segunda-feira, 27 de julho de 2015

Primeiro a saber

     
Banksy, Naked Man, Park Street (Bristol)

PRIMEIRO A SABER

                                                                    Myriam Campello

         Meu janelão dava prum baita edifício cheio de janelas amplas e eu me senti como que num palco  Era olho demais em cima deste seu criado coisa pra endoidecer até um santo de bondade exemplar Também quem manda pôr minha mesa de cálculo bem na frente desse exército inútil com tempo de sobra pra vasculhar a vida de um por um dos colegas de rua?
         Mas eu não me apertava  Desenvolvi um jeito similibus curantur de tratar a cobra com o próprio veneno  Parece incrível mas sempre que se olha de volta alguém que está te olhando o cara se desarma Acham que é bom olhar sem que os vejam escondidinhos bem ali na calada  Mas se se pega o sujeito em pleno pulo ele perde o interesse vira à direita esquerda vai saindo sonso da janela e se enfia no saco Uma coisa
         De certo modo sou doutor em negaceio já que fui casado há tempos com dona sinuosa pra quem a verdade e a mentira dançavam um minueto ao sol de flauta Isso bem antes da mulher fugir com outro: porque depois do fato feito é fácil a todos remontar a história milímetro a milímetro passo a passo
         Diz o ditado que o marido é o último a saber e eu digo que é o primeiro se não for um néscio Ele é quem vê quem lê quem ouve o que não deve e se tortura e vai cada vez mais sendo empalado em requintada lâmina morte de gourmet intensa ministrada aos poucos sibarita ultra-sofisticada lenta cortando de alto a baixo o que já sangra

Resistances, Marina Abramovic & Ulay Rest Energy, 1980.
Paris, © Adagp, Paris 2010
         E o pior é que você fica um bobo um tonto um peso um pobre dum lunático ao reclamar do que gritantemente se anuncia a seus olhos expertos E ela diz que não que nada absolutamente é impossível essa desconfiança toda tão injusta não consigo viver com quem me ronda me acusa me vigia e vai me atormentando com ideias de sua própria lavra doentia tirania CIA ia ia  E arrematava: Precisa se tratar fazer psicanálise pra ver se melhora  Assim não inventa o que existe tanto quanto o Unicórnio a Mula o Boto o Abracadabra é dose pra leão tremendo insulto à minha imagem ilibada a uma conduta prístina a um comportamento ético e sem mácula
         Isso posto continuava a fazer o que vinha fazendo daquele modo entrecerrado tênue esconso movediço onde quem pusesse o pé ali mesmo afundava Não sei como o sujeito traído não enlouquece A realidade medonha paira à sua frente como um pétreo edifício em seus pilares sólidos e tudo que ele ouve é que aquilo é miragem fruto de delírio infância problemática neurose acachapante fraqueza irreprimível  Em suma um chato de galocha
         Me lembra aquele filme em que o marido vai pirando a mulher pra ficar com o dinheiro que era dela e diminui o gás das lâmpadas e diz que não que a luz tá boa tão clara como o sol ela é que é doida A vitória final pertence a ela (se se pode falar de vitória em casos semelhantes Pois se leva no peito uma cidade arrasada em lugar daquela outrora verde e isso para sempre)
         Mas tudo tem um lado bom: ainda que amargo ainda que difícil de engolir mas bom O golpe que levei foi tão feroz que junto com a cabeça decepou de mim – eternamente – a tal mania de felicidade Fiquei livre da nostalgia secreta do perfeito desse contínuo querer reter as nuvens dessa perpétua névoa se esgarçando em outras tantas formações aladas
         Acabou-se o tempo medido pelo medo Sempre que a via longe dos meus olhos se introduzia em mim um terror vago de que ela sumisse se quebrasse derretesse na fogueira do mundo Nosso destino tinha que ser comum precisa geometria: o bom o mal acontecendo a ela tinha que ocorrer também a mim sorte simétrica simultânea repicando em uníssono paralela mesmo no desastre  Despencar no abismo podia desde que eu fosse junto Não queria ser órfão dela neste mundo vazio que só é azul pros astronautas

