sexta-feira, 29 de maio de 2015

Albertine e o desejo

Im propia de Raquel Paiewonsky
Albertine e o desejo
        

                                                                           Myriam Campello (*)

         – Apenas me limitei a rir
         – Foi o suficiente. Quem faz o que quer
         – Clichezinho antigo, esse
         – Às vezes é preciso recorrer ao estoque popular. Voz do povo, voz de hebreu
         – De Deus
         – Que seja. Não costumo ler a Bíblia. Para mim bastam-me as escrituras que eu própria desenrolo. Tome assento e sirva-se de chá
         – I hate tea. Do you have cocoa?
         – Nada de línguas vivas, por favor. Só me expresso em línguas mortas como o dalmático, o português, o nhanbiquara e o gnu. O passado é pra lá de atraente com sua fixidez de totem: se me perguntam algo em eólio respondo sem hesitação. Com um leve sotaque
         – ?
         – Porque sim. Dão-me alergia. Espirro e não paro.  Aliás, não tenho que lhe explicar tudo.  Não sou casada com você
         – !
         – Ainda bem mesmo
         – Eu não disse nada
         – Mas pensou. Como os morcegos, sou sensível, vibro e capto muito bem. Ontem, não pude fazer ouvidos de mercador para as queixas que ele me fez de seu comportamento abrupto e extemporâneo
         – Não sei por que se queixou.  Apenas ri, Albertine
         – Pode-se rir antes ou depois. Se rir durante, fodeu. Quer dizer, exatamente o contrário. Cessam as atividades e sobrepõe-se o silêncio dos humilhados.  Ou a gritaria dos ofendidos
         – Mas foi engraçado
         – Paciência, pensasse em outra coisa. Que tal contar até dez? O desejo é um juiz togado, não admite graçolas. Um indivíduo sombrio que acabou de matar a mãe. Afinal empenha-se nos caminhos da carne, o que é sempre volátil e tortuoso. Exige concentração ímpar e muito jeitinho a fim de obter seu segundo céu.  Qualquer coisa a borboleta voa
         – Seu Segundo Céu é o Grande de Espanha?
         – Você confunde tudo: aquele é Dom Segundo Ceu, que ia para cama de terno, meias e pensando em Franco. Jamais riria ao transar com alguém. Nem a fantasia te salvou?
         – Eu apenas começava a ter uma vaga idéia de possuir um corpo.  Estava ainda estava na fase dicotômica, não ingressara na 
         – ..?
         – A unívoca não chegou a aparecer, coitada  Assustou-se com o bafafá
         – Qualquer mínima distração rompe o fio do prazer. Para mim a campainha do telefone, buzinadas, a festa do vizinho e até o soluço de um bêbado na esquina desarma essa construção sobre as águas. Certa vez uma barata dançando no silêncio me arrancou da antecâmara do
         – Você tem déficit de atenção?
         – Tenho vários déficits, inclusive esse
         – E o que me diz da demora excessiva? Quando tentam por um tempo infinito e não nos fazem gozar?
         – Nem me lembre esse momento agônico. É preciso decidir se o outro é um sapo ou um príncipe, e durante a fase sapríncipe fica tudo em suspenso. O gozo é uma questão de fé.  Perdendo-se a fé, o parceiro desce pelo ralo junto com  cascas de maçã e os restos da refeição de ontem
– A mente é invadida pelas contas a pagar, as plantas que devem
ser regadas, a sede na Etiópia e a fome em Luanda.  Junto com a vontade de voar para longe da arena improdutiva  
         – Considerando-se como a questão é grave, há muito pouca literatura sobre
         – Eu diria que não há nenhuma 
         – O fato é que quando a coisa se estende e não declancha, transformo-me de uma cristã temente a Deus num muçulmano furioso pronto a se vingar da
         – Você botou o dedo no problema
         – Tenho um caderno mental, animado e a cores, do qual lanço mão nos momentos de aperto. Quando o sapríncipe periga estender-se ao próximo milênio, abro sem demora a coleção de êxtases que uma vida profícua foi amealhando – pequenas jóias Fabergé - e tento inspirar-me 
         – Com êxito?
