quarta-feira, 1 de julho de 2015

Homenagem a Luiz Ruffato

Homenagem a Luiz Ruffato

O Blog Etudes Lusophones publica neste mês os textos dos estudantes Ranny Bernardes e Horácio Dib da Université Paris-Sorbonne ao escritor Luiz Ruffato, um dos homenageados na 2° Edição do Printemps Littéraire Brésilien de 2015.

               


Paris, 21 de março de 2015.

Caro Luiz Ruffato,

Agradeço pela lembrança de Lisboa. Confesso, porém: eu a recebi com um sorriso temeroso. Isto porque quase sempre sou esquecido ou sarcasticamente bajulado. Quase nunca me interpelam pelo título da forma enfática como você o fez. Quando abri o mimo, meu riso virou, com efeito, temor. Um temor que fora suscitado pela epígrafe. 
Que pássaro de nome esquisito esse, o dito Quetzal! Ainda mais estranha a serpente de nome semelhante. Raiz, reza, origem, lenda, divindade, penas, céu, estrela, forma, América, serpente,alma, Central, liberdade. Essas palavras juntas formaram um horizonte de perspectiva nublado. Afinal, o título me transportou à Europa, a epígrafe me leva à América dos Toltecas. Por sorte, percebi que não era a epígrafe original. A brasilidade da edição renovou minhas expectativas.
Uma epígrafe musical. Paradoxal escolha. O rock lusitano afundou meu pretenso protagonismo. “Sem me lembrar de ti eu vivo”. Sendo sincero, a constância não é o seu forte. Uma hora diz que lembra, instante seguinte insinua o contrário. Como bom leitor, entre chutes e pontapés, eu continuei.
Uma segunda epígrafe: poética! Nenhum arrependimento por ter virado a página. Nenhuma inveja do protagonista escolhido pelo eu-lírico. Sou também Brasil, apesar da distância. Naveguei no soneto de palavras portuguesas. Senti a angústia e a saudade. Senti as contradições da ausência. Mas, antes ver emergir o desespero! “Entre o chão encontrado e o chão perdido”, atravesso a nota de L.R.
Perco, uma vez mais, minha posição de interlocutor primeiro. Pensando melhor, ainda sou o interlocutor primeiro. Você é que perdeu o seu lugar. Esse L.R. não é você. Esse L.R. oferta um livro a Paulo Nogueira e a Gilmar Santana. Esse L.R. transcreve o depoimento de Sergio de Souza Sampaio. Você, você oferta o livro a mim. Você escreve o depoimento. Você recria o depoimento. Você maximiza a edição. Você cria a gravação, o lugar, o registro, a nota e o L.R. Você quer que eu pense que você não é você.
No fim, pouco importa, começo a navegar na ficção de palavras brasileiras. Ou seriam palavras mineiras? Cataguasenses melhor dizendo? Sim, as palavras precisam ser adjetivadas. Não é qualquer palavra, qualquer pontuação, qualquer respiração. As palavras têm lugar de nascença. As palavras têm sotaque. E as palavras do narrador-personagem são bem ancoradas no lugar.
O tempo é mais flutuante. Vai dum fim de semana, um Primeiro de Abril, um retorno à infância, um dia de visita ao doutor, numa ocasião qualquer. Um dia que parei de fumar. Um dia de casamento. Um dia de loucura. Um dia paternal. Um dia de decisão.  Atravessar o oceano “questão de honra provar praquela ralé”. Ri, gargalhei, tive pena, tive raiva. Porque a compaixão é uma boa forma de se redimir, mas a raiva impede a apatia.
Dos lugares comuns à banalização da fala, o contador de anedotas ridiculariza tudo, inclusive ele mesmo e sua ingenuidade hiperbólica. Espero que a dimensão crítica ultrapasse o momento da chacota coletiva. A não consciência espanta, o escárnio, todavia, amortece. Ou seria o contrário? O riso salva ou anestesia? A voz dos que não têm voz representa ou apaga?
Após essas questões penosas eu volto para a singeleza das palavras de Serginho. Ele me conta como voltou a fumar. Ele me conta, sobretudo, a mudança do ancoradouro. Ele me conta até como queria ser sepultado. A travessia às vezes causa essa melancolia, nos rudes ou nos refinados “um trem esquisito”. Quantas vezes me identifiquei com Serginho! Quantas vezes o menosprezei! Da minha recente experiência ultramarina privilegiada, vejo mais as desigualdades. Serginho também compara, se compara, se compadece, se perde. Não contive a risada. Não contive, de novo, o amargor.
Você, escritor, provocou tudo isso. Zanzei pela clandestinidade irônica das palavras. Algumas desconhecidas, mesmo que na língua materna. Agora estou “jururu”. Então paro com essa asneira de carta. Essa coisa ultrapassada, a carta. Deixo, entretanto, uma lembrancinha. Um estive em Paris e lembrei de você.

