quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A cabeça do santo

A Cabeça do Santo

Primeira Parte[1]

Traigo los ojos com que ella miró estas cosas, porque me dio sus ojos para ver.
Juan Rulfo

Caminho


Ele não tinha mais sapatos e seus pés, àquela altura, já eram outra coisa: um par de bichos disformes. Dois animais dentados e imundos.  Duas bestas, presas aos tornozelos, incansáveis, avante, um depois do outro, avante, conduzindo Samuel por dezesseis longos e dolorosos dias sob o sol.

Nos primeiros dias o sangue e a água que minavam das bolhas arrebentadas nos seus pés chiavam em contato com o asfalto em brasa, inclemente. De tão secos, fizeram silêncio.  Surgiu uma pele nova, quase um couro de cobrasturricado, admirável engenho da natureza para os que não podem contar com qualquer lapso de piedade do inimigo.  As pernas, gêmeos paradoxos: quanto mais magras, mais fortes. Os músculos cresceram, até nas canelas sujas que sustentavam as coxas de pouca carne. Ele, sujo como um desenterrado, andando sempre em linha reta.

Dezesseis dias. Por vezes olhava para baixo e temia que o ventre colasse de vez nas costelas, como na história do homem caído que a mãe Mariinha contava.  Dizia que foi em um dia de muito calor, pior que o sopro quente de sempre, quando ela ouviu alguém bater palmas diante de sua porta. Foi abrir, levando a alegria discreta que sempre doava aos vizinhos ou aos compradores de chapéu. O sorriso acabou-se no espanto, porque ali estava um homem esticado no chão, tão faminto que a pele da barriga colara nas costelas. O desmaiado era bonito e foi isso que o salvou. As mulheres da vizinhança não demoraram a ferver um mingau de milho, cozinhar uma galinha gorda, um quilo de arroz refogado com alho e sal, uma panela grande de farofa com carne seca e coentro, nove copos de leite com canela e oito ovos cozidos. Não faltaram voluntárias para trazer os pratos, dar comida na boca, fazer a barba, limpar o rosto com pano perfumado de colônia barata. Foram dois dias de comilança para que a barriga do desinfeliz descolasse das costelas, fazendo um estalido seco e alto que se ouviu por todo o horto. Voltou dos mortos tão cheio de desejo que não demorou para que pedisse a mão de umas das moças em casamento. Era Estelita, a que lhe trouxe mingau de milho.

Samuel também tinha o ventre quase colado nas costas e oxalá ainda fosse possível desgrudar quando chegasse a hora. Alguém ajudaria? Alguém daria comida a um desenterrado? Pensava na galinha cozida, nas bananas, nas mãos da mãe enchendo o seu prato de louça branco leitoso, com as bordas quebradas e a pinturinha de flores descascadas. Das mãos da mãe ele tentava não lembrar. Era uma dor sem nome.

Sapatos, as pernas da calça, mangas da camisa, o parco dinheiro: tudo ficou pelo caminho. (Existe quem compre mangas de camisa, isso é espantoso.) Seu torso mal protegido tinha duas cores. Os braços queimados de sol não serviam para nada além de sustentar as mãos. Das coisas que um corpo exige, ele não tinha quase nenhuma, o corpo pede e pune, na mesma medida. A mala que levava quando deixou a casa ficou pelo caminho logo no quinto dia. Ou isso, ou a fome. Trocou por um prato de carne cozida e baião de dois. A dona de uma pensão aceitou, de má vontade, só porque precisava de uma mala para guardar as toalhas das mesas.

Restava apenas o endereço de poucas palavras no bolso esquerdo. Às vezes o pequeno pedaço de papel pegava fogo e torrava a única pista do seu destino. Samuel enfiava a mão no bolso com desespero: era o pior do elenco de pesadelos daquela jornada.  Ele queria chegar lá, no lugar indicado por oito palavras e um número. Chegar lá era a única coisa que tinha na vida. 

