quinta-feira, 2 de abril de 2015

Poesia brasileira contemporânea

O Feito, Trabalho”, por Fábio Lopes, João Nakacima, Thales Lira e Thiago Fernandes
Um breve olhar sobre a poesia brasileira contemporânea

Por Maria Esther Maciel

Abordar as múltiplas vozes que se entrecruzam na poesia brasileira contemporânea é lidar com um cenário por demais movediço e difícil de ser definido. Mesmo porque o próprio termo “contemporâneo” quase sempre dá margem a dúvidas e nebulosidades conceituais. O que seria exatamente o contemporâneo? Que extensão temporal teria essa designação? É possível definir o começo do que chamamos contemporaneidade? Ou seria melhor admitir que todo marco inicial revela-se um começo arbitrário para o que não pode ser mensurado temporalmente de forma satisfatória?

Há quem circunscreva a poesia brasileira contemporânea ao conjunto da produção existente a partir da segunda metade do século 20, após o ocaso dos movimentos e projetos coletivos que nortearam a poesia moderna e de vanguarda. Outros já tendem a adotar a década de 80 como o marco inicial preciso, enquanto cresce a propensão de muita gente a circunscrever o contemporâneo apenas ao século 21, ou melhor, às suas primeiras décadas. O que evidencia uma vocação cada vez mais ostensiva do termo a se adaptar ao agora imediato. E disso, decorre, inevitavelmente, a imprecisão que o contemporâneo instaura, ao manter uma singular relação com o próprio tempo, sem deixar de alojar também todos os tempos que se entrecruzam no presente.

Tal confluência de tempos num agora imediato não deixa de instaurar um problema não menos complexo do que o que envolve a palavra “contemporâneo”, que é o das gerações que se encontram e se justapõem num determinado momento. Como lidar com esse jogo geracional? Como situar vivos e mortos, não necessariamente divididos em velhos e jovens, nesse quadro? Seria o caso de privilegiar apenas os poetas vivos e em ação, independentemente de suas idades? Ou optar apenas pelos mais jovens ou por uma faixa etária aleatória? Enfim, de que autores realmente falar? Isso só reforça a dificuldade de circunscrição dessa abrangência do contemporâneo. Resta-nos, então, tratar dele segundo nossas convicções.

Para além desse problema de ordem etária e geracional, há também que se considerar outro dado, bastante óbvio: a constatação da heterogeneidade que define o conjunto dos poetas em atividade no Brasil. Uma heterogeneidade, aliás, que não se deixa classificar facilmente, visto que são muitas as linhas de força que atravessam a poesia brasileira atual. Os poetas, mais do que nunca, estão livres para o exercício de seu ofício, podendo retomar dicções do passado, inventar outras, seguir rastros deixados pelos grupos que os precederam, adequar-se às diretrizes impostas pelo mercado, buscar linguagens estranhas, experimentar recursos tecnológicos, combinar todas essas possibilidades ou negar todas elas e procurar outras formas de dicção. Todos têm, ainda, a liberdade de optar por diferentes suportes e formas de difusão. Não apenas os livros (impressos ou eletrônicos), blogs e sites de poesia têm tido uma presença incisiva nesse cenário, como também os saraus e happenings que vêm acontecendo em várias partes do país, impulsionados sobretudo por grupos que atuam em espaços periféricos dos centros urbanos. Ou seja, os poetas brasileiros – em sintonia com uma ordem (ou desordem) global – têm tido cada vez mais uma enorme liberdade de escolher suas próprias vias criativas e seus espaços de expressão.

Vale acrescentar que outro inegável desafio para quem tenta mapear esse intrincado cenário da poesia brasileira é saber lidar com a vastidão territorial e cultural do país, com suas múltiplas paisagens literárias e muitas zonas ainda não devidamente exploradas pela crítica e pelas instâncias legitimadoras.

Posto esse contexto, creio que, ao invés de assumir a impossível tarefa de apresentar satisfatoriamente a vasta produção poética brasileira contemporânea, o mais viável aqui é fazer um pequeno recorte, uma demarcação (certamente arbitrária e subjetiva) desse quadro.


Para tanto, começo por ressaltar um viés que tem tido uma presença muito incisiva na poesia hoje e que adota como paisagem privilegiada o “rés do chão”, a vida cotidiana. Sem necessariamente poder ser chamado de realista (no sentido estrito do termo), esse é um viés que registra – seja por flashes, seja por descrições, impressões ou sensações – a vida prosaica, a hora do mundo, a banalidade de todo dia. Ou seja, apresenta a realidade como matéria-prima, mas dela extrai o que se esconde sob a visibilidade das coisas imediatas. Em certa medida, aproxima-se da poesia do contingente exercitada por Carlos Drummond de Andrade ou por Manuel Bandeira, além de apresentar algumas incidências da poética do cotidiano que atravessou o cenário poético dos anos 80 do século 20, com autores como Paulo Leminski, Ana Cristina César, Armando Freitas Filho e Francisco Alvim, entre outros. Mas, sem com isso, perder suas peculiaridades e seu frescor.

