quinta-feira, 9 de julho de 2015

Años de soledad

Centro Histórico de Porto Alegre, Eurico Salis
         Años de soledad*
Tailor Diniz

1.
Lembro-me que, ao voltar à razão, liguei para o Walter, um  amigo meu, dono de uma loja de armas. E perguntei quais eram os procedimentos para comprar um revólver. Naquele mesmo dia, ele me indicou um amigo da polícia, com quem consegui um porte, na hora, e já pude voltar armado para casa.O segundo passo foi chamá-la para jantar. Queria preparar um cenário bacana, de cinema, à altura do evento.
Ela adorava comida japonesa, mas não lhe revelei o prato que ia servir. Disse apenas que pensava em preparar uma coisinha especial, eu tivera um projeto aprovado na agência e precisava comemorar. Ela achou a ideia ótima e marcamos para as 21h do dia seguinte.
Acordei cedo, fui a uma loja especializada em comida japonesa, comprei saquê, um jogo de sakazukis, um livro de receitas, óleo de gergelim, gohan, shoyu, raiz forte, hashi e algas púrpuras. E duas facas: uma para filetar e outra para fatiar...
Passei no mercado público e me abasteci de salmão, linguado, atum, camarão, manga, kani, cebolinha fresca, queijo cremoso, pepino, molho especial, tomates secos, rúcula, gengibre em conserva, caldo de peixe e arroz.
A parte da manhã reservei para estudar o livro de receitas. À tarde, fui para a cozinha e preparei tudo. Perto da hora marcada, tomei banho, me vesti, servi uma dose de uísque e pus a rodar o meu Piazzolla preferido.
E esperei que chocasse o ovo da serpente.
         Como de costume, ela chegou atrasada. Mas isso não era problema. Não seria agora que eu iria me estressar por causa de mais um atraso dela para os nossos compromissos quase matrimoniais. Quando ela entrou, recebi-a com um abraço. Era esse, aliás, o nosso costume, tivéssemos ou não nos visto naquele mesmo dia.
         — Bem — eu disse, apontando para a mesa de centro, entre almofadões coloridos. — Olha só o que nos espera.
         Ao ver posta a mesa de sushis, ela soltou um grito de espanto.
         — Nossa! Você mesmo preparou!? Imaginei que fossem aquelas divinas isquinhas de filé ao brandy...
         — Iscas de filé ao brandy é o trivial, não seria surpresa. Só de me ver prepará-las você até já decorou a receita.
         — Isso é verdade. Mas todos esses anos e você nunca me disse que sabia preparar sushis! — Ela riu e me abraçou mais uma vez. — Vou ficar mal-acostumada.
         Eu ri também, por trás da cabeça dela.
         E disse: — Por um bom motivo não há o que não se aprenda a fazer.
         Ela sentou-se sobre as almofadas.
Servi o saquê. Peguei uma pitada de sal e larguei-a nas bordas do meu sakazuki. Depois fiz o mesmo no dela. E convidei-a para um brinde: os sakazukis nas mãos, as cabeças inclinadas para a frente como num ritual, pousamos os lábios nas bordas salgadas, sorvemos o primeiro gole. E ela, com graça, manuseou seus hashis com a mão direita e se serviu.
         — Hummmm... Shozunmaki! O meu preferido!
         — E eu não sei?
         Ela mastigava com volúpia.
         — Você é dez!
         — E você é a minha cobaia.
         — Com muito prazer, quero ser sempre a tua cobaia.
         — Sempre?
         — Sim, sempre.
         — Nada é para sempre — eu disse, sem levantar o rosto.
         — Às vezes, sim.
         — Mas, às vezes, também não.
         Nossa refeição se prolongou até tarde da noite, comemos sem pressa, bebemos, começamos algumas carícias que acabaram numa transa entre as almofadas. Dançaram três garrafas de saquê, o suficiente para dormirmos ali mesmo, no meio da sala. De madrugada, me acordei com frio e fui ao quarto apanhar as cobertas. Quando voltei e a vi deitada de costas, nua; antes de soltar o edredom ao lado dela e retornar ao quarto para apanhar o revolver, fiquei um longo tempo a observar seu corpo, as pernas bem feitas, os cabelos pretos soltos ao leu sobre uma almofada, as marcas do biquíni, os ombros largos e os braços dobrados na altura da cabeça.
         — Que bela posição para morrer — eu disse, num sussurro, ao retornar à sala, o revólver na mão direita, me preparando para fazer a mira. — Lamento, meu amor. Mas tu penúltimo whisky quedará sin beber...