Os cabelos escuros e lisos cresciam rápido e já escorriam de forma irritante sobre a testa, atrapalhando a vista. Tinha olhos pequenos, sobrancelhas fartas e juntas acima do nariz, boca carnuda e traços de índio, herdados da mãe Mariinha.

Samuel era um corpo magro e faminto, quase uma sombra, que não parava de andar. Quase dez horas de caminhada por dia. Pouca água, comida rara, sono em cotas breves. Tudo ficou pelo caminho: juventude, alegria, pedaços de pele, mililitros de suor, quilos do corpo e os parcos e velhos fios de esperança de que houvesse alguma coisa invisível que ajudasse aos homens sobre a Terra. As esperanças nunca foram suas, eram de Mariinha, ele as usava por empréstimo em casos raros. Naquele momento Samuel não tinha fé nenhuma nas coisas do espírito. Do outro lado da estrada, em direção contrária, caminhavam exemplares do seu extremo oposto.



[1] Trecho do romance A cabeça do santo (Companhia das Letras, 2014)


Socorro Acioli nasceu em Fortaleza em 1975. É jornalista com Mestrado em Literatura Brasileira e Doutorado em Estudos de Literatura na Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Sua tese foi uma experiência de escrita a partir do livro A preparação do Romance, de Roland Barthes. O romance resultado da tese, A cabeça do santo, foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras, na Inglaterra pela Hot Key Books. Em 2016 será lançado nos EUA pela Dellacorte Press e na França pela Editions Belleville. Começou a carreira em 2001 e desde então publicou livros de diversos gêneros, como as biografias Frei Tito (2001) e Rachel de Queiroz (2003), contos infantis e romances juvenis. Em 2006 foi selecionada para a oficina 'Como contar um conto', ministrada pelo Prêmio Nobel Gabriel García Márquez na Escola de Cinema de San Antonio de Los Baños, Cuba. A autora foi escolhida pelo próprio García Márquez a partir da sinopse do romance A cabeça do santo, ainda inédito. Em 2007 foi pesquisadora visitante na Biblioteca Internacional de Juventude de Munique, Alemanha e já proferiu palestras em países como Portugal, Índia, Africa do Sul, Líbano, Ilhas Maurício, Bolívia e Cabo Verde. Em 2014 foi uma das artistas convidadas para o projeto Art for Saving a Life da Bill and Melinda Gates Foundation. Seu romance é finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Oceanos.  

Abençoada cozinha
Por Rogério Pereira (*)

Socorro Acioli acaba de estrear na literatura adulta com A cabeça do santo, escrita a partir de uma oficina literária com Gabriel García Márquez. É apenas uma nova fase em uma trajetória literária de mais de dez anos, iniciada na literatura infantojuvenil. Ganhadora do prêmio Jabuti 2013 com Ela tem olhos de céu, Socorro é otimista em relação ao momento literário brasileiro, sempre mantendo um olhar crítico, principalmente em relação à produção voltada a crianças e jovens. Nesta entrevista concedida por email, a autora cearense fala de sua breve convivência com García Márquez, das dificuldades em ser escritor no Brasil, do mercado editorial, da formação de leitores e de sua paixão pela gastronomia.