Com saudações indistintas,
        
                           Qualquer Leitor(a).
                                       R. (*)

Pequeno estudo em dó de fá-to para cordas,
algemas e luiz ruffato
Horácio Dib (*)

             A voz invisível não se dá, talvez se colha, talvez no máximo se encolha pra poder ouvir voz tão pequenina, talvez é isso que o autor faz. Talvez a voz, dessa talvez pessoa, em sua pequenez talvez insensata, insanainapta, seja, de vez em vez, talvez, a salvação de tanta voz em vão em vãos de vais e vens que vão nem ousam onde. Talvez o autor, talvez demônio ou anjo da vez, raptor da voz invisível, em sua esquizofrenia social, mantenha o grito subnutrido de um desespero, de uma verdade, dentro desses potinhos de um e noventa e nove pra por flores artificiais. Talvez as vozes invisíveis sejam enterradas em adubo, água, sol e brotem como plantas gritadoras, como leguminosas imorais no canteiro do poeta, e gritem sobre as outras vozes enterradas no solo seco do peito murcho de um mundo submundo subimundo de relações dolorosas. Talvez a flor que dessa vez nasce na terra cultivada do escritor carregue em seu caule folhas pétalas pólen o asfalto maldito cinza, monocromática realidade de enlamear olhos, que faz os dedos arritmia em papel virgem, que faz, talvez fazia, talvez fará brotar a dureza do asfalto no peito de flores das vozes que não escutam voz nenhuma. E é o escritor aquele a cravar os dentes no asfalto e mastigar sua ternura carbônica, sentir entre os dentes a pasta dos dentes da terra, engolir o cálcio dos ossos malditos em que pisam os ossos revestidos de homem, deglutir a massa insana e cinzenta incrustrada de pedras impreciosas de uma arriqueza de zero quilates. E aí, após engolido, ingerido, reprimido, afligido, é talvez aí que o talvez escritor cultive a voz invisível. É talvez aí que seja possível o impossível de um ser fantasma ser visto. Mas não ele, de fato. O dono da voz jaz lábios cortados, os olhos da voz jazem avermelhados, presos na pasta modorrenta de sujeira, caos e periferia, das cordas vocais sobram embriões. E nem outros invisíveis entenderão a voz invisível que repercute. Invisíveis não tem corpo, nem tato, de fato, Ruffato, são forças que se espalham no vibrar do vento, no impetuoso sentimento das estrelas que esfarelam. Escritor não escreve para pó de estrela, escreve para olhos cataratas pras baratas pras gravatas enlameadas pras almas cansadas cansadas cansadas desse eco inquebrável invisível. Escreve para as vozes surdas de vozes, florescidos peitos de eterna inocência. E talvez, talvez seja pra isso que tanto talvez, talvez seja pra isso que haja escritor, talvez dessa mistura de escrito e de dor, talvez nesse instante perceba o leitor que nunca ouve silêncio e talvez, que me perdoa Drummond, talvez sem clamor nasça daí um asfalto em meio à flor.



Ranny Bernardes é graduanda em Letras (Português-Francês) pela Universidade de São Paulo. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones.  

Horácio Dib é graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones





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