sábado, 4 de julho de 2015

Conceição Evaristo


Conceição Evaristo – Insubmissas lágrimas de mulheres

Belo Horizonte: Nandyala, 2011
Por Adélcio de Sousa Cruz (*)

Os mais humilhantes detalhes morrem na minha garganta,
mas nunca nas minhas lembranças.
Evaristo (2011, p. 56)

A presente resenha trata, simultaneamente, da apresentação de novos textos literários, bem como de questionamentos a respeito da representação realista em textos contemporâneos. O livro de contos Insubmissas lágrimas de mulheres (2011), de autoria da escritora afro-mineira Conceição Evaristo, será o ponto de partida dessa busca de respostas no tocante a uma possível permanência do Realismo na literatura brasileira contemporânea. A princípio, nossa leitura primeira da mais recente narrativa de Evaristo, coloca seu texto também sob o escopo do que denominamos literatura ruidosa (Cruz, 2009), já que além de tratar da questão feminina em si, apresenta aos leitores tanto a escuta quanto a fala afro-brasileira. Aspecto importante quanto a essa afiliação gira em torno da violência. É sabido que a prosa produzida por Conceição Evaristo não se exime de focalizar, a partir da perspectiva feminina e negra, tanto a temática quanto a utilização estética. Outros contos de sua autoria, como "Ana Davenga" (1998) e "Zaita esqueceu de guardar os brinquedos" (2007), surpreendem pela abordagem e estratégias de narração utilizadas no trato do tema da violência que rodeia e sitia, em inúmeras ocasiões, a condição feminina afro-brasileira. Sem delongar o encontro com as vozes que desfiam as narrativas das treze personagens todas elas nomeadas, apresento a espécie de introdução deixada pela narradora como aviso-visgo aos leitores passarinheiros:

Então, as histórias não são inventadas? Mesmo as reais, quando são contadas. Desafio alguém a relatar fielmente algo que aconteceu. Entre o acontecimento e a narração do fato, alguma coisa se perde e por isso se acrescenta. O real vivido fica comprometido. E, quando se escreve, o comprometimento (ou o não comprometimento) entre o vivido e o escrito aprofunda mais o fosso. Entretanto, afirmo que, ao registrar estas histórias, continuo no premeditado ato de traçar uma escrevivência (Evaristo, 2011).

Ao retomarmos de nossa memória as leituras obrigatórias da literatura realista-naturalista, produzida no Brasil (século XIX), deparamo-nos com narradores oniscientes numa espécie de tentativa, quase insana, do registro do "real", da busca pela "verdade" quase inconteste sobre a vida e o destino tanto da narrativa quanto de personagens. Essa proposta de diálogo com leitoras/leitores presente em Insubmissas lágrimas de mulheres (2011), desfaz o ponto de principal contato com a literatura dos oitocentos e, simultaneamente, ata-se a outro: a formação de leitoras/leitores (comprometidos ou não) com interpretações críticas do "real" via ficção. O desafio de "relatar fielmente algo que aconteceu" permanecerá nos instigando a cada página vencida, a cada surpresa na respiração intercalada por lágrimas ou silêncio, quase pausa na respiração. E todas as pessoas, ainda que em segredo, indagarão mesmo diante de espelhos encobertos por panos: tais histórias realmente aconteceram? Surgirá ainda a dúvida sobre o termo "escrevivência", apresentado já como não totalidade: "traçar uma escrevivência" (itálico nosso), que, como a África para Appiah (1997), também é "vária".

Cabe mais uma observação a respeito do texto introdutório, apresentado sob a voz que "entrevista" cada uma das personagens que nomeiam as histórias: é a possibilidade de se pensar essa poderosa recolha de testemunhos ser, ainda, uma espécie de diário de viagem. A narradora que, com sua linha, costura tantos acontecimentos, parece percorrer um rio rumo a algum relato semelhante, no que diz respeito à violência, ao "coração das trevas" dos relacionamentos amorosos da comunidade negro-feminina. Qualquer homem com cinco segundos de consciência não sairá incólume da leitura destes contos... Mesmo que esse indivíduo jamais tenha atentado contra uma mulher.
Essa conversa inicial entre narradores e leitores tem feito parte da estratégia narrativa de Machado de Assis, Lima Barreto e, mais recentemente, Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor (2006), citando apenas a seara literária afro-brasileira... Por que a importância de retomar tais autores? A literatura produzida a partir da condição diaspórica africana nas Américas, vez ou outra, atua no intuito de despertar olhares adormecidos e ouvidos nem tanto atentos às vozes dos diversos "outros/outras" que nos constituem. Ao mesmo tempo, tais escritores(as) auto-chancelam suas vozes e textos, como faz a personagem do conto homônimo, Natalina Soledad, ao criar sua segunda existência auto-nomeando-se. Aqui devemos registrar a lembrança de Ponciá Vicêncio, personagem central do primeiro romance de Evaristo, que mantinha constante incômodo em relação ao nome que lhe fora dado, sob os ecos insistentes da escravidão de africanos e afrodescendentes, sob a coroa portuguesa e o primeiro e segundo Impérios brasileiros. Seu sobrenome indicava nada além que o pertencimento econômico ao qual seus ancestrais estavam submetidos, e não aos laços de família em si... Outra personagem, a Maria do Rosário Imaculada dos Santos, vem reforçar esse incômodo quanto à "escolha" dos nomes e sobrenomes; relata que entre seus familiares havia a seguinte troça: "quem não era do santo, era do rei..." (Evaristo, 2011, p. 39).