2.
         Há alguns anos, quando eu preparava a biografia de uma sobrevivente de um campo de concentração, tomei o hábito de caminhar pelo bairro, no fim da tarde, para ganhar fôlego, descarregar a tensão e poder, com as energias retomadas, tocar a escrita no dia seguinte. Tão grande era a tragédia da minha personagem que, numa certa altura da narrativa, eu precisava parar tudo, desligar o computador e correr à rua para respirar uma atmosfera que não fosse aquela de abismos e de tragédias na qual eu me via mergulhado todos os dias, durante um ano. Em muitos momentos, enquanto escrevia, tive vontade de mudar o fluxo da história, abrandá-la um pouco, mas não se tratava de uma ficção. As personagens eram reais, verdadeiras, e assim, apesar do desconforto e da vontade de salvá-las do horror, não lhes podia alterar o destino.
         Foi numa dessas fugidas, num dos muitos momentos em que precisei abandonar a densidade de um cenário que me oprimira, que o conheci. Eu havia feito uma caminhada longa, descompromissada, e acabava de me sentar de frente paro o lago do parque, onde alguns patos brincavam na água, apesar do frio. Ele trazia à mão uma velha mala de couro, e as ombreiras lhe sobrando acima dos braços davam a impressão de que seu velho casaco desbotado ainda estava pendurado no cabide, sem ninguém dentro para preenchê-lo. Do tom macerado do rosto, do pescoço e das mãos marcados de cicatrizes, da magreza absurda e do jeito moribundo de se mover podia-se concluir que acabava de chegar de uma guerra, da qual sobrevivera sabe-se lá por que milagre de Deus. Mal podia trocar os passos, e num certo momento cheguei a pensar que cairia antes de alcançar o banco onde eu me encontrava. Acomodou-se ao meu lado, ajeitou a velha mala entre as pernas e se virou para mim, como se tudo o que precisasse naquele momento fosse de um ouvido para lhe aliviar a dor de não ter com quem conversar.
         Tinha uns lapsos de lembranças, repetia várias vezes o mesmo trecho da história, invertia a ordem de alguns, mas outros, demonstrando um raro dom descritivo, ele relatava com a precisão de uma fotografia digital. Um intrincado quebra-cabeças que me custou tempo para ser colocado em ordem.
         Naquela noite do jantar, a primeira em que passaram juntos após ele descobrir a traição, estando de volta à sala onde ela dormia, apoiou as costas na poltrona, segurou o revólver com as duas mãos e lhe fez a mira na altura da nuca. Ficou algum tempo brincando de mirar a cabeça dela e puxar o gatilho. Por fim, numa espécie de diálogo consigo mesmo, ou como se na poltrona houvesse outra pessoa ocupando o mesmo espaço onde se encontrava, falou, a arma em punho, apontada para ela:
         — Não, querida. Assim você não vai saber por que morreu. Não quero te sonegar esse direito.
         Guardou o revólver e voltou a dormir ao lado dela. Abraçou-a por trás, os joelhos dobrados, os corpos ajustados um no outro, compartilhando a maciez e o calor do edredom que ele acabava de trazer do quarto. De manhã, foram para a cama e transaram de novo. Até que ela se levantou, estava na sua hora. Ele ficou no mesmo lugar, as costas apoiadas nos travesseiros, as mãos agarradas ao lençol sobre o peito. Quando ela abriu o chuveiro e o cantar da água ultrapassou os limites da porta fechada, ele espichou o braço, apanhou o revólver de baixo do colchão e olhou-se no espelho da parede. Enquanto ela se banhava, ele usou a própria testa ali refletida para fazer a mira e simular, infinitas vezes, que puxava o gatilho. Ora fazia apenas com a mão direita, ora segurava a arma com as duas. Fez aquilo até que o chuveiro silenciou, e ela voltou ao quarto, nua, os cabelos molhados, enxugando-se numa toalha branca.
Ele contava-me sua história e, volta e meia, apalpava a velha mala de couro. Tive a impressão de que ali procurava algo de extrema utilidade para complementar a narrativa. Em muitos momentos, pensei que fosse chorar. Mas não. Seus olhos permaneceram secos o tempo todo. Dali nada mais poderia sair além de um velho retrato em sépia a delatar a extensão de sua própria desgraça.


