sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Amora


Amora

Quando a vida se distancia da acomodação e se aproxima do deslumbramento e da descoberta, um novo cenário de experiências e reflexões se faz presente. Mais do que abordar relações homossexuais, os contos de Amora retratam ritos de passagem, embates com a estranheza, caminhos de aceitação, além das possibilidades, dos dramas e das mudanças na realidade de personagens mulheres de diferentes idades.

Natalia Borges Polesso, que recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura em 2013 (na categoria Contos com o livro Recortes para álbum de fotografia sem gente), traz em Amora o tema do encontro de si mesmo. Mas de um modo desafiador: quando ele ocorre fora dos padrões e encaminha para uma transformação inevitável.

Natalia traz narrativas curtas que desafiam os conservadores, abordando a questão da orientação sexual e trazendo-a para a realidade cotidiana. Ao longo do livro, as personagens se descobrem e tentam se aceitar, lidam com as expectativas ou rejeições familiares, entram em conflitos nas relações sociais e no ambiente de trabalho, ou levantam a cabeça e quebram muitos paradigmas, como a própria definição de família tradicional. Tudo permeado por um constante sentimento de estranheza e extraordinariedade.

Minha prima está na cidade

Natalia Borges Polesso(*)

“Minha família adora a Bruna, eles só acham engraçado ela morar comigo, já que é uma mulher feita que tem uma carreira relativamente estável, sabe?”
Abri a porta do apartamento, vi a luz do banheiro acesa e comecei a discernir um barulho de chuveiro: entrei em pânico. Minhas colegas de trabalho me olharam, eu olhei de volta para elas, congelada. Lembrando agora é engraçado, mas na hora foi terrível. Eu só queria fazer uma janta lá em casa. Apartamento novo, trabalho novo, essas coisas que a gente faz para se entrosar. Aproveitei que a Bruna estava viajando e decidi convidar o pessoal da firma. É que eu nunca tinha falado da Bruna para nenhuma das minhas colegas. Eu trabalho num lugar que não me permite fazer isso. Sei lá, a Bruna é designer, acho que, no meio em que ela circula, é mais fácil aceitar. Eu vou jantar com os amigos da Bruna, amigos do trabalho. Eles sabem que a gente é um casal, porque a Bruna não tem problemas com isso. Eu tenho. Quer dizer, já tive mais, mas agora consigo lidar até bem com essa questão de sexualidade, claro, dentro da minha cabeça. Não conto para muitas pessoas, tem gente que não precisa saber, não faz diferença. Por exemplo, as minhas colegas de trabalho não precisam saber, nem a minha família. Minha família adora a Bruna, eles só acham engraçado ela morar comigo, já que é uma mulher feita que tem uma carreira relativamente estável, sabe? Acham que ela poderia já estar casada, morando com um marido bacana. Aí, eles mesmos se desdizem, ah mas hoje em dia tá assim, pode casar tarde mesmo, primeiro tem que estudar, fazer um pé de meia pra depois pensar em ter uma família, acho que ela tá certa. Acontece que eu e a Bruna somos uma família, mas eu demorei para entender que éramos. Foi um dia em que eu fiquei bem doente e cogitei a possibilidade de passar a noite na casa dos meus pais, e a Bruna ficou puta comigo, com razão. Aquela era a nossa casa e eu podia me sentir bem e protegida ali, foi assim que eu comecei a entender. Comecei a entender com cheiros de sopa e pão, banhos quentes e carinhos e escolhas bobas como a cor dos móveis ou a necessidade de uma cortina, assim comecei a entender o que era uma família, com louças acumuladas e montes de cabelos que se perdiam pelo chão, cabelos pretos e compridos, porque eu e a Bruna temos cabelos pretos e compridos. Minha família estava ali, com louça, gripes, montes de cabelos, cheiros de comida caseira, café na cama e banhos quentes, com brigas e pedidos de desculpas, carinhos, amores, cuidados, e era mesmo uma família, até quando ficávamos vendo televisão no domingo de tarde ou quando levávamos nosso cachorro imaginário para passear no parque. Não é que não gostamos de bichos, só não queremos ter nenhum no momento, nem eu nem ela temos tempo ou disposição para um bichinho agora, então temos essa piada de casal lésbico cool que tem cachorro e leva para passear no parque no domingo de tarde. Levamos a Frida, nossa cachorra de gênio mexicano para passear no parque e rimos quando jogamos uma bola imaginária para ela e rimos mais quando damos um biscoito imaginário e quando deixamos de recolher a merda imaginária que ela faz no canteiro da casa em frente ao nosso prédio. Mas é tudo muito discreto e essas são as piadas que nós temos e que não podemos contar para outras pessoas, porque é mais estranho do que engraçado, mas é também pelas estranhezas que as pessoas se unem. Eu amo a Bruna e nunca quis magoá-la e nunca vou querer. Temos essa combinação de evitar dizer coisas das quais possivelmente nos arrependeremos mais tarde e nunca, nunca ameaçamos uma a outra com um término de relação a menos que isso seja mesmo uma possibilidade, aliás, mais do que isso, que seja uma vontade legítima para além daquele momento. Desde que estabelecemos esses acordos, nossa vida anda tão melhor, temos essa espécie de cumplicidade que nos protege de contar nossas piadas ruins para as outras pessoas, que nos protege de assumir para os outros que, apesar de lermos e irmos a exposições, porque isso é meio compulsório no mundo lésbico artsy pseudocult, pseudointelectual em que vivemos, ainda assistimos programas de televisão como Faustão, Big Brother, novelas e Honey Boo Boo, dublado, diga-se de passagem, e que finalmente nos protege da falta de amor do mundo, porque nós duas nos cobrimos, nos acobertamos e nos namoramos desse jeito simples. E só eu sei como a Bruna pode ser chata quando fica doente e como fica ansiosa quando tem que entregar algum projeto, só eu sei que a ansiedade dela faz seu rosto se encher de espinhas e seu coração disparar durante a noite e nos tira o sono, porque eu também me preocupo e mesmo que eu diga cem vezes que ela vai conseguir fazer, só eu sei que ela não vai acreditar, só eu sei. E só ela sabe como eu sou chata com coisas absolutamente irrelevantes como não sujar o pano de secar a louça, não sentar nas almofadas do sofá, só ela sabe como eu sou chata com o modo de dobrar as roupas e com a disposição dos livros nas prateleiras e no banheiro, só ela sabe, mesmo que isso seja normal entre todos os casais do mundo; de nós duas, só nós sabemos. 