Após 10 anos de uma bem-sucedida carreira como autora de livros infantojuvenis, vocês estreia na literatura adulta com A cabeça do santo. Quais as inquietações que a levaram a escrever um romance voltado ao público adulto?
Esse assunto rende uma resposta cheia de desdobramentos, já que a definição de idade do público leitor é algo muito complexo. O que me fez decidir a linguagem e a identidade desse livro foi o próprio tema. Fui arrebatada pela imagem de uma cabeça oca, gigantesca e inacabada de Santo Antônio que vi em uma matéria de jornal. O texto falava dos problemas causados pela cabeça no meio da rua e um deles era o fato de ter servido de morada para um homem qualquer. Imediatamente, percebi que tinha um tema e um personagem muito fortes para construir um romance a partir dali. Ao desenvolver a narrativa, decidi que esse homem teria o poder de ouvir as orações das mulheres pedindo por casamento e que armaria uma confusão com as informações que tinha em mãos. Pensei em adultério, crimes, segredos, amores proibidos e nada disso caberia em uma narrativa infantil ou juvenil, a princípio. Eu poderia, sim, ter dobrado a esquina e feito do meu protagonista, Samuel, apenas um rapazinho brincalhão, mas essa não era a história que eu queria contar. Por outro lado, fico me perguntando se, mesmo com crime, crueldades, adultério e amores proibidos, esse livro não poderia ser lido por um jovem. Penso que pode, sim. Tanto que a editora inglesa Hot Key Books está lançando o mesmo livro, o mesmo enredo, no seu selo para o público juvenil. A cabeça do santo, portanto, estaria na categoria que o mercado internacional chama de crossover — um texto que pode agradar a adolescentes e adultos. É o que tenho visto com o retorno dos leitores que me escrevem nas redes sociais, todos os dias.

No momento da construção da narrativa, há diferenças entre escrever para criança, jovem ou adulto — leitores, supostamente, diferentes?
Para mim todos exigem muito trabalho, muito mesmo. Não escrevo facilmente, inspirada pela Musa. Eu sofro um bocado. E não acho que texto infantil é fácil e adulto, difícil. Não chamo livro infantil de livrinho. O que muda é o universo ficcional de cada um. Alguns temas importantes para adultos não fazem parte do espectro de interesse de uma criança. A linguagem também exige uma atenção, tanto em coisas mais visíveis, como vocabulário, quando na composição de metáforas e pontes de narrativa que talvez um leitor mais jovem não consiga captar. Infelizmente, tenho visto critérios absurdos nesse julgamento da qualidade no livro infantil. Já vi professoras dizendo que um bom livro para crianças não pode falar de morte, não pode ter palavras de quatro silabas ou que sejam muito distantes do vocabulário natural da criança. Dizem, ainda, que o bom livro infantil é o que ensina alguma coisa — a tal alcunha de paradidático. Costumo fazer palestras para professores e tento conversar sobre a diferença entre livro para criança e literatura infantil. O livro pra criança é aquele que as bienais vendem aos quilos por cinco reais, que ensinam as cores e os tipos de formas de amarrar sapatos. A literatura infantil é arte, é feita por um autor sensível a determinado tema, ciente da escolha do seu universo de palavras. Ela pode e deve falar de morte, dor, tristeza, alegria porque tudo isso faz parte da condição humana. Enfim, as diferenças caminham mais no terreno da escolha dos temas. Ao menos para mim, escrever exige muito trabalho, não interessa o destinatário do texto.

Quais desafios você se impõe ao iniciar o projeto de um novo livro?
É muito bom começar um projeto novo, cheia de esperanças. Na verdade, é talvez o segundo melhor momento — o primeiro é receber o livro pronto. Quando decido por um novo tema, a primeira providência é comprar um caderno, onde anoto tudo o que interessa para a construção do texto. São muitos desafios. Para mim, ao menos, um dos maiores é não repetir o que já fiz antes. Não repetir temas e estruturas. É difícil, é arriscado. O mais certo — pensando no mercado — é repetir o que já funcionou bem, mas não é o que eu quero para a minha carreira. Já escrevi ensaios biográficos, livro infantil em prosa, em verso, livro juvenil, ensaio acadêmico, romance. Não sou excelente em todos os gêneros, mas adoro experimentar e aprender. Outro desafio é o tempo. Sou muito lenta, levo anos em um projeto e o prazo apertado costuma me atrapalhar muito. Tento organizar o tempo de escrita a fim de cumprir os cronogramas, mas nem sempre consigo. Mais uma questão é a linguagem. Gosto de dar um espaço entre um texto e outro para ler mais e aprender com o bordado dos grandes autores que tenho conhecido. Já entendi que meu forte como autora não tem nada a ver com reinvenção de linguagem, ao menos por enquanto. Busco o texto mais simples enquanto dou sangue no enredo mais surpreendente possível. Aliás, surpreender o leitor é um desafio gigantesco.