3.
         Ele disse:
“Aproximava-se o fim de semana, período em que passávamos sempre juntos. Às vezes eu ia para o apartamento dela, em outras ela vinha para o meu, sem um critério muito definido. Era de improviso. Aquele que saía antes do trabalho na sexta-feira telefonava para o outro avisando que havia preparado alguma coisa e o esperava para comer. Na semana posterior aos sushis, ela havia arranjado várias desculpas para não nos encontrarmos. E fui deixando, para ver até onde ela pretendia chegar. Na sexta-feira, comecei a ficar tenso, não queria que aquela situação se prolongasse mais. Saí da agência no meio da tarde, comprei algumas coisas no supermercado e telefonei a ela para dizer que a esperava para jantar. O telefone do trabalho foi atendido por outra pessoa. Ela havia saído mais cedo, me informou uma colega a quem a ligação fora transferida. Peguei o revólver do criado mudo e conferi, apenas por formalidade, se continuava carregado. Passava da meia noite quando ela me ligou. Já estava na sua cidade natal, fora preciso viajar às pressas, não havia dado tempo de me avisar. Ela sofria da chamada LER — Lesão por Esforço Repetitivo —, as dores haviam se agravado durante o dia e fora obrigada a marcar novas sessões de reabilitação para o sábado de manhã. Isso foi apenas uma confirmação do que eu já havia descoberto. Não sei como não desconfiara antes daquela história de tratamento no interior, se aqui devia haver clínicas especializadas para tal, com profissionais até mais capacitados. Naquele dia, me arrependi do fundo da alma de não ter puxado o gatilho quando ela dormia nas almofadas, depois do banquete de sushis. Mas decidi esperar. De domingo à noite ela não passava.”


4.
         Ele interrompeu a narrativa e voltou a procurar algo dentro da mala. Sem encontrar o que ali procurava, voltou a afivelá-la, resignado. Seguiu-se uma nova procura, agora nos bolsos das calças e do velho casaco de veludo cotelê, que outrora fora marrom. Olhou-me como se eu soubesse o que procurava, deu um breve sorriso de dentes amarelos e gastos, e continuou a falar, repetindo trechos já contados, intercalando outros ainda não referidos, reforçando a pronúncia sempre que lhe saltava da secura dos olhos o arrependimento por ter esperado tanto. Contou-me, a voz pausada, que após o banquete de sushis nunca mais voltou a vê-la. O telefone dela deixou de funcionar, e, no trabalho, nada sabiam informar sobre o seu paradeiro. No meio da semana, quando decidiu procurá-la no apartamento onde morava, o porteiro, um conhecido seu, com ar de espanto por ele não saber, contou que ela havia se mudado.

