quarta-feira, 22 de julho de 2015

A prótese peniana


Sandra Lecoq, Penis Carpet 4 "Yellow" , 2001-2002
A prótese peniana

Ângela Dutra de Menezes (*)


Conto a história com todo respeito, li-a num jornal de Brasília.

Um antigo policial legislativo – será segurança? -, com 73 anos e aposentadoria de 23 mil Reais mensais, teve câncer de próstata. Após a cirurgia, passou a sofrer de disfunção erétil, nome chique de impotência. Afirmam os psicólogos que impotência é uma insolúvel tragédia masculina. Ou é resolvida ou os machos morrem. Mas, nem tudo está perdido, a Ciência oferece uma solução para estes sofredores: o implante de prótese peniana.

Claro, com o desenvolvimento tecnológico, as próteses estão cada vez mais supimpas. Mas custam caro. Absurdamente caro. A prótese desejada pelo ex-funcionário, que reclama o seu direito na Justiça, custa quase 50 mil Reais. Sem contar a cirurgia, internação, adaptação e etc. e tal. Com 73 anos, o sequelado poderia aceitar a prótese mais simplinha oferecida pelo Seguro Saúde do Senado, que garante o prazer de muita gente boa. Afinal, não é tão ruim assim. Não sei, dizem, deste assunto, eu não entendo.

Os advogados que defendem os interesses do Senado juram que o pênis artificial mais antigo e mais barato desempenha perfeitamente as suas funções: lava, passa, arruma, engoma e a única desvantagem é ser manipulado manualmente. Vira para cima, vira para baixo, dá a sensação de eterno priapismo, mas tudo bem. Desde que o recauchutado não entre num ônibus superlotado e se encoste a alguma senhora ou senhorita... Enfim, qual situação não tem vantagens e desvantagens?

O problema é que o nosso amiguinho impotente não é só teimoso, é vaidoso também. Segundo o seu advogado, o cliente faz questão de mudernidade porque o tal do aparato caríssimo, além de aparentar três volumes diferentes, de acordo com o gosto do freguês, é pré-conectado – gente, que pênis chique, pré-conectado a quê? Será um pênis pensante? – e inflado manualmente. Ou seja, o recuperado pode usar roupas apertadinhas, fazer a sua corridinha em paz, dançar de rostinho colado como se usava no tempo dele (dele, o paciente, não do pênis). Além de, quando a situação exigir, o ex-impotente poder bombear ar até alcançar o volume desejado.  Tudo ao mesmo tempo, agora. Melhor que o original, vamos combinar.

Apesar de já ter recebido cinco negativas à sua pretensão (duas do Seguro Saúde do Senado e três da Justiça comum), a vítima não desiste. Pessoalmente, acho que ele está perdendo um tempo precioso enquanto rola este pode-não-pode. Afinal, a expectativa de vida de um homem residente em Brasília é de 76,2 anos. O ex-funcionário está brincando com a sorte. Se tivesse colocado uma prótese oferecida já teria se divertido muito.

 Enfim, cada um sabe de si, talvez ele seja masoquista. O fato é que, entre idas e vindas às várias instâncias da Justiça, o caso chegou à Advocacia Geral da União, com lances de dramaticidade. Na exposição aos senhores juízes, o advogado lamenta que, por falta de uso condizente, o verdadeiro pênis do cidadão esteja encolhendo. Sim, leitores, o termo pouco jurídico que ele usou foi este: en-co-lhen-do. Consta do processo: um centímetro já foi para o brejo. Mas, vem cá, também não estaria encolhendo por conta da idade? Afinal, o pretendente à finíssima traquitana já não é nenhum garotão.

Mas continua agindo como se não houvesse amanhã. Apesar de a Advocacia Geral ter lhe acenado com uma esperança: ele pagaria os custos da tão desejada prótese e a necessária cirurgia e o Senado o ressarciria de acordo com um preço estipulado pelo juiz, o cara está inflexível. Quer tudo de graça. Para alcançar seu objetivo, lançou um desafio assustador: ou o Senado assume todas as despesas de seu novo e multifuncional pênis ou ele entregará à Imprensa o nome de senadores, inclusive ex-presidentes da casa, que dependem de próteses, modernosas ou não, para ciscar por aí.  

Uauuu, o Brasil é um Circo de Cavalinhos, há sempre uma atração no picadeiro. Já estou imaginando os Ministros do Supremo Tribunal Federal atrapalhados com a legalidade deste jogo de empurra-empurra peniano – sem trocadilho, por favor.

Lamento pelo danificado em suas nobres funções masculinas. Rouba-se tanto neste país, o que custava lhe dar um acessório de vanguarda?

Só quero ver se, realmente, ele colocar a boca no trombone.



A jornalista carioca Angela Dutra de Menezes, estreou na literatura em 1995, com o bem sucedido romance Mil anos menos cinquenta, publicado no Brasil, na Espanha e em Portugal. Em 2007, o livro O português que nos pariu foi best seller em terras brasileiras e portuguesas — onde integrou por seis meses a lista dos mais vendidos do ano seguinte. É autora também de Santa Sofia (1997); O Avesso do Retrato (1998), Todos os dias da semana (2005) e A tecelã de sonhos (2008). Todos editados pelo Grupo Editorial Record.

Angela Dutra de Menezes, Susana Fuentes, Lucia Bettencourt,
 Eunice Gutman e Leonardo Tonus no Printemps Littéraire Brésilien

6 comentários:

  1. Ri muito.... como sempre, Angela!

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  2. Angela Dutra, "seria cômico, se não fosse sério"!...Para o tal homem!
    Narrativa hilariante! Muito bom!

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  3. Escrever com tanta propriedade um assunto destes, só poderia ser através de Angela Dutra de Menezes. Parabéns, vamos aguardar o desfecho desta história. Risos e Beijos.

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  4. Sua pena está sempre afiada! Adoro.

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  5. Muito divertido. Deve ser mesmo um problema crucial. E além disso, tendo em vista a idade, também urgente.

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  6. Muito divertido. Deve ser mesmo um problema crucial. E além disso, tendo em vista a idade, também urgente.

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