Curioso como as mulheres têm se destacado como representantes poderosas dessa poética da vida prosaica. Basta mencionarmos nomes como Ana Martins Marques, Ana Elisa Ribeiro e Alice Sant’Anna, entre outras. O que não significa, é claro, um vínculo entre esse viés e as mulheres poetas, visto que toda compartimentação dessa natureza tende tanto a simplificações quanto a generalizações. Além disso, sabemos que esse não é um território propriamente demarcado em termos de gênero, uma vez que vários poetas – como Tarso de Melo, Fabrício Marques e Moacir Amâncio, só para mencionar três – também fazem uma poesia voltada para as coisas do mundo e as trivialidades da vida. Ao que se soma o dado de que grande parte da poesia que se faz hoje no Brasil não prescinde da matéria-prima da realidade. Afinal, o exercício poético sempre manteve uma relação ambígua com o que se chama de real. Por vezes, a realidade se configura para os poetas como “coisa delicada, de se pegar com as pontas dos dedos”, para usar aqui as palavras de Paulo Henriques Brito. Em outros casos, ela pode ser o que mais pesa no poema e quase o sufoca com seu peso, ou pode ainda se configurar apenas como um ponto de partida para outros voos. Ou seja, cada um constroi uma maneira singular de transformar a realidade em poesia.

No caso da poeta mineira Ana Martins Marques, pode-se dizer que ela alia simplicidade, apuro formal e inventividade para capturar aquilo que se esconde (e se revela) nas dobras do cotidiano mais banal. Para tanto, atém-se aos detalhes palpáveis e prosaicos da vida de todo dia, com ênfase nas coisas, nos objetos – seja um espelho, um capacho, uma cortina, uma colher ou uma fruteira – deles extraindo sensações e reflexões imprevistas. A seção “Interiores”, do livro A arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011), evidencia isso de forma exemplar. Composta de 17 poemas – uns bastante concisos, outros mais longos –, a série abarca objetos e espaços próprios de uma casa. Cada poema tem um título bem referencial, como “Açucareiro”, “Relógio”, “Cômoda”, “Canteiro”, “Talheres”. Os poemas, entretanto, se desviam da referencialidade direta, deflagrando paisagens interiores, imagens, memórias, indagações íntimas e pequenas epifanias.

Já a mineira Ana Elisa Ribeiro confere ao tom coloquial de sua poesia (ressalto aqui o livro Anzol de pescar infernos, Patuá, 2014) uma ironia fina, de forma a capturar (ou pescar) o que importa da vida no aqui-agora e o que resta do vivido na memória. São poetas que, sem abdicar de um trabalho consciente com a linguagem poética, mostram, como já disse Manuel Bandeira, que “a poesia está em tudo,/ tanto nos amores, como nos chinelos”.


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Um outro viés que eu apontaria como relevante no cenário poético brasileiro dos últimos anos é o que explora as mestiçagens culturais por meio de uma linguagem também híbrida e uma escrita que desafia os limites dos gêneros literários.  Trata-se de uma poesia que resiste às classificações convencionais e tem sido praticada por autores que, de uma forma ou de outra, possuem um percurso poético mais experimental, voltado para a pesquisa e a um trabalho radical com as possibilidades inventivas da linguagem.

O repertório desse tipo de poesia no Brasil, hoje, é bastante variado. E uma de suas manifestações mais instigantes, sem dúvida, é a que incorpora elementos das culturas ameríndias e das fronteiras geográficas do país, deixando-se contaminar, também no plano da escrita, por mestiçagens linguísticas e culturais.  Dentre os poetas que se dedicam a esse exercício, Sérgio Medeiros (do Mato-Grosso) e Josely Vianna Batista (do Paraná) destacam-se como referências. Antes deles, um outro poeta já tinha  se dedicado, de forma efetiva, a esse viés: o também paranaense Wilson Bueno, morto precocemente em 2010, que deixou uma obra bastante singular nesse campo. Principalmente nos livros Manual de zoofilia (1991) e Jardim Zoológico (1999), ele compôs poemas em prosa sobre animais que, assim como os próprios textos, são híbridos e fronteiriços, com forte caráter transnacional. Trata-se de livros construídos a partir da mistura de elementos mitológicos, lendas indígenas, referências literárias e diferentes espaços linguísticos e geográficos, visto que o autor busca sua matéria prima nas fronteiras entre o Brasil e países da América Hispânica.