Qual a importância do convívio com Gabriel García Márquez, em 2006, na oficina Como contar um conto, em Cuba, para a escritura de A cabeça do santo?
Foi um convívio muito rápido, apenas cinco dias de aula, mas a importância foi decisiva. O livro só nasceu por causa desse contato com ele. Procurei um tema para mandar e concorrer a uma vaga na fabulosa oficina Como contar um conto e foi assim que encontrei e decidi investir na cabeça do santo. Ter o aval do García Márquez e ouvir dele que eu tinha um material maravilhoso em mãos foi o que me deu coragem para não desistir. Em termos práticos, ele sugeriu coisas importantes. Por exemplo: eu estava na dúvida se o personagem Samuel deveria ouvir só as orações das mulheres ou também os pensamentos do santo. García Márquez disse que eu deveria optar pelas rezas, já que conhecer segredos de amor das mulheres de uma cidade é uma forma de poder. Outra coisa que ele repetiu várias vezes pra turma toda e que me serviu muito foi a frase: “Conte sua história como se contasse a da Chapeuzinho Vermelho”. Ou seja: o seu mundo ficcional tem que ser claro e só quando conseguimos definir tudo em um parágrafo é que temos o domínio da história. Quando estive com García Márquez, eu só tinha o começo da ideia do livro. À época, queria fazer um roteiro de cinema e insisti nessa linguagem por quatro anos. Em 2010, por um conselho do diretor Lula Buarque de Hollanda, desisti de escrever um roteiro e comecei a trabalhar no livro, de verdade. Há influência do García Márquez no texto, mas vejo uma filiação muito mais forte com Jorge Amado e Ariano Suassuna, por exemplo. Escrevemos a partir do nosso repertório de leituras e experiência de vida. Não posso negar que o Realismo Mágico me marcou, mas não é isso que estou tentando fazer agora.

O que mais a marcou na convivência com García Márquez?
A generosidade e a coragem. Acho incrível que um Prêmio Nobel de prestígio internacional, lido, admirado e querido no mundo inteiro, disponha-se a passar uma semana sentado a serviço de autores iniciantes. No primeiro dia de aula ele anunciou que “estava ali para ouvir”. Isso é raro. Durante a fala de todos os alunos, ele estava de fato concentrado, empenhado em entender. Tratava de cada personagem até esgotar as possibilidades. Sugeria, cortava, pensava com força no que poderia melhorar. Por cinco dias, ele nos deu o melhor que poderia nos dar: seu talento e experiência. A outra coisa que me marcou foi a coragem dele, que me contagiou. García Márquez precisou de muita força para enfrentar um sem número de obstáculos na vida, inclusive a opção de ser escritor.

A cabeça do santo tem uma linguagem aparentemente muito simples — uma das qualidades da narrativa. Como se deu a construção da voz narrativa para esta história com traços de realismo fantástico?
O objetivo era essa mesmo: o mais simples que eu pudesse fazer. Eu queria um narrador onisciente e sensível, que soubesse muito, mas soubesse dosar as informações. Meu foco, na Cabeça do santo, foi dar conta de amarrar essa narrativa cheia de subenredos. Há um eixo principal (Samuel indo a Candeia procurar o pai e a avó) e vários outros eixos que caminham à margem (o passado da sua mãe, Mariinha, o passado da cidade, a história de Fernando, de Rosário, etc.). Eu precisava de um texto claro e limpo para desenvolver essas tramas todas. De outra forma, eu não teria conseguido. Por enquanto, pretendo seguir escrevendo assim, um texto simples a serviço de enredos complexos.