5.
“A partir daí, comecei uma busca insana por todos os cantos da cidade, do estado, do país. Até no exterior andei atrás dela. Na época, tínhamos muitos amigos em comum, e a eles, sem qualquer escrúpulo ou vergonha, fui pedindo ajuda na tentativa de localizá-la. Nunca interrompi minha rotina obstinada de perscrutar os vãos de mundo por onde andei, com esperança de acertar as nossas contas. Certa vez, um dos nossos antigos amigos, o Zé Teodoro, ao me encontrar perambulando pelo Parque da Redenção, disse-me que a tinha visto em Barcelona, na companhia de um encantador de serpentes, comendo paella negra numa mesa de calçada, na Rambla da Cataluña. Depois, o Pedro Morgante a teria visto comprando roupas num brechó de Covent Garden, em Londres, e algumas semanas mais tarde, ainda de acordo com o Pedro Morgante, ela e o mesmo encantador de serpentes tomavam Le Pastis com água Perrier, num bistrô de cortinas floridas às margens do Senna, em Paris. O doutor Valdirene, há mais ou menos vinte anos, encontrou-a em Madrid. Seguia solitária e com pressa, nas proximidades do museu do Prado, em direção à Gran Vía. O doutor Valdirene chegou a interpelá-la. Ouviu dela que acabara de se casar com um deputado evangélico e estava se mudando para a Itália. Ia morar próximo à Piazza Navonna. Um outro parceiro daqueles tempos, o Saúva, ainda ontem, ao me encontrar lá no Marinha do Brasil, me disse que a vira bem perto daqui. Fazia compras num free shop de Rivera, gorda, cabelos brancos e ralos, quase careca, destruída dos pés à cabeça pelas desgraças da vida pregressa. O Saúva talvez tenha dito isso com a intenção de me transmitir algum conforto. Meus amigos não entendem que a procuro não com o sórdido objetivo de retomar qualquer tipo de sentimento, nem de ódio, nem de prazer, nem de dor. Eu a procuro, mesmo, é para matá-la de uma vez por todas e assim morrer em paz, sossegado, num canto qualquer da cidade. Agora me lembro de um outro amigo, o Jeremias. Ele a teria visto, em janeiro de 1998, numa praia de Istambul, triste e solitária, enquanto a tarde, também triste e solitária, morria, cintilante, sobre o azul-turquesa do estreito de Bósforo. E ainda outra, a Princesa Leopoldina, uma mendiga que dorme lá no viaduto da Borges de Medeiros, contou-me, com o semblante grave e sério, que ela está é aqui em Porto Alegre mesmo, vive da gorda pensão de um desembargador falecido, disfarçada por incontáveis cirurgias plásticas no rosto e na infelicidade da alma. E por isso, na opinião da Princesa Leopoldina, eu nunca fui capaz de reconhecê-la, embora cruze com ela quase todos os dias aqui no Moinhos de Vento. Desconfio que alguns, de alguma forma, querem me ajudar, ocupando minha mente com informações, mesmo imprecisas, mas capazes de me dar algum alento e alguma esperança. Outros, no entanto, estão mesmo é me tomando por louco e tirando humor da minha tragédia. Mas esses, enfim, esses eu deixo na mão de Deus, que saberá o destino mais apropriado a lhes dar no dia do Juízo Final.”
         De súbito, ele se levantou e estendeu-me a mão para se despedir, com jeito de atrasado para algum compromisso importante.
         E perguntou: — O senhor vem sempre ao Parcão?
         Respondi que sim.
         Ele ficou de frente para mim, e não pude impedir que me olhasse de forma direta, algo que tentei evitar desde o início da nossa conversa.
         — O senhor, por acaso, nunca a viu passar por aqui?
         — Não. Infelizmente, não.
         Ele ainda me olhou mais um pouco, não sei se decepcionado com a minha disposição de não lhe mentir, depois baixou os olhos para o chão.
         — Lá se vão mais de trinta anos, meu amigo — disse, com dificuldade para soltar a voz, erguendo a velha mala. — Enquanto isso, eu ando por aí, desse jeito.
         E saiu, rastejando e decomposto, mal podendo trocar os passos, em direção ao trânsito pesado de início de noite da Avenida Goethe.

Centro Histórico de Porto Alegre, Eurico Salis



*Música de Astor Piazzolla

Años de soledad, para ouvir durante ou depois da leitura:

Tailor Diniz é escritor e roteirista, tem 14 livros publicados, entre eles A superfície da sombra, que foi tema de mesa, com participação do autor, na Primeira Semana Brasil, na Universidade Sorbonne, Paris. Adaptado para o cinema, tem estreia prevista para 2016. A superfície da sombra é publicado no Brasil pela Editora Grua.
Leia o conto inédito « Um mistério na Rue de la Huchette » publicado no Blog pelo link :



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