         – Variável. O excesso de imagens às vezes me dispersa. Pulo de uma para outra qual passarinho ao alvorecer – o que perturba a imaginação, transtorna a serotonina e embaralha os canais competentes. De qualquer forma há noites galantes que empacam como mulas teimosas e às quais nem Casanova em pessoa daria jeito.  Melhor levantar e dar milho aos pombos
         – !?
         – Figurado, ora essa
         – ... ................ ..  .......... .
         – .Por que está murmurando?
         –.... .....
         – Não. Ele saiu e só volta depois do solstício, como marido de bom senso. Em suma, os obstáculos ao prazer são tantos e regulares como as listas da zebra: gestos que deviam ser cozidos e saem crus. Lentidões eternas quando se deseja a rapidez de um botão apertado. Efeitos especiais quando se espera sutilezas da China.  Um buquê matizado de incompreensões.
          – E o beijo que não dá certo?
         – Ah, esse é como o alpinista no ponto mais alto da montanha: quando cai arrasta todo o resto para o abismo. Se o primeiro passo não engata, melhor desistir da sequência 
         – E bocas com excesso de saliva?
         – Ou moles como pudim de mãe? 
         – Nem te falo das empedernidas. Que não aquiescem nem ante uma oração de São Longuinho.
         – Pior só quando beijam com os dentes. Tenho vontade de fugir ante essa barreira surgida do nada, cancela irredutível que não se ergue nem para a passagem do rei
         – Que rei? Somos uma república
         – Para você ver  
         – E as línguas imensas? Com certas pessoas tenho a impressão de ter um polvo na boca. Um octopus gordo e onipresente prestes a matar por enleio
         – Também temo bocas enfurecidas que engolem o parceiro como jibóia, deixando à mostra apenas o seu chifre
         – Seremos complicadas talvez
         – O desejo é que flui por linhas traiçoeiras. Quase nunca está onde devia mas certamente sempre onde não deve. Correndo atrás do Viagra feminino, uma industria farmacêutica tentou descobrir o que excita as mulheres e nada conseguiu. Isto é, o corpo delas molhou-se mas suas mentes permaneceram secas como se comparassem o preço dos feijões.  Impossível achar o que solta a libido dessas criaturas insondáveis 
         – Bem feito.  Quem manda serem  incompreensíveis,  malucas e
         – É como se diz em nhambiquara padrão: Inambuanhanga alentesu negarotê
         – Sábias palavras
          – Pois me lembram o chuveiro de críticas que ouvi sobre você ontem: desatenta, desagregadora, descortês e descorticada, disseram – para ficar só na letra D
         – Apenas ri, Albertine
         – Quem ri na hora H não merece o I e o J 
         –Terei outra chance ?
         – Ontem vociferavam. Mas dada a inconsistência humana, daqui a um mês cansar-se-ão das invectivas e você de novo será encarada como um fettuccine. Finja-se de esquecida e contemple o horizonte com o olhar vago Sobretudo não ria.

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Myriam Campello nasceu no Rio de Janeiro. Com Cerimônia da noite, seu primeiro livro, recebeu em 1972 o Prêmio fernando Chinaglia para romance inédito. Publicou ainda Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993, editado na Alemanha em 1998), Sons e outros frutos (contos, 1998, Bolsa para Conclusão de Obra da Biblioteca Nacional em 1996), Como esquecer (romance, 2003) e Jogo de damas (romance, 2010). Em 1997, recebeu o Prêmio União Latina - Concurso Guimarães Rosa para conto inédito. Participou de diversas antologias, entre elas Os cem melhores contos brasileiros do século (2000). Seu último romance, Adeus Alexandria foi publicado em 2014 pela editora 7Letras.                                                        
                                     














                                     



                                               

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