do que um jogo de futebol, mas fica olhando. O rapaz que se faz de técnico usa calça comprida marrom e a camisa não enfiada pra dentro, o que lhe dá um ar de alguma coisa que ela tampouco sabe o que é. Não é como os meninos que usam calça comprida só pra acontecimentos importantes; ele usa calça comprida todo dia, e isso faz uma diferença enorme. Deve estar morrendo de calor. A voz dele também é diferente. Grossa, mandona. Técnico é como um professor que manda. Ela nunca teve professor, só professora. Deve ser legal ter professor.
Os meninos recomeçam e o técnico corre junto com eles. Dá vários gritos, apita, depois parece que se cansa um pouco, também com aquele calorão. Olha pro canto onde ela está sentada, chega perto e senta-se a seu lado.
Nunca conversaram antes, mas ele agora lhe dá um sorriso torto.
Apreciando o jogo?, pergunta.
Isso num é jogo, ela responde sem tirar os olhos dos meninos, acanhada demais pra olhar direto pra ele.
Ah, você entende de futebol?
Não. Mas sei que eles não sabem jogar.
A laranja que estava meio esquecida na mão volta até sua boca de lábios cheios e meio arroxeados. Ela dá uma chupada e estica as pernas magrelas que saem do shortinho amarelo escuro. Espicha um pouco os dedos dos pés descalços. O cheiro sumarento se espalha.
Então, o grito, “Vai nela, Marcos”. O técnico se levanta, dá uma corridinha, fica lá seguindo de um lado a outro. Depois volta.
Seu irmão joga bem, diz.
Joga nada, ela responde, sem tirar os olhos do campo. Percebe que ele está olhando pra ela, o sorriso torto outra vez; é como se ela tivesse um olho do lado esquerdo da cabeça que dá pra onde ele está.
E lá vai ele de novo falar com o menino enjoado do gol, que deve ter sido mandado pra lá justamente porque é muito enjoado. Como se o gol fosse um castigo. O nome dele é Deco, mais baixo do que os outros, cabelo castanho, todo sardento. Mora também na viela, mas esse ela conhece, é amigo dos irmãos, todo dia aparece. Mora numa casa pequena, onde ela nunca entrou. Aliás, ela nunca entrou em nenhuma daquelas casas, a não ser na casa da Dona Indira, que essa não conta porque é melhor que as outras casas da viela, e Dona Indira é amiga de sua mãe. Adélia, que é a filha, é sua única amiga da vizinhança, e também não se dá com as meninas da viela. Meninas, não, menina; é uma só. Uma menina que não chega perto dela nem da Adélia, e mora na casa cheia de irmãos, um dos quais é o técnico. Pensando bem, é a primeira vez que ela vê alguém da viela, fora o Deco, entrar em sua casa, se bem que ali no gramado nem se pode dizer que é entrar. E lá vem ele outra vez, enfiando o apito no bolso, e se sentando.

Natacha Mantovani, On Body

Como é mesmo seu nome?
Lili, ela responde sem olhar.
Você gosta de futebol?, ele pergunta, arrancando um pedacinho de grama que coloca na boca. A ponta verde continua aparecendo enquanto ele mastiga como se a grama fosse chiclete, e dessa vez estende as pernas.
Eu não, ela dá de ombros, ainda sem virar a cabeça, parecendo quase hipnotizada pelo irmão e Darinho que trançam os pés correndo atrás da bola que escapole pra baixo das moitas de maria-sem-vergonha. O apito do técnico a seu lado faz com que ela ponha as mãos nos ouvidos e grite, “Aiii!”, enquanto ele sai correndo outra vez.
Seu irmão tem jogo de pernas, sabe como é?, ele diz ao voltar e se sentar outra vez, agora estirando o corpo pra trás, e se apoiando nos braços.
Não.
Há uma leve pausa desta vez, como se ele olhasse para os lados, antes de se virar meio de lado pra ela, levantar a mão direita e dizer, Assim, ó!
E põe a ponta do indicador e do dedo do meio no alto da sua coxa esquerda magricela. A mão dele é grande, os dedos de unhas curtas sujos de graxa pressionam sua pele com um toque leve e quente, em um movimento rapidinho como se fossem os dedos duas pernas, provocando uma quentura estranha, e eriçando os pelinhos de sua coxa quando se aproximam mais do gol, ali bem no centro de suas traves, no meio de sua pepita.
Os meninos gritam se engalfinhando no gramado, e ele recolhe a mão, rindo pra ela que faz como se não tivesse sido nada. Não foi nada mesmo. Foi só a demonstração de um jogo de pernas.
Ele se levanta sem pressa e vai pro meio do gramado, apitando.
Ela continua ali, a laranja murcha em sua mão, os olhos fixos em frente.
Já não tem vontade de virar do avesso a laranja para tirar com os dentes a polpa dos gomos, como faz sempre. Parece que cresceu.

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Maria José Silveira é escritora, tradutora, editora e antropóloga. Autora de seis romances: A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas (Prêmio Revelação APCA -2002), Eleanor Marx, filha de Karl, O Fantasma de Luís Buñuel, Guerra no Coração do Cerrado, Com esse ódio e esse amor, e Pauliceia de mil dentes.  Escreve também para jovens e crianças, tem duas peças de teatro já encenadas, e mantém uma coluna de crônicas para o Jornal O Popular. Seu livro mais recente, De onde vêm as histórias, é uma coletânea de reflexões e pequenos ensaios. Maria José é goiana e mora em São Paulo há vários anos.

Consultem a entrevista da escritora para o Blog etudes Lusophones no link :       Um dedo de prosa com Maria José Silveira           

Photos de Natacha Mantovani


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