Ao ganhar o prêmio Jabuti, no ano passado, você afirmou que “o prêmio chega na hora mais certa possível”, mas que seguirá “na vida caseira, lendo muito, pensando muito, demorando pra escrever, publicando com cautela”. Como é a sua rotina de criação e contra quais equívocos um escritor deve lutar?
No momento, tomei a decisão de só trabalhar em um projeto de cada vez. Como eu disse antes, sou muito lenta, detesto as primeiras versões de tudo que escrevo e preciso de tempo para maturar enredo e texto. A rotina de cada texto começa com a escolha do tema, depois o desenvolvimento da narrativa — traçado em um caderno — e sempre, sempre, sempre começo tudo de uma pesquisa. Isso vem da minha formação como jornalista. Quase tudo que escrevi veio de um fato real, mas o que produzo são reportagens inventadas. Só depois da pesquisa eu consigo traçar o eixo principal da história, o que vai acontecer com os protagonistas do começo ao fim. Sem isso, nem sento para começar. Preciso saber como vai terminar — mesmo que depois eu mude de ideia. Costumo planejar os capítulos, usando um método de fichas que aprendi na minha formação para escrever roteiros de cinema. Tenho uma ficha para cada capítulo e nele eu determino o lugar dos fatos. Isso é ótimo, porque se eu resolver contar algo só mais à frente, basta mudar de lugar. Eu ia começar A cabeça do santo contando o passado de Candeia, porque a estátua não foi concluída. Mas depois vi que eu deveria começar com Samuel, manter a pergunta no leitor e explicar depois. Foi só mover a ficha de lugar. Depois de organizar a estrutura, vem a hora de escrever uma primeira versão do texto e assim prosseguir. Mais à frente chegam os leitores que me ajudam muito — minha agente, Lúcia Riff, os editores, preparadores de texto. Sou grata por esse momento, é o fim da solidão e o começo do trabalho em equipe para fazer o livro existir. Mas isso tudo é só um lado da minha vida profissional. Tenho ainda a carreira de professora em construção. Acabei meu Doutorado e estou ministrando cursos livres de Construção de Narrativa. Além, é claro, das rotinas de dona de casa, de cuidar da família, da vida toda ao redor.



Você já afirmou que ser escritor no Brasil é muito difícil. Quais as principais dificuldades que um autor enfrenta num país como o Brasil?
Instabilidade financeira e desrespeito diante da profissão. É raro que um escritor consiga viver de direitos autorais no Brasil. O que tem ajudado muito é o número de eventos literários no país inteiro, que pagam cachês e ajudam na receita mensal dos autores. O problema é que viver viajando para dar palestras destrói essa rotina de método e silêncio que todo escritor precisa ter para trabalhar nos livros. Muitos autores encaram o dilema cruel de ter um emprego para escrever sem preocupações ou viver só de escrever, mas sofrer a cada final de mês. A falta de respeito e desconhecimento diante da profissão também é terrível. A pergunta “você trabalha ou só escreve?” é o mínimo que se escuta. Eu coleciono frases de uma grosseria absurda, especialmente como autora de livros infantis. Já me convidaram para eventos onde esperavam que eu cantasse e dançasse, coisa que não faço. Sou escritora. O que sei fazer diante de um grupo de crianças é conversar sobre meu processo criativo, contar coisas engraçadas ou surpreendentes, ler o texto, responder perguntas. Confundem literatura infantil com animação de palco, às vezes. Para ser honesta, acho que com dez anos de estrada eu já consigo tirar de letra. Tenho respostas ótimas para perguntas desrespeitosas sobre a profissão.

Já pensou em desistir de escrever?
Não. Já desisti de projetos, isso sim. Mas não paro de escrever. Posso demorar, posso conduzir minha energia para a carreira de professora como prioridade por um tempo, mas parar de escrever, nunca.

