segunda-feira, 22 de junho de 2015

Sangue português

António Soares,No terrasse do Café des Plaires, 1925
SÓ SE VESTIA DE PRETO


Minha mãe só se vestia de preto,
Nenhuma outra cor,
Só o preto
Cobria a magreza
De seu esqueleto.

No inverno
Envolvia-se num manto de treva,
Passiva e absoluta,
Num luto sem esperança.

Desde que o  caçula se fora,
Depois de brancas horas de angústia,
O negror se instalou dentro dela
Como a morte de um sol.

Às vezes, o seu colo me parecia uma nuvem preta,
Inchada de chuva,
O seu coração era um oceano
De águas profundas
Onde ela singrava,
Impávida,
Como um navio de velas negras.

Era boa conselheira,
Carregava seu fardo preto
Com a dignidade e a renúncia
De uma noite sem lua.

Montara um cavalo
Ora branco,
Ora preto
Pelo pasto da tristeza.

Só se vestia de preto,
A minha mãe.
      


Marco Kabenda
ALMA E LAMA

Quando foi que a lama se transformou em alma?
Era tudo brejo,
Terra agitada,
Fermentada
E plástica,
Solo palpitando de bolhas,
De larvas,
De insetos,
Rabinhos com olhos de feto
E vieram o sopro,
O ar nos pulmões,
A vida pelo sangue,
Pelo fígado,
Pela medula e ossos,
Pulsando quente
Como chama.

Quando foi que a alma se transformou em lama?
Era tudo espírito,
Energia,
Fio de prata,
Palavras e gestos,
Imagens que brotavam
Do intelecto,
De uma fonte de amor
Luminosa e intacta
E vieram os desejos,
As paixões,
As trevas,
A ausência de sombra
E a alma rolou no lodo,
Vagando
Como um fantasma.

Corpo nu,
Contaminado,
Enterrado na lama,
Tumor que lateja
Coberto de lesmas,
Lêndeas
E gosmas;
De repente, as águas da chuva
Lavam o corpo
E da boca
Sai uma borboleta.

Lama e alma,
Apenas uma asa,
Uma letra.

                          
Arte urbana em Dili ( Timor-Leste)

PROFESSOR EM  TIMOR-LESTE   
                              
Bem-vindo, professor,
Às terras de Timor-Leste,
Este gigantesco crocodilo
Tranformado em ilha,
Cravado na Ásia com seu couro verde
E olhos de fogo celeste.

Bem-vindo, professor,
Há séculos
Falamos português,
Língua perfumada como o sândalo,
Também o tétum
E outros dialetos,
Mas nosso afeto
É o português.

Estranho, não é mesmo professor?
Essa arcaica lealdade ao colonialista,
Esse latim salpicado
Pelas folhas das palmeiras,
Colhido nos cestos
Com a cera das abelhas,
Mas essa língua é nossa identidade,
Nossa sede de comunicação,
Nosso labor.

Tão longe Lisboa,
Tão perto a Indonésia,
Mas nosso inconsciente está lá
Em Portugal, professor,
Não comemos o prato de lentilhas
Que os indonésios nos deram,
Não tememos o seu poder desordenado
E conquistador.

Pagamos muito caro a rebeldia, professor,
Milhares dos nossos foram separados da família,
Colocados à força em caminhões,
Assassinados,
Nossas florestas queimaram
Em ondas de napalm,
Não restou nada,
Nem uma única flor.

O senhor é do Brasil, professor,
Bem-vindo,
Veio nos ajudar,
Sei que tem espírito formador,
Junte tudo:
 Nossa  dor e poesia,
Nossos totens e utopias,
Façamos uma ponte entre nós,
Em português.

Poemas da Antologia Sangue Português (São Paulo: Arte&Ciência, 2013)


RAQUEL NAVEIRA nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 23 de setembro de 1957. É escritora, formada em Direito e em Letras, professora universitária aposentada pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo e Doutora em Língua e Literatura Francesas pela Universidade de Nancy, França. Apresentadora do programa literário “Prosa e Verso” pela TV UCDB (2000-2006) e do “Flores e Livros” pela UP TV e pela ORKUT TV. Escreveu vários livros de poemas, entre eles Abadia (Rio de Janeiro: Imago, 1996) e Casa de Tecla (São Paulo: Escrituras, 1999), finalistas do Prêmio Jabuti de Poesia. Membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, da Academia Cristã de Letras de São Paulo e do  PEN Clube do Brasil. Escreveu também ensaios como em Literatura e Drogas- e outros ensaios (Rio de Janeiro: Nova Razão Cultural, 2007) ; livros infantis como Pele de Jambo (Belo Horizonte: RHJ editora) e Guto e os Bichinhos (Campo Grande: Alvorada, 2012). Publicou recentemente Sangue Português: raízes, formação e lusofonia (São Paulo: Arte&Ciência, 2012) e o romance  Álbuns da Lusitânia (Campo Grande: Alvorada). Dá palestras e cursos de literatura.







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