Pierre Malphettes, Lettre anonyme, 2003 © Pierre Malphettes
         Tudo isso acabou Reintegrado na realidade agora sei que viver é pão é queijo é óleo diesel é o que se vê sem retoques nem desejos de uma idade de ouro ora perdida e que nunca existiu  Desmonto as naus ancoradas no peito recolho suas velas O oceano demasiado grande tem espaço excessivo para os tempos presentes O relativo é um desenho singelo ao toque e ao paladar
         Hoje estou pronto perfeito não olho mais pra trás já me garanto  Mas nem sempre foi assim confesso  Há alguns anos quando ela me ligou pedindo suas cartas fiquei por um momento mudo – mais pra morto é verdade – e disse que não dava  Insistiu  Porém não havia jeito  de  eu lhe entregar um pedaço de mim ainda sangrando  Tudo que o outro faz enfia facas na ferida que luta por fechar em vão Não se propósito Apenas deixam de enxergar quem está à frente como um chão já pisado – outro é o ângulo
         E as cartas ali: retângulos de dor bem enfiados na gaveta final para que não me mordessem a toda hora todo dia  Lá longe a mulher era uma esfera sem entrada esfinge sem saída um caso verdadeiramente enigmático no qual se eu pensava me perdia  – quando o ódio deixava E este também não me servia é verdade: fazer o quê? matar estripar roer seu osso como um leão feroz ferrando o dente fácil na presa que agoniza? E depois? E era ódio? Nada mais penoso que esse escombro de amor girando no vazio como uma roda inútil enferrujada que geme pra ninguém numa praia deserta Só o tempo nos estende a mão – e tempo à beça
         Foi o que aconteceu  Vários fatos depois um belo dia a dor sumiu encontrando seu plácido lugar no rol dos prejuízos  – como a vida requer  Então pensei já posso devolver as cartas já consigo já que estou forte em paz pronto pra outra  já que ela quer tanto as famosas missivas
         Liguei e ofereci as ditas: agradeceu surpresa disse sim mas por qualquer razão misteriosa jamais veio buscar as tais antes tão necessárias tão prementes tão e tão pedidas Pergunto aos meus botões como entender mais essa Só queria tê-las porque eu também queria? Ou era medo de que num impulso eu pegasse as frases publicasse nas folhas vendesse pro padeiro exibisse aos amigos? Ou apenas medrou de ver o fim do meu amor história de balada? Até hoje não sei O ser amado é mistério por si sem fazer força pântano semeado de flores fundo fim de um poço de águas negras muito abaixo do chão Ninguém enxerga
         Junto ao meu janelão quando o trabalho deixa passo um olho vago pelo mundo lá fora E de tanto não ver me lembro algumas vezes dessas cartas-estátuas escondidas na cômoda Um pouco mais cinzentas pelo uso do tempo um tanto mais rombudas nos seus quatro cantos: quem disse o que e para quem e como? A própria memória tropeça em pernas tronchas Mas não nego o passado: o que agora é folha escurecida já foi rio rompante e ar e céu e luz – por mais que essa linguagem hoje esteja morta Fez de mim o que sou verso e reverso: o que sou e o que deixei de ser Seu lugar é sagrado na gaveta da cômoda


Myriam Campello nasceu no Rio de Janeiro. Com Cerimônia da noite, seu primeiro livro, recebeu em 1972 o Prêmio fernando Chinaglia para romance inédito. Publicou ainda Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993, editado na Alemanha em 1998), Sons e outros frutos (contos, 1998, Bolsa para Conclusão de Obra da Biblioteca Nacional em 1996), Como esquecer (romance, 2003) e Jogo de damas (romance, 2010). Em 1997, recebeu o Prêmio União Latina - Concurso Guimarães Rosa para conto inédito. Participou de diversas antologias, entre elas Os cem melhores contos brasileiros do século (2000). Seu último romance, Adeus Alexandria foi publicado em 2014 pela editora 7Letras.  “Primeiro a saber" faz parte da antologia de contos Sons e outros frutos, que ganhou a Bolsa para Conclusão de Obra de Escritores Brasileiros da Biblioteca Nacional em 1996.




         

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