segunda-feira, 11 de maio de 2015

Tia Marga

The family, Paula Rego, 1988
Tia Marga

Natália Borges Polesso(*)

Foi a risada do Marcos que ressoou primeiro, depois a minha, e aquela sensação de estupidez completa, a tomada dos sentidos pelo riso que apenas empurra e empurra cada vez mais o ar para fora do corpo. Eu apoiava uma das mãos no caixão, enquanto a outra tapava minha boca, minha cara, eu, tentando fingir um choro, mas ninguém compraria. Todos estavam vendo que era riso estourado já, até que o Marcos, novamente, naquele repé em que o ar volta barulhento pelo nariz ou garganta, pega na minha mão e vamos descendo até embaixo do caixão. Minha mãe é o demônio agora. Eu a suplico com os lábios uma tentativa de perdão, mas ela me torra a alma. O resto da parentada, mais os amigos, se olham confusos. Umas doze velhas enfileiradas fazem o sinal da cruz com as mãos moles em coro surdo tremelicando na fronte, no peito, nos ombros, na fronte, no peito, nos ombros e beijam os terços no final. A única a ter o semblante inabalável é a tia Marga, que no caixão parecia até uma ótima pessoa. Uma senhorinha fofa, ali no meio das flores, cercada de família e amigos, ela transcendia em paz, e nas nossas lembranças já se tornava uma tia querida.  A morte tem essa coisa de conceder às pessoas um ar de bondade. O Marcos e eu sabíamos que não. Mas não ríamos por maldade, ríamos justamente por lembrarmo-nos de como a tia era purgante. Purgante era o adjetivo que ela mais amava. Chamava todos de purgante: a filha do Mário é uma guria purgante! É purgante a sobrinha da Tônia. Velho purgante aquele José. Só sabe purgar o marido purgante da Nora. A coisa já tinha virado piada e nós a trabalhávamos em variações.
A tia Marga sempre tinha uma opinião sobre tudo e todos. Geralmente não era algo bom. O Marcos, que era gay, sabia, e a sorte dele era ter ido morar nos Estados Unidos, porque assim, ele não precisava dar as caras em festas e eventos familiares com a mesma frequência que eu precisava, por isso ele permanecia meio que imune aos comentários. Ele me falava sempre sobre a importância de saber dizer não, de se desvincular de algumas coisas sem sentir culpa, mas eu não conseguia. Eu não tinha aquele desprendimento, portanto, eu tolerava o convívio. A nossa família venerava encontros: casamentos, batizados, almoços gigantescos e indigestos em que parentes que você jamais tinha visto e, com sorte, jamais veria novamente, apareciam como coelhos desentocando por todos os lados. A tia amava os eventos mais do que todos, porque neles, ela tinha a oportunidade de cutucar um pedacinho escuro de cada um. Contudo, não poderia mais fazê-lo.
Demorou um pouco para que alguém viesse nos repreender. Acho que uns dois minutos, dois longos minutos, enquanto ríamos como porcos deitados embaixo das hastes metálicas que desciam em bonitos arabescos nos pedestais. No meio de tudo, me ocorreu que eu nunca tinha visto a parte de baixo de um caixão. Foi meu pai que me levantou pelo braço e esbravejou entre dentes e saliva. “Daniela, onde já se viu uma mulher de quarenta anos cair na gaitada no enterro da tia!”. Eu parei de rir. Não porque meu pai me repreendia, era por causa daquele som ecoando na minha cabeça: quarenta anos. Eu era, entre muitas coisas, uma mulher de quarenta anos.
Para o meu pai eu era uma filha boa, contudo sem sorte “uma lástima não ter casado de verdade”. Para minha mãe eu era uma “péssima filha, ovelha negra, além de tudo solteirona que só me envergonha”. Para a tia Marga eu era “a cancerosa sem sorte de útero seco que só deu desgosto pros pais, malcontenta, povereta”. A verdade é que eu tinha casado sim, por oito anos com a Tereza, agora estava havia dois anos sozinha. Meu pai achava que não era casamento de verdade, que era uma fase – dos 18 aos 40, baita fase. Minha mãe fingia que não sabia, que não ouvia, que não enxergava nada e sempre, sempre me perguntava quando eu ia casar, tomar rumo na vida, me obrigava a ir a encontros