Ao ler em média de seis a doze livros por mês, você, obviamente, é uma leitora muito acima da média. O que você busca na leitura de ficção?
Nem sempre consigo esse máximo de doze livros, mas leio muito e sempre. O que me ajuda bastante é o advento fantástico do ebook. Tenho um Kobo alimentado por uma biblioteca incrível e aproveito cada minuto livre que tenho. Tenho metas de leitura, anoto tudo que leio, faço estatísticas, é um negócio divertido e meio nerd. Mas isso não faz de mim uma erudita, porque leio muita, muita bobagem. Antes de dormir, geralmente, opto por livros que contem uma boa história e não tenho o menor problema em escolher algo mais leve e nem de perder tempo com best-seller. Muitas vezes eu sigo as indicações das minhas leitoras adolescentes e compro os sucessos do momento — a maioria dos textos me irrita, mas eu leio. Ao mesmo tempo, andei numa fase obsessiva por autores africanos — Mia Couto, Agualusa, Luandino Vieira, Pepetela, Ondjaki, Armenio Vieira. Tive uma paixonite pelo Ian McEwan, pelo Murakami. Ano passado fui à Argentina pela primeira vez e me preparei lendo Borges. A paixão do momento é o Valter Hugo Mãe. O que eu busco na ficção depende do momento. Escolher um livro é fazer um pacto com ele, olhando nos olhos da capa. Para alguns eu digo: “ok, eu quero rir um pouco com você e esquecer da vida, por favor”. Diante de outros eu reverencio o autor e digo: “Nada menos que arrebatamento, é o que espero”.

Da sua experiência com jovens leitores, é possível buscar explicações para as dificuldades em formar mais leitores no Brasil? Quais seriam as principais barreiras?
É um quadro complexo. O que cerca um leitor em potencial? Família e escola. Sem incentivo desses dois pilares da sua formação, fica difícil tornar-se leitor. Existem iniciativas fantásticas no Brasil. Aplaudo de pé o programa Agentes de Leitura, criado pelo educador Fabiano dos Santos, que leva livros de casa em casa. Também sou entusiasta da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, que mantém diversas ações impressionantes envolvendo autores, ilustradores, editores, família e professores. Se eu tiver de arriscar um caminho, creio que a saída para o problema é o investimento na formação do professor leitor. Eu já dei uma palestra para um público de professores às 20h e perguntei quantos ali tinham dado mais de dois turnos de aula. A maioria levantou o braço. Perguntei quem trabalhava aos sábados e todos levantaram o braço. Quando esse professor vai ler? E sem ter, ele próprio, uma vida de leitor, como vai transmitir esse gosto para os alunos? Por outro lado, vemos um aumento imenso no mercado de literatura infantil e juvenil no Brasil. Eventos de editoras voltados para o público jovem lotam as livrarias do Brasil, assim como as tardes de autógrafos de autoras como Thalita Rebouças, Paula Pimenta, Bruna Vieira. Estamos falando de números e nesse sentido, o momento é de otimismo.

De que maneira você auxilia sua filha a se formar uma boa leitora?
Tenho algumas regras com ela. A primeira é nunca negar livros que ela queira comprar. Nunca. A segunda é não censurar as leituras. Ela escolhe o que quiser ler, mesmo que eu ache uma bobagem, eu compro. Comigo não tem essa de mandar que compre com mesada, eu invisto mesmo. E digo sempre às mães que façam a mesma coisa. Cada leitor tem seu caminho. Ela viaja comigo para eventos literários desde pequena, acompanha minhas palestras e me vê sempre lendo e falando de livros. Agora me pediu um Kobo e eu comprei. Acabou de ler a trilogia Jogos vorazes e começou
O cão dos Baskervilles — está adorando. Sim, ela é uma leitora. Acho que tomei boas decisões nesse processo.

O que seria um bom leitor? É possível defini-lo?
Talvez seja o que lê com prazer, porque gosta, porque não sabe viver sem livros. Um por mês, que seja. Talvez seja o leitor que pensa sobre o que leu, que sabe compreender os livros dentro dos seus contextos, que entende o lugar de cada autor no seu tempo e sua posição e contrastes diante dos demais. Talvez seja o que surta nas livrarias, compra mais do que consegue ler, ama os autores loucamente. Existem inúmeros tipos de bons leitores, não existe um gabarito.