As tramas expostas pelos tecidos narrados interconectam-se: seja pela repetição da intromissão física e/ou simbólica da violência no seio familiar, seguida de reação e narrativa, seja pela condição negra e feminina urbano-contemporânea. Esse procedimento aparentemente simples reforça nossa curiosidade sobre a veracidade ou não dos fatos, mas não no sentido de "aconteceram dessa maneira", sob o véu da pergunta "aconteceram, de alguma forma?", impelindo leitoras e leitores a buscar, seja em algum velho catálogo telefônico ou em sítios de busca na internet o nome de cada uma daquelas mulheres de fala precisa... precisa, no sentido de necessária... pois, a narradora e suas personagens que tecem todas as histórias sabem que, ao costurar o "escrito" e o "vivido", pressupõe-se aumentar o "fosso" entre o "real" e aquilo que, porventura, deixa de ser ou é narrado. Quem nunca sonhou em escolher o próprio nome ou livrar os seus da violência diária e asfixiante? Há que se considerar, dentre tantos méritos nesse tecido banhado nas águas da vida, a contra-escrita contínua da representação negra e feminina, principalmente no tocante à diáspora africana e seus desdobramentos em terras brasileiras. Pode ter sido dependurada a antiga chibata, porém, continuamos a ouvir outros estalos... seja de tapas e socos em corpos femininos, seja a diversa chibata verbal ecoando sob o peso de três síndromes: síndrome do sinhozinho; da sinhazinha; e a outra não menos visceral e/ou menos perversa, a síndrome do capitão do mato, na qual homens negros praticam atos de violência contra suas mulheres e seus filhos.
A literatura de Conceição Evaristo não se intimida na escolha de imagens, metáforas e mesmo, cada sonoridade que permita a frase trafegar pelos ouvidos leitores há sentenças que podem, e precisam, ser lidas em voz alta... A epígrafe desta resenha foi retirada propositadamente de um dos contos. Mesmo que a provocação inicial às leitoras e aos leitores tente alertar sobre a impossibilidade de narrar/contar o modo "exato" como as coisas aconteceram, esta é uma produção artística que não teme seu encontro com o real. Essa não intimidação termina por deixar aberta a porta para o diálogo com a literatura que transita pelo Realismo. O real não retorna, pois na verdade, talvez nunca nos abandone... Não caminharei mais uma linha, deixarei vocês em companhia da incômoda força inscrita em palavras: "No final da tarde, seus seios jorravam uma láctea aflição, que lhe empapava toda a veste, enquanto o pequeno faminto jazia triste, sem um choro sequer, quieto no bercinho" (Evaristo, 2011, p. 12).

Referências

APPIAH, Kwame Anthony (1997). Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto.  
CRUZ, Adélcio de Sousa (2009). Narrativas contemporâneas da violência: Fernando Bonassi, Paulo Lins e Férrez. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.  
EVARISTO, Conceição (2011). Insubmissas lágrimas de mulheres. Belo Horizonte: Nandyala.   
EVARISTO, Conceição (2007). Zaita esqueceu de guardar os brinquedos. In Cadernos Negros: contos afro-brasileiros. v. 30. São Paulo: Quilombhoje. p. 35-42.    
EVARISTO, Conceição (1998). Ana Davenga. In Cadernos Negros: os melhores contos. São Paulo: Quilombhoje. p. 31-41.

Texto originalmente publicado no número 39 da revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, disponível no site do SCIELO. 
Clique no link : Conceição Evaristo 


Evaristo Conceição en France

Conceição Evaristo, née en 1946, à Belo Horizonte, capitale de l´État de Minais Gerais, est l´une des plus importantes représentantes de la littérature afro-brésilienne. Malgré de nombreuses difficultés, elle entreprend de longues études et termine son doctorat en littérature comparée. Elle fut longtemps institutrice à Rio de Janeiro dans des écoles élémentaires publiques. Auteure d’Insubmissas lágrimas de mulheres (Les larmes insoumises des femmes) aux éditions Nandyala (Belo Horizonte, 2011), elle a contribué à de nombreuses anthologies publiées au Brésil, notamment Contos afros (Les contes afros), dirigé par Márcio Barbosa (Quilombhoje, São Paulo, groupe d´écrivains afro-brésiliens réunis depuis 1978).

Conceição Evaristo est publiée en France aux Editions Anacaona. Son premier ouvrage traduit en français, L’Histoire de Poncia a été présentée au Salon du Livre de Paris 2015 en présence de l’auteure.

Pour d’autres informations en français consultez le site des Editions Anacaona, en cliquant sur  le lien ci-dessous : EDITIONS ANACAONA


Adélcio de Sousa Cruz  é Professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade (Neia/UFMG) e do Núcleo de Estudos de Letras e Artes Performáticas (Nelap/UFMG).

Henri Lopes, Conceição Evaristo, Paloma Vidal, Leonardo Tonus, Michel Laub e Luiz Ruffato
photos@ Pauline Museux/ CNL








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