sexta-feira, 31 de julho de 2015

Será que eu tenho voz?

Carac-teres
Maíra Garcia

Não precisamos nos ver pela primeira vez 
e nem esperar o tempo certo de dormir.
Não teremos o jantar para esquecer,
quem somos,
de vez em quando.
Sentir o cheiro da roupa um do outro na ausência.
Não precisamos segurar as mãos e tocar as linhas
que bordariam o nosso destino.
Sentir se a pele da boca
desliza direito com a língua,
nos nossos caminhos.
Não precisamos juntar os trapos,
fazer planos.
Pensar se teremos filhos.
Não precisamos conversar sério.
Temer o silêncio.
Visitar hospitais.
Sentar junto ao leito.
Temer o adultério.
Não precisamos segurar o tempo,
pela ausência do belo
e o clarear dos pelos.
Eu não queria estragar a surpresa,
ficaremos a sós até o fim do verso.
Ninguém vai virar do avesso.
Sem precisar nos conhecer,
sem pressa,
nem precisão de qualquer gesto.
Nossas palavras já se casaram,
se encontraram antes de nós,
e vão nos separar para
encerrarem juntas
este texto.


Vozes
Maíra Garcia


Será que eu tenho voz,
ou tenho prisão?
Será que eu tenho casa,
ou tenho calçada?
Será que eu tenho amor,
ou tenho coração?
Me disseram que eu tenho nada.
Se na casa tem porrada,
na rua tem porrada.
Se tem dinheiro na biqueira,
lá continua a senzala,
tem escravidão.
Será que eu tenho voz,
ou tenho prisão?
Eu sou de menor, doutor.
A educação que você teve,
eu nem sabia que podia.
Eu não sei se tenho.
Educação, me disseram,
é pra quem tem um coração,
me disseram que eu não tenho.
Será que eu tenho voz?
Você que tem,
pode falar por mim?
Pra mim tem voz de prisão.



Meia saudade
Maíra Garcia


Já fiquei esperando num lugar
aonde tinha certeza que viria.
E você não veio nesse dia.

Até que de tanto querer
você veio.
Veio um meio você,
de tanto medo de mim,
que veio pela metade me ver.

Um sentado me sorria
de soslaio, enquanto
o outro corria e
segurava os braços
ao contrário.

E a vontade que eu não sei se eu tenho,
é um desejo e meio.
Desejo de abraço,
não sei se de beijo.

Parece bonito demais
e fala bonito demais.
E que está sempre certo,
quando diz que eu não sei
o que eu quero.

Quando apenas um querer eu tenho.
Abraçar você bonito demais,
pra falar bonito demais,
porque meu braço
quer descansar de esperar,
a sua outra metade chegar.
E conhecer você de verdade.
E um dia ser, saudade
inteira de saudade.


Maíra Garcia, 44 anos, é formada em Publicidade e Propaganda pela ECA USP. É redatora, poeta, cantora e compositora intuitiva. Natural de Ribeirão Pires (Grande ABC) é voluntária do Centro de Arte e Promoção Social do Grajaú, que realiza, no extremo-sul da periferia de São Paulo rodas que difundem discussões sobre filosofia, literatura, religião e artes, assim como oficinas para escrita e saraus.Tem um blog chamado Depois da Lua de Ontem, que desde 2011, reúne mais de 2000 textos, com poemas, haicais, aforismos, e contos. Um blog que tem vontade de se tornar um livro. As fotografias aqui reproduzidas são de autoria de Maira Garcia

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