Nos últimos anos, o Brasil vem tentando implantar políticas públicas para o livro e leitura. Como você avalia estas iniciativas, muitas vezes voltadas apenas para a compra de livros?
A compra de livros para bibliotecas escolares no Brasil é impressionante. Mas sem formação de mediadores para conquistar o público leitor é uma equação difícil de fechar. Uma boa biblioteca ao alcance da criança é importante, mas o adulto que indica o livro, conta o comecinho da história, percebe o gosto de cada um e lê junto, isso sim, faz a diferença no começo de vida do leitor. Em geral, vejo que estamos avançando, mas ainda insisto na necessidade de investir nos professores.


Como foi a sua formação como leitora?
Não venho de uma família de leitores. Fui criada por uma avó sertaneja que só teve dois livros na vida: a Bíblia e O brasileiro perplexo, da Rachel de Queiroz, onde ela guardava dinheiro. Um dia aconteceu um assalto na nossa casa e todo a grana da família foi salva pela ignorância do ladrão, que não teve interesse em roubar um livro. Comecei minha vida de leitora com Monteiro Lobato, naquelas coleções vendidas de porta em porta. Já é quase clichê dizer isso, mas ele encantou minha infância. Tanto que, anos depois, ele foi tema da minha dissertação de mestrado (Aula de leitura com Monteiro Lobato, publicada pela Editora Biruta). Depois passei a pegar livros emprestados da biblioteca de uma amiga mais velha e li muitos autores brasileiros. Meu primeiro amor literário foi com A metamorfose.

Quais autores são fundamentais na sua vida?
Italo Calvino, Roland Barthes, Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Luis Fernando Verissimo, Guimarães Rosa.

Na introdução de Aula de leitura com Monteiro Lobato, você afirma que “escrevi este livro porque acredito, a cada minuto da minha vida, que a literatura pode salvar o mundo”. Por que esta crença na literatura?
Uma vez a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil organizou uma exposição chamada Santos Dumont leitor de Julio Verne. Fiquei impressionada com aquilo, com o poder da literatura como condutora da vida de um inventor. A boa literatura dá sentido à vida, no mínimo. Nos melhores casos, alimenta grandes ideias. O querido Bartolomeu Campos de Queiroz disse uma vez que é a imaginação que movimenta o mundo. Esse computador onde eu escrevo e esse outro de onde você me lê só existe porque alguém imaginou. E a literatura nos dá isso, esse poder de sonhar, especialmente na infância. Existe também a literatura que dói e que faz enxergar a dor do outro. Nada mais necessário do que o exercício da empatia nos dias de hoje, esses tempos de egoísmo.

Ao percorrer o Brasil em feiras, festivais, encontros com leitores, como você avalia o momento literário brasileiro do ponto de vista de mercado? É possível viver de literatura?
Para alguns autores, sim. Uns têm a sorte de viver só de vendas de livros, o melhor dos mundos. Outros conseguem cumprindo uma agenda de muitas viagens por mês, nas condições mais diversas. Mas de qualquer forma, temos um número razoável de escritores vivendo de literatura e isso é muito bom. Do ponto de vista do mercado, é um momento aquecido. Muitos eventos, muitos autores surgindo, muitos livros de sucesso vendendo bem nas livrarias do Brasil, vários editais para compras de governo por ano, concursos, prêmios literários, etc.

Você acompanha a produção literária brasileira? O que mais te chama a atenção na literatura atual?
Acompanho, claro. Como leitora e como amiga de muitos autores — a maioria que vou conhecendo pela estrada das feiras e festas literárias. Os autores sérios estão em busca da sua própria voz, isso é o que mais me impressiona. Não temos uma produção em bloco, aquela série de livros parecidos. Adriana Lisboa, Tatiana Salem Levy, Daniel Galera, Michel Laub, cada um tem seu caminho próprio, seu projeto literário muito bem fundamentado. Já na literatura infantojuvenil surgem muitos autores novos todos os dias. A maioria vem copiar o que já deu certo, o que é uma pena. Uma minoria de muita qualidade oferece uma voz original. Isso sim, me anima.

