segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A poesia ácida dos quadrinhos

A poesia ácida dos quadrinhos
Por Luciano Cunha

A primeira coisa que chama atenção no quadrinho de André Ducci é a corajosa escolha da paleta de cores, toda ela praticamente duocromática.
Neste mundo 3D em que vivemos, decidir usar uma narrativa assim, minimalista, com pouquíssimas cores, já é uma coisa a se chamar a atenção. Mas quando você olha os detalhes do traço, a fluidez das histórias, a leveza e poesia ácida do quadrinho de Ducci... você vê que tudo faz parte de um plano.E o objetivo é esse: te surpreender e te agarrar com um quadrinho único.

Vamos lá, começar do começo: gosto de pedir ao autor que me apresente a sua obra, acho que fica mais orgânico. Me conta como você começou a fazer quadrinhos, o que te influenciou, o que você lia e costuma ler agora...
Legal, para começar posso dizer que desenho deste sempre mas o interesse por fazer HQs surgiu na adolescência com o boom das graphic novels. Aquele lance todo de Alan Moore, Vertigo, Dave Mckean. Sempre gostei contar histórias, de cinema e por desenhar as HQs foram um caminho natural. Minhas primeiras influências mais marcantes foram na parte gráfica Sergio Toppi e Mike Mignola. Hoje em dia procuro mais por obras autorais e experimentais como Astérios Polip, autores como Chris ware e Fábio Zimbres. Trabalhos que li recentemente e que me empolgaram são Isaac o pirata, O Gosto do Cloro e os trabalhos mais recentes do Marcelo Quintanilha, do Marcelo D' Salete e do DW.



De onde veio, como surgiu essa predileção por construir quadrinhos somente com só duas ou três cores?
Em parte por minha formação em gravura, também por meu gosto por ilustrações antigas e minimalistas. Acho interessante e desafiador as limitações que o recurso impõe.

Você também tem um traço muito característico, diferente. Você tem alguma influência direta de algum artista neste ponto?
Não saberia indicar um nome específico, fui desenvolvendo essa linguagem com o tempo misturando tudo o que gosto. Mas dois nomes que posso cintar entre tantos é o de Charley Harper e Jon Klassen.



A pluralidade de temas, seria também é uma marca sua?
Não saberia dizer, me parece algo de nossa geração. Um lance Pós-Tarantino de juntar tudo e ver no que dá.

Quanto tempo você leva, em média, pra fazer suas hqs?
Creio que uma média de dois dias por página.



Como foi o processo de publicar Fim do Mundo, a editora te contactou, você mostrou a ideia ou os originais para o editor? Como foi?
Eu estava publicando por conta em meu site quando a Arte & Letra demonstrou interesse. Aceitei na hora e foi um processo sem grandes surpresas afinal já havia trabalhado com eles ilustrando as capas.

Como você vê o mercado de quadrinhos hoje no Brasil?
Me parece bastante promissor. Muita gente produzindo coisas originais e de grande qualidade. Mas ainda falta público como em tudo que se refere a cultura no país. O mercado de HQs brasileiro me parece estar passando por um novo ressurgimento como já aconteceu nos anos 60 e 80. Ao contrário de outros mercado como o europeu, americano e argentino estamos sempre recomeçando do zero e com isso a construção de público que vem aumentando com as feiras como FIQ, Comic Con Experience e Gibicon.
Creio que a produção ainda está em sua maioria na mão dos independentes no entanto o interesse de boas editoras e o espaço dado em grandes livrarias tem se tornado mais constante e sólido.
Além disso me parece que coletâneas como MSP 50 tem ajudado bastante a difundir a variedade de estilos e artistas nacionais.



Você também ilustra para várias revistas, sites, blogs, mas conseguiria viver somente de quadrinhos?
Ainda não é possível mas essa é a meta.

O seu quadrinho é bem universal, a barreira da língua não seria problema para ser publicado no exterior, principalmente no mercado europeu. É um caminho? Você tenta contatos na Europa?
É um caminho com certeza, mas nenhum contato certo por enquanto.

Qual seu próximo projeto?
Finalizar um projeto antigo intitulado Submundo de Diau. Gostaria de publica-lo até 2017.

André Ducci por Daniel Caron

André Ducci é quadrinista curitibando, formado em Gravura, conhecido pelo projeto Anatomista que relaciona anatomia científica e artes gráficas. Começou ilustrando para a marca de skate Drop Dead e já fez parte de projetos como Candyland, tendo seu trabalho publicado em várias revistas como Simples, Velotrol, Entropia, Boca, Aargh!!! da República Tcheca e Stripburger da Eslovênia, além da coletânea MSP+50 em 2010 e Fierro Brasil em 2012. Participou também das coletâneas Cidade Sorriso dos Mortos - 2013 , Entre 4 Linhas- 2014 e Vigor Mortis 2, também de 2014. Ilustrou o livro Guia de Ruas sem Saída de Joca Reiners Terron, lançado em 2012, e tem várias HQs publicadas em seu site. Consultem o site do autor no link : http://andreducci.art.br/final/


Luciano Cunha é carioca, tem 42 anos e desenha desde que se conhece por gente. Se primeiro emprego, aos 16 anos, foi desenhando a revistinha do Menino Maluquinho, com Ziraldo. Depois ilustrou para várias revistas e dirigiu arte para vários jornais diários no Rio de Janeiro, tendo trabalhado também em diversas agências de publicidade. Hoje é designer na gerência de comunicação de uma multinacional. Voltou a desenhar quadrinhos em 2010, quando decidiu desengavetar O Doutrinador. Consultem a resenha de Luciano Cunha no link : http://etudeslusophonesparis4.blogspot.com.br/2015/05/la-bd-au-bresil-quadrinhos-no-brasil.html


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