com filhos de amigos do trabalho e, até pouco tempo atrás, dava jantares constrangedores em que convidava os mesmo filhos de amigos do trabalho e, lá pelo meio da conversa, me oferecia como mercadoria encalhada promocional. Os rapazes, é claro, saíam correndo. Eu também não fazia questão de ser agradável e isso, mais tarde, era jogado na minha cara em forma de ataque de nervos. O pior é o dia da novena. Antes de começar, minha mãe e suas amigas da igreja sempre decidem pelo que vão rezar, porque reza genérica não é atendida, então minha mãe sempre pede por mim. Virgem Maria, traz um homem bom pra minha filha Daniela, um homem paciente que possa aguentar o gênio dela, um homem calmo e bom e rico. Eu passei a achar engraçado, coitada da Virgem com essa tarefa.  O que eu achava bem menos divertido é que minha mãe conversaria com um leproso, mas não conversaria com a Tereza.
A tia tinha adquirido essa compaixão distorcida por mim, porque um dia fomos o Marcos, a Tereza e eu visitá-la. O Marcos é o irmão que eu não tive, primos que crescem juntos e descobrem juntos como a vida funciona. Numa das raras vezes em que o Marcos estava no Brasil, resolvemos ir passar o fim de semana no interior, e minha mãe recomendou que visitássemos a tia. Nós assentimos. Tereza e Marcos foram como noivos e eu fui com um câncer fictício no útero. Como de costume, a tia nos serviu seus biscoitos conhecidos por serem duros como pau, tomamos um café morno e com o gosto dos dias estampado no aroma e então, Tereza pediu licença e foi até o banheiro, foi aí que a tia soltou a primeira. “Meio escurinha a sua noiva, Marcos.” “Sim, tia, ela é negra.” “Imagina! Não diga uma coisa dessas da moça, tão educada! Ela é morena.” E o Marcos insistiu no desagrado. “Não, tia, ela é negra.” “shhhh” E vinha a Tereza, tentando não rir do acontecido, pois tinha nos escutado do corredor. Continuamos conversando, a tia parecia muito animada. Foi a minha vez de sair. Eu saí para fumar um cigarro, mas menti que ia ver os cachorros para evitar a ladainha. “Ma quando a Daniela vai casar, é? Tão dizendo que ela é ó – e apontava com as duas mãos para os pés, fazendo um grande espaço entre elas – Quando ela vai ficar noiva? Tem que falar com ela, Marcos, que tu dá o exemplo. Daqui a pouco não pode mais ter filho e ninguém vai querer...” Aí o Marcos largou a informação. “Tia! Pelo amor de Deus, não toque nesse assunto! A Dani teve um câncer no útero!” “Um câncer? Móóó Misericórdia! Coitada.” E ele continuou. “Ela já está seca, tia, nenhum homem quer.” “Sacramento! É cancerosa, então?” O Marcos disse que a cara da tia tinha se espichado tanto naquela hora que quase se desmanchara. Eu tinha dado a volta na casa e os escutava da janela. Desperdicei duas ou três tragadas rindo do Marcos. Fumaria mais uns cinquenta cigarros lá, mas não achei justo que ficassem tanto tempo com ela. Quando foi a vez dele sair, a tia ficou muda, parecia querer me dizer alguma coisa, tinha até um tremor no olho, mas não disse nada. É claro que na mesma semana ela ligou para a minha mãe perguntando mais detalhes sobre o casamento do Marcos e sobre o meu câncer. Minha mãe logo entendeu o que ocorria, mentiu uma desculpa para encerrar a conversa e me ligou em tom de deserdância. “O que foi que vocês fizeram? São uns monstros sem coração! Eu não vou mentir pra tia de vocês!” Só que ela acabou mentindo, porque pra ela o casamento e o câncer eram melhor do que eu transar com uma mulher negra e o Marcos dar a bunda.