Você circula com muita desenvoltura pelas mídias digitais, com seus blogs, facebook, twitter. De que maneira o mundo digital facilita ou atrapalha a vida dos escritores?
Facilita muito porque é mais rápido encontrar pessoas. Editores, jornalistas, críticos, estão todos ali, ao alcance de um clic. Basta ser amigo virtual e a porta está aberta para ver e ser visto. Divulgar eventos pelo facebook e twitter é maravilhoso e é pelas redes sociais que os leitores chegam ao blog. Atrapalha porque toma muito tempo. E porque o risco de se expor demais é enorme. É preciso saber dosar bem quando se posta uma informação que mil pessoas vão ler. Eu confesso que gosto bastante, tenho muitos amigos que conheci pela internet. Adoro receber os recados dos leitores, especialmente as coisas engraçadíssimas que os adolescentes postam. Mas transito com muito cuidado por esse terreno virtual.

Como transformar uma ideia em boa literatura?
Com muito trabalho. No meu caso, com um planejamento intenso até encontrar a estrutura adequada ao texto. A ficção exige uma série de tomadas de decisão por parte do autor. Onde acontecerá a história? Quem são os personagens? O que eles querem? O que os impede? Vão conseguir? Em quanto tempo tudo acontecerá? Quem contará a história, um narrador onisciente? Será em primeira pessoa? Quais as verdades ou as perguntas que movem esse texto? Essas são apenas algumas das perguntas que o livro precisa responder. O que aprendi com cursos de roteiro e escrita criativa me ajudou muito a facilitar o processo. Juntando os cursos, o estudo e minha experiência, tenho promovido oficinas de construção de narrativa para tentar iluminar esse caminho entre a ideia e a literatura.

Quando você considera um livro pronto para ser publicado?
Quando o editor diz que não pode mais esperar pela minha última revisão. Por mim, nunca está pronto, nunca está bom, sempre pode melhorar.

Qual a importância dos prêmios literários para os autores? E qual a importância no seu caso específico?
Prêmios conferem uma visibilidade imensa para o livro e o autor. Para o público leitor, é uma legitimação do trabalho, um atestado de qualidade. O Jabuti foi o meu primeiro prêmio nacional e o salto da minha posição no mercado foi estrondoso. Muitas portas se abriram, muitos convites, muito reconhecimento. Tudo fica mais fácil depois quando o autor tem um Jabuti no currículo. Na vida real, ao menos pra mim, não muda muita coisa. Continuo batalhando muito, lutando no dia a dia para seguir escrevendo, estudando, pensando meus projetos, correndo muito para dar palestras, fechar as contas no fim do mês. Valorizo muito os prêmios que já recebi, me fizeram feliz e espero que venham mais. Porém, eles não mudam quem eu sou.

Por que manter um blog de receitas gastronômicas?
Por prazer. Adoro cozinhar, pesquisar receitas, conhecer ingredientes novos, reproduzir em casa as comidas que aprendo nas viagens. Minhas malas voltam cheias de ingredientes e utensílios. Faço comida todos os dias para minha família e é nesse momento que surgem ótimas ideias para a literatura. De vez em quando eu penso que, um dia, pode surgir um projeto literário daí, mas nada concreto ainda. Por enquanto, é prazer e distração.



Rogério Pereira é jornalista e escritor. Autor do romance Na escuridão, amanhã (Cosac Naify). Tem contos publicados no Brasil, França, Alemanha, Finlândia e México. Desde 2011, é diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Em 2000, fundou o Rascunho. Vive em Campo Largo (PR).

Entrevista publicada originalmente no Jornal Rascunho em maio d 2014


Socorro Acioli
http://socorroacioli.wordpress.com/

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