E o que importa é mesmo pensar que somos únicas. Mas a vida não é tão fácil nem tão boa que tudo possa ser perfeito sempre; às vezes, a gente não se entende e, às vezes, ela diz coisas que eu acho que me ofendem e mesmo que ela diga que não foi por querer ou que não foi aquilo que ela quis dizer, eu continuo ofendida e magoada e ela sabe que eu preciso de silêncio nesses momentos e eu sei que ela precisa falar e a gente fica tentando achar uma medida para nossa vida funcionar. Eu mordo meus lábios e tento dormir e vejo que ela fica aflita porque não queria ter me magoado, então ela vem me abraçar, tentar falar comigo, mas eu não consigo, e ela sabe que eu não consigo e é aí que a gente se entende porque a gente sabe uma da outra. Quando sou eu que faço ou geralmente deixo de fazer algo, e ela se magoa, é igualmente difícil, pelo mesmo motivo: ela quer falar e eu não consigo, mas a gente tenta conforme a urgência e a mágoa de cada uma. Até agora tudo tem estado bem, mesmo depois que eu abri aquela porta com três colegas de trabalho que não tinham a menor ideia de quem era a Bruna e, assim que ela saiu do banho, de toalha enrolada e disse oi para todas nós, mesmo depois de tê-la apresentado daquele jeito, as coisas ainda estão dando certo. Eu só queria fazer uma janta aqui em casa, falei para a Bruna na hora, e ela me olhou cabreira, mas já sabendo do que se tratava, então ela me disse que tinha chegado antes da viagem porque a feira de produtos estava chata e ela tinha resolvido voltar. Nesse tempo, minhas colegas estavam paradas ali, meio sem saber o que estava acontecendo, a Bruna ficou esperando que eu dissesse algo, explicasse quem eram aquelas pessoas na nossa casa, e eu disse:
Bruna, essas são minhas colegas de trabalho.
Gurias, essa é a Bruna. Minha prima. Ela veio fazer uma prova. Veio fazer o Enem.
A Bruna olhou para minhas colegas e as cumprimentou como se aquilo de prima e Enem fosse a mais ordinária verdade e pediu licença para ir estudar. Eu fiquei na cozinha com as gurias, mas a comida desceu arranhando a noite toda. Depois que elas foram embora, eu fui falar com a Bruna e ela só me disse que em algum momento aquilo teria que mudar, riu do absurdo e disse também que a verdade teria sido indolor, talvez, mas não tinha certeza, talvez estivesse errada. O fato é que continuamos tentando.


XXXXXX
Natalia Borges Polesso é escritora e doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS. Autora de Recortes para álbum de fotografia sem gente (Modelo de Nuvem / 2013), obra vencedora do Prêmio Açorianos de Literatura 2013 na categoria Contos, do livro de poemas Coração à corda (Patuá / 2015), e também da tirinha tosca A escritora incompreendida, publicada apenas na internet.
Minha prima está na cidade” integra o livro Amora, de Natalia Borges Polesso, publicado pela Não Editora em outubro de 2015. 


Paloma Vidal escreve, na orelha, sobre Amora. “‘No entanto, era um descolamento, a sensação de não pertencer a lugar nenhum’ – esta sensação – desdobrada em cenas de personagens ora mais desgarradas, ora mais amparadas, idosas, jovens, crianças, adolescentes, ou quase adolescentes, num delicado momento de passagem, que lhes permite dizer que ‘o tempo era bonito nas quintas-feiras’ – percorre os contos de Natalia Borges Polesso, deixando-nos um sentimento de comunidade inevitável, mesmo que tantas vezes inconfessável. Esse não-lugar, um descolamento, uma estranheza, se define no próprio livro recorrendo ao que já sabemos, porque basta abrir o dicionário: o estranho é o esquisito, e também o extraordinário; é o que está de fora, que foge ao convívio, e também o misterioso, o enigmático, o novo – dupla face de toda estranheza, que nos abraça em cada ato, em cada palavra, em cada imagem.”

Mais informações no site da editora Não-editora

Leiam o conto "Tia Marga" de Natalia Borges Polesso no link : Tia Marga

Natalia Borges Polesso e Marilia Garcia no Printemps Littéraire Brésilien



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