Foram cinco anos de mentira e a tia Marga morreu. Ninguém esperava aquilo, nem ela mesma. O tio Olímpio, irmão dela foi quem presenciou tudo. “Ela tava bem, sabe? Ainda foi tirar umas folhas da calha de manhã. Eu disse que tirava de tarde, che, mas ela não sabe esperar, né. Não sabia, che. Não acostumei.” “Mas Olímpio, ela foi tranquila, tá num lugar melhor, tenho certeza.”, disse o meu pai. “Che, foi tranquila? A mulher fez um escarcéu antes de morrer. Derrubou prato, derrubou balde, gritou que tava morrendo e a pia tava cheia de carne pra descongelar. Eu disse pra ela se acalmar e sentar um pouco, que devia ter sido o sol e o esforço de ter subido na casa, che, mas a mulher não me senta na cadeira e dá uns grito de pavor, fica vesga e bate com as mãos na mesa e depois no peito e cai de cara no prato de queijo.” “Credo, Olímpio, foi assim?” “Olha, eu não desejo uma morte daquelas pra ninguém, e que ninguém visse, também, o desespero. E se foi, che. Puta merda, e as carne ficaram lá na pia mesmo, quero ver o fedor da casa” “Bom, mas não te preocupa com isso, nós vamos pra lá te ajudar depois” meu pai ainda apertava meu braço, porque eu continuava tentando não rir daquilo tudo.
Na casa da tia, mais um grande encontro, umas trinta pessoas circulando entre pêsames e lembranças. O cheiro da carne tinha infetado a casa inteira, mas ninguém parecia se importar ou querer mencionar algo sobre. Era como se a tia ainda estivesse ali, fazendo comentários que deixariam esse mesmo fedor no ar: a minha solteirice, o Marcos que não parava com nenhuma mulher, o Olímpio que não tinha onde cair morto e agora tinha que morar com ela, meu pai que era frouxo demais, a Sandra que não ficava em casa pra cuidar dos filhos, por isso o marido tinha encontrado outra, o Igor que era caolho e ninguém fazia nada, por aí iria. Curioso era que ninguém mencionava nenhuma dessas coisas, e dessa forma, parecíamos estranhos. Era certo que todos sabiam de tudo, de alguma maneira, porém, o fato de silenciarmos para os problemas e as questões familiares, nos fazia parecer um bando de gente desconhecida, unido pela morte de alguém. Um mal-estar se instalou na casa, uma náusea. Talvez fosse o cheiro da carne podre, talvez fosse a força motriz da mudança e o que ela causa. Olhei meus tios, tias e primos e seus rostos desapareciam gradualmente dentro de canecas de chá, atrás da fumaça de um café quente ou de um cigarro. Apagados todos. Andei até a janela, perto de onde minha tia-avó, Otília, estava sentada. Acariciei de leve o seu braço. Estava muito abatida, pois a tia Marga e ela eram muito próximas. Me agachei ao lado da poltrona, era uma daquelas poltronas quadradas com o couro já amarelado, apoiei os dois cotovelos no braço duro do estofado e a tia Otília me olhou com a cara mais jururu do mundo. Reparei que ao redor todos sofriam pela tia. Fiquei envergonhada pelo ataque de riso horas antes. Alguma coisa precisava ser feita. Era para o bem da família, para que os encontros se revigorassem, para que outras lembranças pudessem ser construídas. Era a primeira vez que eu sentia minha família se desmembrando e que aquele não pertencimento me doía. Me inclinei para dar um beijo na tia Otília, grudei meus lábios com força na bochecha ossuda da velhinha e na volta do movimento me inclinei até seu ouvido e disse “tu sabia que o Marcos é bicha?”. Os olhos da tia se encheram de vida. Me afastei da poltrona com a clemência estampada em mim, saí para fumar. Logo a tia se levantou para pegar um chá, puxou minha mãe e umas primas para o canto do corredor. Em dez minutos, tudo voltara a ser como antes. O rosto das pessoas reconhecível os assuntos calorosos nas rodas, narizes torcidos, olhares de piedade e risos disfarçados. Tudo bem. Tudo como devia ser.




Autora do livro Coração à corda, Natalia Borges Polesso é escritora, professora e tradutora. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade pela UCS e doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, ( e na Université Paris-Sorbonne) é autora de Recortes para álbum de fotografia sem gente , obra vencedora do prêmio Açorianos 2013 na categoria contos, e também da tirinha tosca A Escritora Incompreendida, publicada apenas via facebook. Seu coração arrítmico a obrigou a tentar ser poeta.


Natalia Borges Polesso, Marilia Garcia, Gabriel Harfield  e os estudantes da Sorbonne durante a 2° edição do "Printemps littéraire brésilien"

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