Quanto a Sérgio Medeiros, pode-se dizer que ele realiza um trabalho radical, no que tange à forma e à mistura de temas. Sua estranheza, inclusive, desafia quase sempre os nossos esforços de compreensão.

Um de seus livros exemplares nesse campo é Totens (Iluminuras, 2012), que apresenta uma configuração física indeterminada, por mesclar prosa e verso e se estruturar de forma fragmentada, à feição de uma partitura. Como o título sugere, a base dos textos é a imagem do totem, em que inexiste a separação entre o humano, o divino, o animal e o vegetal.

Quanto a Josely Baptista Vianna, autora de vários livros de poesia e tradutora experiente,  a heterogeneidade se dá numa linha afim, embora distinta, da poesia de Sérgio Medeiros. É o que evidencia a obra Roça barroca (Cosacnaify, 2011). Nela, a poeta reúne textos por ela traduzidos da língua guarani – são 3 cantos sagrados que narram poeticamente o mito da criação do mundo da traibo Mbyá-guarani – e poemas escritos por ela mesma, a partir de seu contato com a cultura ameríndia e das pesquisas realizadas no campo da etnografia.



Vale ressaltar que o Mbyá, dialeto do guarani que ela traduz, é composto da união de vocábulos, um  pouco na linha dos ideogramas orientais, mas intensamente vinculado ao universo linguístico indígena. Segundo a própria Josely,  essa composição do guarani  tem uma alta potencialidade poética, por incluir  palavras-montagem, ritmos icônicos, metáforas e onomatopéias. O uso dessa língua no livro, seja pela incorporação nos poemas ou pela tradução, possibilitou que à poeta inserir no português um pouco do que ela chamou de  “sussurro ancestral”da língua guarani.

Além desses autores, que cultivam um vivo interesse pelos mundos ameríndios, existem ainda os que também realizam uma poesia híbrida que se furta às amarras dos gêneros literários, como é o caso do paulista Nuno Ramos, que não apenas incorpora em seus escritos poéticos os registros narrativo e ensaístico, mas também os coloca em interface com as artes visuais contemporâneas, visto ser o poeta também um artista plástico, de amplo reconhecimento nacional e internacional.

Como se vê, não é tarefa fácil tratar da poesia brasileira contemporânea, mesmo pela via do recorte. Em cada conjunto de práticas afins, há uma miríade de nomes e poéticas particulares. Nesse mesmo campo dos diálogos com outras artes, por exemplo, outros poetas poderiam entrar no rol deste texto, como Eucanaã Ferraz, autor de uma obra primorosa que, entre outras potencialidades, dialoga com o cinema; André Vallias, com seu trabalho poético experimental que incorpora diversas linguagens e se vale, de forma original, das tecnologias digitais, e Rodrigo Garcia Lopes, que alia o legado das vanguardas à literatura “beat” e à cultura pop.

Variam, no cenário poético do presente, as concepções do que seja poesia. Coloquialismos, retomadas da tradição lírica, experimentalismos, experiências neobarrocas, diálogos multidisciplinares, intervenções performáticas e cibernéticas, mestiçagens de gêneros, línguas e culturas, tudo isso incide no horizonte poético da atualidade. Daí que à crítica empenhada em analisar a poesia contemporânea convenha, cada vez mais, o recorte, a demarcação de territórios.

O que se pode concluir disso, mesmo que de forma ainda precária, é que no Brasil, hoje, a poesia se afirma explicitamente como um universo vivo, em estado permanente de movimento.

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 Artigo escrito para edição especial da Revista Pessoa – Salão do Livro de Paris 2015. Para maiores informações sobre a edição especial ou sua aquisição contacte-nos pelo email do Blog : etudeslusophonespairs4@gmail.com

Texto publicado inicialmente na Revista Pessoa :





Maria Esther Maciel nasceu em Patos de Minas (MG) e vive em Belo Horizonte. É professora de literatura da Universidade Federal de Minas Gerais. Publicou, entre, outros, os livros: Triz (poesia, 1999); A memória das coisas (ensaios, 2004, finalista do Prêmio Jabuti); O livro de Zenóbia (romance, 2004); O livro dos nomes (2008, romance, finalista de vários prêmios literários, como Jabuti, Portugal Telecom e São Paulo), e As ironias da ordem (ensaios, 2010). É também colunista semanal do caderno de cultura do jornal Estado de Minas.

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